6.2.18

E O PAPAGAIO NÃO QUERIA FALAR

Por A. M. Galopim de Carvalho
A entrevista que o General Ramalho Eanes concedeu, no último Sábado, ao Expresso, trouxe-me ao presente a crónica que escrevi no meu livro “Fora de Portas, Memórias e Reflexões”, Âncora Editora, 2008 
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“Eu não conhecia pessoalmente o então major António Ramalho Eanes, mas conhecia as suas qualidades humanas através de uma familiar sua e minha amiga pessoal. Acompanhei, como todos os portugueses, a sua participação como militar do Movimento dos Capitães, no pós-25 de Abril, e a sua campanha vitoriosa à Presidência da República. Apreciei o seu honroso e exemplar mandato e rendi-me à sua figura como estadista de grande competência e rigor e à sua seriedade impoluta. As suas capacidades como operacional experiente e eficaz, em situações de extrema gravidade, revelaram-se-me na longa noite do grande incêndio da Faculdade de Ciências de Lisboa, então sediada no nobre edifício da antiga Escola Politécnica.
Como homem entrou-me definitivamente no coração, já ele deixara o Palácio de Belém, quando da sua participação no programa “Parabéns”, do Herman José, que a RTP apresentava regularmente nos serões de Domingo. Foi quando o General contou a história de um papagaio ocorrida ao tempo em que ocupava o topo de hierarquia do Estado. Com a devida autorização do seu ilustre protagonista e na impossibilidade de transcrever, com o rigor da crónica, esse singular e divertido episódio, pareceu-me desejável evocá-lo no essencial, recorrendo à liberdade que a ficção consente.
A cena passa-se na rua, mais precisamente no passeio junto ao muro do jardim da residência do casal Eanes. Lá dentro, o General tratava das suas roseiras. Dois rapazes, entre os 10 e os 12 anos, acabados de sair da escola e a caminho de casa, param e um deles diz para o outro:
— O Presidente tem ali um papagaio que fala. A gente chama-o e ele responde. Queres ouvir?
— Ó louro! Ó louro! – Gritou, e a ave, nada. Sem obter resposta, o rapaz insistia.
— Ó louro! Então não respondes? - E o papagaio, mudo, era como se ali não estivesse. Tantas vezes o rapaz o chamou, sem que houvesse um sinal que confirmasse a sua versão, que o outro, dispondo-se a retomar a marcha, acabou por dizer:
— Afinal o papagaio não fala. Ou, então, não há ali nenhum papagaio. Estás, mas é, a enfiar-me uma grande galga. Anda, vamos embora!
— Espera aí, pá! - Reteve-o o companheiro e, gritando mais alto, insistiu.
— Ó louro! Dá lá um ar da tua graça!
Na verdade, o papagaio falava mesmo, ou melhor papagueava uns tantos sons equiparáveis a palavras, mas, naquele momento, não estava disposto a mostrar as suas habilidades.
Foi então que o General, sentindo-se solidário com o rapaz que, do lado de fora do muro, insistia na sua versão, e não desejando vê-lo passar, injustamente, por mentiroso, interrompeu o tratamento que estava a dar à roseira, aproximou-se do muro e, com a voz mais “papagaia” de que era capaz:
— Olá! - Respondeu, sonoro.
Ganhando ânimo, o rapaz insistia:
— Ó louro! - E o General respondia:
— Olá!...
Confirmada a sua versão, o rapaz gritou para dentro do jardim:
— Então, até logo! - e o General retribuiu, repetindo:
— Até logo.
— Vês como o sacana do pássaro é esperto. - Rematou, visivelmente recompensado”.
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Pessoalmente, só nos conhecemos há pouco mais de uma dúzia de anos. Foi a 30 de Maio de 2001, dia da minha Jubilação na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, o General Eanes e a esposa, para surpresa de muitos, deram-me a honra de assistir à minha “última aula”, no grande auditório, do Bloco C3. O ex-Presidente da República encabeçava a fila dos muitos que vieram abraçar-me.

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