30.9.11

Privatizar

Por João Paulo Guerra

OS DADOS do Anuário do Sector Empresarial do Estado, da Ordem dos Técnicos Oficiais de Contas, ontem citados abundantemente nos jornais, são arrasadores e fornecem, nesta fase do campeonato, temíveis armas de arremesso para os defensores das privatizações de tudo e mais algumas coisas.

As 77 empresas de capitais públicos têm prejuízos acumulados de milhares de milhões, a satisfação dos compromissos em dívida absorveria as receitas de décadas, muitas das empresas estão mesmo falidas, o absentismo no sector público é seis vezes superior ao privado e por aí fora. Enfim, a situação é de tal modo catastrófica que nem se entende como haja privados decididos a investir nos ramos operados pelas empresas públicas. Mas há.

A primeira questão é que não serão estas empresas falidas, ou simplesmente endividadas, com encargos monstruosos, desde "recursos humanos" a custos de gestão - administrações bicéfalas, salários e prémios milionários, gastos sumptuários - que o Estado vai levar à praça: serão empresas viabilizadas, saneadas, sem dívidas e com muito menos encargos, designadamente com pessoal. E como se fará esse milagre para que, depois, os privados invistam? À conta dos dinheiros públicos como, por exemplo, já aconteceu com o BPN, que o Estado vendeu em saldo, depois de injectar milhares de milhões para tapar buracos. Ou seja: os mesmos agentes do poder político que geriram o sector público como uma quinta privada recebida em herança de uma tia rica, submetem depois as empresas a uma dieta de emagrecimento para que despertem o apetite dos investidores. E os que pagaram a tripa-forra, pagam também a dieta. Para que, no fim do processo, alguém possa finalmente engordar com tanto emagrecimento.

«DE» de 30 Set 11

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«Dito & Feito»

Por José António Lima

O QUE O DESAFORO despesista da Madeira veio confirmar, para lá da já conhecida irresponsabilidade terceiro-mundista de Alberto João Jardim, é que o Estado português nem sequer é capaz de assumir as suas funções básicas de fiscalização do cumprimento da lei.

Passos Coelho diz-nos, agora, que «o Tribunal de Contas, o INE e o Banco de Portugal irão, para o futuro, rodear-se de todas as cautelas para evitar que situações destas se repitam». Fraco consolo e débil terapia. Porque o problema é de fundo, é de permissividade, falta de exigência e ineficiência dos poderes públicos. Já não se resolve com cautelas e paninhos quentes à boa moda portuguesa. O Tribunal de Contas andou a fazer relatórios soft e a que ninguém liga sobre irregularidades na Madeira e nunca deu um murro na mesa para pôr fim aos desmandos. O INE e o Banco de Portugal andaram anos a deixar que lhes passassem, debaixo do nariz, contas aldrabadas, ignorando os alertas que lhes iam chegando. Isto não se resolve com cautelas.

Até porque o mais preocupante é que este laxismo, este nacional-porreirismo que tudo deixa passar, esta nulidade fiscalizadora, são hábitos bem entranhados ao mais alto nível da administração pública. Já vimos este filme com a incurável miopia do Banco de Portugal face aos descalabros do BPN e do BPP, com a total inoperância da Autoridade da Concorrência face ao cartel nos preços dos combustíveis ou, mais recentemente, com a imprestável existência da comissão de fiscalização dos serviços secretos que nada vê e nada controla.

Não menos preocupante é o facto de os principais responsáveis por tantas omissões e tamanha ineficiência ainda serem recompensados pela sua incompetência fiscalizadora. Vítor Constâncio saiu em grande do Banco de Portugal para uma vice-presidência do BCE. Manuel Sebastião continua a provar que a livre concorrência é uma farsa à frente da respectiva autoridade. Guilherme d’Oliveira Martins mantém-se a coleccionar elogios no Tribunal de Contas pelos relatórios anódinos e sem consequências que burocraticamente vai elaborando. Marques Júnior tem lugar cativo na presidência de uma comissão de fiscalização das secretas que nada consegue fiscalizar.

Portugal não precisa apenas de menos Estado. Precisa de um Estado que cumpra com eficiência as suas funções mais elementares.
«SOL» de 23 Set 11

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Memórias Fardadas

Por A. M. Galopim de Carvalho

NEM SEMPRE gostei de matemática. Aprendi a tabuada com a minha mãe que, enquanto costurava, me mandava recitá-la desde o dois vezes dois, quatro ao nove vezes nove, oitenta e um, numa cantilena de que a minha geração se lembra com saudade. Na escola primária, vá que não vá. A aritmética e a geometria prenderam a minha atenção e até gostei de fazer aqueles problemas complicados, na 4ª classe (4.º ano), de um tanque com 6,50 m de comprimento por 3, 20 m de largura e 1,75 m de fundo, recebe água de uma torneira, à razão de 7,5 litros por minuto. Quanto tempo demora este tanque a encher, até transbordar? (...)

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29.9.11

Recessão

Por João Paulo Guerra

O SECRETÁRIO de Estado adjunto do primeiro-ministro, Carlos Moedas, anunciou que a recessão da economia portuguesa em 2012 vai ser mais profunda do que o esperado.

Ou seja: a recessão era esperada, inesperada seria a profundidade causada pelas políticas de austeridade postas em vigor em grande parte do mundo, nomeadamente em países do euro, como é o caso de Portugal. A verdade, porém, é que a recessão só pode ser inesperada para os muitos distraídos ou para os que queiram distrair terceiros.

Está visto e revisto, escrito e reescrito, lido e treslido que a austeridade de uma banda só, baseada em aumentos de impostos e cortes de rendimentos, afunda o mercado interno, arrasa a economia e provoca a recessão. Todas as experiências comprovam que não há volta a dar-lhe. Já foi experimentado em todos os quadrantes do globo, e nomeadamente em Portugal, e deu sempre os mesmos péssimos resultados, num círculo vicioso infernal: recessão, austeridade, mais recessão, mais austeridade, etc.

Essa é porém a política mais fácil perante uma situação de crise: vai-se aos rendimentos dos assalariados, aos bolsos da classe média. E embora toda a gente conheça e aponte alternativas, o poder não se mete por aí: castigam-se os do costume e poupam-se as clientelas, algumas das quais até se enchem com as crises, a austeridade e a recessão. O governo de Durão Barroso ainda sugeriu a alternativa da aposta forte nas exportações. Mas terá acabado por chegar à conclusão que tal desiderato era ilusório em Portugal e acabou por se exportar apenas a si próprio.

De maneira que, como se estava mesmo a ver, a austeridade que esmaga e asfixia boa e grande parte dos portugueses em 2011 vai ser pior em 2012. E assim sucessivamente.

«DE» de 29 Set 11

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A propósito do Metro de Lisboa

(Não ficaria mal um "R" antes do "O"...)

ONTEM, o governo anunciou que, o mais certo, é que o preço dos transportes públicos volte a subir. No que toca a Lisboa, tem aqui sido referido, à saciedade, como é que os transportes de superfície são "acarinhados" por quem tem a obrigação de lhes facilitar a vida.
Vejamos, agora, o caso do Metro, a partir de um simples - mas eloquente - exemplo real.
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HÁ DIAS, uma pequena multidão de turistas, vindos de um hotel das redondezas, acotovelava-se junto a uma máquina de venda de bilhetes no átrio sul da estação Roma.
Motivo:
Além das dificuldades devidas ao facto de as instruções estarem apenas disponíveis em português, sucedia que, das três máquinas existentes, apenas uma funcionava. Numa outra, não se podia pagar com notas; numa 3.ª, nem com notas nem com cartão (MB ou outro).

Curiosamente, anunciava-se a possibilidade de pagar com o Porta-Moedas Multibanco, algo que já não existe há anos e anos...

