31.1.14

Arte Urbana

Lisboa, Rua Frei Amador Arrais

Um falso estúpido e mau

Por Ferreira Fernandes 
Um dos malefícios do passar dos anos é que vamos ficando órfãos, e órfãos, e órfãos... Agora, foi Cavanna. 
Outro problema com o passar dos anos: temos de explicar as nossas memórias. François Cavanna foi um humorista francês bête et méchant, estúpido e mau, como ele se dizia. Ele foi o pai de dois jornais de humor violento, o Hara Kiri e o Charlie-Hebdo, filhos dos anos 60. Tirando a liberdade das mulheres, nenhum valor social e moral se prolongou mais depois de Maio de 68, em França - e pela importância da França de então, na Europa -, do que o pôr em causa o respeitinho "devido" às instituições, protagonizado pela mordacidade daqueles dois jornais. 
Outro ícone de 68, o esquerdismo político, rapidamente se revelou conservador e estéril, enquanto o riso sem peias foi autêntico e resistente. Ao partir, na quarta-feira, Cavanna (1923-2014) deixou transformado em arma o gentil humorismo de jeux de mots (jogos de palavras) que ele encontrara. Filho de imigrante, um pedreiro italiano, ele foi na esteira de tantos que deram à terra de asilo francesa glórias literárias e artísticas. Foi autor de romances, um deles Les Ritals (uma homenagem aos seus, imigrantes italianos), no qual a língua francesa - escrita com o amor intenso que os recém-chegados por vezes lhe têm - serviu para mostrar que o seu género bête et méchant escondia um imenso respeito pelos homens. Resumindo? Um europeu, como os funcionários de Bruxelas nem sonham.
«DN» de 31 Jan 14

30.1.14

Apontamentos de Lisboa

Av. Almirante Reis (rima com "movéis"...)

Povo: as mulheres podem conduzir?

Por Ferreira Fernandes 
O deputado Hugo Soares é um jota carreirista que nem dá pelo pleonasmo. Lamento, preferia-o normal. É que quando se é autor de uma aberração mais vale não haver mazelas que nos distraiam. Concentremo-nos no que o deputado H.S. disse, num debate televisivo: "Todos os direitos das pessoas podem ser referendados." Disse-o H.S., licenciado em Direito, advogado, deputado da comissão parlamentar dos Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias. Não falava do tamanho das tainhas, mas dos direitos das pessoas, sua praia profissional. E disse, repito: "Todos os direitos das pessoas podem ser referendados." Não podem, a Constituição, que diz que todos os cidadãos são iguais, diz que são excluídas de referendo as alterações à Constituição. Se H.S. quisesse referendar o direito dos coxos aos tapetes rolantes, não podia porque os coxos são cidadãos a parte inteira, incluindo no uso de tapetes rolantes. O mesmo com as mulheres conduzirem automóveis. E os negros sorrirem. É verdade, porém, que com a aberração de deputados como H.S., a Constituição não está livre de ser alterada, contra coxos e etc. Por isso é necessário tratá-la, à aberração, como fez a deputada Isabel Moreira, que também estava no debate televisivo. Acabou H.S. de dizer a enormidade e ela escreveu numa folha, soletrando o que ele dissera: "Todos os direitos das pessoas podem ser referendados." Isabel Moreira soletrou baixinho que é como se humilham as enormidades. 
«DN» de 30 Jan 14

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Apontamentos de Lisboa


Av. Miguel Bombarda
Este é um dos poucos "WC de cães" existentes em Lisboa - poupando os passeios (e quem neles anda) àquilo que se sabe. 
A questão que se coloca é se é necessário, mesmo assim, deitar os sacos de plástico para a areia...

A Lourinhã e o Carnaval trapalhão numa zona de tradições folionas (Crónica)

Por C. Barroco Esperança 
Quando cheguei à Lourinhã, no dia 1 de outubro de 1963, hospedei-me no Restaurante Moderno, uma pensão excelente onde a D. Elvira me acolheu com um desvelo que, a esta distância, ainda me enternece. Pagava 750$00 mensais pela pensão completa, dos 1753$00 líquidos que recebia, incluída a gratificação de 141$00, de delegado escolar. 
Fui recebido com cordialidade e muitos queriam conhecer o jovem professor de 20 anos que acabava de chegar a um concelho onde, no ensino primário, só havia professoras. (...) 
Texto integral [aqui]

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29.1.14

Volta o "Marreta", o meu tema predileto

Por Ferreira Fernandes
Esta é a terceira crónica que escrevo sobre o Marreta, antigo touro de 500 quilos, hoje provavelmente ex-muitos bifes de 200 gramas. Marreta era um touro de um só corno e telhudo, que vivia numa quinta em Viana do Castelo. Um dia de maio passado, o patrão quis deslocalizá-lo para o matadouro e o Marreta rescindiu unilateralmente o contrato, saltou da carrinha e fugiu. Mais vale ser um touro livre nas matas do que um operário iludido à espera de contrato nos estaleiros. 
Uma semana depois, a GNR (sempre ao serviço dos possidentes) prendeu o Marreta e quis levá-lo para o seu destino inexorável. Era não contar com o Facebook, esse defensor de todas as liberdades. A campanha Touros em Fuga, um movimento de massas (1378 euros), recolheu fundos, comprou o Marreta ao esclavagista e levou-o para Aveiro, para a propriedade de uma associação chamada SOS Equinos. Confuso, não sabendo se devia marrar ou cavalgar, o touro mais famoso do País voltou a fugir. Até hoje, embora se murmurem avistamentos do Marreta no Ribatejo, entre as chocas... E eis que surge, agora, uma nova campanha no Facebook, Marreta, o Boi Enganado, 135 pessoas que querem que o publicitário da campanha anterior, a Touros em Fuga, devolva os euros recolhidos para uma liberdade tão fugaz. Ora, o publicitário em causa teve também ele de fugir do curro nacional, e emigrou para a Alemanha. Que fazer?, perguntava Lenine. Pergunta ainda mais difícil tratando-se de Portugal. 
«DN» de 29 Jan 14

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Apontamentos de Lisboa

Incapazes de uma coisa tão básica como gerir o lixo das ruas (numa capital de um país europeu e no séc. XXI!), os poderes públicos reagiram à boa maneira portuguesa: ameaçando com multas os prevaricadores.
O ridículo, no entanto, não tardou a vir ao de cima: além de o valor das coimas não ter pés nem cabeça, bem podemos esperar sentados que elas sejam aplicadas - e daí a oportunidade do sofá que aqui foi deixado.

Quem Passos derrotou?

Por Baptista-Bastos
Consta por aí, e eu propendo a acreditar, que o Dr. Pedro Passos Coelho foi reconduzido no lugar de presidente do PSD. O número de seus apoiantes é menor do que na votação anterior. Mesmo assim obteve 15 524 votos nos 17 662 mil votantes, num universo de 46 430 potenciais eleitores. Temos, pois, que mais de 15 mil militantes do PSD apoiam a política do Dr. Passos contra os velhos, os reformados, os pensionistas, os jovens, os desempregados, os estudantes, os funcionários públicos, os investigadores. Não se pode fugir a esta aritmética. Sendo a conclusão de que o PSD de Passos é mais, muito mais liberal do que "social-democrata", se, de facto, alguma vez o foi, no sentido adjudicado por Olof Palme ou Willy Brandt verbi gratia.
A vitória de Passos é a derrota de quem? Não, apenas, do grupo, aliás já numeroso que se lhe opõe. Quem foi vencido nos valores e nos padrões, e que padrões e valores defendem Passos e os seus? Temos de nos entender quanto ao significado das palavras, e, sobretudo, dos conceitos nela incluídos e que o poder no-lo tem escamoteado. Há uma identidade, e uma procura de outra, que se perdeu com a ascensão da insignificância e da coacção, consubstanciadas pela prática deste PSD. "Nada será como dantes", ameaçou o recém-reeleito presidente do partido. A escassa margem da sua vantagem não o impediu de reiterar que a "austeridade" vai continuar, sem, sequer, alvitrar uma política mais amena e uma descompressão mais calma na sociedade portuguesa. Quando os seus prosélitos dizem ser ele "muito determinado", essa eloquência básica oculta, por conveniência política do momento, o carácter autoritário e, amiúde, antidemocrático do sujeito. E essa prepotência não tem sido analisada pela esquerda, que até a menospreza com negligente desdém.
Salvo as devidas proporções e as obrigatórias distâncias históricas, este desprezo faz lembrar a imprevidência do grupo da Seara Nova, que, nos anos 1920, não tomou a sério o conteúdo de três artigos de Salazar, no jornal Novidades, nos quais o candidato a ditador expunha, claramente, as suas ideias políticas para Portugal.
Claro que as coisas são outras, mas os perigos, mascarados ou não de "legalidade", são reais, e o que este Executivo tem praticado, para depredar os testamentos legados, atinge, por vezes, os níveis da afronta.
Não vi, não li nada que se ocupasse, seriamente, da "vitória" de Passos, embora tenhamos em consideração que se trata de uma vitória de Pirro. Mesmo assim, não descansou em considerar o Marcelo fora da corrida presidencial, sob a alegação de que é um cata-vento, sem perfil para as funções. A atmosfera, no PSD, é irrespirável, diz quem sabe. E os grupos subdividem-se, porém com as prudências determinadas pelos perigos decorrentes de um ambiente de receio. Fala-se, em surdina, de retaliações a Pacheco Pereira e a Manuela Ferreira Leite. Esperemos pelos próximos parágrafos. 
«DN» de 29 Jan 14

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28.1.14

Apontamentos de Lisboa

Não se poderão poupar os monumentos nacionais a estas foleiradas?

