31.7.13

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Mentiu! Não menti! V. Ex.ª é que mentiu!

Por Ferreira Fernandes
O ESCRUTÍNIO - palavra grave, que quer dizer exame minucioso - a que são sujeitos os maquinistas e os motoristas envolvidos em desastres deveria ser estendido a outras áreas sinistradas da sociedade. 
As primeiras palavras do maquinista do acidente galego (79 mortos) foram: "Dei cabo de tudo!" Mas, apesar de soar a confissão, isso não desviou o inquérito da caixa negra. O essencial que vai ficar no relatório final são factos: a que velocidade ia o comboio e a quanto devia ir? E para rebater o maquinista deverá usar factos: a inexistência de tal ou tal tipo de travões, o traçado da via... 
Já o condutor do autocarro italiano (38 mortos) não falou, foi uma das vítimas mortais. Mas de pouco interessariam as suas palavras a quente, porque a responsabilidade responderá a factos. Que velocidade? Os travões falharam?... 
E no choque frontal entre os dois comboios suíços (um morto), os investigadores também privilegiam um facto: uma sinalização luminosa não foi respeitada. 
Enfim, a causa dos três acidentes vai ser julgada sobre factos. Esse correto método de escrutinar maquinistas e motoristas poderia, digo eu, ser estendida a uma classe que agarra o volante da sociedade a pretexto de lá chegar por escrutínio (relembro, quer dizer exame minucioso). Essa classe, suspeito eu, pode ocasionar maiores tragédias do que os 118 mortos acima contabilizados. Porém, essa classe brinca com palavras. Mentiste! Não menti nada! Mentiste, mentiste...
«DN» de 31 Jul 13

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Apontamentos de Lisboa

 Av. da Liberdade
 Ribeira das Naus
 Terreiro do Paço
 Bairro de S. Miguel
 Av. Almirante Reis
Av. da Liberdade
As fotos foram tiradas nos últimos dias (a maioria delas ontem mesmo)

O Papa

Por Baptista-Bastos
A VISITA do Papa Francisco ao Brasil, passada a euforia inicial, poderá, acaso, suscitar alguma reflexão sobre as consequências do acto. Aquele país, o maior, católico, da América Latina, perdeu, nas últimas décadas, mais de 40 por cento dos seus fiéis, em favor de outras confissões e crenças. A perseguição de João Paulo II e de Ratzinger à Teologia da Libertação, que propunha uma Igreja do homem e não, exclusivamente, do divino, do dogma e da obediência, pode ser uma das causas desse cisma. O ser humano tem necessidade de transcendência, e o mundo actual, com o desenvolvimento do capitalismo até capítulos violentíssimos, afastou-o do sagrado e dos laços sociais que o justificam. O Vaticano poucas vezes se refere, criticamente, a este estádio do "sistema", que arrasta consigo um cortejo horroroso de miséria, opressão e terror. E a Igreja portuguesa tem-lhe seguido os passos do silêncio.
O Concílio Vaticano II abriu uma luz no hermetismo canónico e o papa João XXIII reergueu os valores de uma Igreja soterrada com a sua própria essência. É uma época fascinante a vários títulos, sobretudo pela discussão aberta que propõe e estimula.
A festa durou pouco. João Paulo II e Bento VI "normalizaram" o que poderia ser considerado apostasia. São dois reaccionários, um dos quais perigosíssimo, por extremamente culto (Ratzinger), que pretendem, e conseguem, comprimir o tempo, de um modo quase patogénico, promovendo a capacidade de cegueira do grupo, que se define como a rejeição do conhecimento e a repulsa pela dissidência. Seja: a servidão em elevado grau.
Este Papa, o seu discurso e a sua conduta parecem desejar outro modo de ser Igreja, recuperando a expressão "revolucionário" para o trânsito das ideias comuns, como necessidade e como urgência. E di-lo e fá-lo com a simplicidade de quem ainda acredita na força de um humanismo redentor. Devo dizer aos meus Dilectos que este Francisco redespertou-me ressonâncias antigas, como as da reflexão colectiva e da releitura daqueles, como Bertrand Russell (Por Que não Sou Cristão), cujo ateísmo ou agnosticismo não dificultou a pesquisa do sagrado para o reencontro com a própria condição.
Claro que há uma diferenciação de percursos, o que não pode, de maneira alguma, impedir-me de seguir o de este homem que tanto entusiasmo e efusão está a despertar. Há dias, na SIC Notícias, ouvi o franciscano frei Fernando Ventura discretear sobre a natureza essencial do que nos une, sobretudo nas dissemelhanças. É esse lado humano, imperfeito e deformado, essa acumulação de opostos, que garante a alma dos valores, e nos permite questionar sobre o Bem e o Mal, e revelar a qualidade muito pouco cristã de certos políticos portugueses, interrogando-nos sobre se o verdadeiro horizonte estará, mesmo, nessa revolução de que o Papa Francisco falou, nas praias de Copacabana?
«DN» de 31 Jul 13

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30.7.13

Sobre o Exame Nacional de Biologia e Geologia

Por A. M. Galopim de Carvalho
A PROPÓSITO da situação pouco edificante decorrente dos erros, incongruências e imprecisões detectados no questionário de geologia do Exame Nacional de Biologia e Geologia do passado dia 18 de Junho e denunciados publicamente, parece-me oportuno deixar aqui algumas reflexões, síntese repetitiva das muitas vindas a público, expendidas ao longo de décadas, por diversos elementos da comunidade dos geólogos, na qual me incluo, e que sou levado a concluir, continuam a não despertar as desejáveis atenção e preocupação dos responsáveis. 
O caso do referido exame, aberrante e lamentável, questiona, não só a competência do ou dos que, ao serviço do Ministério da Educação, elaboraram o dito questionário, mas também e sobretudo, o bom nome da respectiva hierarquia.  (...)
Texto integral [aqui]

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Papa Francisco não mordeu um cão

Por Ferreira Fernandes
DIZEM os manuais de jornalismo: "Se um cão morde um bispo, não é notícia; mas se um bispo morde um cão, já é." Depende... É verdade que ao ver o velho guarda-livros, no regresso a casa, agarrado à sua pasta, nem damos por ele. Só o poeta Drummond de Andrade via a enormidade das coisas simples ("Nunca me esquecerei que no meio do caminho/ tinha uma pedra..."). Mas, às vezes, também a nós o que é normal nos deveria espantar mais. Não espantando, não houve notícia fotográfica - que merecia ser de página inteira e primeira - do velho homem de bata branca agarrado à sua pasta preta, na partida para o Brasil e no regresso a casa. É, no meio do caminho tinha um papa de pasta - e as manchetes não deram. Para salvar a honra do convento, no sábado, a jornalista Ana Gaspar contou no Jornal de Notícias: "Português cruza-se com o Papa Francisco a caminho da casa de banho." No Rio, o João Silveira ia à casa de banho, passa por uma sala, vê o Papa rodeado de gente, entra e fala com ele. Escreveu o jovem no Facebook: "O Papa está mesmo atento ao que dizemos, parece que somos a única pessoa na sala." Lá está, um jovem ir à casa de banho e um papa rodeado de gente poderão ser o género de banalidade não noticiável. Mas são ótimo pedestal para esta notícia que merece estátua: um papa que fala com a gente como se fosse gente. O Papa Francisco carrega a sua pasta e fala como gente. Reparem na gentileza dele: nem precisou de morder um cão. 
«DN» de 30 Jul 13

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29.7.13

Mais 4 anitos...

Ver [aqui]

Desastre e… milagre?

