31.3.11

Garoa, morrinha, cacimbo, chuvisco

Por Ferreira Fernandes

EM DUAS crónicas seguidas lembrei que a vinda de Lula e Dilma era muito mais do que um "empresta um dinheirinho aí". Portugal e Brasil é assunto tão íntimo que nunca desperdiço uma ocasião de falar dele, por mais que haja portugueses e brasileiros a tresler.
Ontem, um comentário de um leitor brasileiro atirava-me à cara a língua que se fala no Brasil, e que segundo ele não era o português, mas a língua do "popular poeta brasileiro Adoniran Barbosa, transmitida de forma oral, nas fábricas, sindicatos e botecos onde se reúnem os rústicos produtores, [e que] desconhece os calhamaços chatíssimos do poeta medieval português Camões".
Deixando o resto de lado, quem lhe disse que a minha língua não é a de Adoniran? Quando o sambista escreveu "Não posso ficar/ Nem mais um minuto com você/ Sinto muito amor/ Mas não pode ser...", eu apanhei esse Trem das Onze logo nas vozes iniciais dos paulistas, como Adoniran, Demónios da Garoa, em 1963 ou 64. E pouco depois apanhei-o nas vozes dos angolanos, como eu, Duo Ouro Negro.
Essa língua de Adoniran que diz "um palacete assombradado" (no samba Saudosa Maloca), essa língua que fala com humor e alegria, muitos falantes de português, embora não pronunciando "dispois que nóis vai, dispois que nóis vorta", herdaram-lhe o essencial. Adoniran não só fala português, mas fala do melhor português. Ele é dos que fizeram com que o Brasil não ficasse no seu cantinho pequeno.
«DN» de 31 Mar 11

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A malta do "É igual ao litro"

NÃO posso garantir, mas, possivelmente, o artista que, aqui, meteu pedras brancas onde deviam estar pretas, foi o mesmo que, não muito longe, meteu pedras pretas onde deviam estar brancas...
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MUITOS acham que este espírito, tão português, do desenrascanço é uma "vantagem competitiva" face a outros povos mais organizados. Num caso pontual, isso poderá ser verdade. Mas, a longo prazo, a falta de exigência (resultante da impreparação e da iliteracia - quando não do analfabetismo mais puro) dão os resultados que bem se conhecem.
Imagine-se, em casos como este, qual será o nível dos fiscais das respectivas obras (quer dos empreiteiros, quer dos clientes), que decerto tiveram de assinar as fichas de trabalho (condição essencial, em todo o lado, para que o pagamento seja efectuado) garantindo que estava tudo bem.

O fim do Serviço Militar Obrigatório

Por C. Barroco Esperança

APESAR de quatro anos e quatro dias que a ditadura salazarista me impôs, incluindo 26 meses na ocupação de Moçambique, para impedir o legítimo direito desse País à autodeterminação, sou defensor do Serviço Militar Obrigatório (SMO).
Num mundo que se globaliza, onde a religião perdeu o direito de se impor à força, restam o idioma, o SMO e pouco mais como factores de identidade dos povos. O SMO seria um serviço cívico para jovens dos dois géneros, em quartéis ou outras instituições do Estado, pelo período de um ano, com enorme poupança para o erário público. (...)

Texto integral [aqui]

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30.3.11

Lula

Por João Paulo Guerra

DO ALTO do seu prestígio e autoridade mundiais, Lula da Silva aproveitou a passagem por Portugal para alertar os portugueses: “o FMI não é solução”. O ex-presidente do Brasil sabe como ninguém que o FMI não só não é solução como as suas políticas são a raiz dos problemas. Lula retirou o Brasil das garras do FMI e esse foi o caminho para fazer ascender a economia brasileira a índices de crescimento e de independência jamais alcançados.

O que Lula talvez não saiba é que em Portugal o FMI se tornou numa arma de arremesso da luta pelo poder: o partido-cara acusa o partido-coroa de abrir as portas ao FMI. Mas a realidade é que são as políticas do FMI que estão em vigor em Portugal pela mão dos que usam o espantalho do Fundo Monetário apenas para efeitos de contra-informação e propaganda. Por outro lado, esses agentes políticos esquecem, ou fingem que não se recordam, que o FMI já esteve formal e oficialmente instalado em Portugal. Mas nesse tempo, foram políticos portugueses que criaram a chaga da fome em Setúbal - agora a fome tende a distribuir-se mais equitativamente pelo território -, ou toleraram a praga dos salários em atraso. De resto, nunca a situação social esteve tão degradada como agora, desde a restauração da democracia. E nunca a desigualdade foi tão gritante. Nestes tempos de amargura para milhões de portugueses, os muito ricos estão ainda mais ricos, apesar da crise, ou por via da crise.

Os portugueses devem recusar a chamada "ajuda" do FMI por razões de independência do seu país e autonomia da sua nação. Mas em matéria de políticas, o FMI está entre nós e a governar há muitos anos. Como disse Lula da Silva e como se vê, "não é solução". A solução será outra política. Infelizmente para os portugueses, Lula nasceu brasileiro.
«DE» de 30 Mar 11

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Apontamentos de uma terra sem uma gota de auto-estima

Lisboa, Rua do Ouro
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NOTA: Estas imagens foram enriquecer a colecção que se pode ver [aqui].

A farsa trágica

Por Baptista-Bastos

AS PERIPÉCIAS da revolução portuguesa sempre tiveram características incomuns. A via original para o socialismo foi um estribilho mais do que um conceito. Até hoje ninguém conseguiu descobrir qual a natureza dessa originalidade. Era uma época em que se bebia em excesso e quase tudo era permitido ou aceito com benigna complacência. Zeca Afonso comentava, irónico, que o álcool era, afinal, a via original para o nosso socialismo. O PREC constituiu mais do que um acrónimo: foi um modo de se tentar ludibriar a História e uma maneira, um pouco louca, um pouco ingénua de se viver a vida. Até então, as coisas eram direitinhas, brunidas, organizadas em esquadrias. Falava-se baixinho, escrevia-se baixinho, amava-se baixinho. (...)

Texto integral [aqui]

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29.3.11

Os "intocáveis"

Lisboa - Av. Óscar Monteiro Torres
AS FOTOS que aqui se vêem foam tiradas na manhã do passado dia 24, e oferecem várias curiosidades: uma delas é a gentileza demonstrada pelos motoristas desta praça de táxis, que facilitam a vida aos senhores da "boutique". A outra é o nome da loja ao lado (foto de baixo), muito bem escolhido: «Kaos». Há ainda o pormenor de tudo se passar - e praticamente todos os dias -, a dois passos da Assembleia Municipal de Lisboa; e um outro, que será objecto de uma imagem adicional.
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Pergunta-se: alguém quer adiantar o que mostra essa terceira foto, tirada na mesma altura que estas, e que será aqui afixada em "actualização"?
Actualização
UM FISCAL da EMEL, que ia a passar, atravessou rapidamente para o outro lado da rua. Aqui se vê ele, na Rua Oliveira Martins (ali ao lado), já livre de perigo... (Esta foto foi tirada entre a 1ª e a 2ª).

Lula e Dilma vieram à terrinha

Por FerreiraFernandes

JÁ HOUVE, claro, microfones estendidos a Lula, perguntando se ele vai meter uma cunha a Dilma para o Brasil comprar parte da dívida portuguesa. Mas, que raio!, há Portugal e Brasil para além da dívida portuguesa. E o admirável, tendo um sido colonizador e outro colónia, é que foi quase sempre assim. Reparem, não foi nos tempos recentes do politicamente correcto, mas muito antes, que os dois deixaram de se tratar de mãe-pátria e filhote. Há muito quiseram ambos ser países irmãos, como ilustra esse extraordinário D. Pedro, imperador deles, IV nosso, aceitando o papel que para outros seria esquizofrénico e nele foi natural. Nascido em Queluz, em 1798, mas desde 1808 com o Brasil como pátria da sua adolescência, ele disse "fico" quando teve de escolher. E quando, por imperativo de convicções veio modernizar Portugal, deixou ao seu filho e herdeiro brasileiro uma carta sobre a dor que era abandonar o seu país, o Brasil.
Parece neste negócio que Portugal é secundarizado, não é? Isso é não entender esta história fraterna. Os portugueses no Brasil fizeram sempre o mesmo que D. Pedro: fizeram-no seu, ao Brasil. Daí que o "me dá uma moedinha, dá" conte pouco. Será, ou não, assunto seco de contabilistas. Outra coisa é a chegada de Lula e Dilma, os sucessores de D. Pedro. Eu levava-os à terrinha. A Queluz, onde eles nasceram.
«DN» de 29 Mar 11

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Fungagá

Por João Paulo Guerra

PELA FORMA
como a pré-campanha está a arrancar é de temer que as eleições antecipadas terminem como o acto eleitoral no Sporting. Em primeiro lugar, não se discutem políticas, nem se apresentam alternativas. Discute-se à maneira de meninos birrentos, arremessando diatribes. Aquele menino rendeu-se e está refém do FMI. Não: aquele menino é que está a fazer tudo para que o país recorra ao FMI.