«Dito & Feito»

Por José António Lima
Passos Coelho pode manifestar surpresa, mas não inocência, pela reacção de Marcelo Rebelo de Sousa ao desistir da corrida à Presidência de 2016. O palavreado sobre as presidenciais que Passos Coelho decidiu inserir na sua moção de estratégia, além de politicamente insólito e arrevesado, visava claramente uma figura - a de Marcelo.
Escrever que o candidato a apoiar pelo PSD não deve ser “um catavento de opiniões erráticas em função da mera mediatização gerada em torno do fenómeno político” só podia ter o propósito de dar uma alfinetada política em Marcelo e tentar condicioná-lo. O efeito foi tal e tão imediato que terá superado as expectativas do próprio Passos.
Sabe-se que o primeiro-ministro nunca morreu de amores por Marcelo e vice-versa - desde os tempos já remotos de Passos na JSD e da liderança de Marcelo no PSD, no final dos anos 90. Mas Passos, em nome dos interesses do PSD, não devia esquecer que Marcelo era, de longe, o candidato melhor colocado do centro-direita às próximas presidenciais. E, sobretudo, não pode vir agora afirmar, com ar de anjinho, que ficou “muito surpreendido” e que o perfil que provocatoriamente traçou na sua moção “não ofende ninguém nem exclui ninguém”. Poupe-nos a hipocrisia.
Quanto a Marcelo, deu o exemplo de Manuel Alegre em 2006 para dizer que não queria “dividir o eleitorado” do PSD e do centro-direita - e assim justificar a sua repentina e prematura saída de cena. Podia ter dado outro exemplo presidencial do PS, o de Jorge Sampaio, que lançou a sua candidatura em Fevereiro de 1994 e soube impô-la, com convicção, contra tudo e contra todos - contra a vontade da direcção do PS, do então líder António Guterres e do Presidente Mário Soares. E, como se sabe, Sampaio ganhou.
Um candidato presidencial não se desvia nem desiste do seu caminho por causa de vozes alheias ou por embirrações de dirigentes partidários. E, muito menos, por parágrafos em moções de estratégia.
Marcelo mostrou que, ao contrário do que se pensava, não queria mesmo ser candidato a Belém. E que só estava à espera de um pretexto para se afastar da corrida. Passos deu-lhe esse pretexto. Ou não foi bem assim?
«SOL» de 24 Jan 14

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Os pinta-paredes (93)

Ambas as fotos foram tiradas  na Av. Almirante Reis, em Lisboa, e nas mesmas arcadas. Os gatafunhos que ali existiam foram tapados com tinta branca (o que se saúda) e, num dos casos, até foi pintado o que em cima se vê. 
Quanto aos sem-abrigo, é uma realidade que não dá mostras de melhorar - mas é algo de que ninguém fala.

Está provado: fumar mata até "cowboys"

Por Ferreira Fernandes
Ter sido cowboy num anúncio da Marlboro não será talvez a profissão mais perigosa do mundo. Mas Eric Lawson, vedeta dos anúncios da famosa marca americana de cigarros, acaba de morrer de cancro pulmonar. Mais um, já aconteceu o mesmo a outros Marlboro men. Nos anúncios, o cowboy ajusta o chapéu Stetson e tira a cafeteira do lume... Quando a câmara se aproxima do seu perfil descobrimos quem paga o ritual: o maço, de onde ele arranca um cigarro com lábios másculos, expõe a marca. Nos anos 50, ainda aquele cigarro era de mulher, até tinha o filtro vermelho para esconder o bâton. Mas tornou-se ícone da virilidade depois de uma das campanhas com maior sucesso da história da publicidade. Esses anúncios foram criados por Draper Daniels, o publicitário real que inspirou o protagonista da série televisiva Mad Men - e para sedimentar o azar do Marlboro, também Daniels viria a morrer de cancro pulmonar. 
Anos depois, começámos a ver sucessivos Marlboro men a meterem processos à Philip Morris Co., a proprietária da marca. Tinha nascido o antitabagismo e este resolvera curar a publicidade do Marlboro com os pulmões do mesmo cowboy. Pelos vistos, alguma relação deve haver entre o fumo e o cancro pulmonar porque nunca faltaram Marlboro men com posterior tosse cavernosa. Os laboratórios médicos há muito tinham provado essa relação. Mas iríamos precisar da publicidade e da respetiva contrapublicidade para nos convencer.
DN de 28 Jan 14 

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27.1.14

Genial!

"Óptico" (com P) é relativo à visão. "Ótico" (sem P) é relativo ao ouvido.
Como não podia deixar de ser, o Novo Acordo Ortográfico converteu a 1ª grafia na 2ª, lançando a confusão.
O Instituto Óptico resolveu o problema como aqui se vê...

Pechisbeque ataca iniciativa brilhante

Por Ferreira Fernandes 
Sábado, mais uma útil e gratuita sessão do Instituto Gemológico Português (IGP), oferecida aos lisboetas. A associação repetia a sua iniciativa "Quanto vale o anel da sua avó?". Título sugestivo: as pessoas talvez saibam o valor afetivo da joia antiga que têm na gaveta, mas não o valor efetivo. O IGP mantém os saberes que já deram à cidade nomes de ruas prestigiadas (da Prata, do Ouro...) e forma técnicos de ourivesaria e pedras preciosas, reconhecidos pela Casa da Moeda. A avaliação gratuita, que vai na quinta edição, ajuda as pessoas a poderem ir já com uma ideia de preço quando forem obrigadas a vender os velhos anéis de família. Além de útil e gratuita, assinale-se a rara qualidade da iniciativa do IGP: ela quer fazer do negócio uma coisa límpida e informada. 
Pois, contam os jornais, um comerciante de ouro interrompeu a sessão, pretextando que nenhuma avaliação pode ser feita gratuitamente. E, como por cá é bem possível que uma lei proteja os negócios nebulosos e não os limpos, a útil iniciativa foi suspensa até apurar-se se é permitido, ou não, aconselhar-se os cidadãos a não serem roubados. 
Seja, sigam-se os trâmites. Entretanto, lamento algumas lacunas dos jornais. Gostaria de ter visto o nome e as trombas do comerciante de ouro que não gosta de ter clientes avisados. E, sobretudo, gostaria de ter visto apregoada a tabuleta da sua loja. Eis um lugar onde não entrar. 
«DN» de 27 Jan 14

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26.1.14

Alguém viu e quer comentar?