Por Antunes Ferreira
DA TRAGÉDIA de Santiago de Compostela – em que morreram pelo menos 80 pessoas, no descarrilamento do AVE, o comboio de alta velocidade espanhol – quero aqui salientar dois aspectos. Mas, primeiramente há que lamentar a perda de tantas vítimas: de acordo com as últimas informações oficiais teria havido, para além das vítimas mortais, quase 170 feridos, dos quais mais de 90 deram entrada em hospitais, e 35 estavam em estado crítico. É um daqueles acontecimentos que não se pode pautar pelas estatísticas apenas. No entanto, informou-se que fora o pior pelo menos nos últimos 40 anos, no que toca ao transporte ferroviário em Espanha. 
O primeiro contempla o maquinista, Francisco José Garzón, que se encontra preso, e já foi constituído arguido pelo crime de homicídio por negligência. Para a sua primeira audição, Garzón terá dispensado o acompanhamento por um psicólogo. De resto, já tinha reconhecido que seguia com excesso de velocidade. Isto é, estupidamente exagerada. Na curva fatídica que se sucede a um túnel, mais precisamente o de Angrois já próximo da cidade dos Caminhos, ele conduzia o comboio a cerda de 190 quilómetros à hora, quando a velocidade máxima naquele local era de 80. 
Há, portanto, que considerar o procedimento do condutor que, no mínimo, foi considerado criminoso. Mas, e de acordo com o que a comunicação social referiu, ele era um amante da velocidade, tendo-se há uns tempos vangloriado através do Facebook do que conseguia alcançar, publicando inclusive uma foto tirada por ele próprio incidindo sobre o velocímetro que marcava 200! Excesso de confiança, num homem que era maquinista há cerca de 30 anos? Não, excesso de irresponsabilidade, ignóbil, incrível, criminosa. Soube-se, entretanto, que Garzón pode sofrer uma pena de 12 anos de prisão. O que é manifestamente pouco. Mas, as leis… 
Uma testemunha implacável, ainda que muda, registou a ocorrência de modo impressionante: uma câmara de vigilância e controle da linha revelou o momento em que o AVE descarrilou! Como se sabe, a sigla significa Alta Velocidad Española, e é um motivo de orgulho para o país nosso vizinho. Os comboios ligam as principais cidades de Espanha; o acidentado vinha de Madrid. As viagens são excelentes (já o comprovei pessoalmente). Porém, esta teve a assinala-la pela negativa o tremendo descarrilamento. ++Em segundo lugar: viajavam a bordo das dez carruagens mais de 200 passageiros, naturalmente homens, mulheres, idosos e crianças. O eterno duelo entre a vida e a morte salda-se sempre pela vitória da segunda. Não há volta a dar. Ela é, infelizmente, a única coisa que temos certa – na vida. Pois bem, entre os que sobreviveram à espantosa ocorrência figurava uma família galego-venezuelana de ascendência catalã. 
Constituíam-na Daniel Castro Pinzón, de 34 anos de idade, sua mulher Yesica Medina Castaé, de 32 anos, o filho mais velho, de sete anos e a bebé de mês e meio. Quis a felicidade e a sorte que tivessem escapado do matadouro que foi a catástrofe ferroviária. Foram levados para o Hospital Clínico de Santiago, onde os clínicos constataram que se encontravam bem. Bem, naturalmente, significa que se tinham salvado e, ao que parece sem grandes mazelas.
"É um milagre que não lhes tenha acontecido nada" disse a avó, citada pelo diário El Universal. Igualmente venezuelana de origem catalã, Ana Maria Castaé, 60 anos, que reside desde há três anos em Ferrol, Galiza, fora avisada pela polícia que os seus familiares tinham escapado do inferno constituído pelos materiais metálicos retorcidos e encavalitados, pelas chamas, pelos gritos dos sinistrados, pelo drama pungente, enfim.
Milagre ou não, o facto incontroverso é que os Castaé nunca saberão a que deveram, ou a quem deveram a salvação. Há mistérios que não têm explicação por mais que se matute neles.

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Ladrões de casaca como já não se fazem

Por Ferreira Fernandes
UM LADRÃO entrou ontem no Carlton, o mítico "palace" na Croisette, em Cannes, e roubou 40 milhões de euros em diamantes. Nenhum tiro ou violência. O espetacular roubo junta-se a dois outros, também de joias, durante o Festival de Cinema de Cannes, em maio. Podemos, pois, meu caro Watson, dizer que estamos perante o crime em que as câmaras de vigilância deixaram o mais longo testemunho: 106 minutos! Falo, claro, do filme Ladrão de Casaca, de Alfred Hitchcock. Em 1955, Cary Grant vivia na Riviera francesa, reformado de cat burglar, isto é, de ladrão de joias com classe, só mãozinhas e sedução. Acontece que uma vaga de roubos, como a atual, levou a polícia a incomodá-lo. Cary Grant (aos 50, ele fazia de 35 anos e elas pelavam-se por ser enganadas) serve-se então de uma rica herdeira, Grace Kelly (com quarto no Carlton), para desmascarar os novos ladrões. Há uma cena que não interessa ao meu relatório de polícia, mas conto na mesma: "Queres perna ou peito?", pergunta Grace a Cary, durante um piquenique, e ele: "Diz tu!" O diálogo, que aparece no filme, não vinha no guião, foi improviso dos dois... 
Bom, voltando aos colares voadores de há quase 60 anos, era uma mulher que queria deitar as culpas para cima de Cary Grant. É possível que ontem tivesse sido mesmo um remake: o ladrão tinha uma badana a esconder cara e cabeleira. Em todo o caso, entre tantos roubos da alta finança, saúdo a volta da verdadeira iniciativa privada.
"DN" de 29 Jul 13

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28.7.13

Luz - Boston Public Library

Fotografias de António BarretoAPPh

Clicar na imagem para a ampliar
Cerca de um ou dois meses antes do ataque à bomba contra os corredores e espectadores da Maratona de Boston. Uma semana depois da enorme tempestade que se abateu na região. Ainda as ruas estavam quase desertas de pessoas e carros, mas cheias de neve gelada! A Biblioteca Pública de Boston é, há muitos anos, um das minhas favoritas! Estive lá pela primeira vez há trinta anos. Tem dois edifícios, um antigo e original, outro moderno e recente. No último, onde é tirada esta fotografia, estão sempre dezenas ou centenas de pessoas a consultar livros e jornais, CD e DVD, computadores e televisões… Muitas salas são de total acesso livre, sem identificação nem registo. Eu próprio passeei-me por estas salas, podendo mesmo fotografar, sem ser incomodado nem assediado por contínuos! As estantes, nesta parte da biblioteca, são de acesso directo e livre, sem catálogo nem requisição! Esta imagem traduz o sossego e a tranquilidade do ambiente de trabalho. Os atentados terroristas ocorreram em frente a esta Biblioteca! A meia dúzia de metros!

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Em defesa de Maria Luís Albuquerque

Por Ferreira Fernandes
ACHO a polémica sobre os contratos schweppes muito pouco tónica. Ao contrário da ginger ale, que parece álcool, sabe a álcool, mas não é alcoólica, os contratos schweppes parecem e sabem a chicana, e são. Dito isto, quero falar sobre Maria Luís Albuquerque (MLA). Não sobre os tais contratos - embora também tenha havido schweppes laranja (há anúncios!) -, mas sobre a questão diáfana da mentira. Como soubemos (oh quanto!) ao longo destas semanas, MLA disse no Parlamento que nos dossiers de passagem de poderes ela nada viu dos tais contratos. E, mesmo depois de apareceram várias provas de que, afinal, sabia alguma coisa, ela insiste que não mentiu. Aqui chegados, lembro Bill Clinton, que, sob juramento, declarou que nunca teve "relações sexuais" com Monica Lewinsky (e, de facto, biblicamente aquilo que fez com ela não faz bebés). Trago o velho Bill para lembrar que na política (ao contrário do que disse um tolo), o que não é dito exatamente, por mais que pareça, não é. MLA pareceu dizer no Parlamento que nada sabia daqueles contratos? Pareceu. Mas não foi isso que disse. Ela disse o que disse: que nos tais dossiers não havia nada, niente, kaput dos contratos. E ponto. Mal seria que no meio duma política catastrófica - em factos, números e vidas - andássemos a caçar quem se exprime dubitativamente, como, aliás, todos se expressam.
"DN" de 28 Jul 13

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Neptunistas, vulcanistas e plutonistas

3ª parte
Por A. M. Galopim de Carvalho
NÃO OBSTANTE as grandes divergências que os separavam, vulcanistas e neptunistas convergiam num ponto: o granito era para ambos uma rocha primordial, isto é, nenhuma outra existira antes dele. Esta concepção, errónea, foi denunciada por Déodat de Dolomieu (1750-1801), lembrado como um dos defensores da origem magmática desta rocha. Como se podia constatar no terreno, em muitos exemplos conhecidos, este ilustre geólogo francês provou que o granito atravessava os estratos de rochas sedimentares sobrejacentes, sendo, portanto, inquestionavelmente, posterior a estas, aproximando-se, assim, das ideias de Hutton. (...)
Texto integral aqui

