31.1.17

Postais de Lagos num dia cinzento

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30.1.17

O CLIMA E A PAISAGEM NATURAL, numa “conversa” com D. Manuel l (*)

Por A. M. Galopim de Carvalho
Dias depois da interessante “conversa” que tivéramos no Centro Cultural de Belém, surgiu à minha frente o Rei Venturoso, estava eu sentado num banco do Jardim Público, frente ao Palácio de D. Manuel, em Évora.


- E o que vos traz hoje aqui, Alteza? – Perguntei.
- Como sabes, os nossos navegadores alcançaram terras em todas as latitudes, onde se lhes depararam as mais diversas paisagens. Dos campos gelados da Groenlândia ao sertão africano e aos mares de coral do Pacífico Sul, muitas são as descrições que me chegaram desses locais e das suas gentes. Hoje não há palmo de terra que não tenha sido percorrido e estudado por geógrafos.
- E também, importa dizer, por geólogos.
- Porquê uma tal diversidade de paisagens? É uma pergunta que sempre me ocorreu e que gostaria de ver respondida.
- Esse tema sempre me interessou. Acho que, em linhas muito gerais, poderei dar-vos essa satisfação. Começarei por dizer que as diferentes paisagens da Terra, em qualquer momento da sua história, foram e são sempre reflexo do enquadramento geológico das respectivas regiões e do clima que sobre elas exerce os seus efeitos,
- Vamos por partes. – solicitou D. Manuel.
- Entende-se por enquadramento geológico de uma região a natureza das rochas que lhes servem de substrato e o modo como estas se dispõem, ou seja, a sua estrutura.
- Explica-me lá, melhor, isso da estrutura, se fizeres favor.
- É muito simples. Basta citar alguns exemplos. Umas rochas são homogéneas e maciças, como o granito. Estas podem apresentar-se mais ou menos afectadas por fendas a que chamamos diaclases e que permitem que a água as penetre mais ou menos, com inevitáveis consequências no processo de alteração a que estão sujeitas. Outras rochas ocorrem estratificadas, em camadas mais ou menos paralelas entre si. Estas camadas tanto podem estar horizontais, indeformadas, como podem exibir as mais diversas deformações causadas por esforços próprios da dinâmica interna do planeta, dobrando ou fracturando as respectivas rochas.
- Acho que estou esclarecido desse pormenor. Continuemos, então.
- Faça sol ou faça chuva, faça frio ou calor, são expressões vulgares de alusão ao estado do tempo que, certamente, conheceis. E o estado do tempo é, afinal, a manifestação perceptível do clima. Informações sobre o clima chegam-nos diariamente através dos boletins meteorológicos, transmitidos pela televisão, pela rádio, pelos jornais e pela net.
- Isso é um privilégio dos dias de hoje. – comentou o monarca. - No meu tempo era a experiência de alguns que nos permitia fazer a previsão desse tipo de fenómenos. Previsão que se tornava do maior interesse na navegação. 
- De facto, as coisas estão hoje muitíssimo mais facilitadas. Actualmente a previsão meteorológica é feita com recurso a satélites e às mais sofisticadas tecnologias, incluindo modelos obtidos em computadores. Mesmo assim, são muitas as vezes em que se verifica estarem erradas 
- Eu sei isso, porque ouvi uma entrevista com o teu amigo Anthymio de Azevedo, ilustre meteorologista a que todos os colegas reconhecem grande saber nesta matéria.
- Mas continuemos. Mais precisamente, o estado do tempo, num dado lugar, é uma manifestação local de uma realidade mais vasta, à escala do nosso planeta, a que chamamos clima. Em termos muito simples mas rigorosos, entende-se por clima o conjunto de fenómenos próprios da atmosfera, na interactividade que estabelece com os oceanos e com as terras emersas, nas quais a latitude, a altitude, a interioridade e a cobertura vegetal têm papel mais visível. 
- Continua, que estou a gostar.
- Pressão atmosférica, temperatura e humidade do ar são factores de clima condicionados pela energia radiante do Sol. 
- Deixa-me fazer aqui um parêntese para te falar de Nicolau Copérnico, um polaco do meu tempo que revolucionou o saber antigo acerca do Sol e da Terra. Era crença antiga, vinda dos Gregos, que o nosso planeta estava no centro do universo. Era esta a visão proposta por Cláudio Ptolomeu, no século II, e que a Igreja adoptara e defendia, uma vez que nos valorizava, colocando-nos no centro do mundo. 
- Era a chamada Teoria Geocêntrica.
- Ora acontece que foi no tempo do meu reinado que surgiu a Teoria Heliocêntrica que, contra a verdade da Igreja, retirava essa distinção à Terra, colocando o Sol no centro do sistema solar e o nosso planeta a girar à volta dele. Foi esse matemático e astrónomo polaco o autor desta visão revolucionária que, ao contrário do que seria de esperar, não suscitou, na altura, grande reacção por parte dos doutores da Igreja.
