31.5.12

Pobres e desconfiados

Por Pedro Barroso
HOUVESSE petróleo na Nazaré em vez de saias; e gás natural aqui na minha terra, em vez de gases e mau cheiros da Destilaria... e a Europa venerava-nos já, a partir de amanhã.
Houvesse diamantes na Amareleja em vez de trigo; e que a vila fosse Verde de esmeraldas em vez de plátanos e seríamos a coqueluche da Europa, os filhos dilectos do deficit esquecido!
Ai hipocrisias do mundo, ai golfes da minha pátria! Ai poderosos do mundo sem qualidade nem consistência maior que um punhado de ouro que comanda os critérios do existir e do valor das cousas!
Como me cansa tudo isto; que ridículo é este cupido navegar ao sabor do interesse das armas e da ilusão de felicidade. Dão-nos relvas e depois admiram-se da mediocridade dos interesses... e da sordidez dos meios... vigiem-se uns aos outros eternamente e fiquemos nós no Olimpo da paz de viver, enfim, num mar de Ombridade, Justiça e honestidade.
Vão. Devorem-se e deixem em paz quem verdadeiramente trabalha e faz a esperança renascer fruto de suas mãos, a cada dia que começa. Que telejornais da treta, sinceramente. Não há outros valores e outros alcances? A Pátria está doente de gestão podre e assassina. E os que lutam pelas Artes e Ofícios não precisam de vós para nada de nada. Quando acabam as prebendas aos senhores? Ainda ontem 3 desgraçados foram presos no Norte por apanhar pinhas para viver e os Isaltinos Limas Loureiros e tantos outros ocultos nas saias do poder deviam ser presos e não são! Quando acaba a senhora professora' troika? Afinal viver aqui é isto? Ah... Quando acaba Portugal?

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Apontamentos de Lisboa

Lembram-se deste cinema?

Então e eu?

Por Manuel António Pina
À MEDIDA que vão surgindo na Imprensa notícias de relatórios, encontrados em poder do ex-espião Jorge Silva Carvalho, sobre a vida privada de jornalistas, sinto-me cada vez mais discriminado. Então e eu? Será a minha vida privada tão desinteressante que, jornalista há 40 anos, os espiões do SIED e do SIS não têm nada a relatar sobre, como os velhos informadores da PIDE, o meu "porte moral"? É triste chegar quase aos 70 e ter a esquisita sensação de que a minha vida é, afinal, um livro tão aberto (ou tão fechado) que nenhuma "secreta" quer saber quem são os meus amigos e os meus inimigos; se tenho família, dívidas, pensamentos, conta bancária, colesterol; se continuo a receber pelo correio "folhas de jornais franceses" (arquivadas na Pasta 10/1); se alguma coisa "consta em meu desabono, moral e politicamente"; se serei "desafecto ao regime" ou, até, "adversário do regime", ou então se não se conhecem as minhas "verdadeiras tendências"; se minha mulher teve uma "rígida e exemplar educação" e que foi feito da tal "doença cancerosa" que, segundo o bem informado Relatório n.0º 202/72/SC da PIDE/DGS, lhe "teria surgido"; etc..
A minha esperança é que tudo isso seja Informação Estratégica de Defesa e que, quando a Ongoing desvincular Silva Carvalho do segredo de Estado, eu descubra que, como os outros, também tenho uma vida merecedora de relatório com 16 páginas.
«JN» de 31 Mai 12

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Até Obama tropeça em palavras

Por Ferreira Fernandes
É FALSO que Jan Karski tenha visto antes dos outros. Ele viu o que outros viram mas importou-se. 
Karski (1914-2000), polaco, foi homenageado anteontem pelo Presidente Obama por ter sido o homem que avisou os Aliados sobre o Holocausto. Católico, membro da resistência polaca contra a ocupação nazi, em 1942 ele visitou clandestinamente o gueto judeu de Varsóvia e um campo de trânsito para Belzec, o primeiro campo de extermínio nazi. Enviado a Londres pela resistência, o testemunho de Jan Karski é o primeiro, detalhado, sobre a intenção nazi da "solução final." Em meados de 1943, ele encontra-se com o presidente americano Roosevelt. Uma frase de Felix Frankfurter, jurista judeu e conselheiro de Roosevelt, define o muro que o polaco encontrou: "Eu não digo que Karski esteja a mentir, eu digo que não posso acreditar." Hoje, acredita-se, não é? Daí a homenagem póstuma de Obama. Mas este disse, no seu discurso, que Karski "visitou um campo da morte polaco". A referência "polaco" era geográfica, não do símbolo de uma nação. Porém, desde ontem há um levantamento na Polónia contra Obama, e os polacos têm razão: o campo era nazi. 
Houve polacos que fecharam os olhos a Auschwitz, Treblinka e Belzec, mas também houve justos como Jan Karski. Obama, o das palavras de encantar, deveria saber também que há palavras que não podem ser substituídas por outras. Um campo nazi é um campo nazi e nada é igual. 
«DN» de 31 Mai 12

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Christine Lagarde, Passos Coelho e a incontinência verbal

Por C. Barroco Esperança
A DIRECTORA do FMI ganha 380.000 euros por ano e não paga impostos, por ter um cargo diplomático. A arrogância e insensibilidade para com as crianças gregas, ultrapassaram, na insolência, a definição de ‘oportunidade’ que Passos Coelho atribui ao desemprego.
Em Portugal temos um PM que não estava preparado para o cargo, ajudado pelo PR, com o inqualificável discurso da vitória eleitoral e, presume-se agora, com a ajuda das informações à TVI, onde Eduardo Moniz também recebia os relatórios das secretas e grelhava Sócrates em lume brando com o entusiasmo da mulher. Agora não há escutas falsas para combater o Governo, há relatórios dos Serviços de Informação da República, usados na luta empresarial e confiscados para insondáveis desígnios pessoais.(...)
Texto integral [aqui]

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30.5.12

Os meus relatórios também são curtos

Por Ferreira Fernandes
A DECO hesita sobre o que é mais publicidade enganosa: se chamar àquilo Serviços Secretos ou Serviços de Inteligência. 
Depois do escândalo do calcio, o primeiro-ministro Mario Monti disse ontem querer suspender o futebol "por dois, três anos" - mas são mais prováveis soluções menos radicais como sair do euro ou acabar com a União Europeia. 
Se o modus operandi do superespião não mudou, já se conhecem pormenores do seu relatório sobre Ricardo Costa: são 52 primeiras páginas, recolhidas ao longo de um ano, com uma revelação ("Diretor") ainda envolta em plástico. 
O Vaticano troca os mistérios da fé pela literatura policial e o culpado é o mordomo. 
Jardim não foi ao parlamento regional e a oposição retirou a moção de censura - ficou-se com a ideia de que se ele prometer ir embora de vez talvez até ganhe um voto de congratulação, de louvor, de saudação e de homenagem. 
Segundo a UNICEF, as crianças portuguesas são das mais carenciadas da OCDE (25.º em 29), pior só as da Letónia, Hungria, Bulgária e Roménia - o que não impressionou a troika: "Temos ordens de cima, em matéria de crianças o nosso patamar é o Níger." 
Às nossas autoridades pode faltar muita coisa, menos libido: depois de a secreta se interessar por assuntos de cama, ontem foi a Polícia Judiciária a interessar-se por Caminha. 
O Bloco de Esquerda grego já tem luta para o verão: diz ter a marca registada e vai exigir aos ingleses que paguem pelos Jogos Olímpicos.
«DN» de 30 Mai 12