27.7.13

Cotação do mexilhão continua a descer

Por Ferreira Fernandes 
ANTÓNIO, já no fim da picada, vai a um desses programas de TV em forma de ombro onde se apoiar. Fátima, a apresentadora, passa-lhe a mão pelos cabelos. É tudo metáforas, António até é careca, mas temos ali um desses momentos que substituem as conversas antigas entre vizinhos: um lamenta-se, outro escuta. Com um porém: agora, quem escuta tem contrato gordo, tão mais gordo quanto os Antónios convençam. Esse convencimento mede-se, chama-se audiências. Ora, o António daquela tarde (15 de julho, TVI) diz que teve três ourivesarias, ontem; nenhuma, hoje. Lei: a felicidade que desanda vale mais no mercado da piedade do que a miséria sempre vivida. O António diz que lhe morreu a família inteira. Outra lei: impressiona mais a solidão vivida por quem já foi feliz. E, sobretudo, o António chora. 
Acabou o programa. Que ganhou o António? Talvez uma sandes, duvido que um táxi de volta ao seu lar dos sem-abrigo. O que ganhou a Fátima? Bem. Quando não ganhar bem as páginas de jornais di-lo-ão. 
Nem passaram 15 dias, e António volta à popularidade. Parece que em vez de três ourivesarias só teve uma, em vez da família morta, só lhe morreu uma filha. De confirmado: só é velho, só é solitário, só é sem-abrigo. Só. O resto são lágrimas ilegítimas. Indignada por a terem aldrabado, Fátima diz: "Agora o senhor terá de responder à justiça." Digo eu à Fátima: não cuspa na sopa. Sobretudo quando ela nos engorda e não nos custa a ponta de um corno. 
"DN" de 27 Jul 13

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26.7.13

Mais um que vai ter de lutar por emprego

Por Ferreira Fernandes 
O BRITÂNICO Jorge Alexandre Luís, que acaba de vir ao mundo com tantas televisões à porta, para um dia arranjar emprego vai ter de esperar na fila onde já estão o seu pai e o seu avô. No dia seguinte ao nascimento, um tabloide londrino, com a sua tendência para dar falsas notícias, mudou o seu habitual nome - The Sun (O Sol) - e intitulou-se "The Son" ("O Filho"). Erro! O bebé não é "filho", coisa nenhuma. Nem, aliás, neto: é bisneto. Essa condição é que ele vai ter de resolver para um dia ser alguma coisa na vida e não só cortar fitas em exposições de crisântemos como o seu já referido avô, que continua, ainda hoje, a não ser mais do que a frase, "It"s a boy!" ("é um rapaz!"), com que agora se recebeu este bebé. 
Um jornal humorístico, o Private Eye, foi ao essencial e pôs só três palavras na primeira página: "Woman has baby", "Mulher tem bebé". Mais dilatação do colo do útero, menos dilatação, mais peso (8 libras e 6 onças), menos, foi isso o que se passou. Depois, é que o bebé começou a ter condições especiais para se preparar para a vida. Desde logo, teve a sorte de não ser filho da Luciana Abreu e do Djaló e deram-lhe nomes simples, Jorge, Alexandre, Luís, que o unem à sua gente do passado. É muito importante ser de famílias cultas, como a dos Windsor ou a da minha porteira, que pôs ao neto o nome Custódio, em homenagem a um tio querido e desaparecido. Que o Jorge Alexandre Luís seja digno desses cuidados e feliz.
"DN" de 26 Jul 13

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25.7.13

O campeão era 'gay'

Por Ferreira Fernandes
MORREU anteontem Emile Griffith, o boxeur. Eu tinha uma vaga lembrança, e antiga. Recorro ao New York Times para aclarar o morto. Exato, esse Griffith!, reconheci-o às primeiras linhas. Matou o adversário num combate para campeão mundial dos meios médios. Agora até posso ver o combate, há vídeo. Num sábado de 1962, o ringue do velho Madison Square Garden, em Nova Iorque, com transmissão televisiva. À esquerda, calções brancos, o campeão Kid Paret, cubano; à direita, calções negros, Griffith, o pretendente americano. Era o terceiro combate entre eles, em sucessivos trocas do cetro mundial. Agora, até ao 12.º round, a mesma partilha de poderio. Mas, eis que Griffith encosta o outro às cordas de um canto. Quem sou para contar, quando Norman Mailer estava, claro, na primeira fila? "O punho direito bate como um bastão de basebol demolindo uma abóbora." O vídeo confirma e permite o horror doentio da repetição... O árbitro agarra e afasta Griffith e Kid Paret desliza para o tapete - irá morrer dez dias depois no hospital. 
Durante algum tempo, a América discute o boxe e depois esquece. Griffith vai partir para outro combate... que afinal já começara. Antes de subirem ao ringue, Kid Paret lançara-lhe, desdenhoso: "Maricón!" Há muito que se dizia que Griffith era gay, e era. Numa biografia publicada em 2008, o velho boxeur resumiu os dois combates da sua vida."Matei um homem e fui desculpado, amei um homem e nunca me perdoaram."
"DN" de 25 Jul 13

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Eu bem avisei...

Por C. Barroco Esperança
EU BEM avisei… Será com estas palavras que este PR justificará a convocação de eleições antecipadas quando o Governo ora remodelado cair contra a sua vontade, interesse e compromissos. 
Com o Governo em que Portas substituiu Passos Coelho, nas decisões, não cairá a ética porque só cai o que está de pé, não se dissolverá o sentido de Estado porque já estava no estado líquido, não se arruinará a idoneidade porque estava omissa, apenas cairá a máscara de quem invocou princípios, rumo e projetos. (...)
Texto integral aqui

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24.7.13

Álvaro, ou a vingança é o prazer dos deuses

Por Ferreira Fernandes 
A BIOGRAFIA do Álvaro, o benemérito que acabou com a II Depressão Mundial, chama-se The Master of Revenge (O Senhor da Vingança), é sobre o poder da mente, a economia e a massa folhada. Assinam o livro António Damásio, Paul Krugman e o chef catalão Ferran Adrià. O prefácio é de José Mourinho. Nascido em Viseu, em 1972, Álvaro foi ministro português por dois anos (2011-2013). Reagiu ao seu despedimento abrupto embarcando para o Dubai, de onde regressou com um cheque em branco do xeque Al Macktoum. Álvaro foi ao estádio do Belenenses, comprou o clube e desceu a pé para outro destino, num gesto que só mais tarde foi entendido. Entretanto, o Belenenses contratou Cristiano, Messi e Rooney e, em 2015, ganhou a Champions. Nessa noite europeia, o clube estreou o novo emblema: um pastel de Belém substituía a Cruz de Cristo. Só por isso, o Qatar também passou outro cheque em branco. Pela primeira vez a Champions foi transmitida pela CBS, NBC e Fox, como uma final da Super Bowl. A operação era global e hologramas projetados no relvado faziam publicidade aos Alvaro's pies, pastéis iguais aos de Belém, cujo segredo fora comprado no mesmo dia que o clube. Já havia contratos de distribuição com a Wal-Mart e o Yihaodian, o maior supermercado online na China. O slogan era: "O Alvaro's pie serve-se frio!" Também conhecidos por "vendetta cookies", eram muito apreciados nos países em conflito. Em cinco anos, Álvaro comprou a dívida portuguesa. 
"DN" de 14 Jul 13

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Apontamentos de Lisboa

Como, em Lisboa, os transportes públicos são acarinhados: 
Rua dos Fanqueiros, 19 Jul 13, ao fim da tarde. Um carro impede a passagem dos eléctricos (o que, por sua vez, dificulta a passagem dos autocarros), cujos passageiros acabam por sair. 
Fui até ao fim da rua, fiz o que tinha a fazer, e no regresso tudo continuava assim...