- No imediato, não. Mas todos conhecemos a reacção da Igreja quando Galileu, quase um século depois, tomou a sua defesa e quando, mais tarde, em 1616, condenou a obra de Copérnico e a incluiu no Index da Sagrada Congregação.
- Voltemos, então, aos factores do clima.
- Estes factores são responsáveis pelas situações de tempo quente ou frio, de tempo chuvoso ou de neve ou, pelo contrário, de tempo seco. São, ainda, responsáveis pela existência de ventos, não raras vezes catastróficos, tal a intensidade que chegam a atingir. O clima condiciona a meteorização das rochas, isto é, a sua alteração superficial, determina a génese e evolução dos solos, regula a erosão e transporte dos materiais erodidos (sedimentos), bem como a ocupação vegetal e animal, incluindo a humana. 
- Muito interessante! – exclamou D. Manuel
- São as manifestações do clima que, conjugadas com a natureza geológica dos terrenos, determinam, ao fim e ao cabo, o tipo da paisagem que nos rodeia e todas as outras de todos os lugares da Terra. 
- Estou a gostar de te ouvir, Peço-te que continues.
- A geologia revelou que, ao longo dos milhares de milhões de anos do nosso planeta, a mudança das paisagens foi uma constante. Praticamente imperceptível à dimensão temporal de uma vida humana, esta mudança tem pouca expressão no tempo histórico. Não se nota diferença entre os campos e as montanhas nem entre os Invernos e os Verões do Portugal do vosso tempo e os de hoje, passados quase cinco séculos. Mas esta mudança existe, é notável e está bem testemunhada à escala do tempo geológico. - Aí está uma imagem bem elucidativa, “A paisagem é um sistema dinâmico, só aparentemente estático. É como um simples fotograma de um filme.” Escreveu o americano Don L. Eicher, em 1970. 
- Belíssima imagem essa! – Comentou o monarca.
- Imensamente lenta, uma tal mudança deve-se, por um lado, a causas internas, como são os enrugamentos, os levantamentos e os afundamentos da crosta, as migrações de continentes e o vulcanismo. Deve-se, ainda, à acção dos citados factores de clima, com destaque para os promotores da erosão no seu sentido mais amplo, isto é, envolvendo processos como alteração e desagregação das rochas aflorantes e evacuação dos materiais erodidos. Estes mesmos factores de clima condicionam, ainda, a acumulação dos sedimentos em determinados locais propícios à sedimentação.
- Com uma explicação tão simples e clara, tudo se torna evidente. – Disse el-rei, satisfeito.
- Continuando, podemos afirmar que só há erosão na Terra porque há energia solar e porque temos uma atmosfera e uma hidrosfera, duas entidades susceptíveis de captar e veicular essa energia e de a transformar no dinamismo necessário aos processos geológicos e biológicos ocorrentes à superfície. O nosso satélite, embora receba o mesmo tipo de energia, não dispõe destas duas entidades, pelo que não exibe qualquer actividade superficial, para além da resultante dos antiquíssimos impactos meteoríticos. As suas paisagens são as mesmas desde há mais de 3000 milhões de anos.
- Interessante!
- As massas de ar diferentemente aquecidas pelo calor solar dão origem à circulação atmosférica, processo que se traduz no vento. Nas baixas latitudes, nomeadamente nas regiões intertropicais, a incidência dos raios solares aproxima-se e atinge a perpendicular. O Sol está a pique, como vulgarmente se diz, e aquece o ar mais do que nas latitudes polares. Nestas, a incidência desses raios é muito oblíqua e, até, rasante, pelo que a temperatura do ar é aí muito mais baixa. Esta diferença de aquecimento faz com que o ar quente suba e o ar frio desça, sendo essa uma das causas da circulação atmosférica. 
- E há outra?
- Outra causa é a própria rotação do planeta. 
- Isso também parece lógico.
- Por outro lado, a evaporação da água à superfície dos mares, rios e lagos e a resultante da transpiração da cobertura vegetal, uma realidade bem visível nas vastas florestas equatoriais, quentes e húmidas, fornece humidade suficiente para formar nuvens que o vento transporta e descarrega como chuva ou neve, consoante as temperaturas locais. É, em grande parte, a esfericidade do globo terrestre e a consequente variação da latitude que determinam a zonalidade climática de que toda a gente tem noção, ainda que sumária e empírica. 
- Disso eu já tinha consciência.
- Mas há outros factores que interferem nessa zonalidade, entre os quais a interioridade, ou seja, a proximidade ou afastamento face ao litoral, a altitude, a existência ou não de barreiras montanhosas que impeçam a passagem de ventos húmidos e, ainda, a orientação dominante do vento nas fronteiras terra/mar.
- Estou plenamente elucidado e satisfeito. Obrigado. 
- Foi um prazer, D. Manuel.
Queria perguntar-lhe como era a Évora do seu tempo, mas o monarca, assim com chegou, desapareceu
(*) - Adaptado do meu livro “Conversas com os Reis de Portugal”, Âncora Editora, 2008