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Está tudo por dizer

Por Baptista-Bastos
NO MESMO dia em que, num doce jardim de Singapura, o dr. Cavaco, estremecendo de emoção, baptizava uma orquídea de "Simplesmente Maria", nesse mesmo dia Portugal vivia entre a barafunda, a mentira, e a omissão. Não há mal-entendidos nestas duas situações, só na aparência dissemelhantes. É o país que temos, o Presidente que se arranja no seu grandioso e fausto possidonismo, e a política de trazer pela trela que tem transformado a nossa pobre terra num episódio desprotegido, grotesco e insano.
O caso secretas-Relvas-Público e afins, que a "comunicação social" tem tratado com valente energia e sólido nervo, são comentados, pela população, sempre ávida de sacudir a nefasta melancolia, com o mesmo primor que atribui à selecção de futebol. Há algo de irracional nestas emoções. Mas essa irracionalidade pertence-nos, quase em sistema de exclusividade. É o Portugalinho na expressão mais ampla do nosso aparato cultural.
O que se sabe, no primeiro caso, é o que a Imprensa diz: apenas a superfície do que se esconde. E o que se esconde é muito mais amplo, muito mais caviloso, muito mais absurdo e vil do que nos dizem. Pelo menos tudo o indica. O que se deseja não é derrubar o Governo: é, apenas, amolgá-lo um pouco, como aviso para o que não deve, ou deve fazer. Miguel Relvas, exuberante por vaidade das funções exercidas, falador até ao cansaço, e incauto até à medula, era um alvo fácil. Almoçou ou jantou com pessoal graúdo da espionagem; recebeu mensagens no telemóvel porque o seu número estava no rol de quem não devia estar; convivia com gente inquietante, como sejam jornalistas. Por aí fora.
Enredado nesta teia reticular e quase sufocado pela imodéstia, Relvas, que me parece ser apenas isto e muito pouco mais, entalou Passos Coelho que, naturalmente, vai correr com ele, ajeitando um pretexto qualquer, ostensivamente esquecido algumas semanas depois. Um preopinante de voz grossa e gramática fininha, disse que Passos devia o lugar a Relvas. Tolice. Relvas é uma miniatura política, modelada pelas circunstâncias actuais da mediocridade generalizada. E Passos o tal incidente à espera de acontecer. Está ali para durar, tendo em vista a falta de atractivo e de fibra de António José Seguro, notoriamente um líder de passagem.
Entretido com as orquídeas, o dr. Cavaco nada disse, ou talvez ainda diga, servindo-se das evasivas e dos anacronismos do costume. Perdão, disse. Disse o que contraria as teses do Governo. Este, pelas vozes de Passos e Relvas, aconselhou os jovens a ir para o estrangeiro; o dr. Cavaco insistiu em que permaneçam em Portugal. Afinal, em que ficamos?
Nesta jiga-joga de expressões, em que o Público não sai virtuoso e na qual tudo é confuso, duvidoso e aleatório, vamos passando ao lado das lições diárias da História. E tudo fica por dizer.
«DN» de 30 Mai 12

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29.5.12

Apontamentos de Lisboa

PORVENTURA reconhecendo as críticas que lhes têm sido feitas por colocarem o lixo nos passeios, alguns vizinhos meus passaram a depositá-lo na faixa de rodagem. Pouco depois, quando os carros começam a passar-lhe por cima, a situação melhora bastante, pois a concentração diminui muito.

Má combinação: alemães e mapas

Por Ferreira Fernandes
OS ERROS são como as dívidas aos bancos, só se cobram quando são pequenos. 
Angela Merkel, dona do Banco Central Europeu, acaba de cometer um pequenino erro e eu ia perdoar-lhe? Nem pensar, passo e repasso aquele vídeo, já viral na Internet.
Então, a senhora foi à Escola Internacional Europeia, em Berlim, a uma aula de Geografia. Conta-se rapidamente: a professora pediu-lhe para apontar Berlim, Merkel enganou-se e apontou longe, para as profundezas da Rússia, gargalhada geral dos jovens. Mas isso foi um engano, que mereceria só risinhos. O problema é outro: é o erro. Que, nos grandes, quando é pequeno pode tornar-se enorme. 
Em janeiro ou fevereiro de 1992, Jonas Savimbi desembarcou em Luanda para eleições - numa cidade farta da incapacidade do Governo do MPLA e que estava disposta a aceitar alternativas. Aí, Savimbi cometeu o tal funesto pequeno erro: desceu do avião mostrando a pistola no coldre. Mais do que da ineficiência, Luanda estava farta da guerra, e Savimbi perdeu a eleição. 
Voltando a Merkel: um chanceler alemão, seja ele mulher, não pode ser filmado a apontar para um mapa (ou jogando à bola com um globo terrestre)! Trocamos logo a professora por dois generais, Jodl e Keitel, e à Merkel pomos-lhe um bigodinho. E se o (ou a) chanceler aponta como território alemão um ponto da estepe russa, vemos logo a pobre da Polónia atravessada por panzers... 
Abuso? Talvez, mas ando muito irritado com arrogância alemã. 
«DN» de 29 Mai 12
NOTA (CMR): acrescentei o vídeo referido na crónica.

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Salários para que vos quero

Por Manuel António Pina
SEGUNDO o "Dinheiro Vivo", a 'troika' governante terá dado conta aos seus delegados locais de que "os salários ainda podem descer mais e que pode poupar-se mais no sector da Saúde". A notícia não adianta pormenores, mas certo é que, quando a 'troika' fala em salários que ainda podem descer mais não se refere ao salário do dr. António Mexia (que, até onde se sabe, ainda não desceu coisa nenhuma), mas ao seu, leitor, "mon semblable, mon frère".
Não se conhece igualmente porquê nem para quê têm os salários que descer ainda mais, mas não é, obviamente, para estimular o consumo interno e o crescimento da economia. Em contrapartida, o pagador das promessas do Governo à 'troika' é fácil de antecipar. Ou me engano muito ou "a despesa" será reduzida no sítio do costume, que está à mão de semear e, mais manifestação menos manifestação, mais greve menos greve, é fácil, é barato e dá milhões: os vencimentos da função pública e as pensões dos reformados.
É também já possível ter uma ideia de quanto uns e outros irão "descer mais" e de quanto se irá "poupar mais" na Saúde: as PPP custaram 323,8 milhões ao Estado no primeiro trimestre deste ano, 28,8% acima do que custaram em igual período de 2011. E, parafraseando S. João Baptista, é preciso que nós diminuamos (Passos Coelho diz "empobreçamos") para que eles continuem a crescer.
«JN» de 29 Mai 12

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28.5.12

O Bar do Rick

Por Alice Vieira

QUANDO eu era nova lembro-me de ter lido um romance do Augusto Abelaira em que uma das personagens, homem sem tempo para lides caseiras e com muitas outras coisas em que pensar, jantava sempre dois ovos estrelados, comidos diretamente da frigideira.
De cada vez que estrelo ovos, lembro-me sempre disso, como se fosse uma cena transcendente e extraordinária, e fico com uma vontade doida de reler o livro. (Mas nunca tenho tempo, porque há sempre montes de livros que temos de ler, e as releituras vão ficando para tempos cada vez mais distantes). (...)
Texto integral [aqui]

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Apontamentos de Lisboa

UMA VEZ lidos todos os livros de Émile Zola que tinha aqui em casa, quis comprar mais. Pois bem; nenhuma destas famosas livrarias tem à venda livros dele. Nem um único exemplar, nem um único título!
A explicação dada na Barata foi que "não trabalhamos com a Europa-América", o que me levou até essa livraria. Mesmo aí, só havia três obras (e apenas em livro-de-bolso - com a correspondente letra microscópica...): «Náná», «A Besta Humana» e «Germinal».

A tática é provocar?