O cadáver que estrebucha

Por Baptista-Bastos 
PARA aonde vamos agora? A peregrina ideia do dr. Cavaco em criar o Compromisso de Salvação Nacional, expressão tão absurda quanto jerica, deu no que se esperava. E o resultado traduziu um modo de ver as coisas e de entender o mundo: imóvel, estático e extático. Sustentado por Belém, o dr. Passos Coelho, em Santa Maria da Feira, prometeu dias piores. Continuamos a não nos entender sobre o significado de expressões como História, movimento das ideias, conceitos de vida, de honra e de trabalho. O dr. Cavaco parecia aguardar que a tão falada ambiguidade de Seguro se traduzisse em pusilanimidade, numa espécie de fim sem fim que fizesse convergir duas ideologias, afinal não tão distantes uma da outra. Como se nada se questionasse, limitando tanto as doutrinas que todos concordassem com o tal "compromisso", carregando-o de um peso salvífico, que se opunha ao "pecado" no qual nos encontrávamos.
Não acredito na genuinidade nem na candura do dr. Cavaco. Admito mais a sua manha assaloiada, tantas vezes demonstrada e tantas vezes denunciada pelos factos. Em condições normais de cultura e de conhecimento ele nunca teria trepado a funções tão importantes na vida pública. Ou teria sido apeado logo-assim fossem reveladas as suas debilidades estruturais. É pior Presidente do que o foi Américo Thomaz.
Ao encenar este enternecedor "compromisso" sabia a soma: quais fossem as consequências, o Governo que aprova sairia do imbróglio, recauchutado ou não. Aceitaria Paulo Portas como este teria de aprovar Maria Luís Albuquerque e outros engulhos. A questão do carácter já se não coloca num Governo em que todos se olham de soslaio e rangem os dentes de raiva incontida. 
Seguro foi empurrado para uma solução, não direi radical, mas concordante com aquilo que vinha a dizer há semanas. Pessoalmente, talvez estivesse mais atinente a outros balbucios, mas alguém o avisou de que poderia ser o coveiro definitivo do PS. Manuel Alegre divulgou, no jornal I, que Seguro lhe garantira não assinar o acordo; Mário Soares advertiu-o de que fraccionaria o partido; e José Sócrates, na RTP, insistiu na "verticalidade" do sucessor. Além de que o actual secretário-geral do PS é um homem do "sistema", claramente moderado e discretamente conservador. Na entrevista à SIC prometeu o indevido, questionado pela excelente Ana Lourenço, cuja doçura esconde a astúcia de grande perguntadora. O homem parece estar já inebriado pelos perfumes do poder e não conseguiu acautelar as palavras, que o acorrentam a responsabilidades insanas. Porque não é preciso ser a pitonisa de Delfos para se adivinhar que Pedro Passos Coelho e os seus são cadáveres sem disso se aperceber, e estrebucham, causando mais pena do que repulsa. 
Continuo a perguntar e com perdão da enunciação feita: será António José Seguro o homem exacto para esta hora dramática da vida portuguesa?
"DN" de 24 Jul 13

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23.7.13

Apontamentos de Lisboa

O que é curioso, no caso de baixo, é que mais de metade dos cabos estão desligados...

Ainda as Selvagens

Por A. M. Galopim de Carvalho
NA SEMANA que passou, os portugueses foram bombardeados com a visita do Presidente da República à Reserva Natural das Ilhas Selvagens, criada em 1971. Estas muito nossas pontuações rochosas emergentes das águas do Atlântico, a cerca de 160 km a norte das Canárias, têm sido, de há muito, alvo da cobiça dos “nuestros hermanos y vecinos”, nesta Europa a 27, onde a solidariedade é palavra quase esquecida. É um conjunto de três pequenas ilhas ou ilhéus rodeados de baixios que, para além do seu muito interesse nos domínios da bio e da geodiversidade, fazem aumentar consideravelmente a Zona Económica Exclusiva de Portugal. (...) 
Texto integral [aqui]

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O Papa no Rio para manter Cristo rei

Por Ferreira Fernandes
AINDA no avião, disse aos jornalistas brasileiros: "Vocês já têm Deus brasileiro e ainda querem um papa?!" Brincadeira de quem joga em casa, mas o Papa Francisco sabe que está longe de poder levantar o cálice da vitória. 
O Brasil é a maior nação católica (123 milhões de fiéis), mas no país do futuro a tendência é que conta: se o Censo de 2010 deu 64,6 por cento de brasileiros católicos, o jornal O Globo, ontem, calculava os católicos, em 2030, abaixo de metade da população: 47 por cento. Ainda assim, acima do que são, já hoje, no estado que recebeu o Papa: só 45,8 por cento dos fluminenses (naturais do estado do Rio de Janeiro) se dizem fiéis da Igreja de Roma. Aliás, o Rio de Janeiro é o estado brasileiro com menos católicos. 
Dizia um célebre e já desaparecido filho da cidade: "Deus existe. Mas não é a full time" (Millôr Fernandes). Pelo menos na Cidade Maravilhosa, o Deus católico tem preguiçado. Ali, as igrejas evangélicas são quase um terço, bem acima da média nacional. 
O sucesso da receção ao Papa Francisco foi notório, ontem, mas isso pode não ser um índice fiável: "A visita do Papa é como construir um estádio de futebol em Brasília [capital e das raras cidades brasileiras pouco dadas ao futebol]", dizia também a O Globo um investigador. Que concluía: "Enche no jogo da Copa do Mundo, mas não tem público depois..." Imagem adequada na pátria de Neymar, ao receber um conterrâneo de Messi.
«DN» de 23 Jul 13

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O tempo do futuro?

Por Guilherme Valente 
TENHO, evidentemente consciência da gravidade da situação que estamos a viver. E no entanto... aconteceu-me aquilo que a minha formação e tudo que o que estamos a viver deveria tornar inimaginável que me acontecesse: passei a tarde de domingo com uns amigos, num convívio que se prolongou até cerca das 23H00, e… esqueci-me da comunicação do Presidente da República. Esquecimento que tem um óbvio, brutal significado. 
Nos países que não têm regimes democráticos, ou nos quais o mecanismo das eleições não permite realmente que o povo escolha, que mande os maus governantes para casa, mas em que foi emergindo uma classe média e uma juventude instruída, que domina os novos meios de comunicação, rebentou a contestação política e social. É o caso da Tunísia e do Egipto. 
No Brasil, com um regime democrático eleitoral, o protesto centra-se na corrupção das élites e no gasto sumptuário, desviado da prioridade de investimento na educação e na saúde. 
E em Portugal? 
Em Portugal alastrou e instala-se o sentimento, a evidência, quiçá, de que a democracia que temos funciona numa realidade cultural e petrificou numa realidade partidária que parecem tornar impossível a resolução dos problemas económicos e financeiros do País, garantir e aprofundar a liberdade.
Isto é, petrificou na existência e na instalação e domínio blindado do Estado por partidos autistas aos interesses do País, logo, por Governos que, em vez de servirem o interesse do povo que determinou a sua designação, reproduzem o que não pode deixar de ser visto como uma manifesta recorrente incompetência, irresponsabilidade, mentira, frequentemente ligadas à grande ou pequena corrupção, à incapacidade ou falta de vontade para as enfrentar. 
Tudo isto e o medo, o medo que a referência lamecha, muito «estado novo», ao «respeito devido às instituições», parece visar induzir. 
Uma situação cujas dramáticas manifestações tornam cada vez mais cívica e moralmente intolerável o alheamento ou a indiferença daqueles que materialmente não são, ou sentem não vir a ser, afectados por ela. 
Que fazer quando os que ocupam as instituições às quais caberia liderar o desenvolvimento do País e promover a liberdade as tornam em sede de obstáculo a esse desenvolvimento, de ameaça ao florescimento da liberdade?
Há excepções, claro, excepções de boas intenções, mas que rapidamente são vencidas ou desistem, são honrosas, mas quase não contam. 
Que mecanismos, de equilíbrio e controlo, será necessário conceber e lutar para impor? Mecanismos que enfrentem esta cultura e esta realidade partidária, que continuam a impedir a construção de um futuro finalmente autónomo e continuada e sustentadamente livre para os Portugueses? 
Será preciso inventar? Importar, sim, será preciso importar, mecanismos e atitudes. Mas também inventar, criar em função de uma realidade cultural nossa, para responder a mecanismos de identidade, a atitudes (ou vícios) muito próprios e persistentes.
Projecto que o circulo vicioso, a blindagem do sistema, imposta pela cumplicidade de todos os senhores de todos os partidos, parece tornar impossível realizar sem rupturas.
Realização que parece cada vez mais inatingível, nestes dias dramáticos que temos vivido e tudo indica se perpetuarão, dias que por isso mesmo se poderão tornar em dias da ira. 
Está a circular na net uma cópia do Diário da República referindo algo que sendo aparentemente irrelevante é evidência expressiva do despudor político habitual. Apesar do apregoadíssimo excesso de funcionários públicos, o Governo (quem no Governo?) acaba de contratar, de colocar na função pública, na carreira técnica, dois recém-licenciados, com currículo vulgaríssimo, aliás. Para quê? Para - imagine-se! - acompanhar as negociações com a troika. O que podemos fazer? 
Tudo a traduzir a indiferença chocante de quem sentirá ter absoluta impunidade, política e civil. A lembrar, não fora a formalidade, recorrentemente inútil, aliás, das eleições, a realidade de algumas sociedades latino-americanas.
Mas então, se é assim, porque não assistimos ainda em Portugal ao levantamento de protesto que se verifica no Brasil ou na Turquia, apesar de serem países com um crescimento económico significativo? 
Porque em Portugal a confortável situação económica das élites e um estado social - artificialmente sustentado com parte da dívida astronómica contraída (a outra levou-a a corrupção), têm «pago» a cumplicidade, o alheamento, o conformismo, a aceitação dos que poderiam revoltar-se. E enquanto o pau vai… 
Por outro lado, a crescente degradação da educação promovida irresponsavelmente pelos sucessivos governos nos últimos trinta anos, dando diplomas, mas semeando a ignorância, a indiferença cívica, o desinteresse político, o consumismo e a frivolidade (que a situação nas universidades, a resistência acéfala a uma exigência escolar mínima, as revindicações egoístas, documentam), privaram o país, na dimensão necessária, da juventude informada, crítica, generosa, inconformada e exigente que naqueles outros países esteve na origem e é uma componente liderante da mobilização social e da mudança política. 
Mas também em Portugal, num quadro de determinações que, curiosamente, se aproximam das do brasileiro e do turco, mas, porventura, também do egípcio (apesar das enormes diferenças, claro), também em Portugal parece inevitável que a degradação crescente da situação económica, o desemprego dos jovens (o fim da ilusão facilitista em que viveram durante todos estes anos de devastação educativa), a impossibilidade do sistema pôr fim à sua própria reprodução, isto é, por razões materiais, mas também por razões intelectuais e morais, parecem inevitáveis a explosão social e a contestação política que determinarão, enfim, a mudança da nossa endémica cultura, atitudes, realidade partidária e política.
Depois de tantas outras crises, resolvidas pela humilhação ou por soluções providênciais temporárias (comércio dos escravos, especiarias da Índia, oiro do Brasil, remessas dos emigrantes, dinheiro da Europa), crises que, por isso, não mudaram a cultura de dependência do Estado e de subserviência aos políticos, por ele e eles sempre enconrajada..., parece, parece, anunciar-se agora, induzida pela crise material e a humilhação nacional, a crise de consciência que, finalmente, fará dos súbditos cidadãos.