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29.1.17

Sem emenda - A culpa

Por António Barreto
O Liceu Alexandre Herculano (há uns anos mudou para Escola Secundária e agora é também Agrupamento) tem um século de vida. Mais ou menos, conforme se façam as contas. Em 1908, ainda sob a monarquia, o Liceu Central da Zona Oriental do Porto mudou de nome e passou a ser Alexandre Herculano. A construção do novo liceu iniciou-se em 1916, com a primeira pedra colocada pelo Presidente da República Bernardino Machado. O “Lyceu” foi inaugurado em 1921. O edifício está classificado. Tem hoje cerca de 900 alunos que frequentam o ensino do 7º ao 12º anos. Tal como mais uns tantos por todo o país, há vinte anos que necessita de obras. Há dez que precisa de obras urgentes. Há seis, esteve na lista das obras da Parque Escolar. Há cinco, saiu dessa lista por decisão política, falta de verba e dúvidas sobre o programa. Há um ano, a crise instalou-se definitivamente, começando a ser perigoso frequentar certas partes do edifício em períodos de mau tempo. Há uma semana que a chuva se abateu sobre a região e a cidade. Há cinco dias que chove lá dentro. Há dois dias, os responsáveis fecharam o Liceu. Ao que parece, depois das altercações habituais, 300 alunos vão ser “distribuídos” ou “transferidos”, enquanto os restantes 600 poderão retomar aulas para a semana, se as salas estiverem em condições. O Governo promete obras até 2020. A Câmara do Porto ofereceu-se para pagar uma parte das obras, mas o Governo quer mais. O assunto teve honra de “debate parlamentar”.

Esta podia ser mais uma história exemplar, um conto moral sobre os costumes e a política portuguesa. Mais importante do que a escola, os estudantes, as famílias, os professores e a decência das instituições, mais importante do que isso tudo é a atribuição de culpas e a oportunidade de acusação. O anterior governo foi culpado por não ter feito a obra. O governo antes do anterior tinha sido culpado por ter deixado as condições deteriorarem-se, por ter adiado, por não ter feito as obras. O governo que precedeu o antes do anterior tinha sido culpado por não ter reparado e por ter deixado apodrecer as infra-estruturas. O último governo foi culpado por não ter feito o que devia ter feito durante quatro anos. O actual governo, que o é há mais de um ano, é culpado por não ter já acorrido ao problema.

A elevação moral da discussão e a qualidade intelectual da polémica ficaram evidentes no debate parlamentar desta semana. Poder-se-ia discutir o modelo de administração das construções escolares, a começar pelas funções do governo central e das autarquias. Ou a capacidade de investimento público. Ou o modo de acorrer à manutenção do parque escolar. Mas não. Discutiu-se a culpa, insultaram-se quanto possível, mentiram quanto imaginável. Governo e grupos parlamentares mostraram a sua crispação com graçolas de gosto duvidoso e acusações destemperadas sem qualquer interesse, nem político nem prático. O que realmente preocupa suas excelências é a capacidade de atribuir culpas. Reais ou fictícias, é indiferente. O objectivo do debate é o de mostrar para a televisão que os “outros” são mentirosos e imbecis. A intenção é a de mostrar aos fiéis quem ganha o debate, quem insulta mais, quem berra melhor, quem sabe mais truques…

 Quem pensa que a crispação está a diminuir e que o ambiente está a ficar sereno deveria ver os debates parlamentares. E suas excelências, deputados e governantes, deveriam também ver, em cafés, a maneira como a assistência olha, comenta e muda de canal. Se julgam que todos torcem pelos seus deputados e pelo seu partido com o frenesim de quem veste a camisola, estão muito, mas mesmo muito enganados. Estes debates parlamentares, feitos para “aprofundar a democracia”, “garantir a transparência” e “aproximar a política dos cidadãos”, estão a ter o efeito exactamente oposto.

Em certos dias ganham uns. Noutros dias ganham os outros. Mas, todos os dias, perdemos nós.

DN, 29 de Janeiro de 2017

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Sem Emenda - As Minhas Fotografias

O mar zangado nas Azenhas do Mar – Foi há exactamente três anos. Durante uns dias, um dos maiores temporais das últimas décadas fez enormes estragos por esse país fora. No Litoral, em particular, houve destruição importante. Casas, cafés, restaurantes, estabelecimentos de praia, arribas, falésias, muros e molhes… Os prejuízos foram consideráveis. Num maravilhoso restaurante das Azenhas do Mar, as ondas batiam nas janelas com estrondo. O almoço acabou bem, felizmente, mas chegou a haver quem, com receio, se retirasse para as salas do fundo. A que se deve esta fúria do tempo? Será estatisticamente normal? É assim de tantos em tantos anos? São as consequências do efeito de estufa e do aquecimento global? Não houve exactamente igual, ou pior, há setenta e seis anos, o famoso “Ciclone de 1941”? Ficar-se-á também a dever ao modo como se tem tratado o domínio marítimo? De tudo um pouco? A única certeza é a da beleza do nosso Litoral!
DN, 29 de Janeiro de 2017

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26.1.17

Apresentação do livro «Ponte Europa»


Car@s Amig@s:

Convido tod@s a estarem presentes, no próximo dia 8 de fevereiro, num local bem frequentado (A25A), para a apresentação do meu livro «Ponte Europa», de acordo com o convite anexo.