Em segundo lugar, os meninos birrentos não conseguem extrair das cabecinhas uma simples ideia. Atiram palavras uns aos outros, algumas das quais são ‘sound bites', ou bitates, em português, sem grande ou mesmo nenhum sentido. Aquele menino é imaturo e irresponsável. Não: aquele menino é um pugilista verbal.

Quer isto dizer que sendo o argumento já de si de cordel, os diálogos são da corda, com a crise da guita a alimentar as deixas e trocas de acusações dos intérpretes. Uma pobreza de espírito. A democracia portuguesa já teve a sua época de ouro; está agora na idade do poliéster.

Esta atitude, perante um acontecimento tão sério como a realização de eleições, revela acima de tudo um absoluto desprezo pelos eleitores, que são afinal a fonte da soberania e do poder, em democracia. Mas também resulta de alguma menoridade intelectual por parte dos agentes políticos.

A falta de nível da generalidade dos políticos portugueses lê-se em primeiro lugar nos discursos de pacotilha. E vê-se, em última instância, no resultado da acção política, parlamentar e executiva. A política mede-se pelos resultados. E os resultados de décadas de política em Portugal estão à vista na dramática situação do país e dos portugueses.

Seguem-se dois meses de promessas, discursos, fungagá, caravanas, bandeirolas, sacos de plástico e beijinhos às crianças.
«DE» de 29 Mar 11

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28.3.11

Cenas dos próximos capítulos

COMO muito bem sabe quem costuma ver Os Simpsons, cada episódio gira em torno de um tema em especial. Recentemente, o efeito humorístico era obtido pondo todas as personagens a repetir, por tudo e por nada, a frase «A culpa não é minha!» - como já começaram a fazer os responsáveis pela actual crise política portuguesa.
Mas, mesmo dentro do género «estes gajos também não são para levar a sério», há - pelo menos para mim - uma grande diferença entre os Simpsons e os políticos da nossa praça: é que, a estes, (desde Portas a Louçã) JÁ NEM OS POSSO OUVIR - nunca vi tão pouca TV como agora; nem, quando a vejo, fiz tanto
zapping!

Já?

Por João Paulo Guerra

UM DIA depois de se unirem para deitar abaixo o Governo de José Sócrates e se perspectivarem como alternativa de poder, PSD e CDS inauguraram solenemente a fase da crispação. Terá sido por falta de jeito, por inexperiência ou por excesso de confiança da parte de Passos Coelho: o líder do PSD, na primeira vez que falou de medidas concretas para recauchutar a crise, admitiu o aumento de impostos, em particular o aumento do IVA. E logo se quebrou a fina camada do verniz da coligação pós-eleitoral anunciada. "Aumento de impostos? Nem pensar", respondeu o CDS, enquanto no próprio PSD surgiam sinais de nervosismo: um líder que fala por si pode ser uma fonte de equívocos e problemas.

E esta tem sido a história das coligações em Portugal, se bem se lembram. Ou não se lembram quando, em 2004, a coligação de governo chegou a acordo para mandar calar para sempre uma secretária de Estado da área da Educação que desencadeava uma tempestade política de cada vez que abria a boca? Foi por essa altura que alguns ministros e secretários de Estado passaram a dizer em ‘off' que o Governo deveria ser remodelado rapidamente e em força. Já se lembram? Exactamente, foi quando o ministro PSD da Administração Interna entrou em conflito com os seus dois secretários de Estado, o do próprio partido e o do CDS, que falava em nome do Governo como se o Ministério tivesse sido objecto de oferta pública de aquisição.

No Governo seguinte, com a mesma coligação mas outro chefe de turma, foi o bom e o bonito, com o ministro das Finanças a pregar sacrifícios para manter o défice abaixo dos 3 por cento do PIB, e o primeiro-ministro a anunciar que chegara "o momento" para corrigir a política de austeridade dos últimos anos.

Antes de começar, já recomeçou. Habituem-se.
«DE» de 28 Mar 11

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Passatempo de 28 Mar 11

CHAMADO para ir à sua velha casa de Torges, Jacinto teve de se ausentar da outra onde vivia habitualmente - rodeado de todos os luxos que a Civilização lhe podia dar. Sabendo o que o esperava, pretendeu amenizar a falta de conforto que antevia enviando para a aldeia, por comboio, tudo quanto pôde. No entanto, os caixotes da bagagem extraviaram-se, e ele teve de se resignar a uma vida espartana - de que, afinal, veio a gostar.
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É, ENTÃO, altura de anunciar o que já se percebeu: o livro cuja capa aqui se afixa será enviado ao primeiro leitor que indicar o título da obra de Eça de Queiroz (romance, novela, conto, poema...) onde a história é contada. Ah!, dado que a questão é fácil, cada leitor só poderá dar uma resposta - a menos que seja necessário fornecer dicas. Mas será?!

Actualização (14h23m): o passatempo terminou - ver 3.º comentário.

O cofre da Dona Albertina

Por A.M. Galopim de Carvalho

A DONA ALBERTINA, assim todos se lhe referiam, foi uma funcionária que fez história no Museu e Laboratório Mineralógico e Geológico da Faculdade de Ciências de Lisboa. Filha de um antigo funcionário, que já não conheci, com funções de chefe do pessoal, rigoroso e austero, esta senhora tinha um porte distinto, sempre primorosamente penteada e composta na sua inseparável e engomada bata branca de neve. Licenciada em Farmácia, era, ao mesmo tempo, administrativa e a técnica responsável pelas análises químicas de rochas e minerais. Nos anos que antecederam o incêndio de 1978, este Museu suportava, em termos de orçamento, o sector das aulas da Licenciatura em Geologia da dita Faculdade.
Havia no Museu um cofre, embutido numa das paredes-mestras, cujo segredo só ela e o director conheciam. Nesse cofre guardavam-se os cadinhos de platina, uma fortuna avaliada em milhares de contos, onde se fundiam as rochas e os minerais a analisar quimicamente. (...)

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27.3.11

Luz - Chile, 1971

.Fotografias de António Barreto- APPh

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É um lugar-comum irresistível: a revolução, o comunismo e a Coca-Cola! (1971)

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A chegada da Primavera

Por Alice Vieira

TENHO a casa cheia de lírios.
Acontece que os lírios e eu nunca fomos amigos íntimos.
Para mim, lírios eram apenas aquela flor que costumava entrar sempre nas histórias do Zé Gomes Ferreira, à mesa do Monte Carlo (que então nem sonhava que um dia viria a chamar-se Zara) .

Na sua juventude, o Zé Gomes Ferreira tinha publicado uma colectânea de bucólicos poemas, a que chamara“Lírios do Monte”. Anos mais tarde, num passeio ao campo com um amigo, umas flores chamaram-lhe a atenção: "que bonitas! Que flores serão aquelas?” E o amigo respondeu:”então, são os lírios do monte de que tu falaste tanto no teu livro…” (...)

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26.3.11

Ao que chegámos…

Por Antunes Ferreira

DAS AGÊNCIAS - O jornal Financial Times ironiza esta sexta-feira com a situação portuguesa e sugere a anexação de Portugal pelo Brasil. Na coluna “Lex” é, ainda, assegurado que as maiores vantagens seriam para Portugal.