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22.7.13

Apontamentos de Lisboa

Comércio tradicional

Não, Sr. Ministro

Por Maria Filomena Mónica
É JULHO: chegou a época dos exames. O Ministro da Educação afirmou esta semana que a «razia» nas classificações não se devia às provas a que os alunos foram sujeitos, mas à sua falta de preparação (Público, 17. 7. 2013). Não, Sr. Ministro, isto não é verdade.
Por a minha neta primogénita ter sido sujeita ao exame do 12.º ano de História A, decidi passar uma vista de olhos pela prova. Além de ideológica, é completamente imbecil. O Grupo I, dedicado às «Transformações na Europa nas primeiras décadas do século XX», tinha dois documentos: um mapa com a Europa após a Primeira Guerra Mundial (onde figuravam os Estados que perderam território, os que os tinham adquirido e ainda os que haviam recuperado a sua independência) e uma reprodução de um quadro, O Vendedor de Fósforos, de Otto Dix, em que aparecia um mendigo sem pernas com uma dezena de caixas de fósforos numa bandeja. Ao aluno, pedia-se-lhe para identificar três – este número deve ser mágico, pois aparece em todas as perguntas – características do modernismo. Solicitava-se-lhe ainda que explicasse, «com base nos documentos 1 e 2», três problemas político-sociais vividos na Europa após a Primeira Guerra Mundial. A minha resposta teria sido: «Nos países que perderam territórios na Primeira Grande Guerra, passaram a existir vendedores de fósforos nas ruas». Que nota me teria dado o professor-classificador?
No Grupo II, «Da agonia do Estado Novo ao Portugal Democrático», apareciam 4 documentos. O prémio do mais aberrante vai para o 2, uma transcrição de extractos do debate televisivo, ocorrido a 6 de Novembro de 1975, entre Mário Soares e Álvaro Cunhal. Gostaria de saber como o examinador classificaria um aluno que tivesse escrito: «Apesar de o PS ser um partido de esquerda, que dizia pretender instaurar uma sociedade sem classes, quem tinha razão era Cunhal, visto que o Partido Comunista tem mostrado o seu apego às liberdades, pelo que podemos afirmar que os comunistas querem um Portugal democrático, enquanto o PS quer um regime de democracia apoiada pelos monopólios.» 
No tema de desenvolvimento, «Portugal: do 25 de Abril de 1974 ao início do século XXI», especificava-se que o aluno deveria integrar, além dos seus conhecimentos (sic), os dados disponíveis nos documentos de 1 a 4. Mais uma vez as respostas se prestam a uma classificação arbitrária. Aparecia um texto de Delors, atingindo aqui o exame as raias da propaganda. Eis a primeira pergunta: «Explique, a partir do documento, três dos factores que justificam a hegemonia dos EUA no final do século XX e início dos século XXI», seguida de: «Refira três das políticas que, segundo o autor [Delors], podem contribuir para ´construir uma Europa que tenha influência no mundo`». Mas que deseja o GAVE? Que os alunos demonstrem a sua capacidade para ter opiniões de café? Com milhares de adolescentes sujeitos a este tipo de provas espanta-me que nenhum pai tenha protestado. A educação dos rebentos deve vir em último lugar na sua lista de prioridades.
«Expresso» de 20 Jul 13

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Os pinta-paredes (66)

 Março 2013
Junho 2013
Imagens de uma cidade sem uma gota de auto-estima

Vindo da irrealidade Cavaco pousou ontem

Por Ferreira Fernandes
COMO dizia no sábado, no seu blog, o muito avisado José Medeiros Ferreira: "É preciso muita paciência para assistir às notícias sobre o malogro das negociações interpartidárias promovidas pelo PR como se fosse uma novidade." De facto, o malogro do acordo e o discurso de Cavaco de ontem estavam escritos nas estrelas. Na verdade, verdadinha, o discurso de Cavaco de ontem estava escrito no discurso de Cavaco do dia 10. O grémio dos comentadores nunca me há de desculpar eu ter aberto a minha crónica do dia 11, assim: "O Presidente lá deu o aval esperado, uma semana depois de ouvida tanta gente. Previsível, a situação política...." Deu o aval?! Mas então as palavras de Cavaco Silva não estraçalhavam o remodelado Governo PSD/CDS? Não introduziam a novidade de um PSD/CDS com acordo do PS? Não continham a genialidade de amarrar o PS com o rebuçado de eleições em 2014? Não - dizia eu a 11, o que o PR confirmou a 21. Mas dizia eu, admito agora, de forma bruta. Agi como aquele empata de um programa antigo da SIC que veio expor os segredos da magia. Foi injusto para um grémio que, diga o que se disser, vai a contracorrente da crise: na comentadoria política não há desemprego. Até os há sábios, como o Lobo Xavier, da Quadratura do Círculo, que há dias disse: "Quando se diz uma coisa fora da lógica, desconfio..." Foi dele que me servi quando vi o PR a esbracejar ideias absurdas. Disse-me: deixa-o pousar. Pousou ontem.
«DN» de 22 JUl 13

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21.7.13

Apontamentos de Lisboa

Lembram-se do temporal de 19 de Janeiro deste ano? Nesse dia, a árvore que estava aqui caiu;  estas fotos foram tiradas no dia 19 de Julho...