Tenho a honra de ser apresentado por um ilustre homem de letras, escritor, jornalista e académico, António Valdemar.

Estarei presente às 17H00, uma hora antes do início da apresentação, para poder abraçar velhos condiscípulos do Liceu da Guarda, familiares e amigos que me derem a honra de estar presentes.

Para tod@s vão os meus agradecimentos antecipados e um abraço amigo do
Carlos Barroco Esperança

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Donald Trump e o Partido Republicano

Por C. Barroco Esperança 
O Partido Republicano, fundado por abolicionistas, partido cujo primeiro presidente foi Abraham Lincoln, dificilmente se reconheceria no trajeto iniciado há trinta anos, sob a influência da Direita Religiosa, radicalizado pela chegada do Tea Party e bem-sucedido com o extremista Donald Trump, com o apoio não repudiado da Ku Klux Klan. Aliás, Trump faz a síntese da pior herança das últimas três décadas e acrescenta o exuberante apoio ao sionismo judaico.
 Trump não é um risco, que as promessas feitas na campanha presidencial prenunciavam, é uma ameaça trágica pela obstinação em cumpri-las.
 Racista, misógino e exibicionista, falta-lhe preparação, sensatez e equilíbrio para dirigir o mais poderoso país. Com a sua vitória eleitoral tornou-se o homem mais perigoso do mundo. Com maioria republicana no Congresso (Câmara dos Deputados + Senado) e no Supremo Tribunal (Suprema Corte), cujos juízes são nomeados pelo PR e confirmados pelo Senado), Trump é o mais poderoso dos Presidentes dos EUA e do Mundo.
 Ao fazer da China, o seu maior credor, o inimigo principal, da Palestina um quintal de Israel e do Mundo um espaço de negócios, Trump pode fazer com que a crise de 2008 pareça um incidente perante a previsível catástrofe.
O direito internacional, como sucede com os aprendizes de ditador, é apenas um ligeiro obstáculo à vontade de um narcisista sem ética, cultura e formação política, indiferente ao aquecimento global, ao drama dos refugiados, à pobreza e à saúde dos desvalidos.
 Os 8 homens mais ricos do mundo, 6 americanos, 1 espanhol e 1 mexicano, detêm mais riqueza do que a metade mais pobre da Humanidade. Com Trump, tendem a reduzir-se.
 Por trás de Trump há uma redefinição geoestratégica. A sua retórica podem ser a cortina de fumo para a real política externa dos falcões que o apoiam e de interesses sectoriais americanos, mas as circunstâncias e o homem não podem ser ignorados.
 A União Europeia, avessa à integração económica, social e política, conseguiu tornar-se anã no xadrez mundial, apesar de ter maior PIB e mais população do que os EUA. Está abandonada à desintegração e redefinição de fronteiras.
 O ar que se respira lembra o dos ventos que sopraram antes da II Guerra Mundial.

Ponte Europa / Sorumbático

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23.1.17

Sem emenda - Um governo alterno

Por António Barreto
É a mais persistente tentação do PS: governar sozinho, mas alternar políticas, conforme as necessidades e os interesses, fazendo aprovar umas leis com os comunistas e outras com a direita. É um sonho adolescente, mas um sonho perene. Desde sempre o PS se convenceu de que era o centro de gravidade da democracia portuguesa, o partido do regime ou o partido charneira, designações que fizeram história. Foi por causa desse sonho que os socialistas inventaram a moção de censura construtiva, uma bizantinice jurídica que obriga a que só possa derrubar o governo quem tenha uma maioria pronta. Foi por causa desse sonho que os socialistas perderam vários governos e momentos históricos. Estamos a chegar lentamente a uma fase parecida. Enquanto o PS puder contar com a extrema-esquerda, vai governando. O pior é que a extrema-esquerda também já percebeu. E, depois de ser muleta, não está pronta a suicidar-se. Foi por causa deste estilo de governo, com a mão esquerda de manhã e a direita à tarde, que os governos socialistas de Soares, de Guterres e de Sócrates caíram em seu tempo.