Por Ferreira Fernandes
A PATROA do FMI, Christine Lagarde, que ganha 380 mil euros/ano livres de impostos, mandou os gregos pagar os impostos. Interrogada sobre os pais gregos não poderem dar aos filhos o que davam antes, Lagarde - que nas páginas de moda do mesmo jornal que a entrevistava era considerada com a rainha Rania da Jordânia das mulheres que melhor se veste - disse que era altura de eles pagarem e não de esperarem simpatia. E disse que essa simpatia ela reservava para as crianças do Níger que na escola dividem um banco por três.
Arrogância contra os gregos, pois. No entanto, apesar dos seus 380 mil euros livres de impostos e saia casaco de marca Austin Reed, Lagarde tem razão. Os gregos, ricos (bancos, armadores e Igreja Ortodoxa) e pobres (com ordenado mínimo superior 40 por cento ao português), entre os europeus que se endividaram são os que menos põem as contas em dia. E, sobretudo, votam de forma irresponsável. Sei que é preciso definir esse "irresponsável", lá vai: votam nos que querendo ficar no euro, não se dão as condições, coligando-se, para ficar.
Evidentemente, os gregos ficaram humilhados com as palavras de Lagarde. É isso que me preocupa: a patroa do FMI não foi política. Ora, tendo ela sido na juventude membro da equipa francesa de natação sincronizada, receio que Lagarde tivesse dito o que queria e combinada com muitos. A hora é, talvez, de provocar os gregos, fazê-los votar em extremistas e pôr a Grécia na rua.
«DN» de 28 Mai 12

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A Grécia aqui tão perto

Por Manuel António Pina 
AS CHOCANTES declarações da directora-geral do FMI ao "Guardian" revelam bem que género de gente preside hoje aos nossos destinos e a quem governos como o português ou o grego subservientemente se vergam. Por momentos, Lagarde deixou cair o idioleto técnico com que ela, Durão Barroso e a "fürehrin" Merkel, mais os seus feitores locais, justificam o empobrecimento forçado dos povos e mostrou o rosto selvagem do neoliberalismo dominante, assente no direito do mais forte à liberdade. Perguntada se não lhe custava impor ao povo grego, sobretudo aos mais pobres, medidas de austeridade que cortam em serviços fundamentais como a saúde, a assistência social ou o apoio a idosos, a directora-geral não podia ser mais clara (nem mais cínica): "Penso mais nas crianças que andam na escola, numa pequena aldeia do Níger, que apenas têm duas horas de aulas por dia e partilham uma cadeira por três...".
E que tem Lagarde a dizer àqueles que, na Grécia, todos os dias lutam hoje pela sobrevivência, sem emprego e sem serviços públicos? Que se ajudem a si próprios "pagando os seus impostos". Mas as crianças, senhora? "Bem, os pais são responsáveis, não? Por isso os pais que paguem os seus impostos".
Maria Antonieta não o teria dito melhor. Só que os "sans cullotes" de hoje persistem em crer que ainda vivem em democracia (se calhar até em democracia económica).
«JN» de 28 Mai 12

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27.5.12

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Escolher entre a cólera e a peste

Por Ferreira Fernandes
A MAIS poderosa das Primaveras Árabes, a do Egito, acaba de tomar conhecimento de que os tempos não estão para meias estações. A segunda volta das eleições presidenciais egípcias, a 16 e 17 de junho, não propõe um dilema mas um pesadelo: os candidatos são Mohammed Morsi e Ahmed Chafik, o homem da Irmandade Muçulmana e o homem do Exército. Quem queria uma sociedade civil vai ter de escolher entre duas fardas, a da guerra santa ou a do poder militar.
Os outros nove candidatos, todos eles, ou não pertenciam às duas forças que dominam o Egito há meio século (as Forças Armadas e a Irmandade Muçulmana) ou eram adeptos de versões moderadas desses pilares. Pois o povo não esteve para meias-tintas, escolheu os puros e duros - o desejo de ordem impôs-se ao de liberdade.
O Egito ou vai retomar o regime militar, se vencer Ahmed Chafik (que fora o último primeiro-ministro nomeado antes de Moubarak deixar o poder), ou vai, com Mohammed Morsi (homem de mão de Khaïrat Al-Shater, que não pôde candidatar-se e é o líder dos islâmicos radicais), para um regime religioso.
Há ano e meio, na Praça Tahrir, as caras descobertas das mulheres e a liberdade de palavra não queriam desembocar nisto, mas aqui se chegou. E quem quer que seja o presidente eleito em junho, islâmico ou militar, não augurando nada de bom, sairá legitimado pelas urnas.
Abrir as portas ao inimigo é um dos paradoxos da democracia.
«DN» de 27 Mai 12

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Luz - Foz do Douro, Porto, 1985

Fotografias de António Barreto- APPh

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É um dos paredões preferidos pelos pescadores da Foz, de Miragaia e dos bairros dos arredores. É praticamente no local da foz do rio, no ponto de encontro com o mar. Ao fundo, atrás do areal, terras de Gaia e da Afurada.

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26.5.12

Futebol rasteirinho

Por Ferreira Fernandes
DE REPENTE, parece que toda a gente desatou a falar como aqueles rapazes de boné com pala ao contrário ou, pior, o Presidente Cavaco a fazer uma declaração sobre o Estatuto dos Açores. Linguagem cifrada, onde o piscar de olho faz de gramática. 
Tudo começou com Luís Filipe Vieira, presidente do Benfica, a dizer: "Um ladrão não deixa de ser ladrão por ir ao Papa." É certo que em 1944 a Rádio Londres também se pôs a não dizer coisa com coisa ("Os longos soluços/ dos violinos/ do outono..."), e quem devia entender entendeu que o desembarque aliado estava para breve. E sempre era poesia de Verlaine. 
O que mais me chateia na frase de Vieira não é tanto o código cerrado, mas não ter ousado um remate de canção de encarnado pino: "Um ladrão não deixa de ser ladrão por ir ao Papa, ai Deus e u é." Em resposta, julgo (mas vá lá saber-se), o FC Porto também endoidou e disse em comunicado: "Burros são os que só tiram a cabeça da toca de vez em quando." Se a imagem fosse com uma raposa, ela vinha albardada. Aliás, os portistas aproveitaram o patrão fora da loja, Pinto da Costa está no Brasil, para, mais do que responder, publicarem um tratado de charadismo: "Burros são os que confundem risco com linha" (a solução será Magritte?) e "burros são os que julgam que Coca-Cola só tem quatro letras" (esta é óbvia: é um sms do SIED). 
Este ano, o defeso abriu com jogos florais, cujo mote é: com código mas sem ética.
«DN» de 26 Mai 12

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Apontamentos de Lisboa

Não, não é brincadeira; esta Vespa foi mesmo multada pela EMEL, como se pode confirmar clicando [aqui].

Bom dia, Gustavo

Por Antunes Ferreira
 
HÁ TRÊS DIAS, o Gustavo foi finalmente sujeito à transplantação de medula que lhe deve salvar a vida. O Gustavo é um menino de entre os muitos que sofrem de uma doença chamada aplasia medular. Porém, tornou-se o mais conhecido depois de Cristiano Ronaldo ter lançado um apelo para ser encontrado um dador para o filho do seu companheiro na seleção nacional de futebol, Carlos Martins.

A operação de transplante correu dentro do normal de acordo com a equipa médica o que foi excelente, como é óbvio. A saga do pequeno Gustavo transformou-se num enorme movimento de solidariedade com milhares e milhares e milhares de potenciais dadores a inscrever-se. A grande questão era a compatibilidade entre o dador e o doente. Enfim dos Estados Unidos surgiu um nome que correspondia à necessidade. E as coisas parece terem corrido bem. Agora, dentro de um mês poderá dizer-se que sim.

Este texto não devia ser assinado por mim, pois é apenas a introdução de uma carta maravilhosa enviada ao menino pelo Casal das Letras, blogue excelente da autoria da Maria Augusta Silva e do Pedro Foyos, grandes jornalistas, que comigo trabalharam – e muito bem - no DN. A nossa amizade já vem de muito mais longe e tenho acompanhado a luta da Maria Augusta contra um cancro, o seu cancro, desde Luanda e antes do 25 de Abril.

Sem lhes pedir autorização, falta que, estou certo, o casal me perdoará, aqui fica o registo desse texto impressionante e excecional. Que, como disse, saiu no www.casaldasletras.com.

Nos últimos tempos, Gustavo, muito se tem falado de ti, não só pela demora desesperante de oito meses para encontrar um dador de medula mas também e sobretudo pela notoriedade futebolística do teu pai, propiciadora de uma impressionante onda de solidariedade. Finalmente, Gustavo, vai ser possível realizar o transplante alogénico que debelará a tua aplasia medular. Desculpa empregar estas palavras complicadas, mas as doenças terríveis escondem-se sempre nestes emaranhados para aliviarem o peso da realidade.