Ora aí está a próxima e urgentíssima questão

Por Helena Matos
É uma coisa horrível: a barra foi substituída pelos parêntesis!!!! Resoluções, directivas e declarações internacionais caem sobre as nossas cabeças. O PÚBLICO uma espécie de paladino das causas de género anuncia:  «No Plano Nacional para a Igualdade, o género feminino aparece entre parênteses. Inicialmente, na proposta de Plano Nacional, que começou por ser posta à discussão pública e que foi para consulta de vários especialistas na matéria, utilizavam-se expressões como “conselheiro/a…” — o que é um exemplo de “linguagem inclusiva”. Já a versão final, publicada em DR, contém expressões como “conselheiro(a)”. Qual a diferença? A barra deu origem a um parênteses. (…)  O Guia dá vários exemplos do que está correcto: “pai e mãe” em vez de “pais”; “trabalhadores e trabalhadoras estrangeiras”, em vez de apenas “trabalhadores estrangeiros”. O emprego de barras também é uma possibilidade, para economizar espaço: “o/a doente”, “o/a requerente”, “A/O Presidente”, “Os/As Estudantes”, “a/o funcionária/o”, “o/a aposentado/a”.»
Vamos deixar-nos de parvoíces: esta doideira tem de acabar. E uma vez alguém vai ter de explicar o óbvio: isto não interessa nada e é um rematado disparate. Logo a começar pelo próprio Guia para uma Linguagem Promotora da Igualdade entre Mulheres e Homens na Administração Pública que não só propõe disparates como “trabalhadores e trabalhadoras estrangeiras” que se pode interpretar como referindo trabalhadoras estrangeiras e trabalhadores não estrangeiros como uma vez adoptadas estas recomendações para que as frenéticas almas das questões de género e demais causa urgentes se apaziguem logo outros problemas surgirão como bem se anuncia aqui: depois de andarmos feitos parvinhos a indicar os géneros teremos de erradicar qualquer referência de género. Tanta maluqueira já cansa!
In Blasfemias.Net

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Luz - Arte nas Ramblas, Barcelona

Fotografias de António Barreto- APPh

Clicar na imagem para a ampliar 
Sem palavras… mas com bonecos! (2012)

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Belém, out, Panteão, in

Por Ferreira Fernandes 
Estamos à beira de um vazio de poder: o Palácio de Belém pode tornar-se devoluto. 
Depois dos coches do rés-do-chão se prepararem para mudar de casa, o inquilino dos andares de cima, que tem arrendamento até 2016, poderá não ter a quem entregar a chave. Leiam as notícias. Jorge Sampaio: "Eu, voltar? É boato." Marcelo? Amuou. Durão Barroso? Diz o Expresso que tomou o gosto pela Europa: sonha com a presidência, sim, mas do Conselho Europeu. E, a falhar isso, prefere uma "sabática". Esta é geralmente entendida como uma licença concedida aos professores mas o Expresso, que é prosaico, suspeita que Durão vai é acumular cachets em conferências internacionais. Como o criticar, quando Cavaco Silva tanto tem prevenido que Belém não dá para as despesas? Olhem outro que não quer o palácio: Guterres. É que Belém, no princípio de 2016, inviabiliza o cargo de secretário-geral da ONU, vago em fins de 2016... 
Tanta nega é uma boa metáfora sobre o desejo que Portugal suscita. A juventude emigra do País e os senadores rejeitam o mais alto cargo da Nação. Na impossibilidade constitucional de recorrermos a um cabo-verdiano ou a um ucraniano, só vejo uma solução: mudar de bairro. Sim, leiam os sinais. Se Belém ninguém quer, então, pensem na freguesia de São Vicente. Ponham a Presidência no Panteão, e será um corrupio de candidatos. Aliás, o Panteão é o sítio ideal para fazer de morto, a mais comum das funções presidenciais.
 «DN» de 26 Jan 14

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PARA UMA HISTÓRIA DA PALEONTOLOGIA – 2

Surgimento da moderna paleontologia. Os séculos XVII e XVIII. 
Por A. M. Galopim de Carvalho
NO SÉCULO XVII, receosos de perseguição movida pela Igreja, ainda eram muitos os estudiosos que, convictos ou não, rejeitavam aceitar os fósseis como sendo restos de amimais ou plantas do passado. Um deles, o naturalista e químico inglês Robert Plot (1640-1696), no livro que publicou em 1677, Natural History of Oxford-Shire, descreveu um fémur de dinossáurio como sendo de um elefante deixado no terreno pelos invasores romanos. Ao contrário desta visão, o dinamarquês Nicolau Steno (1638-1696) deu um grande passo no sentido do conhecimento científico, ao recuperar as ideias de Da Vinci e de Palissy. Médico de profissão, com obra notável nos campos de geologia e da mineralogia, Steno já verificara que certos “petrificados” eram semelhantes entre si, quaisquer que fossem as rochas em que estivessem embutidos, e que, por outro lado, tinham o mesmo aspecto das partes dos animais a que se assemelhavam. Ao observar os dentes de um tubarão actual, Steno verificou que estes eram muito semelhantes a certos objectos encontrados em rochas sedimentares na Ilha de Malta, então chamados glossopetrae (línguas petrificadas), uma vez que faziam lembrar línguas de serpente transformadas em pedra. (...)
Texto integral [aqui]

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25.1.14

Arte urbana

É possível que as mudanças de operador dêem como resultado cabos desligados... Mas terá mesmo de ser assim?

O País a nu, como no Meco

Por Ferreira Fernandes 
Amanhã, os jovens corvos voltarão às ruas. Não se escondem, o fato é comum para todos, preto e sobre ele uma capa pesada, faça sol ou frio. Aqueles fato e capa não escondem, expõem a aceitação da mais bizarra das afirmações: somos manada. Num jovem não seria de esperar rebeldia e inquietude? Ora, ora, talvez agora o padrão seja outro, ser rancho, ser grupo. E de grupo sem mérito nem voo. Ali, naquele país inculto e pobre, anunciar pelo fato e pela batina uma conquista, mesmo patética, já é conquista: olhem, sou estudante universitário! Fica com a taça, jovem corvo. Nunca saberás que o mérito seria teres participado em debates e ganho, ou perdido, mas participado; seria teres gozado o prazer de aprender, de duvidar, de perseguires, mesmo erradamente, a luz. Mas esse não és tu. Tu, goza os teus três, quatro anos de fato de luto - o único diploma que te distinguirá a vida inteira, três, quatro anos a andar pelas ruas a proclamar nada. Entretanto, sobe um patamar e praxa. Isto é, leva a tua ambição ao nível dos fundilhos do teu traje. No começo, obedece e humilha-te. Serás premiado, depois, com mandar e humilhar. Fica-te por aí, rasteiro. De grande, só a colher de pau. Fica-te por aí, és o País. Sem saberes que um só dos teus podia redimir a todos. Um só estudante, bela palavra, no pátio de uma universidade, bela palavra, dizendo as mais certas das palavras para um jovem: não vou por aí. 
«DN» de 25 Jan 14

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Os pinta-paredes (92)

A foto de cima já aqui se afixou - documenta a parte inferior da fachada de um prédio da Av. dos EUA, onde as placas de calcário trabalhado foram pintadas de branco para ocultar os grafitos. 
A novidade está na imagem de baixo, um pormenor da anterior: no fim do trabalho, o pintor resolveu limpar a brocha nas pedras da entrada principal... numa espécie de manifestação de solidariedade com os pinta-paredes...

24.1.14

Quem tem capa sempre escapa?

Por Ferreira Fernandes 
No dia seguinte à tragédia do Meco, escrevi aqui sobre a irresponsabilidade dos comentários (de facto, bitaites) que não respeitavam a obrigação do silêncio quando nada se podia ainda saber sobre um acontecimento tão doloroso. Era tempo de silêncio. Agora, quase mês e meio depois, o que choca é o prolongamento do silêncio. Começaram a pingar indícios de que as mortes estão relacionadas com praxes académicas. 
As praxes conduzem demasiadas vezes a um tipo de relacionamento doentio entre quem manda e quem obedece - esse é um facto público, até pelo despudor com que os seus protagonistas o trazem para as ruas e fazem com ele cortejos. Numa tragédia em que seis subalternos morrem e o único sobrevivente é o chefe ("dux", na terminologia do grupo), há fortes razões para tirar a limpo se o que ocasionou a tragédia foi acidente ou foi ter-se colocado as vítimas em perigo, deliberadamente, em nome das famigeradas praxes. Não sei como os códigos legais vão classificar essa ação - se é crime ou não -, o inquérito policial irá dizê-lo. Mas a comprovar-se que foram as praxes que levaram os seis para o mar ou perigosamente para junto ao mar, a sentença social só pode ser uma: há que extirpar as imbecis praxes de um lugar, a universidade, feito para cultivar a inteligência. Que me desculpe o direito à tanga da "amnésia seletiva" que o "dux" pode ter, mas o tempo, agora, não é de silêncio. Nenhum código de seita vale seis mortos. 
«DN» de 24 Jan 14

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Contributos para o debate sobre a calçada portuguesa (10)

Rua Actriz Virgínia
Quando se referem as vantagens da calçada portuguesa figura sempre, em destaque, a facilidade com que ela se "desmonta" e depois se repõe - nomeadamente quando há obras a fazer.
Pois é... O pior é que, em geral, só se lhe aplica a 1ª "fase"...