O PS tem de facto várias identidades. Com dificuldade em assumir a sua própria síntese (poderia ser a social democracia de países mais desenvolvidos), sensível à mitologia revolucionária e à ilusão estatal, muda de roupa com facilidade. A liberdade, o pluralismo, o mercado e a iniciativa privada levam-no a fazer políticas consideradas de direita. A igualdade, o Estado social, o dirigismo e a empresa pública conduzem-no para a esquerda. Quando não há síntese superior, fica este verso e reverso de oportunidade. Até há pouco, a extrema-esquerda não entrava na equação do governo. Verdade. Mas recorde-se que esta exclusão tinha sido ditada pelo PS. Agora, depois de acusar os “outros” da sua autoria, o PS decidiu incluí-la na área do governo. Nada pareceu muito complicado, para um partido que já se disse “partido marxista” e condenou a social-democracia, que chegou a designar como “antecâmara do nazismo”!

O episódio recente da Taxa Única e do Salário Mínimo, de ínfimos valores e reduzida despesa, tem a importância de revelar a fraqueza dos arranjos políticos e a fragilidade das soluções encontradas. Não se trata, evidentemente, de uma questão de tempo. É indiferente que este governo dure mais seis, doze ou trinta meses. O que realmente importa é a força política e social para governar, reformar, ajudar o país a investir e preservar um Estado social decente. O que parece faltar.

Todo este assunto desempenhou o papel de revelador do “jogo” ou da “jogatana”, de que todos se acusaram reciprocamente. Verdade é que uns e outros fizeram tudo para sair bem e enfraquecer o adversário. Mas é possível medir o que podemos esperar, o que serão os próximos episódios, como vai funcionar o governo e os governos paralelos, o Parlamento e os parlamentos informais, a Administração e as instituições alternas.
É estranho que o Governo, ao subsidiar o salário mínimo, reconheça que está a obrigar os empresários a pagar mais do que podem. É ainda mais estranho que os contribuintes recompensem a ineficiência das empresas que recorrem ao salário mínimo! De qualquer maneira, o baixíssimo salário mínimo, o reduzido aumento e o insignificante subsídio mostram bem o mísero estado em que se encontra a economia portuguesa!

O governo sabe e pensa que, relativamente às possibilidades e à produtividade, o salário mínimo foi aumentado de mais. Sabe e pensa, mas foi obrigado a aceitar imposições. O governo pensa e sabe que é errado subsidiar as empresas que pagam o salário mínimo. Pensa e sabe, mas foi obrigado a aceitar exigências. Corrige um erro com outro erro.

Numa sociedade democrática, a alternativa é indispensável. A alternância também. Mas um governo alterno de si próprio não é recomendável.
DN, 22 de Janeiro de 2017


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22.1.17

Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Arcadas das casas de hóspedes do santuário de Nossa Senhora do Cabo Espichel
É um dos mais belos locais da paisagem portuguesa. Tem Igreja e santuário, casas de hóspedes e Círios de peregrinos, convento e ermida, aqueduto e casa de água, encosta e mar. E farol ali perto. A construção do conjunto começou no século XIV. O Cabo é ventoso e tem perigosíssima descida para o mar. Há descampado a toda a volta, o sol é quente no Verão, as tempestades de chuva e trovoada são inesquecíveis. Nas últimas décadas, foram mil as aventuras: ocupações, imigrantes, veraneantes, pescadores, vendedores ambulantes, peregrinações, roubos, restauros inacabados… Até Confrarias e Associações de Amigos! Projectos de recuperação e restauro? Quase uma dúzia desde os anos sessenta. Ao longo dos anos, todavia, uma força foi vencendo: a ruína e o abandono. Talvez tenha sido melhor assim, pois foi a maneira de não estragar definitivamente um sítio e um tesouro únicos no mundo! Agora, volta a falar-se! De quê? Como não podia deixar de ser, fala-se de “hotel de charme” e de privatização! Pobre país que não pode ter nada pela sua beleza, tem de ser mercadoria!
DN, 22 de Janeiro de 2017

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19.1.17

Apontamentos de Lagos (Rua Lançarote de Freitas)

A famosa buganvília, os já famosos caracóis a namorar e uma intervenção (a tiro de 'paintball') de quem quis, também, deixar marcas da sua "arte"...

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A liberdade de expressão e a pulsão censória