Luz - No pain, no gain, Barcelona

Fotografias de António BarretoAPPh

Clicar na imagem para a ampliar
Uma tradução livre poderá ser “nada se consegue sem sofrimento”. Ou qualquer coisa como “sem dor, não se ganha”. A divisa pertence a uma loja de jóias, pins, emblemas, distintivos, insígnias, crachats e colares, mas também da prática de piercing e de tattoo. E não faltam ajudantes de prazer, dispositivos SM, chibatinhas e outros artefactos com usos improváveis e não reconhecíveis à primeira vista. Ao fundo, à direita, as escadas levam a misteriosos pisos superiores e a estranhos laboratórios. Não se trata de um sex shop, em moda nos anos sessenta e setenta, mas sim destes shops muito mais modernos, mais atrevidos e muito menos focados no sexo. Saber em que estão realmente focados é mais difícil. Considerar que estes divertimentos e esta cultura são marginais é certamente perder de vista a realidade. Nas praias e na televisão, sobretudo no Verão, as classes médias, os profissionais liberais, os jovens gestores, os universitários, os artistas, os VIP e as celebridades que usam e praticam a tatuagem e o piercing estão muito longe de serem marginais e minoritários. (2012)

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O pecado sem perdão

Por Ferreira Fernandes
NÓS TRADUZIMOS o romance To Kill a Mockingbird como Por Favor, não Matem a Cotovia e não está na diferença do To Kill, matar, para o Por Favor, não Matem a maior dificuldade do título. O problema, mesmo, foi chamar cotovia a um mockingbird. A nossa cotovia europeia também canta ao raiar do dia, mas um mockingbird não é uma cotovia, é um pássaro americano para o qual não temos nome. A americana Harper Lee escreveu o livro em 1960 e a América vivia anos decisivos do fim legal do racismo. Ela escreveu um livro sobre uma vilória do Sul onde um negro, falsamente acusado de violação duma branca, é julgado. O negro será defendido por Atticus Finch, advogado branco e honesto, o pai da narradora. No começo do livro, Atticus oferece aos filhos uma espingarda de pressão de ar, e diz: "Podem matar todos os gaios, mas não um mockingbird." Porque um mockingbird vive só do canto e é o símbolo da inocência. A perda da inocência é o pecado sem perdão. O livro teve um sucesso extraordinário e Harper Lee esgotou-se no seu belo e único romance. Mas, periodicamente, a América reaparece-nos com os seus crimes raciais que não entendemos. Como esse da Florida, de um jovem negro morto e o seu assassino perdoado pelo tribunal. Os americanos podem dizer que não os entendemos porque não temos mockingbirds. Seja, mas desta vez o crime racial que não entendemos não é o cometido pelo tipo que deu o tiro, é o de o júri a inocentar um assassínio. 
«DN» de 21 Jul 13

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Neptunistas, vulcanistas e plutonistas

2ª parte
Por A. M. Galopim de Carvalho
ABRINDO um parêntesis na disputa neptunismo versus vulcanismo, importa recordar que, para as populações da Antiguidade, ribeirinhas do Mediterrâneo, as manifestações vulcânicas (e também os sismos) foram, desde sempre, os acontecimentos de natureza geológica que conheceram melhor, não nas suas causas, mas nos seus efeitos tantas vezes catastróficos. 
Empédocles de Agrigento (495-435 a. C.), médico e filósofo grego, admitia a existência de um fogo central que alimentava reservatórios pouco profundos que, por seu turno, asseguravam a actividade dos vulcões, antecipando, assim, o conceito de câmara magmática, hoje comprovado.(...)
Texto integral [aqui]

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20.7.13

Apontamentos de Lisboa

Neste exemplar de arte urbana, nem tudo o que parece é!
Uma boa parte é apenas sombra na parede...

E foi para isto que o País parou dez dias?

Por Ferreira Fernandes
AMIGOS mais levianos criticam-me por tratar aqui de assuntos demasiado profundos. É o caso, nos últimos dias, do Marreta, touro de um só corno que por duas vez fugiu para o maquis. Admito, até bebo nos clássicos para compreender o Marreta: sabiam que Séneca tem uma carta sobre "a fuga de si mesmo"? 
No entanto, é injusto dizer que não ligo a coisas mais levezinhas. Ainda no sábado passado, escrevi sobre a paródia, tão engraçada, de Cavaco ter parado o País só para fazer prova de vida. Escrevi: "[...] o PR falou. Podia ter puxado o tapete ao Governo, mas não o fez. Podia ter-lhe dado a bênção, e também não o fez. O que fez foi dizer hakuna matata..." Como veem, também sei apreciar quando um pândego lança propostas inverosímeis e, durante dias e dias, atira o País para o galheiro com soluções que não o eram. Como sei que não o eram? Comprei na mesma loja que me vendeu que o Sol se põe a poente. Daí ter escrito: "Hoje é sábado e estamos assim. Voltamos a falar no próximo sábado, 20 [hoje], dez dias depois do começo da inquietação, está bem? Então, quando não houver Governo PSD/CDS, com apoio do PS, nem governo presidenciável, mas, isso sim, o exatíssimo governo que havia na tarde do dia 10 [quando Cavaco desatou a propor coisas]", então, podemos ver que tudo isto era brincadeira... 
Repito, de vez em quando não me importo de escrever sobre paródias. Mas brincar também cansa. Daí voltar amiúde aos assuntos sérios: onde para o Marreta?
«DN» de 20 Jul 13

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Apontamentos de Lisboa

As 3 fotos de cima (tiradas no passado dia 9, na Praça de Londres) mostram a EMEL a dedicar-se a uma actividade muito útil: bloquear os carros que estacionam num posto de carregamento de carros eléctricos. Nada a objectar, portanto.
As 2 de baixo são apenas uma sugestão: a estação dos CTT da Av. dos EUA fechou há muito, mas mantém-se lá à porta o sinal de "proibição de paragem, excepto CTT". Já que estamos no Reino do Absurdo, que tal ir até lá e fazer cumprir a lei?

Um País de adivinha

Por Antunes Ferreira
QUAL É a diferença entre a sopa e a mulher? A Dona Otília tem uma frutaria, aliás bem recheada e abrangente, pois inclui naturalmente legumes diversos, mas também pequenas coisas que tornam a loja num pequeno 112: lacticínios, cervejas, águas e refrigerante, aperitivos, e etc., quando deles damos falta é a ela que recorremos. E foi precisamente a Senhora que me lançou o desafio.
Tive de raciocinar, antes de tentar responder, que a pergunta trazia água no bico ou seja, era um bico-de-obra. A Dona Otília olhava-me com um quanto de galhofa, outro tanto de expectativa. Confesso que ela é uma pessoa simpatiquíssima, brincalhona, com os pés bem assentes no chão e possui uma exploração agrícola onde cultiva árvores de fruto diversas e outros mimos. Com uma área de sete hectares, a comerciante é, portanto, pessoa avisada e previdente.
Falávamos da crise política, da posição do PS, das consequências que podiam ter as declarações de Mário Soares, de Manuel Alegre et aliud que pressagiavam confusão dentro dos socialistas, colocando mesmo a hipótese de uma cisão se o partido alinhasse em conclusões das reuniões a rês, sem respeitar a sua identidade e cedesse naquilo que levara para as conversações como questões essenciais defendidas pelos socialistas. Irrevogáveis?
Entrementes, o ministro Portas – de quê? Aparentemente dos Negócios Estrangeiros de que pedira a demissão, essa sim irrevogável? Ou por antecipação, de vice-primeiro-ministro, com as pastas mais significativas e importantes sob o seu comando bem como as negociações com a famigerada troika? Apetece dizer que das duas… três.
Entrementes, o ministro Portas, dizia eu, contactou na terça-feira o seu homólogo boliviano, David Choquehuanca, para emitir uma "palavra de reparação" do (des)Governo e admitir que o Presidente Evo Morales podia “ter razões de queixa" sobre os acontecimentos que decorreram no seu voo de Moscovo para La Paz. Tudo parece indicar que na capital da Bolívia se riram muito perante a anedota.
Na quinta-feira o clímax aconteceu na Assembleia da República onde o (ainda?) primeiro-ministro Coelho, no Parlamento e durante a discussão da moção de censura ao (des)Governo – que, como já se esperava, foi derrotada pelos deputados da (ainda?) coligação que o suporta – dirigindo-se à bancada socialista atirou uma boca: “É o momento de o PS mostrar que sabe assumir a responsabilidade de contribuir activamente para a resolução dos problemas nacionais e de ultrapassar as suas hesitações”. Implicitamente atacou António José Seguro, ainda que não referisse o nome do secretário-geral do Partido Socialista.
Passos, questionado por um deputado comunista sobre a remodelação abortada,  explicou que aquilo que fez foi "um reforço da coligação", chamando para o lugar de vice-primeiro-ministro o presidente do segundo partido da coligação. "E é isso que concretizarei assim que o Presidente da República entender que o esforço que convidou os três partidos a fazer para realizarem um compromisso de futuro possa ter encontrado uma solução positiva".
Por outro lado, António Costa lançou a sua candidatura à presidência da Câmara Municipal de Lisboa, perante uma assembleia em que se destacavam figuras “pesadas” do PS, como Soares, Alegre, Almeida Santos, Maria de Jesus, prometendo que continuaria a governar a capital em “contra-ciclo”. E enunciou os resultados positivos e importantes que já alcançara no seu primeiro mandato do cargo a que se candidatava.
Enquanto tudo isso acontecia, Cavaco, de visita às Selvagens (que viram o seu nome justificado pela presença de tão ilustres personagens) garantiu ainda na quinta-feira iria aceitar a decisão dos partidos "qualquer que ela seja" e alertou que a "pressa pode ser inimiga do bom" nas conversações com vista a um acordo de 'salvação nacional'. " À hora em que escrevo esta crónica, ainda nada se sabia sobre o veredicto do alegado Presidente da República. Sabia-se sim que as negociações entre PSD, CDS-PP e PS continuavam até?...
Aqui chegado, devem os leitores estar a perguntar-se o que tem a ver isto tudo com a pergunta que a Dona Otília fez ao escrevinhador. Então, e dando de barato que a interrogação tem todo o sentido, vamos à decifração do imbróglio. A sopa, quando se mexe, arrefece; a mulher, quando se lhe mexe, aquece. Assim vai a adivinha que é este País…