De momento, Gustavo, agora que tudo foi feito no sentido de o teu organismo não vir a rejeitar as novas células que vai receber, é importantíssimo que saibas o seguinte: estará sempre a acompanhar-te uma equipa fabulosa, tanto que, se fosse possível transpô-la para o campo futebolístico, nem o teu pai conseguiria evitar uma derrota por dez a zero!

O velho capitão dessa equipa invencível chama-se Manuel Abecassis. Já o deves ter visto aí no IPO. É aquele senhor de cabelo branco com laivos de prata e olhos doces que de vez em quando te espreita e te sorri enquanto vai conversando rodeado dos restantes jogadores: conversas sobre táticas de ataque, fintas, coisas assim, bem conheces a toada.

Sabes que ele foi o pioneiro em Portugal neste género de desafios? Pioneiro quer dizer: foi o primeiro a driblar em toda a linha um adversário de respeito no campo em que tu estás agora, precisamente aí. Esse adversário, com o feiíssimo nome de Leucemia, levou cá uma cabazada! O costume, dez a zero, toma lá e vai decorar. Porém, a grande vencedora, quem levou a Taça da Vida, maior do que ela própria, foi uma menina da tua idade, chamada Inês. Ela estava muito doente, a vida por um fio. A estratégia de então foi engraçada. Havia hipóteses de ser salva se tivesse um irmão ou uma irmã. Mas a Inês não tinha irmão nem irmã. Então os pais, com muito amor, resolveram fazer um bebé, ao qual seria dado o nome de João Miguel. E o João não esteve com meias medidas. Logo-logo que nasceu, a primeira coisa que fez foi salvar a Inês. Um dia terás interesse em conhecer "A história de Inês". Ficarás espantado com as coisas extraordinárias que acontecem neste mundo. A começar por ti.
Gustavo: vemo-nos no final do dérbi, na festa da vitória. 

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25.5.12

As duas moscas e as 'eurobonds'

Por Ferreira Fernandes
A PRIMEIRA cimeira da Merkollande falou levezinho da "política de crescimento" e da "recapitalização do sistema financeiro". A única coisa a tirar foi a votação, embora não oficial, do hino da cimeira: "Paroles, paroles..." Apropriado, pela letra e pela sua mais famosa intérprete, Dalida. Apesar de egípcia, uma europeia dos quatro costados: filha de italianos, morreu francesa, com carreira iniciada com a gravação de uma canção portuguesa (o Barco Negro, de Amália) e com êxitos em italiano, inglês, alemão e, sobretudo, em francês, entre os quais o tal "Paroles...", onde ela diz estar farta de "palavras e mais palavras semeadas ao vento." No fundo, a declaração final da cimeira. 
Mas como podíamos nós esperar medidas draconianas se Drácon, apesar de antigo, era grego? 
Quem não hesita são os chineses - do tempo de puros comunistas ou de atuais duros capitalistas. Esses cortam sempre a direito. Em 1958, Mao Tsé- -tung deu ordem para combater a praga do pardal-montês, uma espécie de descontrolo das contas públicas que atacava os campos chineses. Os camponeses derrubaram os ninhos e, batendo em panelas, não deixavam pousar os bandos de pardais que caíam de exaustão. E, esta semana, a câmara de Pequim tomou a decisão draconiana de "duas moscas por casa de banho pública". Ficou escrito: duas, não três. Vão ver que o centenário problema da higiene das casas de banho de Pequim vai ser resolvido mais depressa do que a crise europeia. 
«DN» de 25 Mai 12

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No Reino do Absurdo

  5 Mai 12
É VERDADE que a Feira do Livro de Lisboa já fechou. É também verdade que este assunto já aqui foi abordado por mais do que uma vez. Mas o certo é que não podiam ficar "em arquivo" estas fotos que, tal como as outras, mostram a falta de respeito de certos editores e livreiros para com os seus leitores mais pequenos - não colocando estrados (como a maioria faz) no lado sul das barracas.
Chega a ser comovedor o esforço da menina para conseguir chegar aos livros que a interessam, perante a mais completa indiferença de quem - supostamente... - os quer vender.

É a igualdade, estúpidos!

Por Manuel António Pina 
O PRESIDENTE de uma câmara que tinha (e provavelmente continua a ter) dívidas de milhões à Águas de Portugal foi premiado, mal o actual Governo tomou posse e começou o bodo aos "boys", com o Conselho de Administração da Águas de Portugal e nunca mais se soube dele, nem se terá conseguido, agora como credor, ser tão eficaz como fora como devedor. Voltou agora às primeiras páginas e, após quase um ano de discreto e laborioso esforço, o rato pariu uma montanha: o preço da água vai, aleluia!, ser finalmente igual para todos os portugueses, vivam eles em palacetes da Avenida do Brasil, no Porto, ou da Lapa, em Lisboa, ou vivam em qualquer casal perdido do Nordeste Transmontano e da Beira Interior. Por fim uma medida revolucionariamente igualitária: toda a gente irá pagar entre 2,5 e 3 euros por m3 de água. Afinal, diz o novo administrador, "as pessoas podem gastar o que quiserem no telemóvel, e gastam muito mais que isso"...
Assim se fará (já não era sem tempo) justiça aos portugueses da Avenida do Brasil e da Lapa, que já pagam há anos isso, e se acabará com os privilegiados de algumas pequenas terras do interior, que - pois a igualdade tem um preço - verão a conta da água aumentar 200 ou 300%.
Se a água quando nasce é para todos, também o preço dela deve ser. E quem não puder pagá-la que fale menos ao telemóvel.
«JN» de 25 Mai 12

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24.5.12

O brasileiro e o seu Pessoa

Por Ferreira Fernandes
A MÁQUINA de escrever Royal e a escrivaninha de tampo de correr não foram as parceiras de Fernando Pessoa na poesia. Foram usadas talvez mais para ele escrever cartas comerciais, pois pertenciam a uma das últimas empresas onde Pessoa trabalhou, a Sociedade Portuguesa de Explosivos, no Largo do Corpo Santo, com nesgas do Tejo. 
O brasileiro João Paulo Cavalcanti Filho, que, há semanas, veio a Lisboa lançar o seu livro Fernando Pessoa: Uma quase Autobiografia, pagou uma fortuna (mais de 90 mil euros) por aquelas máquina de escrever e mesa de trabalho usadas pelo empregado de escritório Pessoa e que ontem foram a leilão em Lisboa. Com algum desdém dos nossos literatos mais puristas, Cavalcanti Filho dedicara o seu livro mais ao homem (onde Pessoa mandava fazer, e não pagava, os fatos e quanto usava de dioptrias...) e às pessoas do seu pequeno mundo do que à obra genial. Mais, o brasileiro revelou que muitas personagens dos versos existiram mesmo, encontrou-lhes nomes e vidas. Assim, de A Tabacaria, ele diz-nos quem foi a pequena que comia chocolates, quem era a lavadeira, o dono da tabacaria e o Esteves. Agora, comprando objetos mais do empregado de escritório do que do poeta, Cavalcanti Filho sublinha a coerência da sua paixão. 
Haverá quem pense que é desperdício tanta dedicação à pequena história do escriturário Fernando Pessoa perante a grandeza dos seus versos. Esses esquecem-se deste verso: "Come chocolates, pequena." 
«DN» de 24 Mai 12

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Ide trabalhar, malandros

Por Manuel António Pina 
O GOVERNO soube através do INE que anda por aí um milhão de madraços sem trabalhar e decidiu dar-lhes que fazer. A boa nova foi levada à AR pelo secretário de Estado da Administração Interna, que anunciou que o seu ministério e os da Economia e Agricultura estão a ultimar um protocolo que visa pôr os desempregados a aproveitar a sua "oportunidade de mudar de vida" iniciando uma promissora carreira no sector da prevenção de fogos florestais. Assim ocuparão os tempos livres em vez de (a ociosidade é mãe de todos os vícios) os ocuparem a pensar. O programa (que abrange ainda os beneficiários de RSI) prevê que os desempregados se encarreguem da vigilância e limpeza das florestas que os seus proprietários, Estado e privados, não limparam e de... funções de ordenamento do território e gestão do combustível existente.
O subsídio de desemprego é, para o Governo, uma esmola que dá aos desempregados e não uma prestação a que estes têm direito por terem, ao longo da vida profissional, confiado todos os meses ao Estado uma parte do salário para esse e outros fins.
A coisa será, até ver, numa "base voluntária". E, posto que na lista dos ministérios falta o das Finanças, não custa a crer que também numa "base gratuita". Já que os desempregados (como os reformados, que provavelmente se seguirão) recebem esmola do Estado, que se mostrem agradecidos.
«JN» de 24 Mai 12