Repare-se que estas dificuldades eram levantadas a quem queria PAGAR!

A Concordata e o esbulho ao estado português

Por C. Barroco Esperança

A CONCORDATA assinada entre a Santa Sé e a República Portuguesa no dia 18 de Maio de 2004 veio substituir a Concordata de 1940, para renovar as relações entre a Igreja Católica e Portugal e redefinir o estatuto desta religião no Estado Português, um acordo bilateral que privilegia de forma indecorosa os interesses do Estado do Vaticano.
A isenção fiscal do património imobiliário bem como do imposto sobre rendimentos e bens da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) é uma afronta aos portugueses que diariamente sofrem com as sucessivas medidas de austeridade
Quando o acordo assinado pelo Governo português com a troika prevê um aumento expressivo do imposto sobre o património (IMI) até 2012, é justo isentar a ICAR? (...)

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28.9.11

O 'tchador' da Rainha Isabel

Por Ferreira Fernandes

ESTA SEMANA, às mulheres de dois países muito diferentes - um, moderno e democrático, e outro, ainda na Idade Média - foi feita a mesma promessa de aproximação à igualdade. A umas, a do fim de uma condição que, embora só interessando directamente a poucas, espanta pelo atraso ao já conseguido pelas suas concidadãs. A outras, a promessa de uma pequenina reforma que por mudar um marasmo milenar só pode ter efeito de dique a rebentar.
Desta última promessa já falei ontem: o Rei saudita revelou que as mulheres da Arábia Saudita vão poder eleger e ser eleitas nas únicas eleições permitidas no país, de pouca importância (municipais) mas com forte valor simbólico num país onde elas nem podem conduzir automóveis.
Por uma coincidência extraordinária, ontem também, o Times de Londres anunciava que o Governo inglês vai propor a mudança de uma condição anacrónica, o fim da "primogenitura", que no costume inglês dá prioridade no direito de herança real ao filho varão. Se em vez da princesa Margarida a Rainha Isabel tivesse tido um irmão mais novo, era este que teria chegado ao trono... Ao que parece, a nova lei vai ser feita a correr antes que Kate engravide do príncipe William e, tendo uma filha (que não poderia beneficiar retroactivamente), complique a mudança desejada.
Vinda de lugares tão opostos, Riade e Londres, a coincidência das notícias só sublinha que a igualdade não são favas contadas onde quer que seja.
«DN» de 28 Set 11

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Cegueira

Por João Paulo Guerra

TODA a gente em Portugal teria a ideia que o País e muitos dos seus naturais andavam a gastar o que não tinham e que, mais tarde ou mais cedo, o descomedimento iria dar mau resultado.
Era assim no Estado, com o seu gigantesco aparelho sempre acrescentado de mais e mais caros ‘boys' e "boysadas", nas empresas públicas, nas parcerias público-privadas, nas autarquias, como nas regiões - em particular na Madeira das inaugurações permanentes -, como também da parte do cidadão comum, sempre espicaçado pelo marketing para consumir, recorrer ao crédito, endividar-se, até porque haveria sempre um empréstimo para pagar os empréstimos anteriores. E quando a política irresponsável de endividamento desse para o torto, o tratamento seria de choque e com dor. O que acontece é que, para além de chocante e doloroso, o tratamento também é cego. E doente que tenha escapado da doença não vai escapar de morrer da cura.

Adiante.
Um dia destes testemunhei o relato de algumas experiências actuais de docência num agrupamento de escolas, essa espécie de campos escolares criados para concentrar os alunos deslocalizados, designadamente de escolas fechadas. E contava um docente que chegara já a ter que interromper aulas pois os seus trinta e tal alunos, alguns dos quais sem lugar sentado, não aguentavam a temperatura no interior do contentor.
A política cega de cortes, num sector tão sensível, decisivo e estratégico como a educação, vai ter consequências nefastas que vão prolongar-se por décadas. O insucesso escolar entre crianças agrupadas em campos de concentração vai disparar para valores jamais vistos e a recuperação nunca se fará de um ano para o outro. Esta política é cega. E os seus efeitos vão constituir uma prolongada escuridão.
«DE» de 28 Set 11

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Notícia de David

Por Baptista-Bastos

A ÚLTIMA vez que o vi foi na Casa do Alentejo, num jantar de apoio à candidatura de Jorge Sampaio à Presidência da República. Não o reconheci, de imediato: o cancro devorava-o, era uma sombra do que fora. Ao lado, sua mulher, Pilar, e os dois mantinham o porte sereno e digno. Conversou, fumou cachimbo, bebeu uísque, no ritual cortês e delicado que o caracterizava. Um homem a sorrir à morte, e embora dilacerado pelo escândalo de saber do seu próprio fim, mantinha a discrição e o pudor. David Mourão-Ferreira, digo.
Lembrei-me do episódio, agora, que li, na revista dominical do Público, uma entrevista a seu filho. O grande poeta percorreu a vida com a elegância antiga que marca o destino dos que são modernos sem nunca deixar de ser clássicos. (...)
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27.9.11

Os Mercedes que Sto. António "Benz"

Com a bênção de Sto. António (Costa?), entre 4 e 6 camiões ocupam, há já vários dias, uma placa pedonal na Praça de Alvalade, em Lisboa.
Embora alguns camiões sejam Mercedes, o único veículo dessa marca que, até agora, ali vi ser multado (e tenho lá passado todos os dias) é o que figura em 1.º plano nas 2 fotos de baixo...
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26.9.11

Porque gostamos da Mulher Ketchup?

Por Ferreira Fernandes

A HISTÓRIA é boa de contar, tem crime mas não se fica com sabor a sangue. Só ketchup. É a história de Pindobaçu, vilória da Bahia, hoje universalmente famosa por causa da Mulher Ketchup.
A Mulher Ketchup é de enredo simples, é da Bahia como Jorge Amado. É assim: Maria Nilza gostava de Dirlan, homem de Erenildes, e quis livrar-se do empecilho. Contratou o ex-presidiário Carlos Roberto para a matar. Acordou-se o preço, mil reais, quase 400 euros. Esperta, Maria Nilza não pagou à cabeça, prometeu só para depois do serviço. E quando Carlos Roberto chegou com a foto de Erenildes, amarrada, amordaçada, camisola pingando sangue e tão morta que até se via o facalhão cravado no peito (embora, bem olhado, podia estar espetado perto da axila), Maria Nilza pagou o devido. Só que, dias depois, ela cruzou-se com a morta.
Mulher para quem a palavra vale acordo no notário, Maria Nilza foi à polícia apresentar queixa. Foi assim que se soube da combinação entre o "assassino" e a "morta", e da foto forjada. E começou a fama de Erenildes, a Mulher Ketchup que já tem promessa de contrato publicitário com marca de ketchup e, talvez, carreira política porque Pindobaçu está grata por ter sido posta no mapa.
Nas últimas eleições brasileiras apareceu uma candidata que ficou conhecida como Mulher Melão, mas era só imagem sem conteúdo. A Mulher Ketchup tem programa, daí a sua fama internacional: o género humano está ávido de histórias sem sangue.
«DN» de 26 Set 11

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A produção de biomassa em Lisboa

As duas fotos de baixo são do mesmo toco.
Não há dúvida que, depois de tosquiado, melhorou muito!

A vingança do anarquista

Por Rui Tavares

AQUI há tempos havia um enigma. Como podiam os mercados deixar a Bélgica em paz quando este país tinha um défice considerável, uma dívida pública maior do que a portuguesa e, ainda por cima, estava sem governo? Entretanto os mercados abocanharam a Irlanda e Portugal, deixaram a Itália em apuros, ameaçaram a Espanha e mostram-se capazes de rebaixar a França. E continuaram a não incomodar a Bélgica. Porquê? Bem, — como explica John Lanchester num artigo da última London Review of Books — a economia belga é das que mais cresceu na zona euro nos últimos tempos, sete vezes mais do que a economia alemã. E isto apesar de estar há dezasseis meses sem governo.
Ou melhor, corrijam essa frase. Não é “apesar” de estar sem governo. É graças — note-se, graças — a estar sem governo. (...)