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19.7.13

Excesso de "confiança"

De entre as inúmeras formas de tratamento usadas em Portugal, o "você" é o que está mais próximo do "tu". Num acesso de familiaridade, o BES trata os possíveis clientes dessas duas maneiras... e num mesmo anúncio!

Quem, primeiro: acordo ou Marreta?

Por Ferreira Fernandes
VOLTO ao touro frio, o Marreta, que pesa 500 quilos e tem um só corno. Apesar disso, há dias que ninguém dá com ele nas matas de Bustos, Aveiro. Antes, em maio, andou uma semana nos montes de Outeiro, em Viana, incógnito. Então, deve ter posto um traje de lavradeira e arrecadas de ouro nas orelhas para passar despercebido. Agora, se calhar, disfarça a comer ovos moles... 
O ponto a que eu quero chegar é que em Portugal é sempre difícil dar com alguma coisa. Se isso é com um touro, o que será com o acordo! Dir-me-ão, não é bem um touro, é um boi galego arraçado e tal... Justamente, o acordo também não é bem um acordo. Pró CDS e PSD é só para não parecer que fazem frente ao Presidente, para o PS é só para não parecer recusar o diálogo... Daí a minha simpatia pelo magote de jornalistas, ontem, à porta do Largo do Caldas, onde o acordo (e até talvez o não acordo) se escondia. Mas, viste-lo! Já nem se esperava algo com 500 quilos, um só corno e arrecadas, bastava uma palavrinha, mas nada... Saem delegações, entram delegações, e nem um indício. A dado passo, porém, um da casa, o ministro Mota Soares, que entrava, voltou para revelar aos jornalistas o seguinte: "Obrigado, por terem vindo." E entrou. Não temos acordo, mas estamos de acordo: somos um povo de bem-educados. 
Resumindo, o único que tem expectativas altas já disse: "Não pode ser um acordozinho!" Mas isso, em tamanho, vale o que vale, tendo sido Marques Mendes a dizê-lo. 
«DN» de 19 Jul 13

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18.7.13

Os pinta-paredes (65)

 5 Jul 13
18 Jul 13
Mais uma vez aqui se deixa uma saudação aos responsáveis desta agência do Montepio que mandam, de imediato, limpar os gatafunhos que aparecem nas suas instalações.

A segunda revolta do 'Marreta'

Por Ferreira Fernandes
MARRETAS chamavam, na independência brasileira, aos portugueses não conformados com o fim da colónia. Depois, veio o programa televisivo em que dois bonecos, os Velhos dos Marretas, resmungavam por tudo. Marreta é um telhudo a contracorrente, reaça, marrando nas modas. Não costuma ser boa companhia, nem ele o quer. Porém, em tempos de sentimentos fáceis do "és meu amigo?" e "likes", ser marreta carrega um anticonformismo salutar. Era assim o touro, 500 quilos e só um corno, que o criador Manuel Farinhoto, da quinta do Perre, Viana do Castelo, mandou em maio para o matadouro. Ao subir para a camioneta final, o Marreta (imprevidente, o criador dera-lhe esse nome) revoltou-se e fugiu. Um companheiro, que já estava na camioneta, seguiu-lhe o mugir de Ipiranga e embrenharam-se ambos nos montes de Outeiro. O outro lá anda na guerrilha, mas o Marreta foi apanhado pelas forças repressivas da GNR. Comoção nacional, campanhas de Facebook e angariaram-se 1378 euros para a carta de alforria do Marreta. A troca foi selada, além dos euros, com presunto e chouriço (a independência dos porcos é outra fase...) Em Palhaça, Aveiro, um campo largo e a felicidade esperavam o Marreta. "Mandem fotos e vídeos!", pedia alguém no Facebook. Não brinquem com a comoção, há muito animal maltratado e estas campanhas são boas. Mas acontece que, ontem, o Marreta voltou a fugir e anda a monte. Não tiro lição nenhuma. Conto-a porque gosto desta história. 
«DN» de 18 Jul 13

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Apontamentos de Lisboa

Esterqueiras na Lisboa turística (junto à Feira da Ladra e Alfama)

A situação política e a excursão do PR às Ilhas Selvagens

Por C. Barroco Esperança
DIZER que Cavaco Silva não tem o perfil para PR é um truísmo banal tautologicamente demonstrado. Apontar-lhe a débil formação democrática e as insuficiências culturais é uma reincidência gratuita. O que é importante, aliado ao que se conhece do seu passado e, sobretudo, ao que se desconhece, é analisar a situação política a que conduziu o País.
É surpreendente a excursão às Ilhas Selvagens enquanto a situação política apodrece e a solução não pode surgir do quadro que ele próprio complicou. Deixemos aos psicólogos a análise comportamental do timoneiro do naufrágio nacional que acelerou. (...)
Texto integral [aqui]

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17.7.13

Apontamentos de Lisboa

Arte urbana

Rei dos Algarves e das Selvagens

Por Ferreira Fernandes
NATURALMENTE, refugiou-se na natureza. Entre ouvir os gritos da Heloísa dos Verdes e os das cagarras das Selvagens, Cavaco escolheu o mais ecológico. Censura por censura, mais vale apanhar com um garajau a defender o ninho. As Selvagens vão passar a ter sido visitadas oficialmente por três presidentes, Soares, Sampaio e Cavaco. Mas nunca um PR lá pernoitara. Mário Soares era conhecido por dormitar em quase todo o sítio, mas só Cavaco Silva vai poder dizer, a partir de amanhã, que já dormiu na Selvagem Grande. Depois de mandato e meio, Cavaco terá, enfim, um lugar na história por alguma coisa. Ainda por cima Grande, como ele escreverá um dia num prefácio! Mas a ida para o único lugar do território português onde não chegam os decibéis de Heloísa Apolónia pode ter ainda outra razão. O arquipélago tem a ilha Selvagem Grande e a ilha Selvagem Pequena, a ilhota Palheiro da Terra e a ilhota Palheiro do Mar, os ilhéus de Fora, o Alto, o Comprido, o Redondo... Tudo muito claro e básico. O ilhéu Pequeno, o Grande, o do Sul e o do Norte... É, talvez a ida às Selvagens tenha uma intenção terapêutica. Talvez queira reeducar a fala do Presidente com palavras simples. No entanto, conhecendo Cavaco Silva, em chegando às Selvagens, ele vai querer ir para o ilhéu Sinho só para alimentar a confusão nas interpretações... Porquê Sinho? Mas Sinho com quem? Coliga-se com Sinho ou só se desembarca? E, em junho de 2014, muda-se o nome a Sinho?...
«DN» de 17 Jul 13

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Passatempo com prémio

Qual o número da página do livro onde se encontra este excerto (em que, como se percebe, se aborda a compra dos submarinos)?
Quem mais se aproximar da resposta certa até às 15h de hoje receberá um exemplar do livro em causa.
NOTA 1: Cada leitor poderá dar um único palpite.
NOTA 2: Em caso de empate, o prémio será atribuído ao 1.º "apostador".
NOTA 3: Evidentemente, o passatempo terminará antes das 15h se, entretanto, for dada a resposta exacta.
Actualização (12h48m): a resposta exacta (pág. 56 - do livro «Da corrupção à crise - Que fazer?», de Paulo de Morais) já foi dada, pelo que o passatempo terminou. O vencedor tem agora 24h para escrever para medina.ribeiro@gmail.com indicando nome e morada para envio do livro.