«A União Europeia considera Portugal problemático: sem governo, com alta resistência à austeridade e fraca performance económica crónica (o PIB estagnou na última década). As negociações são duras» prossegue o articulista que, depois, escreve: «Aqui está uma ideia inovadora para lidar com a situação: a anexação pelo Brasil». E faz de seguida o elenco das virtudes brasileiras: um país onde se fala português e onde o PIB tem crescido, em média, 4% ao ano na última década. (...)

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25.3.11

«A Quadratura do Circo» - A divina boda do futuro

Por Pedro Barroso

EU AINDA quero o que queria, mas o que queria, pode não ser o que mais quero. Mudou.

Esta explicação destina-se a todos que desejam melhor informação curricular de que raio afinal eu quero, e desejo, e formativamente penso do futuro; de mim, da sociedade, do país e de nós todos primatas falantes e de polegar oponível e também deste Grito de alma.
Então, pronto, tentarei explicar o que sou e o que penso. Vai ser difícil, mas enfim.

Eu queria ver estes esforços todos conjugados e desaparecia feliz.

Estes grupos todos de facebook - estes pequenos projectos de utopia, uns mais loucos que outros; todos insuficientes, na sua pequena esquina, para governarem mais que o jardim do bairro, mas apaixonados e gritantes, cheios de força e coragem de fazer parar o mando e o mundo.

Ah, grandes companheiros da boina e da sociedade sem fronteiras!, nem estado, nem funcionários, nem estradas, nem impostos, nem ensino oficial, nem portas, nem moeda. Tudo espontâneo e fácil, tudo intuitivo e radical; todos eternamente bons e sem precisarmos de autoridade nem Polícia. Onde se trocassem galinhas por tijolos, ou canções, conforme a necessidade. E vice-versa.

E como admiro os outros, mais organizadinhos e legais; os companheiros associativos e sindicalistas, cuidadosos com a lei, cumpridores do sonho comunista, uma terra sem amos, a Internacional, que seria portanto uma mancha enorme e vermelha de operários e camponeses trabalhando em fábricas do Estado, todos vestidos de vermelho e a cantar a sete vozes as "Heróicas" do Lopes Graça e a deslocarem-se em pequenos carros Trabant feitos de papelão, tipo platex para combater o império do aço! E sempre argutos na manobra, sempre desconfiados de quem não esteja filiado. Como eu invejo o seu sentido colectivo de soluções por Kremlin infalível, a sua organização sectorial e a sua cega confiança e obediência!

Admiro ainda os que - como muitos milhares estão a surgir agora - cansados com este vergonhoso aparelho socialista e que querem generosamente devolver o tal partido "Socialista" aos socialistas, acabando com esta vergonha. Gente que sentiu a vergonha imensa de ver Sócrates gerir um partido e um país em total assincronismo com os preceitos mais basilares do socialismo - pondo os interesses dos praticantes de golfe antes dos pobres. Como admiro os homens q se levantam agora internamente, a dizer basta de vergonha, queremos um socialismo novo, gente de bem, acabemos com a corrupção interna, devolvam o ideário socialista ao partido, e outras arriscadas coisas.

Caramba, como os admiro. Gente de valor e coragem.

Mas admiro imenso o socialismo inteligente e evoluído dos países escandinavos onde sinto um grau de funcionamento das coisas e instituições que me deslumbra em sociedades limpas não poluentes, com um cuidado imenso com a floresta e a ecologia, onde os deputados são trabalhadores do estado, os ministros vão de bicicleta para o emprego e Olaf Palme morreu por, apesar de ser primeiro-ministro, ir de metro ao cinema com a sua mulher e ter encontrado, à vinda para casa, um maluco que o decidiu matar sem motivo nenhum, por mera maluqueira e não tinha guarda-costas.
Como eu admiro a social-democracia, a sua luminosa Estocolmo onde se poderia nadar e pescar entre ilhas pois nenhum esgoto desagua em suas águas. Como admiro a Noruega com a sua protecção as artes e ofícios, o seu sentido do belo, a sua discrição no poder, pois o poder não é para ser exibido, mas para ser eficaz.

E os reis, meu Deus? Que bonito é o cortejo perfeitamente inútil, de um aparato estapafúrdio em qualquer cerimónia de baptismo ou casamento numa Monarquia? Há lá coisa mais bonita que o romance de um príncipe com uma princesa, ambos lindos e estúpidos, criados para mandar desde a fralda real, inteligências preparadas para fazer férias permanentes a expensas do cidadão? Vejam como, coitados, cansados das Maurícias, recolhem a Saint Tropez; e cansados dos palácios de Kensington e de seus 30 criados se sujeitam, ainda assim, a passar mais feéias na neve em St Moritz, sofrendo horroroso assédio de paparazzis, só por amor à pátria? Há coisa mais bela que isto? A monarquia é uma coisa de facto comovente!

Eu amo também o universo dos grandes financeiros e sua magnanimidade. Suas engenharias financeiras para salvar o mundo e comprar submarinos! O sonho maior de minha vida era pôr um fato e uma gravata, entrar num Banco e ser tratado por senhor presidente! Desgraçadamente nunca vou conseguir que tal tipo de roupinha me fique bem, o que constitui um enorme desgosto pessoal. Nunca percebi bem porque têm de ser também sempre muito religiosos, e gostam de associar direita a uma figura tão descomposta, e rota, e mártir como o Nazareno na cruz. A direita é pelo amor pátrio, pela bandeira, pelo bem-estar da nação. Alguém quer lá saber dos pobres duma nação? Nos queremos é riqueza! Os pobres que se lixem, serão sempre pobres, sujos e maus.

Ah, como eu admiro os seus iates, os seus fatos Armani, as top-models que enxameiam Monte Carlo! O anúncio do Martini, caramba! Eu quero.

Sou um triste desiludido como vêem. Tudo me deslumbra e nada me satisfaz.

Então,

Ficava satisfeito se visse todos os homens de bem, de todas as cores, que estão - como eu, e como nós - fartos, fartinhos ate aos cabelos desta pintura borrada de sociedade. Todos os fartos desta teatralidade bacoca e pérfida da politica de bidé. E ver tudo a dialogar a uma mesa. É verdade.

Reis de vinte ducados e MRPP. Gritos e silêncios. Humanistas e não-sei-quê-da-Terra. Renovadores e milhões. Todos iguais, todos diferentes. Todos à rasca com o futuro de Portugal. E até ficava em casa nesse dia, feliz do que tinha conseguido, e desaparecia de felicidade!

Porque, juro-vos, nenhuma ambição de poder me move; mas também me irrita demais este mau desempenho destes actores da treta. Maus demais para ser verdade.

Gente de bem deste pais, desalinhados que não tenham ainda enlouquecido; ecologistas fundamentalistas do grelo e da soja; trotskistas do 3.º acordo, 4.ª decisória, 3.ª internacional, com ou sem boina; gente que gosta de Portugal e se irrita de o ver no fundo; comunistas cansados de nunca serem mais que o sonho de conseguir; sociais-democratas limpos e sérios, lavados de ideias; liberais apaixonados sinceros e justos, sem dogmas nem tabus.

Gente. Pessoas de bem, caramba!

Que tendes a perder? Não querem juntar-se ao nosso GRITO?

Venham acudir a este Portugal, abdicando cada um de seu espaço de vaidade e de meio quilo de tanto convencimento.

Eu, que nada sei e tudo respeito, convido-vos para uma nossa imensa e colectiva mesa.

Serviremos esperança em copos de iogurte. O serviço de cristal há muito que está no prego. Mas a esperança, essa ainda resistiu, guardada a sete chaves, nas caves mais belas do infinito sonho que nos cobre a alma.

Aproveitem. Se não quiserem embarcar, é pena. Era o último comboio da madrugada.

