27.1.12

Nem o passado lhes escapa

Por Manuel António Pina

HÁ EM PORTUGAL (um Estado laico) 7 feriados religiosos. E 5 civis e 2 nem por isso (o Ano Novo e o Carnaval, este último "facultativo"). São civis o 25 de Abril, o 1.º de Maio, o 10 de Junho, o 5 de Outubro (Implantação da República) e o 1.º de Dezembro (Restauração da Independência); os religiosos, apesar de a Constituição - mas quem liga à Constituição? - determinar que "ninguém pode ser privilegiado (...) em razão [da sua] religião", são todos... católicos: Sexta-feira Santa; Páscoa; Corpo de Deus; Assunção; Todos os Santos; Imaculada Conceição; e Natal.

Acha o actual Governo que "para aumentar a produtividade", isto é, os lucros das empresas, e a acrescer ao "banco de horas" e à redução das férias e tempos de descanso, os portugueses devem ainda trabalhar gratuitamente mais quatro dias por ano e, vai daí, quer cortar quatro desses feriados.

Pela sua parte, dá uma tesourada na memória colectiva (na quê...?) e elimina os que evocam a implantação da República e a Restauração da Independência em 1640; e a Igreja Católica que elimine dois dos "seus", de modo a, diz o inenarrável ministro Álvaro, "haver simetria" (uma "simetria" de 3 feriados laicos para 5 católicos...).

Depois de ter imposto ao país um presente de miséria, prisioneiro do ciclo vicioso austeridade-recessão-mais austeridade-mais recessão, comprometendo o futuro colectivo, faltava ao Governo roubar-nos também o passado. Agora nem isso falta.
«JN» de 27 Jan 12

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