Por C. Barroco Esperança
Que a liberdade de expressão tenha limites, que o apelo ao crime e à violência, a calúnia e a difamação sejam criminalizadas, é hoje consensual em países democráticos, mas considerar como apelo à violência abrenunciar um morto, ou um vivo, sem o mais leve intuito de incentivar agressões, que só o vivo sofreria, é censura.
 Recordemos os facínoras que mataram os cartunistas do Charlie Hebdo. Estes tinham o direito e a coragem de publicar o que publicaram. Responsabilizar os jornalistas é punir as vítimas e desculpar os algozes. Só compra e lê o Charlie quem quer.
 Há na autocensura ou na limitação tolerada, à margem da lei, a interiorização dos tiques que a ditadura inseriu, à guisa de genes, até em democratas. Que fará nos que desprezam a liberdade e defendem que o respeitinho é muito bonito!?
 Pode dizer-se mal de Mário Soares? – Claro que pode. E de Moisés, Cristo, Maomé ou Buda? – Porque não? E de Mandela, Gandhi ou Luther King? – Claro que sim.
 Dizer que o Antigo Testamento é um manual terrorista ofende milhões de crentes, mas aceitar a sua xenofobia, o racismo, o esclavagismo, a misoginia, o incesto e outras crueldades, é defender a moral das tribos patriarcais da Idade do Bronze. Os cristãos ou não leram o A. T. ou afirmam que o que lá está escrito não significa o que escrito está.
 Há criminosos mortos, que nunca deviam ter nascido: Hitler, Estaline, Franco, Salazar, Pinochet, Mao, Pol Pot, Videla, Somoza, Tiso, Enver Hoxha e outros. Sou insensível às suscetibilidades de descendentes e sequazes órfãos. Ou execramos os pulhas ou alguém fará deles modelos. Só faltava haver punição por desrespeito a tão ruins defuntos!
 A moral, contrariamente ao que muitos pensam, não é universal e os deuses enganam-se mais do que os homens. Já se engordaram mulheres, em gaiolas, para consumo humano. Há quem abomine a música, a carne de porco, a nudez, a autodeterminação individual e o livre-pensamento. Há 152 anos, Pio IX publicou a ignóbil encíclica Quanta Cura (8/12/1864), acompanhada do famoso Syllabus errorum, o que não lhe tolheu a carreira da santidade ou impediu os seus sucessores de herdarem a infalibilidade papal e o mito da virgindade de Maria, dois dogmas tão desprezíveis como o seu antissemitismo.
 Urbano II, Estaline, Pio IX, Mao, Calvino, talibãs e cruzados não se podem comparar a democratas e humanistas.
E Deus, pode ser ofendido? Bem, se fizer prova da sua existência, o juiz deve relevar a importância do cargo, mas não deverá aceitar a queixa de um clérigo, por não ser parte nem exibir procuração.
 E se os que me leem me insultarem? Têm esse direito. O insulto não ofende o alvo, mas quem o profere. E a liberdade de expressão dos homens é superior à alegada vontade de qualquer deus.
 Ponte Europa / Sorumbático

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18.1.17

Ao contrário...

Ao contrário dos gatafunhos e dos autocolantes (uma verdadeira praga!), esta forma de expressão de arte urbana pode ser aceitável. 
Em Lagos, estes pequenos desenhos (feitos a stêncil) aparecem em locais degradados, e muitas vezes são feitos por autores famosos.

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16.1.17

Curiosidades M/F...

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"Liberdade de expressão"?

"É apenas um exercício de Liberdade de Expressão" - Foi com estas palavras que um leitor defendeu estas situações de vandalismo. E disse-o a sério, como se pôde confirmar no decorrer da discussão que se iniciou quando eu afixei a imagem de baixo na minha página Cidadania de Lagos, do Facebook.

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15.1.17

Sem emenda - A luta e a paz

Por António Barreto
É uma velha questão política, filosófica e até estética. A paz é mais importante do que a guerra, tal como a unidade e o diálogo são mais necessários do que a luta e o combate. Mas a luta e a guerra merecem mais admiração do que a paz. Há frases e momentos na nossa história cultural bem reveladores desta dualidade. Por exemplo, o dito de Brecht segundo o qual “é violento o rio que tudo arrasta consigo, mas ninguém se lembra de dizer que são violentas as margens que o apertam”. É uma espécie de emblema para a luta de classes e o combate permanente.
Aliás, são vários os hinos nacionais que, em vez de festejar a paz, o trabalho e a comunidade, glorificam o heroísmo bélico. O nosso louva a guerra e ordena cruamente que, “contra os canhões”, se deve “marchar, marchar”… É o resultado da inspiração francesa, sempre a mesma, da horrenda Marselhesa que promete que um dia “o sangue impuro” dos inimigos estrangeiros “encharque o nosso solo”!
De Mário Soares, nestes dias de homenagem, festejou-se a luta, raramente a paz. O combate, não o diálogo. É pena. Na verdade, o seu contributo para a paz foi o decisivo e o mais durável.
Os que alimentam esta obsessão pela luta garantem que com ela virá a libertação, a salvação, a dignidade e a liberdade… Mas esquecem evidentemente que a luta também dá guerra, violência, desordem, motim e morte de inocentes…