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Das rochas sedimentares (3)

Por A. M. Galopim de Carvalho

NA SEQUÊNCIA de actividade vulcânica explosiva, as cinzas, que alguns autores referem por tephra, os lapilli e demais materiais sólidos ejectados, referidos no conjunto por piroclastos, acabam por se depositar por efeito da gravidade, constituindo acumulações mais perto ou mais longe do respectivo vulcão, em função da magnitude das explosões, do vento e das dimensões dessas partículas. Uma deposição por efeito gravítico é, para todos os efeitos e por respeito pelo significado das palavras, uma sedimentação. O modo de deposição, por queda gravítica, destes materiais confere, às respectivas acumulações, estruturas em camadas sobrepostas, à semelhança dos estratos das rochas sedimentares. (...)

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25.9.11

Apontamentos de Lisboa

Alguém sabe onde é que se situa este local "reservado"?

Einstein e a taxa social única

Por Ferreira Fernandes

TUDO é relativo, até o pai da relatividade se pode enganar: os neutrinos, o que quer que eles sejam, contradizem Albert Einstein na Teoria da Relatividade. Se (sublinhem essa preciosa, imprescindível e sábia palavrinha), se a investigação agora anunciada pelos físicos italianos do laboratório de Opera estiver certa... Dizem esses físicos que os tais neutrinos viajam mais depressa que a luz, o que a ser verdade faz cair um dos pilares do nosso conhecimento: nada é mais rápido que a luz. Só na fantasia de uma banda desenhada, Lucky Luke podia disparar mais depressa que a sua própria sombra, isto é, ser mais rápido que a luz que projecta a sombra. Mas afinal, sim, pode mesmo. Diz (mais ou menos) a teoria desta semana: pode, se disparar neutrinos.
Outro dubitativo militante, Stephen Hawking, acha que é cedo para tirar conclusões. Reparem na modéstia de sábio: ele não diz que sim ou que não, diz que é cedo.
A dúvida dos sábios dá-lhes autoridade, as suas não certezas são a mola que nos tem feito andar para a frente.
Aqui chegados, comparem essas interrogações e dúvidas dos sábios reais com os economistas da nossa praça, o último baluarte dos irredutíveis. Só falam como quem lança anátemas: "Ou reduzimos a taxa social única a 8 por cento ou é o inferno!" Era isso que juravam ontem, com as órbitas e a voz exaltadas. Agora, parece que não pode ser.
Mas por que raio falam eles mais rápido que o seu próprio pensamento?
«DN» de 25 Set 11

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Luz - Cadaqués, Catalunha, 1965

Fotografias de António Barreto- APPh

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Esta aldeia e porto de mar, de grande beleza, era ainda relativamente desconhecida dos turistas. Perto da casa de Salvador Dali, deste artista recebia uma parte da sua reputação. Foi por esta altura que comecei a fazer fotografia com frequência.

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24.9.11

A justa causa é uma questão pequena

Por Antunes Ferreira

«NINGUÉM quer acabar com a justa causa» de despedimentos, disse, sorrindo como é seu hábito, o ministro da Economia e do Emprego. O País descarregou o cenho, mas manteve as suas dúvidas, apesar da afirmação de Álvaro Santos Pereira. Nunca fiando, nomeadamente num governante que parece estar sempre a arreganhar a cepa.
Mas o membro do Executivo chefiado por Passos Coelho não se ficou por aqui. Para ele «a questão laboral é simplesmente uma pequena questão em relação às questões mais abrangentes da competitividade». «Estamos a falar ao nível de políticas activas do emprego, que estão a ser discutidas no seio da concertação social, estamos a falar de outras políticas de competitividade que também serão discutidas em sede de concertação social» acrescentou.
E, pelo sim, pelo não, sublinhou que o Governo está apenas «a implementar aquilo que foi acordado no memorando de entendimento» com a troika, medidas «com que o país se comprometeu em troca de ter a ajuda externa de que precisamos». Transcrevi passos da notícia ontem publicada no Expresso on-line.
Recordo que foi feita uma proposta aos parceiros sociais, que servirá de base de discussão ao grupo de trabalho sobre Políticas de Emprego e Reforma da Legislação Laboral, na qual o Executivo defende a alteração do conceito de despedimento com justa causa, introduzindo a possibilidade de o trabalhador ser despedido por não cumprir os seus objectivos ou ser menos produtivo, independentemente da introdução de novas tecnologias ou de outras alterações no local de trabalho.

A questão laboral, ao invés da opinião de Santos Pereira, não é simplesmente uma questão pequena. É enorme. Não avanço com a estafada fórmula dos direitos adquiridos. Mas posso perfeitamente afirmar que as lutas dos que trabalham para melhorar a sua condição, e garantir o trabalho são, até melhor, as que podem ser utilizadas com algum efeito.
Hoje, cada vez é mais difícil saber exactamente o que é o proletariado e quem o integra. A luta de classes está démodée, exceptuando, obviamente, para os partidos comunistas e radicais de esquerda, que continuam a brandi-la como bandeira. O Mundo está cada vez mais diferente, porque os homens são cada vez mais diferentes.
Mas uma coisa é equacionar os termos deste melindroso tema laboral, outra, bem diferente, é considerá-lo «uma questão pequena, em relação às questões mais abrangentes da competitividade». O neo-liberalismo desta gente que nos governa, ou melhor que em nós manda (porque nós adoramos a canga), considera pois que os problemas do trabalho e, portanto, de quem trabalha, são despiciendos.
Haverá muito para mudar no que concerne à produtividade de nós todos, aos hábitos da bica frequente, da discussão futebolística, do faz que anda mas não anda, enfim disso tudo em que nós, os Portugueses somos especialistas. Para tal, há que mudar as mentalidades, os hábitos e várias normas. Nisso, estou de acordo, mas não se mudam as regras a meio do jogo.
Portugal recorreu ao auxílio externo, quiçá tardiamente, mas… recorreu. E ninguém empresta um cêntimo a quem quer que seja, de acordo com as exigências de quem esmola. É triste, mas é assim.
Porém, quando Passos Coelho e os seus comparsas são mais papistas do que o Papa e se adiantam a quem marcou o andamento do País para nos dar uma mãozinha, e dizem que os sacrifícios são para todos, o seu silêncio e as declarações tímidas em relação às declarações do homem da Madeira são o exemplo acabado do que é a tibieza em Portugal. Que é de hoje e de muitos anos e muitos Governos.
Mas, perguntar-se-á, o que tem a ver a questão laboral «pequena» com a Madeira da nossa vergonha? Respondo. Quando Alberto João Jardim afirmou na última quinta-feira que a dívida regional era «uma coisinha de nada no meio de todas» - o despedimento por justa causa não pode deixar de existir.

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23.9.11

O que eles fizeram pelas Ciências da Terra (11)

Alfred Lacroix
(1863 - 1948)
Por A. M. Galopim de Carvalho

ANTOINE François Alfred Lacroix, de seu nome completo, foi um notável vulcanólogo, mineralogista e petrógrafo francês com obra pioneira realizada em Portugal. Discípulo do professor Ferdinand André Fouqué foi nomeado, em 1893, professor de Mineralogia do Museu Nacional de História Natural de Paris (Jardin des Plantes) e, em 1896, designado director do Laboratório de Mineralogia da Escola de Altos Estudos da mesma cidade. (...)