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Baixar o tom é um bom método

Por Ferreira Fernandes

NÃO OUVIRAM o espanto da sr.ª Merkel? Não, não digo as palavras - essas são para a propaganda dos socialistas que ontem, naturalmente, se fartaram de lembrar a classificação de "apropriado" e "corajoso" que a chanceler alemã emprestou ao PEC IV de José Sócrates. Mas mais do que as palavras, deveríamos dar-nos conta do espanto dos líderes europeus pelo psicodrama político em que Portugal se envolveu. Eles estavam convencidos de que quem não tem dinheiro não tem vícios, e esperavam que a solução que fora acordada com eles não seria adiada.
Vou ofender: eles sentiram-se como a boa dona de casa que vê o mendigo rejeitar uma sandes de presunto porque entretanto ele tinha de discutir umas coisas com os colegas. Daí Angela Merkel, que representou a União Europeia nos contactos com Portugal, ter sentido a necessidade de gabar veemente o PEC IV... Os socialistas passaram o dia a sublinhar os elogios que ela teria feito a José Sócrates. Propaganda legítima, mas pouco importante comparando-se com outra ilação a tirar do episódio. Afinal, aquele PEC insuportável e irresponsável, como disseram (e votaram) o PSD e CDS, é o certo e inevitável para a correligionária deles, a sr.ª Merkel.
Pergunto: não teria sido possível, cá em casa, poupar no "tremendismo" da discussão política? A pergunta é também para o PS: o ministro da Defesa não podia não ter chamado "desertor" a quem não concordava com o tal PEC?
«DN» de 25 Mar 11

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24.3.11

A crise que é mãe das outras

Por Ferreira Fernandes

UM GOVERNO que foi eleito há ano e meio foi derrubado ontem. O que ele fazia em medidas impopulares vai o próximo Governo ter de repetir, e de forma mais grave, porque ontem o Governo foi derrubado.
Nas duas frases que atrás deixo, a primeira é factual e a segunda é uma previsão consensual - mesmo os deputados que votaram pelo derrube do Governo sabem que assim é. Há uma contradição em derrubar uma política quando isso implica a vinda da mesma política e mais grave, ou não há? Há, mas é melhor não ter ilusões nos partidos como impolutos salvadores da pátria. Os partidos são máquinas para o poder.
Temos, então, a promessa de que o que vai vir é pior do que o que existe e tal aconteceu porque os partidos apostaram no seu interesse. Os de direita porque querem governar, o BE e o PC porque precisam de acariciar a sua base de apoio, e até o derrubado PS porque estava farto de governar em minoria em tão difícil situação - não excluo ninguém.
Poderíamos chorar pelo leite derramado, mas como sempre não vale a pena e a democracia é assim. Sobre ela sou cínico como Churchill e o que me incomoda não são as jogadas dos partidos. Incomoda-me, isso sim, que um Governo eleito há ano e meio tenha sido derrubado. O PS, o PSD e o CDS (falo dos que querem governar), além da grave mas conjuntural crise financeira, deveriam pensar como resolver esse problema estrutural português. Quem manda (seja quem for) tem de mandar.
«DN» de 24 Mar 11

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HÁ DOIS motivos para esta imagem estar hoje aqui:
O primeiro vem por associação de ideias com o facto de o Governo estar com os pés para a cova - nem sequer faltando as virgens pudicas a olhar para o cadáver ainda morno.
O segundo está relacionado com o nível que a política portuguesa atingiu, e que só pode ser devidamente comentado com os substantivos e os adjectivos em que José Vilhena é pródigo.
Assim sendo, se o vencedor do passatempo que termina às 20h de hoje (ver AQUI) tiver um erro igual ou inferior a 10 gramas receberá, além do prémio a que tem direito, um exemplar deste livro do mestre.

Agradecimento

Por João Paulo Guerra

JOSÉ SÓCRATES ganhou as eleições com maioria absoluta, em Fevereiro de 2005, e difícil seria não ganhar concorrendo contra Santana “F’Lopes”. Reinava a euforia e ninguém falou em crise nesses tempos. Mas as más notícias não tardaram. Em Maio, o governador do Banco de Portugal avisou que seria necessário explicar que o Governo não poderia cumprir algumas das suas promessas e que, pelo contrário, vinham aí congelamentos de promoções, cortes nas despesas sociais, aumentos de impostos.

Um ano depois, com a eleição de Cavaco Silva, Sócrates ganhou um guarda-costas para uma política de crescente austeridade para os do costume, os mais pobres, os assalariados, a classe média. Entretanto, o dinheiro barato da Europa rendia milhares de milhões "reemprestados" em Portugal, onde os portugueses eram empurrados para a euforia do crédito e do consumo. Foram esses milhares de milhões, a par dos casos conhecidos de delinquência financeira, que geraram a crise da dívida.

Por outro lado, o calendário anunciava um ciclo de quatro eleições, até 2009, e se era certo que tanta democracia iria custar ao país 100 milhões, não era menos verdade que as promessas eleitorais continuavam de borla. E foi assim que Sócrates foi reeleito, embora perdendo a maioria absoluta, no auge de um eufórico ciclo eleitoral durante o qual anunciou, solenemente, no Verão de 2009, "o princípio do fim da crise" - tal como Santana Lopes proclamara em 2004 o "fim da austeridade".

A reeleição de Cavaco Silva, há dois meses, foi o acto final da peça. Eleito e reeleito, Cavaco não perdeu tempo desta vez e prepara-se para avançar para o velho sonho da Direita: um Presidente, uma maioria, um Governo. Será da mais elementar cortesia e justiça que Cavaco Silva não se esqueça de agradecer a José Sócrates.
«DE» de 24 Mar 11

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Os países islâmicos despertam

Por C. Barroco Esperança

DE MARROCOS
ao Bahrein, do Egipto ao Irão, em todo o mundo árabe e não árabe, subjugado pelo Islão, surgiram exuberantes manifestações democráticas que apanharam de surpresa os Governos locais, as mesquitas, as madraças e os países ocidentais. As informações que nos chegam mostram uma genuína sede de liberdade em países onde a cultura e a informação entraram através da Internet e das universidades, criando condições para desafiarem regimes obsoletos e uma religião implacavelmente desumana. Da forma como se esmagam as aspirações populares pudemos dar-nos conta através da intervenção das forças armadas sauditas que afogaram em sangue a entusiástica mobilização popular do Bahrein. Na Líbia o esmagamento dos manifestantes só não foi total porque uma descoordenada aliança dos EUA, NATO e Europa avançou para uma aventura humanitária que parece não ter previsto até onde podia ir e quando devia terminar. Mais uma vez, a Europa mostrou ser um anão, abrigado sob o guarda-chuva dos EUA e sem uma política externa comum e coerente. (...)

Texto integral
[aqui]

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23.3.11

Que futebol?! Isto não é sobre futebol

Por Ferreira Fernandes

DOIS INDIVÍDUOS encapuzados, à porta de um restaurante do Porto, fazem uma espera e agridem um dirigente do Benfica.
Cena seguinte: depois de um jogo da sua equipa no Norte, regressava o presidente do Benfica pela auto-estrada quando alguém lhe lança uma pedra e parte o pára-brisas...
Duas hipóteses tolas: o FC Porto (quer dizer, a sua direcção) está por trás das agressões; o Benfica (isto é, a sua direcção) está por trás das agressões... Há explicações plausíveis para qualquer dessas hipóteses. Para uns, os agredidos são do Benfica, logo o culpado é o outro... Para outros, a classificação do FC Porto não precisa destas partes gagas, enquanto o outro clube...
Eu tenho outra ideia: o Benfica e o FC Porto (quer dizer, os clubes e quem os representa) não têm nada a ver com aquelas agressões. E tenho um argumento definitivo: porque sim. Esse argumento é que me permite não ser esquizofrénico.
No próximo dia 3, estarei na Luz e aplaudirei uma equipa (a minha) ou a outra (a que foi de meu pai) e não me sentirei em qualquer dos casos cúmplice daquelas agressões ou provocações imbecis. Sem um facto ou prova em contrário, recuso-me aceitar que qualquer dos responsáveis daqueles clubes seja autor daquilo. Sim, eu sei que posso ser surpreendido (já fui algumas vezes ingénuo). Mas sei também que viver em histeria sobre as hipotéticas culpas e maldade dos outros tira-me mais do que me dá.
«DN» de 23 Mar 11

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Contra a irracionalidade

Por Baptista-Bastos

AS NOTÍCIAS não são animadoras. Mas há quanto tempo é que as notícias o não são? Vivemos no interior de muitos medos e parece que ninguém é capaz de os aniquilar ou, pelo menos, de os atenuar. Possuímos uma larga, histórica, dir-se-ia que fatal experiência do medo. Temos sobrevivido entre a resignação e a revolta cabisbaixa. Entretanto, fomos alimentando a esperança, sempre fugidia, de que as coisas iriam melhorar. Os dias de amanhã seriam melhores e mais belos. Tivemos uns fogachos de alegria, seja dito; porém, há quem deteste que sejamos felizes, mesmo mitigadamente.
Ao que leio e ao que me dizem sábias criaturas, o Governo vai cair. O estrondo não será grande. Já se previa. O pior é que o pior está para vir. E o putativo substituto de Sócrates não o esconde. O pouco que resta do 25 de Abril, Passos Coelho encarregar-se-á de remover. (...)