23.1.14

O admirável mundo cada vez mais novo

Por Ferreira Fernandes 
O corretor automático já deve equiparar-se ao colesterol como causa maior de ataques cardíacos. Ao computador ou telemóvel, um imprevidente clica no enviar antes de fazer a releitura do seu texto e arrisca-se ao desemprego ou, pior, à chacota do ente querido: uma tecnologia atrevida decidira emendar uma palavra de forma irremediável... Uma amiga minha suspeita que o seu corretor automático é tarado, pois já lhe mudou "Volvo" por "vulva" e "óculos" por "óvulos". 
A traquinice dos corretores já se tornou tão universalmente aceite que a Volkswagen brasileira aproveitou para fazer publicidade. O vídeo mostra um teclado compondo uma frase bajuladora - "chefe, você é um craque" -, que se transforma num insulto: "chefe, você é um crápula". Pegando na demonstração, a Volkswagen conclui: "Não queira similares, só peças originais." 
Homem de jornais, passei a vida a frequentar revisores que não só me emendavam as palavras para melhor, como tinham sempre a gentileza de prevenir. Mas o anão que se esconde nos smartphones emenda sem dizer água vai. 
E a coisa só pode piorar. Ontem os jornais ingleses falavam da pesquisa de um cientista de computadores finlandês, Hannu Toivonen, que quer o anão, agora, voluntariamente piadético. Toivonen anda a tentar definir o humor de forma algorítmica para o meter nos computadores. Você escreve uma mensagem bem-disposta e o computador muda-a para uma piada científica... Vai ser perigosamente triste.
«DN» de 23 Jan 14

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Apontamentos de Lisboa

 Praça de Alvalade
Praça Gonçalo Trancoso
Em cima: ainda antes de alguém se tornar aluno desta escola, já está a ser tratado por "tu". Imagine-se como será depois...
Em baixo: ainda antes de alguém se tornar colaborador desta empresa, já está a ser tratado por "tu". Imagine-se como será depois...

Ditadura, pessoas e acasos da vida (Crónica)

Por C. Barroco Esperança
Quando da insurreição de Beja, passei o fim de ano no Cume, sede da freguesia de Vila Garcia, a 10 km da Guarda, onde a minha mãe era professora. Ainda dormia quando, na madrugada de 1 de janeiro de 1962, meu pai me acordou, com o rádio na mão, para me dizer que o quartel de Beja tinha sido assaltado. Com uma garrafa de vinho do Porto e dois cálices fizemos a precipitada celebração de um desejo que redundaria em fracasso.
Nunca tinha ingerido uma bebida alcoólica em jejum, experiência que só têm os padres, por dever do múnus, e os bêbedos, por hábito. Àquela hora o locutor de turno falava de uma tentativa de assalto ao quartel de Beja e de tiros, além da existência de feridos e de possíveis mortos. Foi breve o entusiasmo e 12 longos e dolorosos anos nos separavam ainda da liberdade, mas nós não sabíamos. (...)
Texto integral [aqui]

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22.1.14

A Irmã Lúcia no Panteão, já

Por Maria Filomena Mónica 
TAL COMO há dias sugeriu o Bispo de Beja, D. António Vitalino Dantas, o corpo da Irmã Lúcia deve sair da companhia dos primos pastorinhos e ir já, já, já, para o Panteão. Se Amália representa o fado e Eusébio o futebol, a Irmã simboliza o terceiro «f» da trilogia nacional, isto é, a fé.
Recuemos no tempo e saltemos para dentro de outro país, a França, que tantas vezes nos forneceu inspiração. Ali, o Panteão teve origem num voto pio feito pelo rei Luís XV, que acabaria por morrer antes da inauguração. Isto levou a que o mesmo fosse apropriado pela Revolução, que decidiu consagrá-lo à exaltação dos «grandes homens». Seguiram-se peripécias inesquecíveis, como a «panteonização» de Marat, o revolucionário puro, no mesmo dia (21 de Setembro de 1794), em que o impuro Mirabeau de lá era expulso. A consagração dos heróis andou aos trambolhões per saecula saeculorum. Tal como Portugal, a França é uma nação dividida.
No princípio de Outubro, fui a Paris. Após ter constatado, nos jornais, a existência de uma polémica à volta do machismo panteónico, decidi visitar o local. Por ali andei, quase sozinha, estranhando a falta de algumas personalidades e a presença de outras. Da segunda metade do século XIX, figuram escritores românticos, como Victor Hugo, e, do século XX, cientistas como Paul Langevin. Até aqui, nada de especial. O que mais me espantou foi a presença dos ossos de Jean Monnet, esse mesmo, o da CEE, sobre o qual a poeira dos anos ainda se não abateu. 
Mas não é isto que agora excita os franceses, mas o facto de terem descoberto que, por direito próprio, só ali está sepultada uma mulher, Marie Curie. Na era do politicamente correcto, seria isto tolerável? Não, não era. Logo, a França o declarou, embora Marc Fumaroli tivesse advertido, a 11 de Outubro, que a mulher a ser sepultada no Panteão teria de ser consensual. Talvez seja justo que, além de Marie Curie - uma francesa um bocado polaca - ali aparecessem outras, embora a importância dada à «causa» me pareça absurda. 
A polémica surgiu, na sequência de um relatório encomendado pelo Presidente Hollande ao Centre des Monuments Nationaux. Depois de conciliábulos, os relatores chegaram à conclusão de que seria preciso abrir as portas do Panteão às mulheres. Eis ipis verbis o que escreveram: «Graças a elas [mulheres], o povo, todo o povo, entrará no Panteão». É um disparate, mas soa bem. Como se isto não bastasse, foi decidido perguntar ao povo, via Net, quais as mulheres que gostaria de ver «panteonizadas». Por mim, não tenho dúvidas. São elas três: Ségolène Royal, Valerie Trierweiler e Julie Gayet. O facto de terem suportado na cama um homem com cara de periquito faz delas umas heroínas.
Voltemos a Portugal. Aqui, a escolha não é difícil. Nem é preciso esperar pelo momento em que a Dra Maria Cavaco Silva morra. Bastará retirar de Fátima o corpo da Irmã Lúcia. Tal como Amália, é uma mulher, o que a classifica para poder dormir eternamente no Panteão. 
 «Expresso» de 18 Jan 14

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E ainda queríamos dar-lhes armas...

Por Ferreira Fernandes 
Estava a Europa a estudar se devia ir até à Síria resolver a coisa (não faltaram propostas: intervenção direta, dar armas aos rebeldes...), quando acordou para a espantosa notícia. Podia poupar-se na viagem: a guerra virá ter connosco. Na segunda-feira, o jornal inglês Daily Telegraph deu voz a um desertor dos rebeldes que revelou uma das prioridades da Al-Qaeda na Síria: formar os jovens europeus que chegam para combater o governo sírio e devolvê-los à Europa para praticar terrorismo. Esta mão-de-obra emigrante europeia partiu inculta - só básicas teorias tolas - e regressará altamente qualificada. Em explosivos. Os serviços de inteligência, britânicos e franceses, confirmaram: a Síria é um campo de treinos para exportação. 
O regresso à Grã-Bretanha desses recrutas da guerra santa é a principal preocupação do MI-5. Na semana passada, dois garotos franceses de 15 anos partiram de Toulouse para a Síria, tenros para (ainda mais) lavagem ao cérebro. Então, até já. Talvez sejam poupados às ações mais perigosas, pois são mais úteis noutro sítio. Calcula-se que há na Síria 500 combatentes britânicos, 700 franceses e 300 belgas, quase sempre jovens. Alguns pais estão naturalmente preocupados e gostariam de os ver regressar. 
Em maio passado, escrevi aqui que essa notícia talvez não fosse boa para todos. Partiram de cabeça quente e vão voltar a ferver. Titulei essa crónica assim: "É mau terem partido. E péssimo voltarem". Repito.
«DN» de 22 Jan 14

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Alguém viu e quer comentar?