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A Madeira é nossa

Por Ferreira Fernandes

CONTRA as más contas da Madeira o coro já vai tão unânime que não vale a pena mais uma voz.
O gastar sem fiscalização é um mal nacional tão generalizado que eu já desisti de criticar quando o escândalo é público: não faço falta, haverá sempre gente na Direita (quando a Esquerda está no poder) ou na Esquerda (quando chega a Direita ao pote) disposta a exprimir indignação. Mas há nesta questão da Madeira um lado de regras de vivência comum que não tem sido tratado. É natural, os portugueses são monomaníacos e tal como há poucos anos, com a Casa Pia, ficámos especialistas em providências cautelares, hoje somos tu-cá-tu-lá com os relatórios do Tribunal de Contas.
E, no entanto, repito, este caso madeirense não é só números. Ontem, Alberto João Jardim mostrou-o numa reportagem da SIC. "Há uma coisa em quem eles são bons: é meterem-se na vida dos outros", disse Jardim falando dos portugueses do Continente. Está dita, em síntese, a falta de noção de Jardim sobre o que nos faz a todos Portugal, de Macedo de Cavaleiros ao Machico.
Em tempos de bonança, essa falta presta-se ao sorriso, é espertice própria de grupo, como fazem os partidos, os sindicatos, as corporações. Mas, em plena crise nacional - agravada por erros que o próprio Jardim reconhece -, ouvir dele apelos à excomunhão dos outros portugueses é demais.
Todos os portugueses podem meter-se na vida da Madeira: estão em casa. Não porque a pagaram, mas porque ela é sua.
«DN» de 23 Set 11

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22.9.11

Um herói do nosso tempo

(Publicado no «Expresso» em 18 Outubro 1997)

Por Alfredo Barroso

ESTOU A VÊ-LO em cuecas, sempre grotesco e rasca, na primeira página do «Tal & Qual». Ou de copo de «whisky» na mão, a rir-se, no meio da sua trupe carnavalesca. Ou, ainda, vestido de palhaço, a fazer um manguito com o dedinho espetado para cima e a proclamar, muito ufano: «Quero que se foda a Assembleia da República! Já disse que me estou cagando para Lisboa! O País não se revê em Lisboa, naqueles parvalhões que andam por lá e têm a mania que mandam nisto tudo!». São imagens e palavras do presidente do Governo Regional da Madeira. É o retrato a corpo inteiro de Alberto João, o homem. No seu melhor. É o perfil de um vero herói do nosso tempo.

Cito o ministro das Finanças, professor Sousa Franco: «Mesmo as obras colectivas têm os seus heróis. Ninguém hesitará em identificar como tais, com os seus defeitos e virtudes, João Bosco Mota Amaral, nos Açores, e Alberto João Jardim, na Madeira». Foi escrito no «Público» de terça-feira passada, dia 14 de Outubro. No mesmo dia em que, no semanário «O Diabo», Alberto João, o homem, agora também promovido à categoria de «herói», desancava «o polvo que vai tomando conta de Portugal», o «actual polvo socialista que ocupa quase todo o País», denunciando a «máquina de propaganda do polvo», a «propaganda plutocrato-socialista», e alertando para o «nojo em que tudo isto se vai transformando». Nem mais, nem menos.

Será que estamos perante mais um caso de puro masoquismo político? Será que, nas relações entre o Governo da República e o Governo Regional da Madeira, também se aplica o ditado popular segundo o qual «quanto mais me bates mais gosto de ti»? O que eu (porventura «ninguém») posso dizer é que, com «heróis» do jaez de Alberto João, o homem, vou ali e já venho.

O doutor António de Sousa Franco é, incontestavelmente, um professor muito competente e um reputado especialista em Finanças Públicas. A ele se deve, sem dúvida alguma, significativa parte do êxito da política de «rigor» orçamental deste Governo. Tem, ainda por cima, a preocupação de explicar, pelo seu próprio punho, as razões, os mecanismos e as consequências das suas decisões mais importantes. Independentemente dos méritos ou deméritos da tese que defende, o texto sobre «Finanças regionais - Novo rumo, vida nova», dado à estampa no «Público», é um modelo de clareza e coerência que se aplaude e que outros ministros deveriam porventura cultivar. Mas a verdade é que no melhor pano cai a nódoa e que só por razões que terão a ver com o calendário político e eleitoral se compreenderá que o ministro das Finanças não tenha resistido à tentação do elogio ditirâmbico, erigindo Mota Amaral (o que ainda é o menos) e Alberto João Jardim (o que é um escândalo) em heróis do nosso tempo. Francamente, não havia «nexexidade».

O que fundamentalmente me preocupa - e julgo que preocupa muito mais gente neste País - é que o método político da ameaça, da chantagem e do ultimato, associado a constantes palhaçadas e aos insultos mais soezes e desbragados, não só tenha total vencimento, como, ainda por cima, seja objecto dos mais rasgados elogios. Num país à beira de eleições autárquicas e, sobretudo, à beira de um referendo sobre a regionalização do Continente, o sinal emitido por Sousa Franco, ao avalizar o comportamento político, considerado «heróico», de Alberto João, o homem, é deveras preocupante.

Dizia um grande escritor francês, Romain Rolland, que «um herói é aquele que faz o que pode. Os outros não o fazem». Alberto João, o homem, faz seguramente o que pode, mas também o que não pode e o que não deve. Talvez por isso até mereça ser considerado um super-herói. Já outro grande escritor do nosso tempo, o italiano Primo Levi, dizia que «uma grande lição da vida é a de que os imbecis têm por vezes razão. Mas é preciso não abusar dela. Chama-se demagogia à arte de abusar dela». Alberto João, o homem, não tem feito outra coisa ao longo da sua já bem vasta carreira política.

A complacência com que a generalidade da classe política portuguesa - e não apenas a actual - tem aturado, ao longo de quase duas décadas, as atitudes grotescas, os comportamentos grosseiros e as palhaçadas políticas do doutor Alberto João Jardim, acaba por ter agora, como perigosíssima consequência, a institucionalização de um modelo de herói do nosso tempo, que pode e deve ser seguido como exemplo por esse país fora. Em cuecas.

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Ruminando a frase de Cavaco

Por Ferreira Fernandes

DA GRACIOSA, um olhar de Cavaco Silva: "Ontem, eu reparava no sorriso das vacas, estavam satisfeitíssimas olhando para o pasto que começava a ficar verdejante."
O Presidente diz coisas de forma simples mas de que se podem tirar diversas lições, às vezes até opostas. Ele sabe que as vacas não sorriem. As vacas, não, mas há uma que sim: La Vache Qui Rit. E foi essa, talvez, a mensagem que Cavaco nos mandou da Graciosa.
Infelizmente, mais uma vez, ele foi enigmático. Quis a frase pastoral dar-nos uma luz ao fundo do túnel?
Lembrem-se das imagens do célebre queijo fundido: na embalagem redonda, uma vaca ri com, pendurada nas duas orelhas, a sua própria imagem rindo. Uma vaca ri e ela própria reproduz imagens infinitas de vacas rindo...
Eis a mensagem: Cavaco diz que cada português voluntarioso poderá incitar mais e mais portugueses a defrontar a crise com optimismo. Infelizmente o jeito de falar do Presidente também dá para outras interpretações. Aquela técnica de La Vache Qui Rit foi chamada de mise en abyme por André Gide (com Cavaco estamos sempre a tropeçar em referências cultas). Gide referia-se aos contos que contavam outros contos, o que na pintura é um quadro que reproduz uma cópia menor do próprio quadro.
Ora o nome mise en abyme, cair no abismo, foi justamente dado pela vertigem causada por se ver a repetição das imagens.
Abismo? Será que Cavaco nos quis anunciar alguma coisa má?
«DN» de 22 Set 11