Texto integral [aqui]

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22.3.11

«Uma Justiça e Pêras!» - Passatempo com prémios

Quanto indica a balança?
TODOS os títulos destes livros (*) têm a ver, de uma forma ou de outra, com assuntos da actualidade (desde a «Face Oculta» até à intervenção militar na Líbia), e serão atribuídos aos leitores que, até às 20h do dia 24, quinta-feira, derem as respostas que mais se aproximem da correcta à pergunta habitual.
Cada leitor poderá dar uma única resposta. O número de prémios a atribuir dependerá do número de participações: um livro até 10 respostas, dois de 11 a 20, etc.
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(*) - Dinheiro do Diabo (de Maurice Procter), O Clube dos Negócios Estranhos (de G . K. Chesterton), Jogos de Guerra (de David Bischoff), O Homem Poderoso (de Mickey Spillane), Oito Suspeitos é de Mais (de Rui T. Gomes) e A Face Secreta do Crime (de Artur Varatojo).
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Actualização (20h04m): a solução já está disponível [aqui].

O romance que une o PS e o PSD

Por Ferreira Fernandes

ISTO ESTÁ em cacos, PS e PSD não se entendem. Ambos estão conscientes sobre a gravidade da situação financeira, mas tirando a comum justificação do divórcio - "a culpa da crise política é tua", "não é, não, é tua!"... - nenhum cede. Uma algaraviada em pingue-pongue (ontem ouviram-se, entre outros, os socialistas Luís Amado e Jorge Lacão e os sociais-democratas Miguel Relvas e Passos Coelho), tanto mais extraordinária quanto nenhum dos lados, cada um acusando o outro, é capaz de apontar uma solução. Ou, apontando-a, é do tipo "a broad coalition for change", como escreveu ontem o PSD num documento, admitindo que isto só lá vai em estrangeiro. O problema é que aquelas esquisitas palavras traduzidas dão esta quimera: "Ampla coligação para a mudança."
Eu também queria conhecer a próxima chave do Euromilhões, mas suspeito de que não a vou ter. Nem ninguém vai conseguir ampla coligação. A não ser... Li no blogue Perplexo, do jornalista Couto Nogueira, que foi lançado o romance A Terra Toda, de outro jornalista, José Manuel Saraiva. Cito as presenças: Dias Loureiro (que apresentou o livro), Rui Pereira, ministro das polícias, Jorge Coelho, ex-homem forte do PS, Miguel Relvas, actual porta-voz do PSD...
Afinal sempre é possível a convivência. No romance, o protagonista apaixona-se pela sua psicanalista. É, pode estar aí a solução.
«DN» de 22 Mar 11

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A minha Europa e a deles

Por Maria Filomena Mónica

EM 1962, fui viver para uma ilha, a Grã-Bretanha, situada dentro ou perto da Europa. Apaixonei-me logo pela civilização europeia, de que Portugal parecia estar, há séculos, arredado. Em 1986, quando Portugal aderiu à CEE, aprovei o gesto de forma incondicional. Mas o entusiasmo não durou. Não tardei a reparar que a União Europeia produzia subsídios para os agricultores, cotas para o pescado e regras sobre lâmpadas, mas não europeus.
Nesta organização, o poder é detido pelo Conselho da Europa, um somatório de interesses nacionais, e pela Comissão, uma casta que não responde perante ninguém. Regiamente pagos, os seus funcionários querem estar bem instalados. (...)

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A CRÓNICA de JPG hoje afixada podia ser um bom pretexto para "despachar" este livro que está aqui na prateleira à espera de servir como prémio para um dos habituais passatempos. Vai, de facto, aparecer em breve, mas integrado num pacote maior, onde figuram outros dedicados aos crimes económicos e à nossa Justiça que tão bem trata deles - «uma justiça e pêras!», como se verá.

Perguntas

Por João Paulo Guerra

POR QUE é que são sempre os EUA que desencadeiam guerras e porque é que as guerras são sempre em regiões do mundo produtoras de petróleo, de gás, ou de trânsito de gás e petróleo?
Por que é que tudo isto acontece, estejam no poder nos EUA republicanos broncos ou democratas um pouco mais envernizados? Por que é que há sempre um pretexto - mesmo que o pretexto seja uma patranha da dimensão das armas de destruição maciça no Iraque - que os EUA impõem e os aliados amestrados aceitam sem uma ponta de vergonha? Por que é que estas guerras não têm fim? Será, como disse um soldado norte-americano numa conferência de imprensa recente, que importante é vender a guerra e não tanto vencê-la, pois assim é que os mercadores da morte despacham os artigos dos catálogos? E se, como diz o mesmo soldado, nem a grande maioria das pessoas que vivem nos EUA nem os próprios soldados têm o que quer que seja a ganhar com estas guerras, quem são os vencedores das guerras? Para onde vão os 450 milhões de dólares gastos por dia nestas guerras, sendo certo que não vão para os americanos pobres que são arregimentados e mandados fazer a guerra contra os pobres de outros países? E quem acredita que o soldado que deu a conferência de imprensa, e que apareceu morto dois dias depois, tenha falecido de um ataque cardíaco? E se a guerra no Iraque não terminou, nem se vê no horizonte quando vá terminar, quando terminará a guerra na Líbia? E quem ficou com o ‘franchising' do conflito no Barhein, capaz de transferir para a Arábia Saudita a aventura de atacar o Irão? E quando uma dúzia de caquéticos accionistas de duas dúzias de pútridas corporações dominarem um cenário apocalíptico, um ambiente devastado, quem se proclamará vencedor da luta final, da guerra definitiva? E para quê?
«DE» de 22 Mar 11

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21.3.11

Apontamentos de uma cidade caótica e desumana

Esta tarde, na Praça da Figueira e junto ao Palácio da Independência, em Lisboa

«Dito & Feito»

Por José António Lima

O QUE LEVOU José Sócrates a precipitar a crise política que há muito estava anunciada?
O facto de ter percebido que se tornara impossível a sua sobrevivência política até ao final do ano dada a gravidade das medidas de austeridade que Bruxelas e os seus parceiros europeus lhe exigiam que aplicasse já - como, mais uma vez, obedientemente fez. E o facto de qualquer ajuda externa vinda da cimeira dos próximos dias 24 e 25 implicar um pedido feito pelo Governo português e a intervenção do FMI - desmentindo tudo o que o primeiro-ministrovinha afirmando ao país.
Sócrates não hesitou, pois, em provocar a crise política. Mas fê-lo de forma tão canhestra, tão denunciadora das suas intenções, que até o seu tutor partidário Mário Soares lhe veio apontar um dedo acusador. «Cometeu erros graves: não tem informado, pedagogicamente, os portugueses quanto às medidas tomadas e à real situação do país», escreveu Soares, acrescentando: «Negociou o PEC 4 sem informar o Presidente da República, o Parlamento e os parceiros sociais - foram esquecimentos imperdoáveis ou actos inúteis, que irão custar-lhe caro». (...)

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Hoje, 21 de Março - Dia da Árvore

Passeio do lado Norte da Av. da Igreja, em Lisboa
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NOTA: não confundir estas fotos com outras, aqui publicadas, e que são do lado Sul.