Entre a decência e a evasiva

Por Baptista-Bastos
Parece-me difícil alguém poder justificar, com honra e decência, o golpe do PSD em mandar para os fojos, através de um referendo, a questão da coadopção de crianças, por casais do mesmo sexo. A indignidade não é atitude nova por aquelas bandas políticas. Porém, esta mascarada atinge aspectos de ruinoso indecoro. A incomodidade na bancada do Governo dissimulou-se, muito mal, por receio e cobardia, com declarações de voto. O descrédito da política aumentou mais um patamar.
O número de equívocos morais praticado por este Executivo não tem equivalência com a percentagem de votos fornecida pelas sondagens. Apenas 12 pontos separam o PSD do PS: a escassa percentagem, além de tranquilizar Passos Coelho, fornece a dimensão ética e a consciência política da população. É verdade que o País está sob uma tensão impressionante, numa calculada estratégia de medo, que nos afugenta das mais elementares imposições da cidadania. Porém, a oposição do PS é degradante pela ineficácia. No interior daquele partido, o António José Seguro é já conhecido pelo Tó Zero, o que talvez dê a medida do mal-estar entre socialistas, defraudados nas esperanças de uma mudança que as indicações tornam desesperantes.
Fora do domínio estritamente partidário, que faz o PS de Seguro para cativar as franjas de eleitores, causticadas pela mais violenta chaga social, de que há memória em quarenta anos de democracia? Nada. Os juízos socialistas, de que temos vagos conhecimentos apenas nos comícios, e mesmo assim esfarrapados em estribilhos, constituem uma perda do objecto e do sentido. A par do abandono da forma ideológica, a mediocridade do que é dito e afirmado queda-se numa auto-satisfação tão absurda como burra. Isto dá tanto para o PS como para o PSD, embora este esteja sustentado por uma doutrina, a neoliberal, e o PS anda numa deriva insana, com dois padrões definidores, qual deles o pior, entre Francisco Assis e Augusto Santos Silva.
As hesitações ideológicas do PS e a sua letargia à acção, estão a esvaziar a identidade de um partido que, sendo de charneira, não deveria perder a responsabilidade para que foi criado. Sou do tempo em que, nas manifestações de rua, os militantes gritavam: "Partido Socialista, Partido Marxista", até ficar comprometido entre o protesto parlamentar e uma notória opção liberal.
Neste melindroso caso da coadopção era preciso ultrapassar as balizas da heteronímia, para afirmar uma autonomia individual, e passar das evasivas para os actos sólidos e para as palavras firmes e contundentes. A verdade, como nestes e noutros assuntos, é que não sabemos o que, rigorosa e realmente, pensa o Partido Socialista. Assim sendo, indefinido e tragicamente ambíguo, ignora ou despreza os pontos essenciais dos encontros para uma contestação, afinal contida na sua própria génese.
Estará o secretário-geral do PS à altura de um desafio tão dilemático como a natureza da circunstância o exige?
«DN» de 22 Jan 14

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21.1.14

Contributos para o debate sobre a calçada portuguesa (9)

Além de Marcelo, Passos excluiu mais

Por Ferreira Fernandes
Passos Coelho traçou o perfil e Marcelo concluiu que não encaixa. Espero que outros, também indesejáveis para candidatos a Presidente, tirem as devidas conclusões. É que o líder do PSD, para o tal perfil, se só usou três parágrafos, atirou borda fora uma multidão. Quem foram os excluídos? Sabe-se, Passos não quer "cata-vento de opiniões erráticas", Marcelo acusou o toque e disse: tá bem, saio. Mas, repito, há outros. Passos quer um PR com "papel construtivo" (logo, não será Vasco Pulido Valente), "positivo" (nem Medina Carreira) e que "não complique" (Manuela Ferreira Leite). Mais: "O PR deve comportar-se..." (não pode ser Jardim). Quere-o "moderador" (sem surpresa, Passos não quer Ana Gomes). Quer um PR "movendo-se" (não será, pois, Seguro). Que tenha "respeito pelos partidos" (não será um taxista). "Evitando tornar-se protagonista" (bye-bye, Mourinho!) ou "catalisador de qualquer conjunto de contrapoderes" (nem pensar, Mário Nogueira!). Não deve ser "cata-vento de opiniões erráticas" (esse já se assumiu) e buscar a "popularidade fácil" (não será Tierry, da Casa dos Segredos). "Não podendo ter partido" (niet, Jerónimo), "não pode colocar-se contra os partidos" (é, além da Constituição não o permitir, Passos também não quer a candidatura das capas do Correio da Manhã). E Passos admite um candidato "ainda que possa não obter a aprovação generalizada dos políticos em confronto" - quer dizer, não está a pensar na Joana Amaral Dias.
«DN» de 21 Jan 14

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20.1.14

Apontamentos de Lisboa

O temporal de 19 de Janeiro do ano passado derrubou milhares de árvores -  de entre elas, a que aqui estava. Esta foto foi tirada 1 ano e 1 dia depois...

O nojo que sai à rua impunemente

Por Ferreira Fernandes
Há meses, numa rua da minha cidade, vi um jovem humilhado. Levava uma corda ao pescoço e ajoelhava-se quando lhe ordenavam que o fizesse. Não era uma representação teatral, via-se que o ajoelhado não podia ter escolhido outro papel. Era mesmo uma humilhação. E, no entanto, segui. E, no entanto, nenhuma relação humana mais me fez expor, mudar de vida e sofrer consequências do que humilhação de homem ou de mulher. 
Já tenho idade que me aconselharia a calar perante um daqueles cenários públicos que, não sendo comuns, acontecem, de um homem agredir uma mulher e nunca, nunca a deixei sozinha. E, no entanto, se naquele dia, na minha cidade, em vez do rapaz de baraço fosse uma rapariga de joelhos a mimar um ato sexual, eu seguiria também em frente. É, a grosseria e a violência das praxes académicas - é disso que falo - são tão tolas que nos levam a encolher os ombros, não a indignar-nos... 
Com isto quero dizer que para com essas praxes somos todos mais ou menos cúmplices, dos dux veteranorum aos críticos. Era bom pensarmos nisso, agora que tantos jornais dizem que a tragédia do Meco poderá ter tido como origem praxes académicas. Sugerem-se responsabilidades de um jovem, o sobrevivente, apesar de ele só ter de dar explicações, mais nada. Responsabilidade têm as universidades, as autoridades académicas, os pais, os estudantes e os transeuntes, como eu, que não disseram o que deviam ter dito perante um nojo: que, aquilo, é um nojo.
«DN» de 20 Jan 14
NOTA (CMR): para se perceber melhor a referência ao dux veteranorum, ver uma notícia de hoje, [aqui].

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19.1.14

Apontamentos de Lisboa

Cratera existente na Almirante Gago Coutinho, porventura enquadrada nas recentes iniciativas para "moderação de velocidade"...

Luz - Lounge do Hotel Palace, Barcelona

Fotografias de António Barreto- APPh

Clicar na imagem para a ampliar 
É um antigo, reputado e muito interessante hotel que vem directamente do princípio do século XX e, através de vicissitudes várias, se prepara confortavelmente para o século XXI. (2012).

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Quando digo digo não digo digo digo Diogo

Por Ferreira Fernandes
No Parlamento esteve em votação um assunto que se me varreu. Como, de qualquer forma, a decisão da coisa foi remetida para mim, quando chegar o referendo lá me pronunciarei. Adiante. Embora não me lembrando da coisa, chocou-me o método com que foi abordada. Num deputado devemos prezar a capacidade de decisão. Afinal, contamos com ele para que diga "sim", quando acha que sim; "não", quando acha não; e se abstenha quando nem o sim nem o não convenceram. O voto da deputada Teresa Caeiro, do CDS, foi desses, absteve-se. Mas emendou esse querer, assim: "Conformei o meu voto a algo que não acredito e que considero uma iniciativa lamentável." Foi o nem sim nem não mais inseguro da história parlamentar. Já a deputada Francisca Almeida, do PSD, votou "sim". Para depois explicar-se com a declaração de voto: "A minha intenção era votar contra." E a deputada Carina Oliveira, PSD: "Sendo minha intenção votar contra, apresentarei também uma declaração de voto." Isto é, sendo, não foi - votou a favor. São Bento parecia um convento de desculpas padrecas: olhem para o que digo, não para o que voto. Ou vice-versa. A deputada Isabel Moreira, PS - que disse não e votou não -, acabou por dar a pior desculpa aos disléxicos: "Assistimos a um caso de bullying." Perdão? Um ralhete ou bofetada nos Passos Perdidos faz um eleito da nação desdizer-se? 
Nesse parque infantil, eu coadotaria Teresa Leal Coelho, uma adulta: disse que não ia por aí e não foi.
«DN» de 19 Jan 14

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PARA UMA HISTÓRIA DA PALEONTOLOGIA (1)

Por A. M. Galopim de Carvalho
RESTOS de seres vivos do passado ou vestígios da sua actividade conservados no seio de algumas rochas, os fósseis são o objecto de estudo de uma disciplina científica a que foi dado o nome de paleontologia [do grego palaios (antigo), ontos (ser) e logos (estudo)]. São, ainda, tema fulcral em: paleobiologia, interessada na actividade dos antigos seres enquanto vivos; paleoecologia, focada na reconstituição de ecossistemas antigos; paleobiogeografia, que estuda a distribuição espacial de animais e plantas do passado.
Texto integral [aqui]

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18.1.14

Apontamentos de Lisboa

Embora as letras sejam brancas, os versos que ornamentam este vidrão são um verdadeiro exercício de humor negro!