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Jardim, a regionalização e o descalabro da Madeira

Por C. Barroco Esperança

A NECESSIDADE portuguesa de criar 5 regiões continentais foi sempre vítima das asneiras do sátrapa madeirense. Sempre que da Assembleia da República, ou de Belém, vinham apelos ao aprofundamento da regionalização dos Açores e da Madeira, ganhavam força os anti-corpos contra a regionalização.
Portugal não suporta 308 concelhos e 4260 freguesias, mas fazem-lhe falta, além das Regiões Autónomas, cinco regiões que dêem coerência e coordenem as autarquias que sobrarem de uma profunda reforma administrativa. (...)
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21.9.11

Parques e Jardins de Lisboa

Por Maria Filomena Mónica

EM OUTUBRO do ano passado, o meu médico ordenou-me que andasse 40 minutos por dia. Habituada a uma vida sedentária, fiquei apreensiva, mas não dei importância ao alerta, até ele me ter comunicado que uma tensão arterial de 18/20, a minha, me podia conduzir a um AVC. O melhor era alterar as rotinas. Após ter comprado um iPod, parti em busca de um local.

Da minha infância, conhecia o Parque Eduardo VII, mas, sem alamedas sombrias, estava longe do que considero um parque. Por outro lado, a ideia de me meter no carro para fazer caminhadas a pé não me agradava, pelo que desci a Av. D. Carlos até ao Tejo, indo até às docas. Uma vez ali, consegui ligar o aparelho da Apple, onde metera uma ópera de Verdi. Apesar das reticências, estava contente, ouvindo, na potência máxima, as árias de o «Rigoletto». A felicidade não durou. A certa altura, notei o cheiro a fritos emanado dos restaurantes, o barulho dos carros que sobre mim circulavam na ponte sobre o Tejo e o pivete vindo dos esgotos não tratados dos 110.000 habitantes, residindo entre Santa Apolónia e Belém, um problema que, soube depois, viria a ser parcialmente resolvido. Mesmo sem o cheiro, havia o ruído. Não, não era ali que podia andar.

Só então notei que Lisboa tem jardins, mas não tem parques. Londres possui 40% da sua superfície ocupada por espaços verdes, um sinal de civilização, percentagem que, em Xangai, desce para 4%, um sinal de sentido contrário. Mas, com ou sem parques, tinha de caminhar, pelo que passei a utilizar o automóvel. Fui até à Tapada da Ajuda, um espaço com uma dimensão razoável. Uma vez lá dentro, verifiquei que as plantas estavam por tratar, que havia moscas por todos os lados e que os carros dos funcionários eram autorizados a circular no recinto. Não, isto não me servia. Seguiu-se o Jardim Botânico Tropical, em Belém. Além do espaço ser minúsculo, o pavimento rebentava sob a pressão das raízes das árvores. Tão pouco era o que desejava. Em seguida, fui até ao Parque das Nações, mas a ideia de levar uma hora ao volante desencorajou-me. Seguiu-se o Jamor. Aqui, sim, havia ar puro, espaço e árvores. Infelizmente, por se encontrar deserto, o local não é seguro. Tendo já sido assaltada duas vezes em Lisboa, acabei por desistir. Finalmente, optei pelo Jardim da Estrela: é pequeno, mas está cuidado e, mais importante, fica a dois minutos de minha casa.

Baudelaire nunca visitou Portugal, mas aqui fica o que, em 1880, escreveu sobre Lisboa: «É uma cidade à beira da água; dizem que está edificada em mármore e que o povo tem um ódio tal à vegetação que arranca todas árvores». Deve ser por isso que não consigo encontrar um parque decente, bonito e acessível. Agora que os «troikos» estão por cá, custava-lhes muito incluir no memorando a exigência que Lisboa passasse a ter árvores no centro da cidade? Era um favor que me faziam.

«Expresso» de 17 Set 11

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A Chemex

Neste texto há algo estranho, não há?

A Madeira como assunto

Por Baptista-Bastos

PARECE que o dr. Jardim se ensarilhou na política de intimidação e de terror com a qual se tem mantido no poder. Ao omitir e manipular números vultosos e importâncias consideráveis nas contas públicas, ele pensava continuar na impunidade desprezível, cumpliciada por governos e Presidentes da República. A prova do Direito é a justiça clara e consistente. Ao admitir que ocultou números e somas enormes de dinheiro, em nome de uma falaciosa e obtusa "legítima defesa", colocou-se sob a alçada da lei. Não há que escapar ao facto nem ao argumento.

É uma figura grotesca e ridícula, já o sabemos e quase todos o dizem. E tem servido o folclore político nacional com a desenvoltura e o escarcéu de um velho clown. Os políticos, quase todos, rilham nas suas costas, mas são abjectamente mesureiros na sua frente. Os jornalistas que se atrevem a comentar os seus desmandos e aleivosias incorrem nas suas iras e perseguições. Fui um deles. Escrevi, no Jornal de Negócios, um artigo sobre a xenofobia do senhor, que, num comício do PSD, gritara, congestionado como sempre, não querer nem chineses nem indianos na ilha. Três anos depois, talvez devido à circunstância de esse artigo ter percorrido o universo dos blogues, e obtido uma repercussão extraordinária, fui processado e enviado a juízo no Funchal. Tudo ficou em águas de bacalhau, por ausência de causa.

A vaidosa arrogância com que se move e comporta, as alusões escabrosas a que recorre para injuriar este e insultar aquele, criaram-lhe uma legião de inimigos poderosos e infatigáveis. Inclusive no seu próprio partido, em que muitos aguardam, arquejantes, uma ditosa mudança. Ele pode ganhar as próximas eleições; porém, as coisas não vão ser as mesmas. E já se agitam, aqui e ali, aqueles que sabem o que se impõe fazer e o que é necessário alterar. Talvez ele ainda desconheça ou nem sequer creia, mas é já um cadáver político adiado. As dores das pequenas vinganças é o preço por que vai pagar este homem sem amigos, vítima de uma sobranceria sem nome, afinal a causa da sua destruição.

Digo-o sem regozijo nem satisfação. E não gosto do caudal de retaliações com que, só agora, o cobrem oportunistas a retalho. Mas foi ele quem forçou a escolha. E a escolha não poderia ser outra se não a indiferença ou o desprezo pelo seu destino. A tragédia do poder traduz-se na solidão, ocasionalmente encoberta por aplausos momentâneos.

Será preciso, no entanto, estudar os métodos e os efeitos de um procedimento e de uma acção políticos, cujos excessos podem conduzir a tudo. Até a expressões de fascismo. A questão é a de se apurar quais as consequências do "jardinismo", qualquer que seja o significado da expressão. Contudo, as mudanças serão dolorosas e, até, assustadoras. Para o povo madeirense, claro.

«DN» de 21 Set 11

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20.9.11

Ubu, rei do Funchal

(Publicado no «Expresso» em 4 de Outubro de1997)

Por Alfredo Barroso

ALBERTO JOÃO, o homem, passou-se de todo. Politica e ideologicamente falando, está claro. Embora a loucura seja, nele, um estado normal, paulatina ou resignadamente aceite pelos governos da República, há quase duas décadas, conforme a cor dos «cubanos» que ocupam o poder no Terreiro do Paço. Se há bandeira que os mais ferrenhos adeptos da regionalização podem empunhar e desfraldar, neste país de opereta, é sem dúvida a que tem por símbolo essa figura grotesca que governa a Região Autónoma da Madeira como o Rei Ubu.