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A desintegração do Estado e a falta de autoridade

Por C. Barroco Esperança
TEMOS um Estado autoritário mas sem autoridade. O modelo extremista ultraliberal que, no Chile, se tornou possível, com violenta repressão, foi semelhante ao modelo que está a ser experimentado na Europa, tendo Portugal como laboratório democraticamente legitimado. Um país assustado pelo desemprego galopante e pelo empobrecimento acelerado, encontra-se tolhido pelo medo, numa anestesia coletiva metodicamente provocada pela propaganda da pretensa «ausência de alternativas».
É neste quadro, no exercício ideológico que rompe o tecido social e a solidariedade, sem o mais leve sentido de equidade, que surgem personagens que desafiam a autoridade do Estado na mais absoluta impunidade, perante o silêncio da comunicação social.(...)
Texto integral [aqui]

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23.5.12

Apontamentos de uma zona fina

ESTAS fotos não foram tiradas num "bairro problemático-degradado" mas sim na finíssima Av. de Roma, em Lisboa - e merecem alguns comentários:
A primeira mostra a nova moda (que se espalhou a toda a cidade) de pôr lixo no passeio, como se fazia há 50 ou 60 anos.
A segunda tem uma leitura dupla: os munícipes põem as garrafas no chão, ignorando os vidrões, que a autarquia também não esvazia atempadamente.
A terceira é uma variante do que sucede quando alguns simpáticos cidadãos deixam jornais em cima dos bancos "para o próximo ler"... se entretanto não vier vento.
As duas últimas funcionam como compensação das anteriores, pois mostram algumas zonas verdes, sempre de saudar.

Constâncio não antecipa

Por Manuel António Pina 
A REUTERS difundiu ontem a alvoroçada notícia de que um vice-presidente do Banco Central Europeu, Vítor Constâncio, "não antecipa a saída da Grécia da Zona Euro". Justificadamente, a coisa afigurou-se à Reuters importante: tratava-se de declarações de um vice-presidente do BCE durante uma conferência em Hong Kong do Instituto de Regulação e Risco; e, sendo suposto que o BCE acompanha de perto a situação grega e dispõe, sobre ela, de informação que escapa à maioria dos analistas, a declaração de um seu vice-presidente seria certamente relevante e a ter em conta. Não terá reparado a Reuters que Vítor Constâncio fez igualmente a relevante declaração de que a Grécia vai "enfrentar uma situação difícil" (coisa que ainda ninguém antes antecipara). Se tivesse reparado, decerto se teria informado melhor sobre o ex-governador do Banco de Portugal e a sua capacidade para antecipar seja o que for. Descobriria então, talvez com surpresa, que Vítor Constâncio só antecipa acontecimentos depois de eles terem acontecido e que, nas suas funções de regulador no Banco de Portugal, conseguiu a proeza de antecipar o que estava a passar-se no BCP, BPP e BPN apenas quando o escândalo apareceu escarrapachado nos jornais.
Assim, por vias travessas, a não-notícia da Reuters acaba sendo notícia. A de que o mais provável é que a Grécia saia mesmo da Zona Euro.
«JN» de 23 Mai 12

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Ai, Jesus!


DEPOIS de algumas fotos do Arco das Portas do Mar e do Arco Escuro (na cerca moura de Lisboa), aqui ficam imagens de um outro, da mesma família...

Não é tempestade num copo de água

Por Ferreira Fernandes
É ACONTECIMENTO da semana passada mas tenho de voltar ao copo de água da torneira a 50 cêntimos num snack bar algarvio. O problema é que já não se fala dele. No entanto, ele é-nos estrutural, revela mais e conta-nos melhor, por exemplo, que a absurda história do superespião. Quando apareceu a notícia - um bar, numa praia de Faro, faz-se pagar pelos copos de água da torneira -, os jornalistas embicaram para uma das duas autoridades a que geralmente apelam quando precisam de explicar um acontecimento. Não foram ao psicólogo, foram ao doutor de leis. Falaram para a ASAE, que os sossegou, a lei não interdita que um copo de água da torneira seja cobrado. Pronto, torneira fechada sobre o assunto. 
Mas há notícias em que não importa a lei. Porque o problema não é multar nem prender o tendeiro. O problema é que, em plena crise nacional arrasadora, haja comerciantes - gente que troca, que dá e recebe, e que vive disso - a decidir serem misantropos e agir como a velha do 7.º que passa por mim e não me cumprimenta porque não precisa de mim. 
Essa era notícia para ser explorada, comparada, instigadora de porquês e de prováveis soluções. Porque não é uma tempestade num copo de água, é mesmo uma tempestade denunciadora da nossa impotência. O comerciante em causa disse que já outros fazem o mesmo. Era necessário confirmar, porque se os há, concedo, desta vez, que precisamos mesmo de psicólogos para nos explicar a vaga de estupidez. 
«DN» de 23 Mai 12

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Portugal faz falta a quem?

Por Baptista-Bastos
"PORTUGAL faz-me falta." É uma frase comovente e bela pela sua clara genuinidade. Proferiu-a um professor de Música, de nome Fernando (desculpem, não fixei o apelido), há vinte e sete anos imigrado na Suíça. Ouvi-a anteontem, no programa Opinião Pública, primeira edição, SIC-Notícias. "Se as condições em Portugal fossem outras, ia para lá hoje mesmo." Não são: são piores. E Fernando vai ficar, iluminando a tristeza dos nossos males, que alguns banalizam, inculcando-nos a tese de que são históricos e inevitáveis.
Não creio que Passos Coelho ou Miguel Relvas (agora enredado em novas encrencas), paladinos infatigáveis de mandar portugueses para fora do País, tivessem conhecimento deste desabafo d'alma. São criaturas de recursos curtos e insistentes, resultantes dessa simbiose milagrosa e casual que tem transformado a mediocridade num desaforo e a ignorância numa carta-de-guia.
Este Fernando precisa de Portugal porque sim. A sensação confusa e dorida que nos prende "a esta nesga de terra / debruada de mar" [Torga] - e que designamos de saudade, à falta de melhor explicação, faz parte da nossa retórica sentimental. Essa emoção já me tocou no batente quando vivi na Grécia e no Brasil. Estamos lá sem nunca deixarmos de estar aqui: é mais uma forma abstracta de ser, e uma fragilidade propícia a servidões momentâneas. Uma coisa fora do tempo, um pouco reaccionária e acaso tonta, cujo aproveitamento, ao longo da história das nossas tiranias, tem feito mossa à colectiva maioridade de que necessitamos.
"Portugal faz-me falta." A grandeza emocionada desta confissão confronta-se com a pequenez insultuosa daqueles dois nomeados. "Agora, Estar", escreveu o poeta Pedro Tamen, um dos mais belos livros sobre o Portugal liberto, repleto de uma autenticidade que não tardou em empalidecer. Os senhores da força sem razão remeteram para a ruína anónima aqueles aos quais Portugal fazia falta e que ambicionavam estar, apenas para ser. Passos Coelho e Miguel Relvas são parte dessa herança espúria. Levam a sua capacidade paradoxal ao ponto de nos indicarem a fronteira, por incapacidade de nos reter aqui. 815 portugueses por dia perderam o emprego no primeiro trimestre deste ano. A pátria despovoa-se dos seus jovens e o número de suicídios cresce. Os velhos são um embaraço improdutivo para este Governo que, além de desempregar pessoas, desempregou a generosidade e a compaixão.
Podemos viver nesta aridez de espírito, neste caucionar da agressão sem limites, neste vazio e neste coração oco, ostensivo, incoerente e fatal? A pergunta ainda não saiu dos círculos concêntricos das nossas inquietações quotidianas. Vamo-nos animando com os escândalos diários, e remetemos, para os fojos, a preparação de novos conceitos e de novas resistências.
Agora, ir?
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Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o Novo Acordo Ortográfico
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«DN» de 23 Mai 12

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22.5.12

Gás e electricidade...