17.1.14

Apontamentos de Lisboa

Ultimamente, surgiu em Lisboa a mania das "Zonas 30" - locais onde se pretende, com recurso a obstáculos diversos, que os veículos não circulem a mais de 30 km/h.
A curiosidade é que estão a ser 'construídas' em zonas onde, já de si, o trânsito é lento, especialmente devido ao estacionamento selvagem em 2ª fila - à minha porta, a velocidade habitual oscila entre ZERO e ZERO-VÍRGULA-ZERO.
Mas veja-se este outro aspecto da questão (ilustrado com fotos de ontem):
Mais de 100 mil euros (+ IVA) gastos pela CML num único bairro, onde há pouco trânsito.
E veja-se como podiam ter sido poupados na sua totalidade, dado que os buracos existentes no pavimento (pela sua quantidade e dimensões - e as fotos só mostram alguns) só por si já transformam o local em "Zona de 10"... ou menos!

Letra de uma religiosa portuguesa

Por Ferreira Fernandes 
Uma capitular, "D", num livro português de orações do século XVI, tem um desenho do que parece ser um canguru, animal que só há na Austrália. O manuscrito, feito por uma freira de um convento das Caldas da Rainha, é de entre 1580 e 1620, o que talvez diga que fomos os primeiros europeus a chegar ao continente australiano. Geralmente atribui-se ao navegador holandês Willem Janszoon essa primazia, em 1606. O desenho naquela letra capitular, a comprovar-se tudo, vem na esteira da maior das probabilidades: desde que chegaram a Malaca (há 500 anos, em 1511), os portugueses navegaram para sul, descendo pelo arquipélago da Sonda, por Java, Flores e Timor, havendo notícia portuguesa desta última ilha, já fronteira à Austrália, em 1514. Mas chegar primeiro é relativo, o que importa é ir, voltar, contar, voltar a ir, trocar, trocar, trocar... Tornar património dos homens todos o que era desconhecido e só de desconhecidos - afinal, o que fizeram os portugueses, um pouco por todo o mundo. Para a Austrália, é verdade, o capitão James Cook, que só chegou lá em 1770, fez mais: integrou-a num império. Em todo o caso, eu torço também pela nossa freira: ela descobriu (destapou, franqueou, mostrou...) o canguru ao mundo. Se este não o topou, ou se só o fez tarde, não foi culpa da nossa descobridora: ela até escolheu para capitular a letra D, de Descobertas. 
«DN» de 17 Jan 14

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16.1.14

GEOTOPONÍMIA - 1

Por A. M. Galopim de Carvalho
SOB a designação de geotoponímia inclui-se, por ordem alfabética, um conjunto de topónimos no âmbito da lusofonia, cujas origens se relacionam com a ocorrência de entidades ou acidentes geológico-geográficos. A busca nas fontes de informação, nem sempre fidedignas, aconselham a aceitação de eventuais correcções por parte dos leitores, colaboração que, desde já, se agradece. Trata-se de um projecto que implica uma tarefa longa, sem fim à vista, cuja divulgação será feita, a partir de agora, faseadamente, por pequenos conjuntos de topónimos entretanto arrolados. (...)
Texto integral [aqui]

Apontamentos de Lisboa

Em algumas zonas de Lisboa (nomeadamente nas avenidas novas), as velhas portas dos prédios têm vindo a ser substituídas - as fotos que aqui se vêem foram tiradas esta manhã, na Av. Guerra Junqueiro.  Para se ter uma ideia do que isso significa, veja-se a do n.º 28 (ainda a original - foto de cima) e a do prédio ao lado (foto de baixo).
Actualização:
A foto de baixo foi enviada hoje a António Costa, a ilustrar uma reclamação elaborada pelo Cidadania Lx - ver [aqui].

Da série: afinal havia outro

Por Ferreira Fernandes 
A mulher de quem agora tanto se fala, já teve outro homem de quem não se fala tanto. A atriz francesa Julie Gayet foi casada durante seis anos com o escritor argentino Santiago Amigorena, separaram-se em 2009. Ele publicou no final do ano passado o romance Des Jours que je n'ai pas oubliés (Dias Que Não Esqueci). Ficção que talvez não o seja tanto: fala dum escritor, marido de uma atriz que partiu para outro. A revista L' Express dá-nos algumas frases: "Quando ele a conheceu, ela era tão bela que fazia medo olhá-la." Até àquela "única e primeira mentira" em que "tudo, absolutamente tudo, se tornou falso." L' Express diz que o romance é "um pouco kitsch, mas profundamente comovente." Julie Gayet é a agora famosa amante de François Hollande, protagonista real de uma famosa notícia. Há dias, quando uma revista cor-de-rosa revelou o assunto, escrevi aqui uma crónica onde me insurgia contra um pormenor. O título da revista pretendia falar de "O Amor Secreto do Presidente" E eu escrevi: amor e notícia não combinam. Dando de barato a questão jurídica (publica-se ou não o que é privado?), lembrei que amor é coisa tão íntima e funda que não se compagina com o olhar breve de uma notícia. Nessa matéria todo o jornalista é um mentiroso. A ter que abordar o affaire, que se vá pela scooter, croissants ou segurança do Estado... De amor, um escritor kitsch ou um amigo corno falarão sempre melhor que o olhar distante do maior dos jornalistas.
«DN» de 16 Jan 14

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Contributos para o debate sobre a calçada portuguesa (8)

Enfiada de puzzles (e apenas alguns...) oferecidos à imaginação pública na Av. Fontes Pereira de Melo, em Lisboa. Têm dificuldades diversas, pelo que se adaptam a qualquer QI.
Valerá a pena andar-se a discutir a calçada portuguesa (como eu oiço para aí) quando pessoas ao serviço de importantes empresas nacionais a tratam assim? 
E não devia aplicar-se ao trabalho destes 'profissionais' (e de quem os chefia e fiscaliza) o berro de Não pagamos!?

Desventuras de S. Victor e da Freguesia do mesmo nome (Crónica)

Por C. Barroco Esperança
Durante muitos anos S. Victor ouviu as preces dos devotos e atendia-as na medida das suas disponibilidades, de acordo com a modéstia dos mendicantes. Afeiçoaram-se os créus ao taumaturgo e este aos paroquianos que o fizeram patrono da maior paróquia da Arquidiocese de Braga.
Há uma década foi retirado do “Martirológio”, o rol da Igreja Católica que regista todos os santos e beatos reconhecidos ao longo de vinte séculos, desde que a Igreja católica se estabeleceu. O argumento foi pouco convincente e deveras injusto. Não se exonera do catálogo um santo por ser apenas uma lenda. Que o tenham feito a S. Guinefort, cão e mártir, morto injustamente pelo dono, aceita-se, porque a santidade não se estende aos animais domésticos. Duas mulas, que rudimentares conhecimentos dos padres da língua grega confundiram com duas piedosas mulheres, compreende-se que fossem apeadas dos altares, interditos a solípedes. (...)
Texto integral [aqui]

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15.1.14

Contributos para o debate sobre a calçada portuguesa (7)

Rua de São Ciro (à Lapa)
Numa manhã de sábado, dia de estacionamento gratuito e abundante lá na zona...

Meta dos Leitões e a meta do défice

Por Ferreira Fernandes 
Contaram congressistas do CDS que, atravessando a região da Bairrada, foram à Meta dos Leitões. Eram 15 e pagaram uma conta de 19, protestaram e receberam, dizem, esta explicação do patrão: se são do Governo que nos rouba, "então, para me defender eu também os roubo a vocês". 
Vou analisar essa versão dos congressistas. Temos, então, que o povo sente-se metido no espeto e assado, e considera que foi o Governo que os meteu nesta mealhada. Na verdade, quem abusou da meta do défice não pode agora queixar-se do abuso do Meta dos Leitões. Para 2013, estava acordado que a meta do défice orçamental era de 4,5 por cento - mas vai passar os 5 por cento. Podem dizer, "são décimas" - mas está errado. Por isto: metae (singular meta) eram os marcos nos circos romanos que limitavam as pistas onde corriam as quadrigas. Não podiam nunca ser ultrapassados! Mas, em vez das regras do significado das palavras, os políticos habituaram-se às regras da Federação de Atletismo: quando veem uma meta sentem-se obrigados a passá-la. No melhor dos casos, como maratonistas, desfalecendo logo a seguir, "em décimas"; mas, tendo eles dado o exemplo, o povo imita-os e ultrapassa-os, aumentando a conta do leitão em 25 por cento. 
A metalinguagem do comerciante teria estragado o metabolismo pacato que os congressistas esperavam ter no Meta dos Leitões. Em vez disso, talvez tenham assistido a uma metáfora sobre a metamorfose dos comerciantes em relação ao CDS.
«DN» de 15 Jan 14

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Apontamentos de Lisboa

Não sei se esta coisa ainda lá está (a foto é do passado dia 9). De qualquer forma, fazem bem os rapazes em não pagar... aos responsáveis por este trabalho propagandístico (que está assim há tempos infinitos).