O pesadelo

Por Baptista-Bastos
NÃO ME RECORDO de um Presidente, na II República, ter sido criticado com tanta veemência e haver sido objecto de tantos enxovalhos como este dr. Cavaco que nos coube no infortúnio. Pelos vistos e feitos, tem tripudiado sobre a natureza da função, denegrido as características de "independência" constitucionais que jurou defender e resguardar, e tomar atitudes de soba com a displicência de quem não tem satisfações a dar. A sua presença em Belém tem sido assinalada por uma série de disparates, incúrias, pequeninas vinganças, intrigas baratas, aldrabices indolentes como a das falsas escutas. O pobre homem, por lacuna cultural e outras, não está hipotecado aos princípios republicanos que o 25 de Abril reanimou, embora fugazmente. Pertence a outra vigília, a outra aposta, e a um passado vazio de sentido histórico. Não soubemos evitar o triste incidente do seu surgimento, que se tornou uma pavorosa ameaça. Os cavaquinhos que por aí pululam correspondem às debilidades das nossas respostas, à alteração dos sistemas ideológicos e ao facilitismo da "era de acesso."
Houve, no Brasil dos anos 60, século passado, um cómico famoso, o Chacrinha (aliás, homem culto e lido), que dizia: "Eu não estou aqui para explicar; estou aqui para complicar." O epítome pode, e deve, ser aplicado ao dr. Cavaco. Nada, ou pouco mais do que nada, se lhe pode aduzir, politicamente, em seu abono. Onde toca, dificulta ou emaranha. A bizarria de criar um "compromisso de salvação nacional" que envolve três partidos e exclui outros três alimenta, ainda mais, as divisões na sociedade portuguesa e não soluciona nenhuma questão. O que, retoricamente, separa o PS do PSD e do CDS parece, no momento, irreparável. Seguro quer, nos diálogos, a presença de todos; porém, o PCP, e explica as razões, "não tem nada a ver com aquilo." Os dados estão, à partida, viciados, e a manobra resulta numa piada de mau gosto. E Seguro envolve-se numa ambiguidade grotesca: diz que vai "dialogar" com partidos e não com o Governo, como se aqueles não fossem componentes deste. A confusão acentua-se quando afirma apoiar a moção de censura de "Os Verdes". Entrámos, em definitivo, no reino da feira cabisbaixa.
Ninguém sabe em quem acreditar. Para salvaguarda da nossa saúde mental é melhor, pura e simplesmente, não acreditar em nada. Com perdão da palavra, penso que Seguro está longe da solução adequada, pois pertence ao sistema; mas também penso que é a solução emergente que se arranja. Como dizia o outro, pior do que está, é impossível. Haverá outros caminhos a percorrer, fora deste sistema horroroso de "alternância", que nos leva até ao desgosto de tudo. Mas a organização das "democracias ocidentais" impede a mudança, porque isso conduziria a uma substancial alteração do próprio capitalismo. Todavia, esta impossibilidade aparente não significa que nos resignemos. Capitular é deixar de ser.
«DN» de 17 Jul 13

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16.7.13

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Viva o meu 'doping' na Volta à França!

Por Ferreira Fernandes
TODOS os anos, pelo Tour de France, tomo substâncias euforizantes. Injeto esteroides anabolizantes que me fazem ver arco-íris e formas surreais. Também lhes podem chamar aldeias francesas. Eu, sentadinho no sofá, vejo casas de camponeses que são casas de camponeses - em França, São João da Pesqueira não está geminada com a Damaia-de-Baixo. Se são tetos de colmo, são tetos de colmo, se são telhas, são telhas, cada região, hoje, como já era no primeiro Tour, em 1903. Fico narcotizado só de pensar que aquele país, desde aí, foi devastado por duas guerras mundiais... 
Todos os anos, em julho, deixo de ser um português sem vícios e tomo imagens de TV francesa em doses galopantes. As câmaras que cavalgam motos mostram-me muros de pedra comida por musgo e silvas, e não blocos de cimento a que se encostam colchões fartos de ser usados e à espera do carro do lixo da junta. As câmaras dos helicópteros abrem-se sobre pastagens pontuadas com medas de palha e não sobre merdas de biscateiros que fizeram uma garagem no meio das vinhas. O campo em França não é de suburbanos que emigraram sem sair da terra. Os camponeses do Midi e os pescadores bretões não fecharam as varandas para guardar as botijas de gás, alindam-nas com vasos de flores. Cuidam dos olhares de fora como nós, nas casas de frontaria medonha, reservamos os napperons para as visitas. Todos os anos, em julho, o meu controlo dá positivo e a droga chama-se civilização. Importada.
«DN» de 16 Jul 13

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15.7.13

Lisboa, onde aportou Bana

Por Ferreira Fernandes
HOJE, ele vai partir da sua cidade. Um dia, vi uma jovem lisboeta numa casa da Rua do Sol ao Rato descobrir o mundo trazido pela voz do gigante. A ele eu conhecia. Como no poema de Auden, "ele era meu norte, sul, meu leste e oeste", era o sentido da minha vida. Definição de felicidade? Tão simples: o canal de São Vicente com barcos enferrujados e Bana, tão grande, na praia a dizer as palavras de Resposta de segredo cu mar, acompanhado só pelo clarinete de Luís Morais... Se calhar nunca aconteceu, ali, de costas para o Mindelo e com Santo Antão ao longe, mas eu recorro a essa música para justificar o bairro luandense da minha infância, os amigos da adolescência, a ideia do meu mundo. Aliás, só fui ao Mindelo um dia e já lá não estavam nem Bana nem Luís Morais, só os barcos enferrujados e Santo Antão ao fundo. Por isso, quando Bana começou a cantar, na casa de mornas Monte Cara, eu encostei-me à cadeira para estar comigo. Foi quando a vi, à jovem lisboeta, fechar os olhos para estar consigo. E o corpo dela começou a menear-se, lentamente como uma morna pede. E quando Bana calou-se, nem eu nem ela aplaudimos, estávamos demasiado virados para dentro. Percebi que ela tinha ouvido um cantor da sua cidade. Hoje, na sua cidade, Lisboa, Bana vai ser cinzas. E depois vai para o Mindelo, a sua cidade seminal. Mindelo de São Vicente. São Vicente dos flagelados do vento leste. Do vento leste (norte, sul, oeste...) que o vai devolver ao mundo.
«DN» de 15 Jul 13

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14.7.13

Luz - Entrada da Sagrada família, Barcelona

Fotografias de António BarretoAPPh

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Esta é a entrada da famosa catedral chamada “Templo Expiatório da Sagrada Família”, em Barcelona. Da autoria de Antoni Gaudi, arquitecto catalão (1852 – 1926), este é certamente o mais conhecido dos monumentos de Barcelona e um dos mais visitados de toda a Espanha. Além deste, podem contar-se, naquela cidade, outros edifícios curiosos e estranhos que atraem visitantes e estudiosos (Casa Batlló e Casa Milà, por exemplo). De estilo pessoal muito próprio, reflecte várias influências e inspirações, do neo-gótico à arte nova, do orientalismo e do neo-mourisco ao modernismo catalão. A loucura barroca, o excesso onírico e a fantasia naturalista estão presentes. Em poucas palavras, trata-se de uma arquitectura escultórica única. Francamente, não gosto. Está ausente o que por vezes os crentes e os não crentes procuram numa catedral: o despojamento, a depuração, a tranquilidade, a meditação e a introspecção. A exuberância tropical, a banda desenhada escultural e uma espécie de caos operático chamam turistas em grandes quantidades. Tanto na Sagrada Família como nos outros edifícios mais famosos, são utilizadas dezenas de materiais de construção e decoração: cimento, ferro, tijolo, calcário, granito, telha, cerâmica, madeira, argamassas, gesso, ferro forjado, bronze, mosaicos, azulejos, vidro e tudo quanto estava à mão! Gaudi é um herói nacional, espanhol e catalão. Está em curso, no Vaticano, um processo de beatificação. (2012)

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