A prosa que esta semana ele deu à estampa n’ «O Diabo» é simplesmente delirante. É como se ele estivesse a olhar para o seu próprio poder - para o modo como ele o exerce no Funchal e arredores - e quisesse exorcizar os fantasmas que o perseguem, deportando-os para o continente. O retrato que ele pinta do poder em Lisboa e regiões anexas é, bem vistas as coisas, um verdadeiro auto-retrato. Vai daí, denuncia os «porreirismos» e «narcisismos», os «bonzos do sistema», as «tríades» instaladas no poder, os «obedientes», os «serventes» e os «bem-comportados», a falta de «efectivo pluralismo» na comunicação social, a «franca recessão» das «liberdades públicas», a «infernal máquina de propaganda» e «o regime da subsídio-dependência para angariar votos», em suma: aquilo a que ele chama a «macaízação do Continente» e o «grave risco de mexicanização de Portugal». Caso para dizer que auto-retrato tão rigoroso e fiel de Alberto João, o homem, bem podia dispensar subsídios do governo regional.

Mas o grotesco não tem limites e a pândega criatura vai mesmo ao ponto de lançar um patético apelo à comunidade internacional: «É bom que as embaixadas acreditadas em Lisboa vão entendendo o que se passa...» (as reticências são dele). E o que é que Alberto João, o homem, propõe que se faça, enquanto a NATO e a ONU não intervêm para salvar a Pátria? Todo um programa que garanta, entre não muitas outras coisas, a «recuperação das Forças Armadas», o estabelecimento de «um eficaz aparelho de segurança», o «futuro das reformas dos que trabalharam», a «libertação da Cultura», uma «regionalização adequada e inteligente», uma «Agricultura interpenetrada com valores do mundo rural» e a defesa, «em absoluto», do Ambiente e dos Recursos Naturais, «em particular a água e os mares». Para tanto, é necessário «o privilegiar dos operacionais que o PSD tem e de qualidade», assim como «o fim disciplinado das excessivas discussões internas» (presume-se que dentro do PSD). E quem é o «líder operacional, culto, inteligente e criativo» capaz de levar a cabo tal empresa - quem é, quem é? O professor Marcelo Rebelo de Sousa, pois claro! Diz o Rei Ubu.

Para quem não saiba, «Ubu Roi» é um personagem que «encarna todo o grotesco que existe no mundo» e que foi criado, há pouco mais de um século, pelo grande escritor francês Alfred Jarry (que por acaso morreu faz agora 90 anos). «Figura surgida da desordem e da sombra, emanação bruta e risível de um pensamento que não recua perante nada para se satisfazer a si próprio, magarefe temível, retórico implacável», como o descreve Charles Grivel, Rei Ubu tem, simultaneamente, a cruel voracidade de um «ogre» e a prosápia superlativa de um «fantasma desarticulado» que «horroriza e seduz pelas gargalhadas que provoca». Sempre que leio e releio os cinco ciclos de Ubu e olho para a sua iconografia, é a figura chapada de Alberto João, o homem, que me vem à cabeça.

Não por acaso, a gesta delirante e as atribulações patéticas de Ubu, que começou por ser rei dos labregos, tiveram a sua primeira representação a cargo das marionetas do «Théâtre des Phynances», em 1888. Já então - e sempre - as finanças. Como no coro dos labregos em «Ubu Cocu»: «Dêem finanças - ao Pai Ubu. Dêem todas as finanças - ao Pai Ubu. Que não reste nada - nem um tostão escape - aos sovinas - que vêm sacá-las. Dêem todas as finanças - ao Pai Ubu»! Custa-me muito a crer que Alberto João, o homem, não tenha lido Alfred Jarry. Se ele não o leu, ainda é mais genial do que eu pensava. Rei Ubu é eterno e Alberto João, o homem, está cá na Terra - mais precisamente, no Funchal - para o demonstrar. O professor Sousa Franco devia meditar seriamente no assunto.

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Neste texto há algo estranho, não há?

Onde estamos

Por Rui Tavares

QUALQUER pessoa com uma noção de história, e que olhe para a União Europeia agora, tem razões para estar receoso. Enfrentamos uma tripla crise: económica e social em alguns países da zona euro, na sequência da subida em espiral das taxas de juro da sua dívida; em segundo lugar, temos a insolvência não-assumida em bancos da Europa central (só a nova diretora do FMI pôs o dedo na ferida num discurso recente, pois pode agora dizer em voz alta aquilo que calava antes, como ministra das finanças da França); por último, mas não menos importante, temos a quase total paralisia política no seio da União.

Vou tentar ser cauteloso: estas três coisas juntas não costumam dar bom resultado. Uma bancarrota da Grécia, cada vez mais possível, desencadeará o pagamento dos famosos credit default swaps sobre a sua dívida. Só que ninguém sabe quem detém esses swaps, nem quem os deve pagar — lembrem-se que foi isto que levou à falência da seguradora AIG logo a seguir à falência do Lehman Brothers (a primeira falência não é importante por si, mas pela cadeia que inicia). Quando isto nos rebentar nas mãos, ninguém que tenha prestado atenção ao que se passou nos últimos dois anos acreditará que a União Europeia — as suas instituições, e os Estados-membros que a compõem — consiga reagir a tempo.

O que acontecerá agora eles não sabem — e isso vê-se-lhes na cara.

O mais frustrante de toda esta história, desde o início, é que as coisas que teriam funcionado no ponto A da crise podem já não funcionar no ponto B. Se a diferença entre os juros italianos e alemães continuar a fazer a espargata, os fundos de estabilização não terão escala. E se a França perder a sua notação máxima, os eurobonds, que aqui tenho defendido, poderão não começar com notação máxima e perder a sua eficácia. Há coisas que têm de ser feitas a tempo. Mas a UE parece não saber o que significam duas palavras que toda a gente conhece: “demasiado tarde”.

(Um parágrafo sobre a austeridade. Não duvido da fé com que algumas pessoas a propõem, mas ela simplesmente não funciona, ou pior: cria um problema maior do que o inicial. A Grécia está a descobri-lo dolorosamente agora, e nós vamos descobri-lo daqui a um ano.)

A UE é agora como um archeiro que descobre que já não tem flechas na aljava.

Neste momento, uma das poucas ideias que nos resta é a da “modesta proposta” do economista grego Yannis Varoufakis e do ex-funcionário da Comissão Stuart Holland, que trabalhou com Delors. Em resumo ela significa emitir dívida diretamente pelo Banco Central Europeu (chamemos-lhe €bonds) que tem a vantagem de não ser mutualizada, o que a fará mais aceitável na Alemanha. Estes €bonds poderiam ser trocados por dívida soberana e complementados com os títulos do Banco Europeu de Investimentos para finalmente dar início ao “plano Marshall” de que as nossas economias e as nossas populações desempregadas tanto precisam. Os autores da proposta garantem que ela é realizável com os atuais tratados e com o mandato do BCE.

Essa proposta resolveria as duas primeiras crises com que comecei esta crónica. Para resolver a crise política, precisamos de uma proposta mais ambiciosa: usar as eleições europeias de 2014 para eleger o primeiro-ministro da União Europeia, e acabar com a “duetodura” franco-alemã.

Este é um caminho de curto prazo, primeiro, e médio prazo depois — como manda o senso comum. Mas os atuais líderes insistirão na austeridade de longo prazo e na paralisia de sempre, à espera de um milagre. Teremos sorte se não provocarem uma crise medonha que será lembrada por muitas gerações.

RuiTavares.net

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19.9.11

Já chegámos à Grécia

Por Carlos Fiolhais

O DESFALQUE nas contas públicas Madeira de João Jardim que acaba de ser revelado é um caso de polícia que, se não for rapidamente resolvido e exemplarmente punido, mostrará que afinal não há mesmo nenhuma diferença entre Portugal e a Grécia. Ou se há, é para pior aqui, pois a ilha de Creta não tem a irresponsável autonomia de que goza a Madeira. Nem nenhuma das outras numerosas ilhas gregas.