Os globos de trapo

Por Pedro Barroso
QUE TENHO a ver com tamanha enormidade de pífia imitação de riqueza? 
Que temos que ver com a fortuna esbanjada em vestidos e smokings perfumados, provavelmente emprestados, alugados, trocados por favores, proclamadores de griffe?
Quantos destes tecidos são apenas anúncio sem jeito de uma fama que brilha factuamente por uma noite na constelação de estrelas sem norte, numa sociedade sem azimutes?
Que me importa que se badalem e estimem, que se proclamem e exibam, que se flagelem de prendas e elogios, que levantem prémios designados por quem sabe o segredo maior de todas as coisas, última porta ao lado das entradas de cavalo, favor de todos os lóbis, concentração pouco plural de pesadelos e serviços?
Que linda e fútil é a nossa sociedade, construída com fundamento na moda, no mostra hoje que amanhã não sabemos, e na post modernice mais larvar e imbecil da criação?
Que artistas tao geniais recebem tantos elogios, sempre os mesmos? Sao estes os caminhos da cultura deste país?
Que gente é esta, vestida de boa, esmoleres criaturas ignorando a crise e o desemprego, ignorando os próprios sem abrigo que mais logo à noite, na mesma rua do Coliseu, farão de uma caixa de cartão apartamento e da raiva loucura e do sonho bebedeira, para esquecer e não lembrar a vida perdida?
Quantos são afinal os que mandam nesta fantochada requentada e triste? Quem acredita que aqueles sejam mesmo os maiores do ano, da vida, da década ou do Mundo que dê o primeiro passo. 
Ali nunca premiariam nem Gil Vicente, nem Luiz Pacheco; nem Zeca, nem Adriano; nem Damião de Gois nem o pobre Luiz Vaz. Nem Jorge de Sena nem Vergilio Ferreira. Provavelmente, arrisco de propósito - para acusação maior de hipocrisia total – se calhar ali nunca venceria em vida Bernardo Sassetti.
Ali vive-se a aurea mediocritas do que temos. E tenta ocultar-se a pobreza por um dia, como se o país fosse a TV e o sucesso uma pilha de favores encadeados sob a forma de um êxito vago e sem memória. Algumas editoras escolhem entre elas e distribuem o grupo do ano. Poucas. Para o ano a coisa roda e seremos todos felizes. 
Oh senhores! Querem a canção do século? A A Pedra Filosofal, talvez. A coragem do século? Humberto Delgado, talvez Salgueiro Maia. O letrista do século? Ary! 
Esses sim; esses são os meus maiores. 
Esses serão para sempre os Globos de ouro de uma outra Gala, de um outro país que não é aquele que ali, só muito supostamente, está presente.

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O ataque suicida

Por Manuel António Pina
DO MESMO modo que, para um político, designadamente um governante, o melhor modo de manter a sua imagem a recato é não ter no passado, e se possível no presente, nada que o envergonhe (ou, não sendo ele de se envergonhar, que envergonhe os seus eleitores), está visto que o problema da independência dos jornalistas é terem vida privada. Um jornalista com vida privada está sempre exposto a que um político, designadamente um governante, o ameace de a revelar publicamente. Eu, por exemplo, deixaria de escrever a maior parte destas crónicas se um governante me ameaçasse que, caso continuasse a fazê-lo, revelaria publicamente que ando com buracos nas meias, coisa que hoje já todo o Governo deve saber pois falei disso ao telemóvel com a minha empregada e o SIS está, como se sabe, na dependência directa do primeiro-ministro.
A jornalista do "Público" que agora se queixa de ter sido ameaçada pelo ministro Miguel Relvas com revelações sobre a sua vida privada no caso de persistir em investigar as suas relações com um certo (ou incerto) espião não se teria visto em tais apuros se não se desse ao luxo de, além de vida profissional, ter vida pessoal.
A modesta proposta que apresento à Comissão da Carteira Profissional é que seja vedado aos jornalistas, de modo a blindar a sua independência de ataques suicidas como o do "Público", ter vida privada.
«JN» de 22 Mai 12

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'Assim se vê a força do ex-BCP!'

Por Ferreira Fernandes
JARDIM Gonçalves deu ontem uma boa entrevista ao jornal i. Claro que ele quer reabilitar-se - está inibido de ser banqueiro e correm processos sobre a sua gestão do BCP -, mas já vi gente que deu entrevistas para instrumentalizar (não são para isso quase todas?) e acabou espalhado. Nesta de Jardim Gonçalves não foi o caso. Houve até uma daquelas frases que saltam, porque ditas por quem não se espera, diretamente para as aberturas dos telejornais: "Não foi para isto que aconteceu o 25 de Abril", queixou-se. 
Podia ser o título de um capítulo do programa de candidatura do sindicalista Carvalho da Silva a Presidente, mas não, é um grito de alma de um banqueiro (ou ex, mas Jardim Gonçalves merece que a condição se lhe cole à pele). 
O País, quando chegou a pensar que o 25 de Abril poderia ser um dos feriados civis a cortar, passou uma tangente ao insólito de ver Otelo e o nosso mais famoso membro do Opus Dei do mesmo lado da barricada. Essa, uma interpretação radical da extraordinária frase: a Europa está a esquerdizar-se e a possibilidade de o Bloco de Esquerda grego ir para o Poder está a apressar um "aggiornamento" até dos banqueiros. 
Outra interpretação, em sentido contrário, é de um complô de capitalistas: depois de Alexandre Soares dos Santos ter feito do 1.º de Maio a festa dos consumistas, Jardim Gonçalves apropria-se do 25 de Abril. Banalizar os ícones do adversário é uma arma feroz. 
«DN» de 22 Mai 12

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Encadernadores, Precisam-se

Por Maria Filomena Mónica   
ACABO de regressar de uma sessão de autógrafos no último dia da Feira do Livro. Apesar de calor, gostei de lá ter ido, não só porque tagarelei com pessoas simpáticas, mas porque a visita me forneceu a ocasião para comprar a edição das obras completas de Camilo Castelo Branco. Os seus dezoito volumes não cabem numa casa onde os livros já ocupam as gavetas da lingerie, o chão da cozinha e até o sofá-cama dos netos, mas não hesitei. Cá em casa, como se diz no antigo ditado, quem manda sou eu; já quanto à segunda parte, não me compete, a mim, pronunciar-me.
Já que estou a falar de livros, quero, mais uma vez, alertar o governo para o que se passa na Biblioteca Nacional no que diz respeito ao restauro. Se alguém pensa que tenho influência, desengane-se. Desde que, em 1990, comecei a escrever um diário no Público que menciono o problema, sem que nada aconteça. Há quem diga que é uma idiossincrasia, mas, como é evidente, não defendo a preservação deste património apenas por mim, mas em nome de todos nós. E não me venham com o argumento de que muita coisa está agora digitalizada. Do que falo é do que o não está, encontrando-se em frangalhos.Reconheço, do alto dos meus quase setenta anos, que nunca, em lugar algum, fui tão feliz como numa biblioteca, o que, como é óbvio, não retira legitimidade à reivindicação de que se preservem os espólios. Até pela sua beleza arquitectónica, a Radcliffe Camera de Oxford surge à cabeça na lista das minhas preferências institucionais, mas a Biblioteca Nacional de Portugal vem logo a seguir. Por andar a escrever sobre a actualidade, tenho ido lá pouco, mas muitos foram os anos em que ali entrava diariamente às 10 da manhã para de lá sair ás 7 da tarde. Em vez de um psicanalista, optara pela emigração para épocas pretéritas. 
Para além dos livros, outros factores existem que tornam o ambiente de uma biblioteca único: o silêncio da sala de leitura, a descoberta de um documento que há muito procurávamos e o carácter excêntrico dos indivíduos com quem nos cruzamos. Até quando nada tenho a investigar, as minhas deambulações pelo estrangeiro incluem sempre uma biblioteca. Quando, no ano passado, convidei as minhas netas para virem comigo a Nova Iorque, o primeiro edifício onde entraram, não foi a estátua da Liberdade, mas a New York Public Library.
A situação a que se chegou na Biblioteca Nacional indigna-me tanto mais quanto sei que o governo gasta milhões em «Observatórios» criados para dar ao Executivo cobertura ideológica para decisões já tomadas. Como os investigadores não são um lobby nem os jornais esfarelados têm voz, o restauro tem vindo a ser adiado.  Previsivelmente, nem a crise nem a troika ajudam, embora toda a gente saiba que o restauro dos livros, jornais e manuscritos da BNP custaria menos do que 0,000001% do que o Estado gastou com a compra de bancos falidos. No actual momento, o tipo de funcionários de que a Biblioteca mais necessita é de encadernadores. Sabem quantos existem? Um.
«Expresso» de 19 Mai 12