A partir de hoje

DE SAUDAR a facilidade e clareza com que se apresenta, na Internet, o questionário do CENSOS 2011: desde que não haja enganos no preenchimento do Código de Identificação (8 dígitos), do Código PIN (8 caracteres) nem da Identificação do Alojamento (6+3+2+3+3 dígitos) tudo é fácil e, em caso de erro (ou resposta não-consistente com outras anteriores) o programa avisa, indica o que é preciso corrigir, e não deixa passar à página seguinte enquanto isso não for feito.
Além disso, para cada pergunta está disponível (clicando) uma pequena explicação, simples e clara.

Dinossáurios em Portugal

Por A.M. Galopim de Carvalho

DEVE acrescentar-se que, no que toca este ramo da ciência, já tivemos, no passado, actividade científica digna de registo. Em finais do século XIX, Jacinto Pedro Gomes, naturalista do Museu Nacional de História Natural, foi dos primeiros cientistas mundiais a investigar pegadas de dinossáurios com o estudo que realizou no Jurássico do Cabo Mondego. Numa segunda fase, nos anos quarenta e cinquenta, do século XX, os antigos Serviços Geológicos de Portugal dedicaram ao tema particular atenção, sendo hoje a instituição portuguesa mais rica em restos ósseos de dinossáurios. (...)

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20.3.11

Luz - Catedral de Wells, Grã-Bretanha, 1998

Fotografias de António Barreto- APPh

Clicar na imagem, para a ampliar
Um recanto em contraluz numa das mais importantes catedrais inglesas. Ainda hoje não tenho a certeza de que seja esta catedral... Às vezes, a memória e a documentação pregam-me partidas... (1988)

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Os últimos de Fucoxima

Por Ferreira Fernandes

DESTA VEZ, os kamikazes não são os que vêm pelos ares. Estes esvaziam a água sobre os reactores e regressam ilesos nos seus helicópteros. Desta vez, os que se sacrificam, sabendo que se sacrificam, estão no solo, e lá continuam com a única compensação de um dia terem um filme: "Os Últimos de Fucoxima." Mas para os seus compatriotas eles já conseguiram um certo controlo na escalada de perigo da central nuclear. As leituras de radiações diminuem, já se acredita que se está na fase de enterrar o pesadelo - a prova veio ontem em todos os jornais: as manchetes abandonaram o Japão, partiram para a Líbia. Fucoxima, grau 5, não chegará ao máximo, grau 7, de Chernobil. Graças aos 50. Tão anónimos que nem se sabe se serão esse número, talvez sejam 200 a trabalhar por turnos. A trabalhar tão depressa que nem deu tempo para o mundo lhes organizar o espectáculo: dar nome e cara a cada um.
Os 33 mineiros do Chile tiveram mais e, na escala dos heróis, fizeram menos. Os chilenos foram admirados pela sua coragem mas, afinal, lutavam por eles. Os 50 (ou lá quantos são) de Fucoxima, não; por eles o que fazem são doenças terríveis e certas. E nem têm aquele lenitivo que faz os heróis saltar as trincheiras, ou para comparação local e colorida, os kamikazes atirar os seus aviões contra os alvos - a morte breve e gloriosa. Os de Fucoxima são heróis pacientes, que fazem porque tem mesmo de ser feito.
«DN» de 20 Mar 11

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19.3.11

VALE a pena observar com atenção [esta] colecção de fotos. As imagens são 24, mas duplas: a meio de cada par, existe uma barra de separação, que se pode mover com o rato, e que mostra (sobrepondo) o "antes" e o "depois" da tragédia - Ver [aqui].

NOTA: a página abre com 13 dessas imagens duplas. Clicando (em cima, à direita) em Side (página) 2, acede-se a mais 11.

Membro de família e sócio de clube

Por Ferreira Fernandes

OBAMA no Brasil, e a sua visita ao Rio vai ser o ponto alto - no cimo de um morro. Ele nem vai lá, ao morro Chapéu Mangueira, mas a evocação deste pertence àquela forma íntima de fazer política de que Obama é mestre. Em 1959, um filme no Rio, Orfeu Negro, com um actor negro e música carioca: ele a cantar Manhã de Carnaval, no cimo do tal morro, olhando a baía da Guanabara, pôs uma jovem branca americana do Midwest a dar atenção aos negros. Por causa desse filme ela casar-se-ia com um queniano e daí nasceu Barack Obama - diz a lenda que o próprio pôs a circular. Mas a segurança americana achou Chapéu Mangueira demasiado morro e perigoso, então a favela a visitar será a Cidade de Deus, plana e mais controlada. Um encontro, pois, entre amigos - o jovem colosso sul-americano recebe o velho colosso norte-americano.
Acordos imediatos: investimentos americanos nas infra-estruturas do Mundial de 2014 e nos JO de 2016.
Acordos estratégicos: as reservas petrolíferas brasileiras são o dobro das americanas.
Um conflito: Washington não é adepto do Brasil como membro permanente do Conselho de Segurança.
E um assunto sério que não está na agenda: os EUA querem a NATO até ao Atlântico Sul. Grande potência do futuro, o Brasil não quer, aquele mar é seu.
Membro da NATO e irmão do Brasil, Portugal deveria começar a pensar neste assunto com inteligência. Pode apertar laços, defendendo a família no seio do clube de que é sócio.
«DN» de 19 Mar 11

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Parabéns, Alice!

SEGUNDO informação-convite recebida do Teatro Experimental de Cascais, decorrerá hoje (sábado, dia 19), às 17 horas, um espectáculo-homenagem à Alice Vieira no Teatro Municipal Mirita Casimiro a propósito dos 50 anos de actividade literária da autora.
Será representada a peça
Leandro, Rei de Helíria, escrita por ela para o TEC, em 1982, e agora representada pela jovem companhia “Palco 13”, constituída por jovens actores formados na Escola Profissional de Teatro de Cascais.
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NOTA: Embora tal não seja explícito no mail que o TEC me enviou, suponho que o convite seja extensivo aos leitores do Sorumbático.

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Eleições e soluções

Por Antunes Ferreira

AS ELEIÇÕES estão à porta. Trocam-se acusações, a crise foi originada pelo desgoverno, as finanças estão de rastos, os cidadãos cada vez mais desconfiados, farto de promessas está o Inferno cheio, as vitórias estão ali mesmo à biquinha, os maus (maus? Péssimos!) resultados têm de ser ultrapassados.
A crise é isso mesmo. Uma amálgama de maus procedimentos de há anos a esta parte, de ilusões frustradas, de tropeções constantes, de desencantos generalizados. Em suma: um real pot pourri. Nunca se tinha vivido uma como esta. As pessoas já deviam estar habituadas, já deviam saber o que a casa gastava, já deviam desconfiar dos que mandavam, c’os diabos, era a altura de mudar. (...)

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18.3.11

Passatempo de 18 Mar 11


ESTAS duas fotografias, tiradas numa sexta-feira de Fevereiro na Av. João XXI, em Lisboa, são as primeiras de uma pequena sequência:
Na de cima, vê-se uma cena raríssima: um reboque ao serviço da EMEL retira um carro estacionado na paragem da Carris. Na de baixo, tirada 3 minutos depois, vêem-se dois carros acabados de chegar: um, ao fundo, estacionado no mesmo local de onde o outro acaba de ser rebocado; poucos metros atrás dele, um carro da PSP. Os leitores são desafiados a adivinhar o que é que passou a seguir.
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Actualização: a solução já pode ser vista [aqui].

A nossa amiga Natália

Por Baptista-Bastos

DIAS ANTES, ela telefonara a minha mulher e conversaram durante largo tempo.
Dizia que a minha mulher possuía um discernimento e uma sabedorias raros numa mulher da idade dela. Eram amigas e falavam das coisas da vida e do mundo. E, na madrugada da sua morte, estivera com ela e com o marido, Dórdio Guimarães, a uma mesa do Botequim, conversando avulsamente. Eu morava abaixo da colina da Graça, em Alfama, muito próximo do Botequim, que frequentava amiúde. Desci para casa eram quase três horas. Às 9 telefonaram-me de uma rádio: "Morreu Natália Correia."
Fez, agora [16 de Março] 18 anos, e parece que foi ontem, hoje, ainda há pouco. (...)

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Eleições?