O culpado tem um rosto, pois disse logo que era ele e, parece que com muito orgulho (alegou, pasme-se, em linguagem criminal, ter actuado em "legítima defesa"). Mas são cúmplices todos aqueles que sabiam e não disseram nada, muitos companheiros do mesmo partido de João Jardim, e aqueles que fazem agora grande alarido mas que estiveram no governo da nação sem terem tido a capacidade de ver algo que tinham obrigação de ver.

Ilibo o actual ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira. Ele analisou com argúcia os irresponsáveis gastos de João Jardim no seu livro "Os Mitos da Economia Portuguesa" (Guerra e Paz, 2007) e perguntou: "Porque é que João Jardim é João Jardim?" Respondeu: ele joga o "trunfo independentista". E destrunfou, embora sem tomar partido por essa opção: "Se a Madeira quiser, um dia poderá tornar-se independente".

Há eleições em breve na Madeira, se João Jardim voltar a ganhar e se, não actuando entretanto ou pouco depois a polícia, o país todo tiver de lhe continuar a pagar os desmandos em vez de ser ele a pagar pelos seus crimes económicos será caso para considerar seriamente essa até agora remota possibilidade.

In De Rerum Natura

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Das rochas sedimentares (2)

Por A. M. Galopim de Carvalho

EMBORA seja meu propósito conceber um fio condutor que determine a sequência dos textos que vou apresentando, o facto de estes irem sendo elaborados um a um, semana a semana e, de seguida, publicados, impede a estruturação do conjunto, o que só é possível fazer após a reunião das suas múltiplas parcelas. Essas parcelas começaram agora ser elaboradas e, certamente, vai acontecer que uma ou outra que surjam numa determinada posição, na sequência dos temas, devessem ter saído antes ou surgir mais tarde. Esse trabalho de ordenação dos temas terá de ser feito pelo leitor, que deve encarar estas linhas como apontamentos, algumas vezes avulsos que, sem perda de rigor, se procura que sejam simples, claros e, se possível, agradáveis de ler. (...)

Texto integral [aqui]

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18.9.11

Mais um Woody Allen...

Alguém viu e quer comentar?

Luz - Budapeste, 1974

Fotografias de António Barreto- APPh

Clicar na imagem, para a ampliar
Na semana anterior ao 25 de Abril, encontrava-me em Budapeste, a visitar uma bela cidade onde vivia o meu irmão José. Fiquei surpreendido com o á vontade e o atrevimento das húngaras, em contraste com as de outros países da região.

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17.9.11

"D" - De Dívida... e de Dúvida...

ANDAVA eu a explicar a numeração romana a um jovem amigo quando, quase ao mesmo tempo, tropecei neste livro e na crónica de Daniel Bessa em que ele referia um "buraco" de 500 milhões de euros nas contas da Madeira.
Pensei logo afixar aqui esta imagem, mas deparei-me com um pequeno problema: 500, em números romanos, é "D". Mas... 500 milhões?


De qualquer forma, enquanto eu pensava e não pensava, o número deixou de estar actual, como se sabe.
Mas talvez ainda possamos aproveitar o título do livro (convertendo-o em «"D" de Dúvida») se pensarmos no seguinte:

Contra tudo e contra todos, Alberto João Jardim garante que vai continuar as obras cujo custo deu origem ao sarilho que se sabe. Só que as obras não nascem do chão - tem de haver quem as faça, nomeadamente empreiteiros, que não costumam ser burros quando há dinheiro em jogo.
E, daí, a minha "dúvida": como é que um empresário pode aceitar fazer uma obra sabendo que, especialmente a partir de agora, corre o sério risco de não receber o respectivo pagamento?
Se calhar pensa que ainda é válida a famosa frase de um ex-presidente da República, que garantia que «O dinheiro acaba sempre por aparecer» - o que, diga-se de passagem, costuma ser verdade lá para aquelas bandas...

Jardim ressuscita Enver Hoxha

Por Antunes Ferreira

DE REPENTE a brisa tornou-se em furacão e a tormenta em tsunami. É da Madeira que se trata. Há mais de 30 anos no poder, o dr. Alberto João Jardim vê-se agora – e, acrescento, finalmente – em palpos de aranha, envolvido num imbróglio que ele próprio criou e do qual se espera que resultem consequências. Ainda que em Portugal infelizmente se tenha tornado normal que a culpa morra solteira.

Peço desculpa a quem me lê de voltar a este tema malcheiroso. Prometera a mim próprio que não reincidiria. Mas, de tal forma o caso se agravou, que aqui estou uma vez mais a perorar sobre ele. Jardim está a confirmar a megalomania, a má educação e a agressividade que sempre utilizou, a propósito do que quer que seja e desde que alguém discorde dele.

É um desbocado, já se sabia. Mas quando, como agora acontece, sente fugir-lhe o tapete debaixo dos pés, tornou-se num desesperado à boa maneira dos filmes de cobóis e índios do antigamente: dispara em tudo o que mexe e em todas as direcções. Começou por ser um colt 45; depois transformou-se em automática. Neste momento é uma verdadeira metralhadora.

A situação aflitiva no domínio financeiro que se vive na Região Autónoma levou-o a pedir lancinantemente a ajuda do Governo Central. O buraco do arquipélago veio à superfície, ao contrário da lendária Atlântida que por ali continua mergulhada no fundo do oceano – se é que alguma vez existiu…

Porém, o responsável pelo executivo sedeado no Funchal descobriu que a má vontade desde sempre demonstrada pelos «cubanos do contenente» (a expressão é de sua autoria) se estende ao poder financeiro, e, até, aos ingleses. Já se sabia que os comunistas e os socialistas tinham as culpas no cartório; agora, os súbditos de Sua Majestade também fazem parte da quadrilha e da conjura contra a RAM. Continuam a colonizar as duas ilhas.

Estava-se nisto, quando o Instituto Nacional de Estatística e o Banco de Portugal vêm a terreiro informar que, após investigações, o caso é muito mais grave. Sonegação de dados financeiros que deviam ter sido comunicados a ambas as entidades. O que é muito gravíssimo, segundo diversos responsáveis partidários e, até, por quem de que nunca se pensaria que o dissesse.

João Duque, presidente do ISEG e personalidade muito próxima do PSD veio sublinhar que, face ao acontecido, a divulgação de novos buracos nas contas da Madeira deita por terra a tese de que Portugal tinha as contas «mais ou menos regularizadas», e assim igualando a Grécia «em atitude». E o CDS/PP considerou a situação gravíssima e que as próximas eleições regionais deveriam ser consideradas um «julgamento político».

No meio de toda esta barafunda, o dr. Alberto João diz que continuará com as obras públicas e que não despedirá nenhum funcionário, o que levou o Presidente da República a afirmar que «ninguém está imune» aos sacrifícios que são pedidos a Portugal para cumprir os compromissos assumidos internacionalmente.

Pelo caminho, António José Seguro (que dentro do PS também se confronta com uma salgalhada complicada) veio pedir ao Governo que impedisse a candidatura de Jardim às regionais de Outubro. O PSD reagiu de imediato: nem pensar. E fez a comparação com o que passara nas penúltimas eleições quanto a José Sócrates. Entretanto, não se pode ignorar que o presidente do eurogrupo, o luxemburguês Juncker se confessou «muito surpreendido» face a perguntas de jornalistas portugueses no final da reunião cimeira na Polónia. Os governantes de Lisboa, pelos vistos, não lhe tinham comunicado nada.

As irregularidades da Região Autónoma irão agravar o défice português sobre o qual se estabeleceu o acordo de Lisboa com a troika. Quem o aponta é ainda o Banco de Portugal bem como o INE. E, no Funchal, o CDS/PP afirmou que a ocultação de contas «é um vexame para a Madeira e para Portugal».

