23.8.12

A velhinha que salvou o pintor

Por Ferreira Fernandeserreira Fernandes
EM SARAGOÇA, havia a Farmácia Ríos, centenária e com belos móveis, cerâmicas e frescos. Em 1987, a farmácia fechou, foi vendida e a família doou o mobiliário e as cerâmicas para um futuro museu. Mas os frescos, agarrados às paredes, desapareceram na voragem do negócio. Não sei se hoje é hamburgueria ou banco, mas deve ser comércio que não saberia explicar o porquê de retortas desenhadas nos tetos. Eram obras de Elías García Martínez (1858-1934), professor na Escola de Belas Artes de Saragoça, pintor de arte efémera (fazia obras religiosas para os desfiles da Semana Santa), mas que merecia, como todos os artistas dedicados, ter deixado memória. As notas breves da sua biografia na Wikipedia não são ilustradas por nenhuma das suas pinturas - esquecido, era o que estava o homem. Por exemplo, um seu fresco, um Cristo, numa capela de Borja, na província de Saragoça, não atraía os turistas, desalentados pelos cinco quilómetros até ao cimo de um monte. 
Esta semana, porém, esse Cristo tornou-se a pintura mais famosa do mundo... Cecília, uma velhinha de 80 anos, fiel da capela de Borja, pesarosa pelos estragos do tempo no Ecce Homo, decidiu dar-lhe uma demão. Como na cena célebre de um filme de Mr. Bean, Cecília borrou a pintura... Ou talvez não. 
Olha-se para o novo Cristo e causa compaixão: e não é esse o sentido fundo do Ecce Homo? Depois, uma coisa é certa: começou a corrida às obras de Elías García Martínez, o ex-esquecido.
«DN» de 23 Ago 12

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