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21.5.12

Apontamentos de Lisboa

ESTAS fotos, tiradas na Av. Sacadura Cabral, em Lisboa, com pouco tempo de intervalo, colocam uma questão complicada: 
O que é que os profissionais da limpeza - por muito competentes e esforçados que sejam - podem fazer perante a excepcional eficácia dos profissionais da sujidade?

Frase a frase a semana toda

Por Ferreira Fernandes
O SPORTING ganhar alguma coisa era uma hipótese meramente académica. 
Nunca um Presidente americano fez tanto pelos europeus: Obama assistiu ao desempate a penáltis num jogo de soccer
Paradoxo é uma palavra inventada para tapar um esquecimento, coiso, fazer-nos logo lembrar o nome de um ministro. 
Quem vai sair primeiro do Euro: Paulo Bento ou Vítor Gaspar? 
História repetir-se é a Grécia ficar em primeiro num campeonato europeu (o da saída do euro) e nós em segundo. 
Conhecem coisa mais badalada que os nossos serviços secretos? 
Os superespiões de todo o mundo assassinam, primeiro, e escondem as pistas, a seguir; por cá anunciam sopapos no Facebook e depois não dão. 
Hollande defende o crescimento, o que é natural em alguém com nome de país baixo. 
Enquanto pedia a demissão de Miguel Relvas, a oposição tremia toda: no desemprego, ele ia ficar ainda com mais oportunidades. 
Grande industrial, Tomé Feteira deve a sua fortuna à "Empresa de Limas Tomé Feteira", o que não quer dizer que todos os seus próximos tenham tido a mesma sorte com essa ferramenta. 
Os nossos bancos não querem ser como os gregos, o nosso Governo não quer estar como o grego, os portugueses não querem ser gregos, exceto o Bloco de Esquerda, para o qual ser grego era a cereja em cima do bolo. 
O dono de um café de Faro, para combater a crise, cobra 50 cêntimos por copo de água da torneira e ainda não percebeu que o copo vai ficar-lhe meio vazio.
«DN» de 21 Mai 12

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"Deus não quer, François!"

 Por Rui Tavares
CONHECI em tempos um casal em que ambos eram fervorosos crentes na existência de Deus. Bem, talvez mais do que isso: ambos alegavam falar com Deus. As discussões eram engraçadas: “amor, Deus agora não quer que tu toques viola” — “mentira, amor, é Ele que me está a pedir”. As escolhas de restaurantes, de roupa e de meios de locomoção passavam pelo mesmo processo.
Eu ainda admito que se possa falar com Deus; mas nunca acreditei que Deus pudesse responder. Até ontem, quando o avião de François Hollande foi atingido por um relâmpago quando viajava de avião para jantar com Angela Merkel logo a seguir à sua tomada de posse. A comitiva teve de voltar para trás e mudar de aparelho, mas mesmo assim lá foram de charola para Berlim e o encontro lá teve lugar.
Não, não e não! Mas tu não vês, François? Deus não quer! Até Deus, na sua infinita paciência, se pergunta: “mas quando é que a esquerda aprende?” e “quando é que a Europa muda?”
Tu não precisavas de ir a correr para Berlim, François. A Merkel fez questão de não receber-te quando eras candidato à presidência. Claro que irias visitá-la, mais tarde ou mais cedo, mas não teria de ser logo depois de tomar posse. E, se era para discutir a União, deverias ter deixado claro que havia um lugar próprio para o fazer: Bruxelas. Berlim é uma capital europeia, mas não é a capital da Europa.
As duas perguntas de Deus, aliás, estão ligadas: a Europa só muda quando a esquerda aprender. Seja a fazer oposição ou a governar, é preciso passar a entender a dimensão europeia como distinta das meras relações entre governos de Estados. Em época de crise, sobretudo, a falta da dimensão europeia leva os estados a encerrarem-se em posições determinadas pela visão mais mesquinha dos seus debates nacionais e a relacionarem-se, no máximo, de forma bilateral. Ora, uma coleção de relações bilaterais não faz uma União.
Para haver uma União tem de conseguir apresentar-se uma visão que una partes das sociedades de todos os estados-membros no interesse comum de atingirem um alto nível de desenvolvimento económico, social e ambiental. Se se disser que uma taxa sobre as transações financeiras, complementada com outra sobre a poluição, cujos recursos alavancados moderadamente por dívida europeia (até agora praticamente inexistente) poderiam relançar a economia de todo o continente, a começar pelos seus pontos mais fracos mas beneficiando toda a gente — isso pode ser um discurso que, mobilizando os cidadãos, crie uma União.
A insistência em relações bilaterais acaba por criar uma realidade em que “a Alemanha” quer x e “a França” quer y — e os cidadãos, na sua multiplicidade, ficam como se não tivessem vontade. Para nós, particularmente, isto é grave. Os principais prejudicados da falta de uma democracia europeia são os pequenos países.
Infelizmente, para que a esquerda (o centro-esquerda e a esquerda radical, raios: a esquerda) aprenda que é do seu interesse que a Europa se faça, será necessário muito mais do que um raio. Será necessário ver o colapso da Grécia, o contágio a Portugal, a calamidade na Espanha e na Itália — e o euro condenado. Quando será que a esquerda aprende? Não respondes, Deus?
«Público» de 16 Mai 12

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Perguntar ofende

Por Manuel António Pina 
EU TAMBÉM recebo "clippings". No passado sábado, por exemplo, recebi dois "clippings" da TVI24, ambos com testemunhos abonatórios do omniministro Miguel Relvas que, depois da limpeza ideológica da Antena 1 na pessoa do jornalista Pedro Rosa Mendes, em que apenas apareceu envolvido de cernelha, parece agora ter-se decidido por pegar o bicho de caras.
Os jornalistas têm a ingénua convicção de que perguntar não ofende. Mas perguntar a um ministro coisas sobre as quais ele prefere não falar (por exemplo, sobre contradições em que terá entrado numa audição parlamentar), ofende e muito. Nada mais natural, pois, que o ministro ameace o(a) jornalista com um "blackout" do Governo e revelações, decerto picantes, sobre a sua (do ou da jornalista) vida privada.
Não havia assim necessidade de o deputado Matos Correia, do PSD, vir abonar que "[conhece] bem Miguel Relvas e [tem] a certeza de que ele não fez as ameaças de que é acusado; não há, por isso, motivo para que o primeiro-ministro lhe retire confiança política"; nem de o líder do PSD/Porto se mostrar convencido de que "ninguém vai imaginar que existiram pressões sobre os jornalistas" já que estes não são "susceptíveis de sofrer esse tipo de pressões, porque têm um código de ética que não lhes permite".
Testemunhas de defesa tão desastradas podem até levar a crer que o ministro fez alguma coisa repreensível.
«JN» de 21 Mai 12

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20.5.12

Das rochas sedimentares (56A)

Por A. M. Galopim de Carvalho 
A PROPÓSITO do gesso de Santana, em Sesimbra, é oportuno lembrar uma situação que por diversas vezes tenho denunciado e que aqui reproduzo. No capítulo “Sesimbra, uma autarquia que ignora o seu importante património geológico”, pág. 446, inFORA DE PORTAS – MEMÓRIAS E REFLEXÕES”, Âncora Editora, 2008, pode ler-se: “A gesseira de Santana, onde se explorou o gesso até aos anos 60 do século passado e hoje abandonada, constitui uma ocorrência única no concelho, representativa deste remoto episódio, com interesse não só local como regional e global, desenvolvido ao longo de milhões de anos (...)
Texto integral [aqui].