Confrontado com tudo isto, no final de uma reunião com o presidente francês Sarkozy, Passos Coelho, entre a espada e a parede, viu-se obrigado a dizer que «o que se passou desde 2004 é uma irregularidade grave, sem compreensão». Zangam-se as comadres...

Mas, Jardim, igual a ele próprio, negou que houvesse «dívida escondida». E afirmou, alto e bom som, durante mais uma inauguração, por coincidência antes das eleições, que a culpa era da… Lei das Finanças Locais, ou seja, de Sócrates. Tal como a Albânia dos tempos de Enver Hoxha, é o dr. Alberto João contra tudo e contra todos. Coitado.

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16.9.11

Requalificação do Intendente

Por Manuel João Ramos

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15.9.11

O que eles fizeram pelas Ciências da Terra (10)

Avicena
(980-1037)
Por A.M. Galopim de Carvalho

ABU ALI
al-Hussein ibn Abd-Allah ibn Sina, de seu nome completo, persa de nascimento, mais conhecido pelo seu nome latinizado, Avicena, foi médico, filósofo e alquimista de muitos saberes. É considerado um dos pilares fundamentais da filosofia islâmica e uma das grandes figuras do pensamento universal. Jurista, professor e administrador nas cidades de Rey (Rhages) e Hamadan, na Pérsia, foi nomeado vizir (conselheiro) do sultão de Shams al-Dawla e respeitado como o príncipe dos médicos. (...)

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Como é gasto o nosso dinheiro... mas é rapidamente recuperado

AS FOTOS, tiradas na Praça de Londres, em Lisboa, mostram um local de estacionamento reservado ao carregamento de carros eléctricos - e logo aos dois de cada vez.
Apesar de eu lá passar com muita frequência (por vezes mais do que uma vez por dia, e às horas mais diversas), nunca vi um único carro a "carregar".
Mas isso interessa pouco. O que agora é notícia é a substituição dos carregadores por outros de nova geração (foto de baixo, acabada de tirar) mas, ao mesmo tempo, repudiar a ideia de que se trata de desperdício de dinheiros públicos, dado que a verba é rapidamente recuperada com as multas aplicadas a quem ali estaciona indevidamente.

Nota: Na foto do meio, pode ver-se que o facto de, na matrícula do carro, constar um "CE", tal não convence a EMEL de que sejam as iniciais de "Carro Eléctrico"...

Camarões – Meninas sem mamas

Por C. Barroco Esperança

O HORROR nunca deixa de surpreender e agrava-se quando a superstição, o tribalismo, a fé e a tradição se conjugam.
Camarões foi o nome que os portugueses deram a uma região africana a cuja costa iam em busca de escravos no tempo em que sonhavam converter o mundo à fé cristã e onde desistiram de avançar para o interior porque as orações os não poupavam à malária. Hoje é um país do centro de África, com saída para o Oceano Atlântico, a aproximar-se dos 20 milhões de habitantes.
A fé da população distribui-se pelo cristianismo (56%), crenças tribais (23%) e islão (20%), sendo outras crenças quase inexistentes nesta república presidencialista que gravita na órbita dos Estados Unidos da América e da Europa, seus parceiros quase exclusivos nas trocas comerciais. (...)

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14.9.11

A malta do «É igual ao litro»?

Uma imagem de Saturno...
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ESTAS duas imagens podem ver-se no «JN-online» de hoje. Não há nada a objectar quanto à de baixo; talvez o mesmo não se possa dizer no que toca à de cima - que é a que aparece quando se abre a página.
ESTE artigo de Daniel Bessa, de que aqui se mostra apenas o início (clicar em baixo, para aceder ao texto integral) , publicado no «Expresso - Economia» do passado dia 10, chama a atenção para uma 'curiosidade' que escapa à maioria das pessoas:
De cada vez que o governo (por sua iniciativa ou a mando da troika) cria um novo imposto (ou aumenta algum dos existentes), a verba obtida pelo Estado cifra-se, quando muito, em valores da ordem das dezenas de milhões de euros - raramente atingindo a centena.
Ora, e para termos uma ideia de quanto isso significa em termos relativos, o autor põe a nu uma outra verba (de 500 milhões!) - de que pouco se fala, e em que nenhum governo tem querido mexer...

Texto integral [aqui]

O congresso do esperemos

Por Baptista-Bastos

A SOMBRA de José Sócrates perpassou pelo Congresso do PS, em Braga, como um remorso mal emendado. Entre os discursos de evocação e envergonhados silêncios, pouco mais houve. É verdade que António José Seguro fez dois discursos "à Esquerda", mas ele está manietado não só pelos compromissos assumidos com a troika, como pelo historial de concessões, anómalas cumplicidades e cometimentos contrário à sua génese de que o Partido Socialista é fértil e impudico.

Que vai fazer e praticar o novo secretário-geral, que chegou onde chegou pelo laborioso trabalho de casulo e de paciente espera sem afã, como se estivesse de tocaia, ao longo de muitíssimos anos?

Entre o dito e o feito vai a escala que percorre as promessas eufóricas das mentiras desavergonhadas. Temos uma boa dose dessas ausências de ética e de moral. Mas vamos sempre atrás dos cânticos das sereias, como se a nossa experiência democrática nunca se alargasse mais do que o horizonte desejado.

Seguro, dizem-me, está animado pelos princípios que enformam a "Esquerda democrática", expressão cujo rigoroso significado ninguém conhece, e que, aliás, tem servido de pretexto para numerosas malfeitorias. Mas os tais "princípios", até agora, limitaram-se a enunciações de retórica, sem objectivos claros. Não basta criticar o Governo; é necessária uma exigência de generalidade alternativa, apoiada por uma doutrina política e económica no estrito sentido do termo. A construção activa de um projecto que não se cristalize no paradigma do "mercado" parece retirada do pensamento de Seguro, cuja natureza e fundamentos, realmente, se desconhecem.

Como a experiência recente no-lo tem ensinado, o "mercado" não se auto-regula através da harmonia dos interesses, exactamente porque essa harmonia não existe. Os problemas são muito mais complexos e escorregadios do que pensa o actual secretário-geral dos socialistas.

«DN» de 14 Set 11

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13.9.11

CLARO que a camioneta branca está a estorvar o trabalho da Carris mas, ao contrário do que possa parecer à primeira vista, esta foto não é mais uma das que, aqui, costumam levar a legenda "Como, em Lisboa, são acarinhados os transportes públicos".
Desta vez, há uma curiosidade adicional - que talvez explique porque é que a camioneta não foi incomodada.
Alguém sabe qual é?

(A resposta será dada mais logo, em 'actualização').
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Actualização:

Perfeitamente integrado na "selva" que é Lisboa
(pelo menos, a crer no nome da empresa...)

12.9.11

O mimetismo permite fazer maravilhas!

Memórias fardadas (7) - O Padre Lima

Por A.M. Galopim de Carvalho

COMEMORARAM-SE no passado dia 19 de Agosto os 30 anos do “Clube Columbófilo Padre Manuel Lima”, uma pequena colectividade sedeada na bonita freguesia de Monte do Trigo, no coração do Alentejo. Há dois anos, no adro da Igreja local, foi benzido um busto deste pároco, a que se seguiu uma missa e um animado convívio na respectiva Junta de Freguesia.
A colectividade adoptou o nome deste eclesiástico, que deixou ali obra de solidariedade social que o povo não esquece e que conheci, pessoalmente, quando, soldado cadete no Curso de Oficiais Milicianos, de Vendas Novas, me deu boleia para Évora, numa 6ª feira, ao fim da tarde. (...)

Texto integral [aqui]

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