O congresso do eu

Por Baptista-Bastos
De repente tive a singular sensação de que estava num subúrbio de Pyongyang. O terreno, um pouco desolado, dava poiso a um imenso pavilhão, de onde saíam vozes, aplausos e gritos estridentes. No interior, o espaço estava organizado em função do que se pretendia ser magno acontecimento. Um palco dividido em patamares; em cada patamar sentava-se a importância de cada um e dos grupos de cada um; em baixo, os prosélitos. Tal como nas reuniões do Comité Central do Partido Comunista da Coreia do Norte. E, tal como Kim Jong-Un, o chefe distribuíra, a seu bel-prazer, os cargos e as funções, consoante as simpatias e as intimidades. Um dos escolhidos abraçou-o com grata emoção e indizível ternura. Foi um instante tão comovente que o chefe não ocultou uma furtiva lágrima e um estremecimento de amorosa simpatia.
Paulo Portas, tal Kim Jong-Un, passeou o olhar soberbo e altaneiro pelos circunstantes, tratou, com displicente desdém, Filipe Anacoreta Correia, que ousara opor-se-lhe, e aquele olhar eram balas de um fuzilamento que, por ser metafórico, não deixou de causar arrepios de terror. Quase de seguida disse: se Luís Nobre Guedes o desejar, pode sentar-se num dos lugares do Conselho Nacional. O nomeado (a quem o Marcelo chama, apenas, Luís Guedes, porque diz que Nobre é um apêndice postiço, uma espécie de pseudónimo inseguro) aparecera em Oliveira do Bairro como um círio fúnebre, desamparado e trágico. Fora, há anos, da convivência de Portas, amigos de peito e de fadário, mas uma zanga tão absurda como fatal lançara Guedes no infortúnio do ostracismo. Nunca se ressarciu do imenso desgosto, e pensa-se que o seu reaparecimento em Oliveira do Bairro se deve a um pedido de misericórdia. Tristíssimo, solitário apareceu no conclave quase com o baraço ao pescoço, até que ouviu o indulto de Portas.
Se Nobre Guedes pareceu um fantasma, movendo-se com as cautelas de um neófito, temendo as iras do chefe, Paulo Portas não está melhor. Gordo, cheio de rugas, falsa desenvoltura no andar, penteado à escova calvície mal dissimulada, o homem despencou-se, a seguir, nos discursos atrapalhados, sem o brilho de outrora, nem a firmeza costumeira do adjectivo e da sinédoque.
A "explicação" pretendida acerca da famosa "decisão irrevogável" não apagou a falta de carácter que o dito pelo não dito divulgara à puridade. Portas é o que é: o Portas que há, o Portas que se arranja.
O episódio com Filipe Anacoreta Correia, ao que me dizem pessoa estimável, é denunciador das características totalitárias de um homem que apenas deseja o poder, e não desdenha a prática da insídia e da sacanice. Na lista das perfídias estão, entre outros, Marcelo Rebelo de Sousa e Manuel Monteiro.
A desdenhosa complacência com que aceitou o pedido de indulto do pobre Luís Nobre Guedes só não tem a marca de Kim Jong-Un porque este manda logo executar quem o contradiga, e Portas apenas o envia para o purgatório do esquecimento. A reunião do CDS-PP foi isto e nada mais.
«DN» de 15 Jan 14

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14.1.14

A gala do golo

Por Ferreira Fernandes
O inglês pode ser a língua mais mal falada do mundo. Mas o português é a língua mais falada com os pés do mundo. E ambas as frases são troféus. Ontem, na Gala da Fifa, foi a noite de Eusébio, Fernanda Lima, os dois Ronaldos, Dani Alves, Thiago Silva, Neymar, Pelé, Cafu e Amarildo... Falou-se português breve, mata-se Eusébio em 30 segundos, e português longo, Amarildo falou, falou... Ele substituíra Pelé (lesionado) no Mundial de 1962, e Nelson Rodrigues, exagerado como sempre, decretou: "O autor do Amarildo é Dostoievski." Pelo ouvido ontem, daquela vez o cronista pecou por defeito: Amarildo é mais Tolstoi, o de Anna Karenina e da Guerra e Paz - tem mais páginas. 
Boa de semiótica foi Fernanda Lima: depois do arrojado decote dourado no sorteio do Mundial, ela ontem não quis dar a entender que haveria duas bolas de ouro a distribuir. Tapou com uma trepadeira. A Mourinho, despeitado por não ter estado lá, não se lhe pergunte de que choro gostou mais, de Pelé ou de Cristiano Ronaldo: "Do verdadeiro", dirá, sugerindo Pelé. Depois vai desculpar-se dizendo que Pelé chora há mais tempo. Por outro lado, não se ataque Carlos Queiroz por não ter votado em Cristiano Ronaldo para melhor do ano. Ele tem todo direito a ter a sua opinião. O problema de Queiroz é outro: tem sempre a opinião errada. Já Joseph Blatter provou ontem que esteve sempre certo: Messi é, de fato, o mais brilhante.
«DN» de 14 Jan 13

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13.1.14

Humor abjeto com humor se paga

Por Ferreira Fernandes 
Em França, continua a campanha governamental contra um humorista que faz do ataque aos judeus o seu fundo de comércio. Ele é negro e muito popular entre os emigrantes de segunda geração, blacks (negros) e beurs (muçulmanos), e é também amigo da Frente Nacional, de Le Pen, de extrema-direita, partido a que as sondagens auguram um próximo grande sucesso. Valls (o ministro do Interior) tem proibido os espetáculos de Dieudonné (o humorista), que respondeu fazendo-se de vítima por lhe cancelarem o ganha-pão. Entretanto já estamos perante um facto inédito na sociedade francesa: a extrema-direita, que já engolira parte da base eleitoral operária dos comunistas, acaba de fazer a sua primeira aliança com os jovens muçulmanos radicais. O que os une é uma falsa crítica ao "sistema", onde "o judeu" dominaria a banca e as televisões... - a Europa já pagou caro esse discurso, mas é próprio dos fantasmas ressuscitarem. Como símbolo, Dieudonné popularizou a quenelle, gesto a meio caminho da saudação nazi - todo um programa... Se a ação governamental tem sido desajeitada, as mordeduras de Dieudonné têm sido curadas com pelo do mesmo cão: tem havido notáveis sketches de humoristas. O meu preferido foi o de Élie Semoun, um judeu companheiro de Dieudonné durante 15 anos de digressões. O registo de Semoun foi o de um tipo ferido pelo ruir moral de um amigo: a superioridade do humor triste sobre o humor abjeto...
"DN" de 13 Jan 14

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12.1.14

Olha, o Álvaro não foi por aí...