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Luz - Miranda do Douro, 1978

Fotografias de António Barreto- APPh
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Uma das mais pequenas cidades portuguesas. Já foi sede de diocese (ainda hoje, o título oficial é Bispo de Miranda e Bragança). Terá hoje perto de 2.000 habitantes. O concelho não chega a 8.000. Já não vou lá há mais de vinte anos. Nos anos setenta, as ruas e os edifícios eram assim...

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Queres ser meu amigo?

Por Ferreira Fernandes
MARK Zuckerberg andou em Harvard, a melhor das universidades. Daí a vocação para o ensino: ele e o seu Facebook ensinaram 845 milhões de pessoas que a amizade é virtual. 
Houve gente que precisou de uma vida para se dar conta dessa virtualidade (leia-se, talvez seja amigo, talvez não) e Zuckerberg decretou que ser amigo não passa mesmo de um simples clic: "Queres ser meu amigo?" 
No fim do verão já serão mil milhões de "utilizadores" - é assim que o Facebook trata os seus "utilizadores", termo mais frio do que os antigos "companheiro" e "amante", mas bem mais verdadeiro: antigamente, faziam-se amizades de verão e no outono já nos tínhamos esquecido de como ela beijava bem. 
Segundo um estudo, nos Estados Unidos cada utilizador do Facebook tem uma média de 229 amigos. É muito amigo para ser sincero mas a lógica do Facebook é essa, na avalanche de muitos, aproveitar a disponibilidade de um punhado e, até, reencontrar amigos perdidos (e, já agora, as namoradas de verões passados). E todo esse culto da amizade é combinado com os benefícios da tecnologia. Sempre tive pela amizade uma noção de cowboy, os melhores diálogos são os calados, enquanto o Sol se põe num canyon. É o que o Facebook faz com o seu recurso "cutucar" (em brasileiro, em português é "toque", mais fraco). Um amigo "cutuca", diz que está ali, e é quanto basta. 
Só por essa boa ação o Facebook merece ter chegado esta semana à Bolsa com o maior sucesso de sempre. 
«DN» de 20 Mai 12

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19.5.12

Apontamentos analfabéticos

Carrinha da S. Vicente de Paula

Até os cenários inventados são maus

Por Ferreira Fernandes
O HUMORISTA Sacha Baron Cohen, que anda agora a fazer de Kadhafi no Festival de Cannes, inventou o personagem Borat, que deu cabo do pouco prestígio do Cazaquistão. Receio que Portugal tenha o mesmo destino quando o recente romance da americana Lionel Shriver The New Republic passar a filme. E vai sê-lo certamente: Temos de Falar sobre Kevin, também inspirado num livro dela, é um sucesso. 
Na década de 90, Lionel Shriver foi jornalista na Irlanda do Norte, onde se fartou de bombistas. Escreveu, então, um livro satírico sobre jornalistas e terroristas e não o publicou porque os americanos achavam o terrorismo assunto longínquo. Depois do 11 de Setembro continuou a não publicá-lo porque os americanos achavam o terrorismo demasiado íntimo para ser tratado de forma ligeira. E o livro foi agora publicado porque Shriver se está nas tintas para o que acham os portugueses. 
Portugueses?! Sim, a tal nova república chama-se Barba, uma península do Sul de Portugal com capital em Cinzeiro, um movimento independentista, O Creme de Barbear, e um grupo terrorista, Soldados Ousados de Barba... E assim temos o país de brandos costumes e o mais unido da Europa com bombas e separatismos. 
No romance tudo é inventado por um jornalista-vedeta, mas o cenário descreve toda a fealdade de Barba e Cinzeiro e até a comida é intragável. 
Depois das agências de rating, escritoras catastrofistas! Temos de ir à bruxa. 
«DN» de 19 Mai 12

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No Reino do Absurdo

Nestas modernas instalações (situadas na Av. Defensores de Chaves, em Lisboa) também já é possível tratar do Cartão de Cidadão e do passaporte. Algumas destas imagens documentam, no entanto, algo que não está lá muito bem... O que é?
Actualização: a resposta está dada no 2.º comentário.

«Serviços Secretos» obscenos

Por Antunes Ferreira
OBSCENO, para além de patético, o caso das secretas é obsceno. E de alguma forma, do que se vai sabendo sobre as ligações multilaterais que se verificaram, pode-se concluir que até é pornográfico. Um senão, apenas: enquanto em 1972, nos Estados Unidos, o «Deep Throat», entre nós o «Garganta Funda», revolucionava o cinema porno, por cá a garganta deixou de ser funda, bem pelo contrário, ainda que se tente fazer engolir as mais diversas versões dos mais diversos personagens.
Mas, como é sabido, não se trata de mais um descabelado filme produzido nos estúdios da quase malograda Tóbis, ali ao Lumiar. É uma peça teatral? Um drama ou uma comédia? Nada disso. É uma caricatura de um dos muitos 007 que encheram os ecrãs durante anos. Ian Fleming saberia o que fazia ao criar James Bond? Muito provavelmente tinha a intenção de, mas por certo não imaginaria a dimensão mundial que o agente do MI-6 viria a ter. O público tem reações que a reação desconhece. É como escrevia Monsieur Blaise Pascal: o coração tem razões que a própria razão desconhece.
Os Serviços Secretos à portuguesa são, pelos vistos, mas sobretudo pelo que vai vindo a público, mais um exemplar que ficará na história do anedotário nacional. Desde a PVIDE, passando pela famigerada PIDE/DGS, até ao caos hodierno em que são mais do que as mães, tudo tem acontecido às organizações da intelligence deste cantinho o mais ocidental da Europa, e que Tomás Ribeiro cantou como um jardim à beira-mar plantado. O poeta, veja-se, também era político, o que não quer dizer, absolutamente, que todos os poetas sejam políticos – e o prejuízo para quem o é – muito menos que todos os políticos sejam poetas. No entanto, na maioria das vezes, parecem, arremedem.
O disse que não disse mas que eles sabem que disse mas desdisse é comum nestas coisas hiper sigilosas de tais serviços. E quando a mostarda sobe ao nariz e se zangam os compadres descobrem-se muitíssimas verdades – alegadamente secretas. As trocas de informações são na verdade trocas de influências. Nesta nossa terra de cantigas de escárnio e de maldizer, as coisas refinam sempre – para o pior. É o caso. Eu sei disto o que julgo que tu não sabes, donde informo-te a troco de. É assim desde que o primeiro homem desceu da árvore, dirão.
É mesmo, responderão. Porém, em Portugal o troco é mesquinho, porque uma grande fatia de nós, os Portugueses, é mesquinha. É medíocre, porque nós, os Portugueses, somos medíocres. É um tanto masoquista escrevê-lo. É um cilício, é uma autoflagelação? Será, mas as verdades devem ser ditas, por mais que façam doer a quem as diz.
A segurança nacional fica posta em causa, porque fica exposta? Mas o que é a segurança nacional no nosso torrão natal? Se um chefão saiu da organização que tutela e engloba os espiões – militares, civis, eclesiásticos, administrativos, industriais, et aliud – e volta à sua condição de homem normal (com o pedido de desculpas ao Presidente Hollande), devia mesmo voltar a ser um homem normal. De boas intenções está o inferno cheio. Um espião nunca deixa de ser espião.
Porém, quando esse trânsito é apenas um passo mais para a continuidade da prestação de informações e põe em causa o próprio Governo – trata-se, como todo este arrazoado, de hipótese meramente académica e não provada em Parlamento – algo está podre no reino da mentira, ou seja no reino lusitano.
E fica-se perante o provável e possível comentário do FBI, da CIA, da FSB, ex-KGB, do MI5 e de uns quantos mais. «Portugal intelligence? It’s a joke…»

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