26.12.12

O Maestro

Por Joaquim Letria
UM VELHO músico judeu que vive em Londres disse uma vez que o maestro judeu argentino Daniel Baremboim era o melhor pianista palestino de sempre. Obviamente que não era um elogio. Antes se tratava duma… sarcástica “judiaria”, a propósito da Alta Autoridade da Palestina ter concedido, honoris causa, a cidadania ao famoso maestro que tanto pugna pela reconciliação entre os dois povos.
Os ultraortodoxos de Israel e os fundamentalistas de Alá são muito parecidos e puseram-se de acordo considerando, uns e outros, Baremboim um inimigo e um impostor. Baremboim expôs-se para evitar a deflagração numa aventura quixotesca. Não somente na fronteira entre Israel e a Palestina, tão abalada pelos desígnios eleitorais de Netanyahu, mas também na linha de separação entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul, cenário de um concerto especial que o maestro dirigiu.
O vigor com que Baremboim defende a convivência de Israel e da Palestina como estados independentes e reciprocamente reconhecidos converte-o num terrorista, bode expiatório de ambos os fanatismos. À pedagogia política da sua orquestra palestina-judaica soma-se o excelente resultado musical. A sua gravação das “Nove Sinfonias” de Beethoven, produzida no curso duma “tournée” internacional, rivaliza com as melhores edições disponíveis no mercado.
Baremboim é um excelente maestro e um cidadão comprometido. Combateu o muro de Berlim, conseguiu que a música de Wagner fosse tolerada em Israel e dirigiu o “Anel do Libelungo” na colina sagrada de Bayreuth. Pode dizer-se que é também um dos melhores pianistas espanhóis, depois do Governo de Zapatero lhe ter concedido passaporte ao cabo de tantos concertos oficiados na península...
O maestro tem uma casa perto de Marbella, próximo de Puerto Banus. É aí que se refugia, de cada vez que quer ouvir o silêncio e desfrutar do prazer do anonimato. Quem sabe onde ele mora é o afinador de pianos que costuma ser chamado lá a casa depois daquele primeiro telefonema em que o maestro disse:
“Sou Baremboim e precisava que viesse afinar-me o piano!”
“De que bar disse o senhor que fala?” perguntou-lhe o homem, numa primeira conversa entre os dois que o maestro, até hoje, converteu em irresistível anedota.

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5 Comments:

Blogger José Batista said...

Não é fácil, nem imediatamente compensador, promover a paz entre contendores que se odeiam visceralmente. Nem mesmo com as sinfonias de Beethoven.
E pode passar a "terrorista" que insista em consegui-lo. Mesmo com música de Beethoven, com executantes à altura. Raio do "bicho homem"!, e de teorias como as do "bom selvagem" ou do "homem novo"...
Teorias velhas, afinal.
O que vale é que o género humano também inclui pessoas como "Baremboim". Em todos os tempos.
O seu sucesso é temporário, restrito e relativo.
Mas antes isso que nada.
Bem haja também a quem vai registando.
Outra forma de insistir, muito necessária.

26 de dezembro de 2012 às 13:05  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Por lapso, este texto foi afixado 2ª vez - mas, já agora, fica assim...

26 de dezembro de 2012 às 16:36  
Blogger José Batista said...

Caro Medina Ribeiro

Eu creio que o "post" repetido não foi este, mas sim o anterior.

De qualquer forma, e pela minha parte, do Letria pode repetir sempre.

26 de dezembro de 2012 às 18:32  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Pois... Tem razão!

26 de dezembro de 2012 às 19:13  
Blogger José Batista said...

Olha, voltei a ler o primeiro comentário que fiz a este "post" e há um erro em: «E pode passar a "terrorista" que insista em consegui-lo.» Obviamente não é "que insista" mas "quem insista".

Peço desculpa, pelo "impulso" de comentar se sobrepor à precisão dos (meus) olhos...

26 de dezembro de 2012 às 22:28  

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