Vive-se em Portugal, há cerca de um ano, um agradável clima de paz social. Greves e perturbações diminuíram drasticamente com a tomada de posse deste governo. Foram desmobilizadas as brigadas de contestação espontânea e os grupos de arruaceiros que fizeram a vida negra a Passos Coelho e a Cavaco Silva. Eram poucos, mas eficientes. A cumplicidade das televisões, que necessitavam de material, era trunfo inestimável. O silêncio do PS, que esperava dividendos, ajudou à manutenção do clima de crispação.
Verdade seja dita que a situação económica e social, assim como a falta de perícia do governo, eram de molde a criar descontentamento. Mas já tínhamos vivido situações igualmente difíceis sem movimentos contestatários similares.
Passado pouco mais de um ano depois das eleições, a paz social é a regra. Os cuidados médicos ainda não melhoraram, mas a contestação é agora cordata. O funcionamento das escolas não é muito diferente, nem mais favorável ou eficaz, mas a controvérsia é agora afável. Os transportes públicos não conheceram uma evolução positiva, mas a perturbação no sector é inexistente. Em muitas áreas de altercação tradicional, como no universo dos precários, na Função Pública, nos portos ou nas universidades, vive-se pacificamente. Ainda bem. É melhor para o trabalho e a produção, para a qualidade de vida e a produtividade.

O Bloco tem grande influência nos meios de comunicação, na imprensa e nas televisões. E influencia os socialistas, sobretudo por razões culturais. Mas também por uma espécie de ciúme: os socialistas gostariam de parecer tão inteligentes quanto os bloquistas. Já o PCP tem indiscutível influência nos sindicatos e nas instituições públicas como os serviços de saúde e de educação, os funcionários, as magistraturas ou as polícias. Em conjunto com o PS e o governo, Bloco e PCP têm contribuído para criar um clima excepcional de paz social. O que é bom. Com ou sem crise, a paz social é sempre melhor do que a luta de classes, o conflito regional ou a guerra de religiões.
É possível que a política actual saia muito cara. Que os problemas aumentem. Que não haja condições para o investimento futuro. Que os défices piorem. Que as taxas de juro aumentem. Tudo isso é possível. Mas é melhor chegar lá em paz do que em guerra social, em piores condições para resolver os problemas. O “quanto pior, melhor” nunca teve bons efeitos. Nunca resultou. A não ser para pior.
DN, 15 de Janeiro de 2017

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Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Operárias têxteis em fabriqueta no Minho – Era assim, há uns anos, menos de dez. Sinceramente, não sei se ainda há destas “fábricas” que alimentavam outras empresas a custos baixos. Durante muito tempo, aquelas eram designadas por “fábricas de vão de escada”, sendo que a realidade era por vezes pior do que a lenda. Em condições muito deficientes de higiene, temperatura, luz e qualidade do ar, durante longos horários, estas mulheres cortavam tecidos importados deus sabe donde, da China ou do Bangladesh, e coziam as peças que outras empresas maiores ou até simples vendedores de feira compravam e revendiam. Os salários pagos eram irrisórios. Uma boa parte do têxtil português foi feita aqui. As grandes empresas, modernas e eficientes, foram as principais responsáveis pela exportação portuguesa durante décadas, mas, com elas, vieram também estes “satélites”. Se a crise dos últimos anos tivesse saneado o sector, nem tudo seriam más notícias…
DN, 15 de Janeiro de 2017

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13.1.17

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12.1.17

Estranhos valores!


O dia ainda não acabou, e já o Sorumbático bateu todos os valores anteriores de visitas diárias, com mais de 4 mil provenientes... da China!
Que explicação poderá haver para isso?

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O humor possível, há 100 anos, em plena Grande Guerra...


(Do meu blogue HUMOR ANTIGO)

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Relembrando...

Para quem gosta de curiosidades, charadas e anedotas ilustradas antigas, aqui deixo um endereço de um arquivo com mais de 1000, que eu em tempos fiz — tudo arquivado por ano de publicação:
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A Índia, o hinduísmo e a laicidade

Por C. Barroco Esperança 
As religiões só aceitam a laicidade quando minoritárias. Quando se tornam hegemónicas logo recorrem ao lugar-comum revelador de hipocrisia e desfaçatez: “Não se pode tratar de modo igual o que é diferente”.
 Hoje, a separação das Igrejas e do Estado faz parte do ethos civilizacional do Ocidente e é a conquista ameaçada na dramática hipótese da extinção das democracias, receio que se sublinha. A vigilância cívica é uma exigência ética e condição de sobrevivência. Não há democracias perpétuas. Nada é eterno.
 Volto à laicidade, a forma que os Estados têm de garantir a neutralidade e de julgarem a demência prosélita de diversas religiões, insânia exacerbada com a globalização. Várias religiões receiam que outra – e única –, se imponha a nível planetário, ou que o ateísmo, o racionalismo, o ceticismo e o agnosticismo as releguem para o baú da mitologia.
 Os Estados democráticos, que devem defender igualmente os crentes e não crentes, com a obrigação de serem neutrais e se declararem incompetentes em matérias de fé, têm vindo a afrouxar, por razões eleitorais, a defesa da laicidade, e a cumpliciarem-se com a Igreja dominante, com trágicas consequências para os crentes das religiões minoritárias.
 É por isso que a jurisprudência da Índia é uma janela de esperança que se abre no maior país hindu, onde o sistema de castas, a discriminação insana das viúvas, e a violência do nacionalismo hinduísta representam um atentado aos direitos humanos. Em 2 de janeiro, deste ano, o Supremo Tribunal da Índia proibiu “qualquer campanha política baseada na religião, raça, idioma ou casta”. “A religião não pode ter nenhum papel no processo eleitoral porque os comícios são um exercício secular, assinalou o coletivo de juízes na sentença”, aprovada por 4 dos 7 membros.
 Esta vitória da laicidade foi o triunfo secular sobre a fé, a supremacia da razão sobre as vacas sagradas e da democracia sobre as crenças. E não se diga que a religião é ferida com a exemplar jurisprudência indiana.
 Fonte: LAICISMO.ORG · FUENTE: PRENSA LATINA · 2 ENERO, 2017
 Ponte Europa / Sorumbático