Por João Paulo Guerra

JARDIM fala em “descalabro”, Lacão em “filme de terror”. Passos diz que “acabou”, Portas condiz que “é o fim”. Silva Pereira diz que anda por aí “uma ameaça”.

"Não acham isto estranho?", pergunta Santos Silva. O Bloco de Esquerda diz que as escolhas dos portugueses se situam "entre o pântano e o dilúvio". Pergunta Capoulas: "Com que cara aparece o primeiro-ministro em Bruxelas?". Cavaco não se pronuncia.

Anda quase toda a classe política em estado de palraria, porque falar muito é uma das mais eficazes maneiras de não dizer nada ou, pelo menos, de cada um não dizer o que lhe vai na alma, independentemente das bravatas que deita cá para fora. O diálogo é neste registo:

- Eleições?
- Não. Eleições.
- Ah! Pensei que tinha falado em eleições.

Em consequência começa a dar-se a volta ao texto. Porque torna, e porque deixa, e mais a estabilidade e a ruptura financeira, porque sim, e porque não, e mais o sentido de Estado. A questão é que não há nenhuma previsão segura para o resultado de eleições. E o povo tanto pode transformar o descontentamento em votos, como apiedar-se da vítima dos gananciosos pelo poder. Aliás, a realização de eleições pode mesmo resultar numa embrulhada sem saída resultante de qualquer vitória em minoria - mesmo a do PSD condenado ao preço altíssimo da dependência do "partido-canguru".

E é neste cenário que todos se voltam para Belém. Entre ontem e hoje, os actores principais da crise passam pelo confessionário e esperam pela penitência. E a estas horas o PS já deve estar a bater com a mão no peito pelas críticas virulentas que fez ao discurso da quarta-feira de cinzas. Mas todos se recordam das referências à "estabilidade" e ao "alargado consenso político". Calhando, acaba tudo em bloco.
«DE» de 18 Mar 11

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17.3.11

Descansados, é seguríssimo!

Por Ferreira Fernandes

É UMA CENA célebre do filme Erin Brockovich: Julia Roberts defendia gente contaminada pela irresponsabilidade de uma empresa e recebia, numa reunião, a advogada adversária. Esta diz que a indemnização pedida é enorme. Julia Roberts enumera as doenças causadas: infertilidade, cancro... A outra mantém-se inflexível e faz tenção de beber um copo de água. Júlia Roberts: "Por falar nisso, essa água veio da sua empresa." A outra pousa o copo de água.
Fim de ficção. Passagem à realidade.
Oito engenheiros alemães da Areva trabalhavam na central japonesa de Fucoxima (a Areva é líder mundial e esteve ligada ao grupo de pressão que quis trazer o nuclear para Portugal). Estavam os alemães à volta do reactor n.º 4 quando houve o sismo de sexta-feira passada. Logo no fim desse dia, diz um comunicado da própria Areva, "os colaboradores alemães da empresa foram colocados em lugar seguro, a 40 km da central". Na sexta e a 40 km!
Na segunda-feira, o primeiro-ministro japonês fez retirar a população num raio a 20 km da central. Na segunda-feira e a 20 km! Entretanto, já no domingo, os oitos engenheiros alemães aterravam em Frankfurt.
Eu memorizo isto para o caso de se construir uma central nuclear em Portugal. Sei que tenho de ter saldo para longas distâncias se quiser contactar o promotor dessa iniciativa. E tenho de me lembrar da delicadeza de não o convidar a beber um copo de água.
«DN» de 17 Mar 11

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Confusão

Por João Paulo Guerra

O CHEFE de Estado incitou os jovens portugueses a empenharem-se «em missões e causas essenciais ao futuro do país com a mesma coragem, o mesmo desprendimento e a mesma determinação com que os jovens de há 50 anos assumiram a sua participação na guerra do Ultramar». Na verdade há aqui alguma confusão, em primeiro lugar porque os jovens portugueses não dão hoje mais ao País porque a «ditosa Pátria» não os contempla.
Depois, há a registar o carácter obrigatório do serviço militar no Portugal que fez a guerra colonial. Apesar do que, o número de faltosos e refractários atingiu em cada ano, e segundo dados oficiais, uma percentagem perto dos 20 por cento do contingente a incorporar.
A emigração foi o principal destino dos faltosos e refractários ao serviço militar. Entre 1960 e 1974 emigraram, só para França, Alemanha, Bélgica, Holanda, Luxemburgo e Suíça 1 754 000 portugueses - por motivos económicos e por razões políticas, em particular devido à guerra colonial. Tudo isto, apesar de os mancebos entre os 18 e os 22 anos não poderem emigrar, em caso algum, ou deslocarem-se ao estrangeiro, neste caso sem uma autorização informada pela PIDE. A legislação previa igualmente a incorporação obrigatória em «companhias disciplinares» para «os mancebos que se reconhecesse professarem ideias contrárias à existência e segurança da Pátria ou à ordem social estabelecida».
Nenhum dos nove mil mortos morreu por determinação. Como nenhum dos cinco mil deficientes e mutilados, nem dos 100 mil stressados de guerra, empenhou a sua saúde física e mental e o seu futuro por desprendimento. Mas coragem, desprendimento e determinação também houve, com efeito. Por exemplo, por parte da geração que fazendo a guerra colonial fez depois o 25 de Abril.
«DE» de 17 Mar 11

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Viver é um risco cada vez maior

Por C. Barroco Esperança

O PROBLEMA nuclear ocorrido em Three Mile Island, em Março de 1979 nos Estados Unidos, parou durante 30 anos a construção de centrais nucleares nos EUA.
O acidente de Chernobyl, em 1986, o mais grave até hoje, veio aumentar os receios e dar força aos que se recusam a avaliar o custo/benefício, incluindo os riscos, da única energia que se afigura inesgotável.
O Japão vive hoje uma tragédia que está longe de ser avaliada na sua extensão e riscos futuros. Quando se julgava dominada a energia nuclear, quando os combustíveis fósseis se encaminham para a exaustão, sem alternativas sólidas, mais um argumento poderoso reforça a contestação da energia nuclear. (...)

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16.3.11

Eles não querem isto

Por Baptista-Bastos

TREZENTAS mil pessoas a manifestar-se nas ruas do País devia suscitar alguma apreensão. O protesto dirigia-se, bem entendido, a quem nos governa. Mas, também, a quem nos vai governar e a quem nos tem governado. A noção de que algo está a dissolver--se, nos laços sociais que sedimentaram as nossas sociedades, emerge, aqui e além, com maior ou menor expressão de violência. Os portugueses que desfilaram, representando muitos mais outros, não querem "isto"; e "isto" é o sistema político-económico que se opõe à diferenciação, numa lógica que asfixia o pensamento progressista e permite as mais cruéis arbitrariedades. (...)

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Francisco Luçã, o Revolucionário

Por Maria Filomena Mónica

DEZ ANOS
depois da sua fundação, o Bloco de Esquerda pode orgulhar-se de ter hoje no Parlamento 16 deputados. Nascido da união de vários grupúsculos da Extrema-Esquerda, está em expansão, o que justifica o interesse pela personalidade do seu chefe. A 24 de Abril de 1974, então com 17 anos, Francisco Louçã era membro dos órgãos directivos da trotskista «Liga Comunista Internacionalista» (LCI). Nessa noite, depois de ter sido informado que iria ter lugar um golpe de Estado, deslocou-se para uma casa na Rua da Beneficência, em Lisboa. Começou logo a preparar acções de propaganda, entre as quais dois cartazes, com as seguintes frases «Nem mais um soldado para as colónias» e «Fim à Guerra Colonial, Independência já», a serem colocados na Praça da Figueira. Foi daqui que, às 8 horas da manhã, tentou juntar alguns camaradas, a fim de planear o que deveriam fazer após uma insurreição tida como vitoriosa. (...)

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Apontamentos de uma terra sem uma gota de auto-estima

O PAVIMENTO pedonal em redor da Praça de Touros do Campo Pequeno está neste estado - não apenas há semanas ou meses... mas há anos!
O caso, no seguimento de fotos aqui publicadas e que enviei para a SIC, chegou a ser objecto de um dos programas «Nós por cá...», e teve direito a uma daquelas explicações-da-treta que todos conhecem e a uma curiosa solução. Lembram-se de qual foi?
NOTA: Para quem já não se recorde, a resposta será dada, aqui, em "actualização" ao fim do dia.