Por Ferreira Fernandes
Álvaro Santos Pereira, ex-ministro da Economia, passou recentemente pelo Governo com a discrição que é a sina dos independentes neste País de partidos-agências de emprego. No começo até foi bastante comentado: vinha de dar aulas numa universidade de um lá fora moderno, Vancouver (Canadá), e tinha uma pronúncia que nos habituámos a emprestar a regiões portuguesas com muitos seminários. Essa aparente contradição nos termos foi meio caminho andado para chamar a atenção. Nos primeiros dias de ministério - uns gostaram, outros não, mas todos se surpreenderam -, ele convidou o pessoal a tratá-lo por "Álvaro". Modernice fiteira ou método de trabalho eficaz, não ficámos a saber porque cedo lhe fizeram a cama. Ele saiu em julho passado, mas não lhe calhou a habitual sinecura reservada aos ex-ministros que se sacrificaram pela pátria (eu já disse que ele é independente?). Agora, soube-se que Álvaro Santos Pereira vai para um importante posto na OCDE, em Paris. Ah, tardaram mas lá encaixaram o homem... Pois não foi assim! Sem emprego, ele não foi cobrar favores e arregimentar cunhas mas clicou no site da OCDE, mais precisamente na página "job vacancies", vagas de emprego. Candidatou-se, fez concurso e lá está. Que estranha forma de um ex-ministro arranjar emprego! Até apetece lançar uma frase de desprezo a este emigras: saiu de Vancouver, mas Vancouver não saiu dele...
«DN» de 12 Jan 14

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Luz - Barcelona, cruzamento de avenidas

Fotografias de António Barreto- APPh

Clicar na imagem para a ampliar
É o mesmo cruzamento que já revelei em “posts” anteriores. Além de não ter chuva, este tem uns curiosos adornos arbustivos na entrada do hotel. (2012)

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Empadão de bacalhau com broa de milho, alho e coentro

Por A. M. Galopim de Carvalho
2 postas de bacalhau do lombo
500 g de broa de milho bem cozida
2 cebolas
6 a 8 dentes de alho
1 bom molho de coentros
1/2 pimento vermelho
azeite q.b. 
piri piri a gosto

No 1-2-3, esmigalhe grosseiramente a broa com os dentes de alho e os coentros picados.
Amoleça a cebola em azeite, juntamente com o piri piri (facultativo), e, quase no fim desta operação, acrescente o pimento vermelho cortado às tiras finas. Coza o bacalhau, limpe-o de peles e espinhas, lasque-o e junte-o à cebolada. Numa assadeira, faça uma cama com metade do preparado da broa, borrife com a água da cozedura e regue com um fio de azeite a gosto. Sobre ela, disponha a mistura do bacalhau com a cebolada e cubra tudo com a outra metade do referido preparado. 
Borrife com água da cozedura do bacalhau, regue com mais um fio de azeite, aperte bem com as mãos e cubra com ovo batido. Enfeite com azeitonas pretas e leve ao forno, a 180ºC, durante 20 a 30 minutos.
Bom apetite!!

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9.1.14

Sócrates, onde estavas no 23/7/66?

Por Ferreira Fernandes 
Intrujão, pantomineiro, aldrabão, farsolas, sicofanta, maltês, embusteiro, impostor, falso, peteiro, trapaceiro. Enfim, Sócrates. Sócrates, o Pinóquio. A última: perguntado sobre Eusébio, ele reconstruiu a História. Disse que no Portugal-Coreia do Norte, em 1966, saiu de casa, na Covilhã, já Portugal perdia e quando "ia para escola" ouvia os golos de Portugal. Chegado à escola, já Portugal ganhava. Relato vulgar. Só que, neste país de grande jornalismo de investigação e de sucessos de PJ que deixam boquiaberto o Mundo (o país onde os mentirosos não são coxos, são tetraplégicos), logo o intrujão, pantomineiro, aldrabão, farsolas, sicofanta, maltês, embusteiro, impostor, falso, peteiro, trapaceiro, enfim, o Pinócrates, foi apanhado: o dia do jogo, 23 de julho, calhou nas férias grandes, quando não havia aulas. E como entre nós as investigações são como as cerejas, logo outra profunda averiguação revelou: 23 de julho foi sábado! E sábado à tarde (um analista em Tempo Médio de Greenwich conseguiu a hora do começo do jogo: 15.00)! Eh,eh,eh, o gabiru ficou cercado pela verdade dos factos... Mas, vão ver, o manhoso vai escapar como de costume: logo aparecerá um colega a dizer que os garotos de oito anos na Covilhã se reuniam no pátio da escola, até aos sábados e nas férias. Malandro, o Pinócrates, por isso disse que "ia para a escola", não "para as aulas"... Sempre com esquemas e álibis. Mas não é isto prova de farsante?! 
«DN» de 9 Jan 14

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Apontamentos de Lisboa

O Código da Estrada deixou de exigir aos ciclistas que utilizem as ciclovias (quando estas existam, claro). Em compensação, reforça a interdição de circularem nos passeios (a excepção são as crianças até 10 anos de idade). Mas, por cá, cada um cumpre só a parte da lei que lhe interessa... e os peões fazem o mesmo.

A democracia, a crise e o futuro

Por C. Barroco Esperança
Há quem, em nome da democracia, condene as greves, abomine as reivindicações e se conforme com o mero exercício legal da liberdade de expressão, a diferença substancial que, por enquanto, ainda nos separa da ditadura. 
 O exemplo vem do presidente da República, a apelar ao diálogo, ele que tanto se esforça por garantir todas as medidas da agenda reacionária do seu Governo e que, para o País, se tornou o problema e não a solução. O apelo de Cavaco, ao consenso entre democratas e inimigos da democracia, levam-no a ser o arauto da comemoração da Revolução que tem atravessada. Deverá fazê-lo em recinto fechado, com direito de admissão, enquanto o povo sairá à rua, em boa companhia, com os militares que a fizeram e os cidadãos que nela se reveem. Os quarenta anos de Abril servirão para separar as águas. (...)
Texto integral [aqui]

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8.1.14

A moeda da minha avó

Por Baptista-Bastos
Dentro de seis dias vou à China. Agora, subo a colina da Ajuda afim de me despedir da minha avó. Faço-o sempre que viajo e, invariavelmente, ela recomenda: "Cuidado com o avião." É uma avó muito bela: pequena, seca, teias de rugas que se entrecruzam, só osso, sofrimento e coragem. Quando fiquei sem mãe ela descia ao bairro da cidade onde o meu pai e eu vivíamos, para verificar se estava tudo bem. "Comes bifes?, bebes leite?", perguntava repetidamente. Vou no Volkswagen, série 18, com dois óculos na retaguarda, prestações mensais de 10 escudos, o carro traqueja, estou feliz, talvez porque seja a quadra das festas, talvez porque é o meu primeiro carro, porque vou viajar e porque vou ver a minha avó. Talvez isso tudo.
O carro não dispõe de mudanças automáticas, adquiri-o em segunda mão, tenho dificuldade em mudar de velocidade, o motor regouga, vou fazer 24 anos, e sou o senhor do mundo. China, Cuba, a palavra revolução sempre me refulgiu no prestígio que comporta. Ainda hoje. E os nomes que a emolduram são os nomes de laços inalteráveis, mesmo que tudo depois se contorça e desmorone. Mao Tse-tung e Chu En-lai, Fidel Castro e Camilo Cienfuegos. Fidel, na Sierra Maestra, a ler L"esprit des Lois, de Montesquieu. Mao e a Grande Marcha. Tudo isto poderá ser esquecido?
O jornal onde trabalho conseguiu que viajasse para lá de Macau. "Escreve, sobretudo, o que sentires, não apenas o que vejas", recomendou-me o chefe da Redacção. Subo a colina da Ajuda, e a felicidade transborda de mim. Li os livros de Claude Roy e de Malaparte, e os impressionantes relatos dos padres jesuítas que chegaram além do sítio aonde vou. E levo comigo a Bíblia, oferta de um tipógrafo anarquista, Eurico Ventura, que me ensinou a transcendência do homem e a grandeza daquilo que desconhecemos.
Uma vez, para tranquilizar a minha avó, disse-lhe que ia viajar, sim, mas desta vez de barco. Aflita, respondeu-me: "E se um avião cai em cima do barco?" Sorrio, no interior do Volkswagen, comovido com a genuinidade de uma mulher que passou por tudo o que de áspero a vida tem para oferecer e nunca perdeu a candura nem a capacidade de se espantar.
Reparo, agora, a meio da calçada, que na leitaria do Zenida montaram um rectângulo e que numerosas luzes coloridas iluminam o estabelecimento. Surpreendente para quem como o Zenida é um unhas-de-fome, e aquele gasto de electricidade poderia parecer-lhe desnecessário por supérfluo. Ocasionalmente, os ventos do Norte pareciam transfigurar a colina, e o palácio alargava as sombras temerosas. Já não há esses ventos, é estranho como tudo muda, penso agora ao pensar na minha avó, ao chegar junto dela, engelhada e frágil. Olha-me, beijo-a, pega-me na mão, coloca na palma um objecto redondo, uma moeda de 5 escudos. "É para a tua viagem." Ainda tenho a moeda. Está aqui: veja-a.
Tudo isto aconteceu?
«DN» de 8 Jan 14

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Apontamentos de Lisboa

31 de Dezembro de 2013, elevador de Santa Justa
Um grupo de turistas prepara-se para seguir a indicação da seta que se vê à direita... e subir! Alguns parecem interpretar esse sinal como "olhe para cima, e não para o chão" - onde o lixo se acumula(va), qual ex libris dessa época...