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10.1.17

Sem emenda - A Democracia, a Ditadura e o Divino

por António Barreto
Após cinquenta anos de desenvolvimento, de protecção social, de paz e de liberdade, o mundo ocidental entrou em crise. Economias e sistemas políticos não acertam. As populações não acreditam. As forças centrífugas fazem sentir o seu efeito. Em quase todos os países democráticos surgem perturbações e ameaças difíceis de conter. Na maior parte desses países, é fácil encontrar o preconceito como resposta ao preconceito. Ou o nacionalismo como reacção contra a liberdade e o cosmopolitismo. Meio século de esplendoroso progresso parece ameaçado.

Estamos a viver tempos difíceis. As democracias estão a falhar. São como aqueles motores de automóvel que, aos soluços, dão sinais de que alguma coisa, gasolina, velas ou carburador, está a falhar. As democracias têm tido enormes dificuldades em lidar com a fúria capitalista e a ganância financeira. Têm revelado fraqueza em tratar com as esquerdas revolucionárias. São débeis na reacção ao nacionalismo. Têm mostrado pusilanimidade em combater os grandes grupos económicos multinacionais. Não conseguem sobrepor-se à ditadura das sondagens, da publicidade e da propaganda. Têm tendência para deixar crescer as desigualdades sociais. Perdem o sentido de Estado e rendem-se facilmente ao mercado. São frágeis perante a demagogia das esquerdas e o populismo de toda a gente. Têm medo dos estrangeiros, dos refugiados e dos imigrantes. Têm receio de parecer racistas. Quase conseguem conviver com o terrorismo, sobretudo o reclamado pelas minorias. Encontram razões sociais, origens familiares e causas políticas para explicar, justificar e desculpar o crime, o terrorismo, a violência doméstica, o insucesso escolar e a falta de disciplina. Têm medo de parecer autoritários. As democracias deixam-se deslizar e não conseguem evitar a deriva da demagogia e do preconceito.

Democratas começam a pensar que, se a democracia não é capaz de combater esses novos inimigos, talvez seja de imaginar soluções mais duras, nacionalistas de esquerda ou de direita, capazes de contrariar os estrangeiros, liquidar o mercado e eliminar a iniciativa privada. Uns procuram recorrer à religião e ao divino, sejam os cultos estabelecidos, sejam as novas seitas. Outros, pelo contrário, culpam o divino e procuram contrariar todo e qualquer contributo das religiões para a vida colectiva.

Dentro e fora da democracia, os esforços para casar governo e igreja, para ligar política e religião, sucedem e aumentam. Donald Trump não gosta de Darwin e já fez declarações arrepiantes sobre os fundamentos religiosos da família. Putin vai buscar os chefes da igreja ortodoxa cada vez que se vê atrapalhado. Enquanto o papa Francisco irrompe pelos territórios tradicionais da esquerda, as direitas europeias afastam-se da religião ou sonham com uma restauração tridentina. Na China, os poderes procuram de novo em Confúcio uma ajuda para o comunismo do dia. Noutros países asiáticos, tenta-se encontrar em Buda colaboração para combater os temores. Em Israel, em Gaza, em Teerão, em Riade, em Bagdade, em Manila e em Jacarta os Estados tentam conviver com a religião e convencer os fiéis. Na Turquia, Erdogan revê as relações do Estado com a religião. Noutros casos, a religião apodera-se das alavancas dos poderes políticos e militares.

Há ditadores que encontram fácil ligação com os deuses e as Igrejas. Outros que se lhes opõem ferozmente. Há igrejas que combinam bem com o poder político ditatorial. Outras que calam e consentem. Outras ainda que não consentem e são caladas.

Apesar da escravatura, mau grado a Inquisição, não obstante a contra-reforma e outras formas de cumplicidade das igrejas com o pior das políticas, os cristãos têm a seu crédito a fundamental separação entre Deus e César, entre a Igreja e o Estado e entre a Bíblia e a Constituição. Não é pouca coisa.

DN, 8 de Janeiro de 2017

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