O que sucedeu foi o seguinte:

COMEÇARAM por meter, a toda a volta, placas de calcário. No entanto, como grande parte delas era defeituosa, foram-se quebrando, duas aqui, três ali, e ao fim de algum tempo eram mais os buracos do que as partes boas!
Depois da reportagem do «Nós por cá», os 'cérebros de serviço' resolveram o problema dividindo as tampas em 2 partes: de um lado, meteram só as placas boas; no resto, montaram outras novas, em ferro. O problema é que as "boas" continuam a quebrar-se, e o que o hoje se vê é o que as imagens documentam (estas fotos são de anteontem).

Responsáveis

Por João Paulo Guerra

EM POUCAS democracias - excluindo algumas “democracias” carnavalescas - o interesse de grupo se sobrepõe por sistema ao interesse geral. Em Portugal a regra funciona ao contrário: qualquer quintalório, logradouro, pardieiro ou baldio se acavala sobre o País. E é assim que, a braços com uma crise financeira, económica e social de dimensões e consequências tremendas, os responsáveis se atiram de cabeça para uma crise política: é tudo aquilo que Portugal não só não precisava como teria que evitar a todo o custo. Nas mãos da especulação e da agiotagem dos mercados, a precisar de injecções de confiança como de pão para a boca, Portugal vai colocar no tabuleiro deste jogo sinistro a maior de todas as incertezas, os resultados eleitorais, e parar o cronómetro por uns meses.

A questão é que a responsabilidade em Portugal é de todo irresponsável. Chegados ao poder - e a oposição também é poder - os políticos colocam-se acima das responsabilidades e atrevem-se, com garantia de total impunidade, a fazer rodar a roleta russa com o cano da arma apontado à cabeça do País. Porque, aconteça o que acontecer, aos fautores das crises não acontecerá nada. Nenhum político será responsabilizado por ter colocado o País à beira do abismo financeiro, nem por ter dado o seguinte passo político em frente. E dando o passo em frente não será ele que cai mas o País.

A luta de galos em curso tem dois concorrentes para o mesmo poleiro, ambos oriundos da JSD. E enquanto os portugueses apertam mais uns furos no cinto, muitos enfrentam a miséria, outros tantos experimentam o desemprego, a precariedade, a fome, estes dois entretêm-se com jogos de poder. Porque sabem que a um deles vai sair a sorte grande. Mas o outro terá sempre a aproximação.
«DE» de 16 Mar 11

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15.3.11

Sim ou sopas, Coelho e Sócrates?

Por Ferreira Fernandes

OS PORTUGUESES eram assim: "Larguem-me, que eu mato-o!"
Ainda me lembro de ter cruzado cenas dessas, um tipo gritava a sua indignação contra outro, com este pormenor: ninguém o agarrava... Quer dizer, mesmo quando não se queria (ou não podia) bater no outro, gritava-se que sim.
Hoje é ao contrário. Nem Passos Coelho diz: "Sai-me da frente!" Nem José Sócrates provoca: "Avança se és homem..." Hoje, a táctica generalizada é nunca por nunca mostrar à multidão que se tomou a iniciativa da porrada, ou da "crise política" para ser mais preciso. Tudo, menos passar por ser aquele que deu o primeiro passo...
Não tenho saudades das cenas ridículas de outrora, mas também não sou adepto da hipocrisia actual. Chegados ao que chegamos, às sucessivas e obsessivas meias picardias ("porque uma picardia inteira ia pôr o povo pensar que fui eu a tomar a iniciativa..."), tornou-se necessário um sim ou sopas. Neste momento - tradução deste momento: aquele em que o PS e o PSD, com tanta crise na boca, parecem não se dar conta da responsabilidade que ela lhes traz -, neste infeliz momento, só resta provocar a crise. O PS com uma moção de confiança ou o PSD com uma de censura. A maioria relativa (e será só ela, o prémio...) que um ou outro terá nas próximas eleições talvez dê aos dois a noção de Estado que a ambos agora falha. Eles que pedem tantos sacrifícios talvez aceitem o de se aturar um ao outro.

«DN» de 15 Mar 11

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14.3.11

Pedras preciosas e semipreciosas

Por A. M. Galopim de Carvalho

COM MAIS
ou menos sabedoria, toda a gente já ouviu falar e fala de pedras preciosas. Desde há muito dignas desta distinção, têm sido o diamante, o rubi, a safira, a esmeralda e a pérola que, não sendo uma pedra (mineral), no sentido usual do termo, sempre fez parte deste lote de cinco preciosidades. Outras espécies minerais, como as diversas variedades de quartzo, turmalina, topázio, espinela, granada e outras mais, usadas em joalharia, eram designadas por pedras semipreciosas. (...)

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À Deolinda e à Patrícia

Por Ferreira Fernandes

QUANTO ao tamanho da manifestação: foi grande - todos os testemunhos apontam para aí, até os números da polícia (que por hábito são sovinas). Foi uma manifestação grande que se comportou (todos os testemunhos também o dizem) democraticamente. Para quem quer exprimir a sua opinião, ou tão-só indignação, é um duplo conseguimento: juntar muita gente e respeitar os outros. Mas não é isso, o tamanho e a forma, que dá valor a uma luta. A manifestação deixou-se previamente definir por um estado de alma à Deolinda - queixumes: não temos e queremos. Na verdade, deveria ter-se apresentado como uma manifestação à Patrícia Coelho.
Eu explico.
Foi um dos testemunhos ontem recolhidos pelo DN: "Patrícia Coelho, 35 anos, teve de criar o seu próprio emprego se quis trabalhar." Como se vê, até a jornalista se deixou levar pelo espírito Deolinda. "Teve de criar o seu próprio emprego se quis trabalhar"... Mas não é esse o dever de alguém que quer alguma coisa, fazer por isso?! Disse Patrícia: "Vi que as coisas estavam mal e não ia conseguir trabalhar na minha área, que é o turismo. Criei uma empresa de aluguer de automóveis." E seguiram-se as queixas dela, já com a autoridade que de quem se pode queixar: ela quer andar mas emperram-na.
São atitudes à Patrícia que mostram, por contraste, o abuso do Estado que é pródigo para os seus (como ontem o DN denunciou com as subvenções aos ex-deputados) e alheio ao povo.
«DN» de 14 Mar 11

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13.3.11

Apontamentos de uma terra sem uma gota de auto-estima


Ontem, nas "avenidas novas"
UMA situação recorrente em Lisboa: operários dão o melhor do seu saber e esforço para reparar a tão apregoada calçada portuguesa enquanto outros (cada um à sua maneira...) tratam de a abandalhar e destruir - e ninguém estranha...

Já agora: em relação ao que a penúltima imagem documenta, ver também «A malta do 'É igual ao litro'» - [AQUI].
Hoje, domingo, às 22h41m, na RTP Memória :
"Conversa Maior" com o prof. Veiga Simão.

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Luz - Canal e passeio de Veneza, 1971

Fotografias de António Barreto- APPh

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Simplesmente, um passeio e um estacionamento na mais bela cidade do mundo. (1971)

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12.3.11

Olhar o Japão a pensar em Lisboa

Por Ferreira Fernandes

UM DIA DE IMAGENS. Uma maré de tudo, que avança por campos cultivados como para nos mostrar o significado da palavra "inexoravelmente". Os carros a vogar de pescoço mergulhado e traseira alçada, porque a indústria automobilística japonesa os faz de motor à frente. O patinho de plástico e amarelo apanhado no remoinho de ralo de banheira que não são nem um nem outro: é um barco perdido no remoinho de toda uma baía. Um comerciante agarrado à prateleira da sua loja, como se tudo a salvar fosse ela. Carros que desejamos vazios, sabendo que é voto piedoso: há luzes acesas. Os japoneses de Fukushima na emergência de saber que o horror nuclear não acontece só quando o homem quer. Um aeroporto onde o lodo aterrou. Dois homens abraçados, encostados a um pilar, e, se calhar, foi a Natureza que os apresentou. A torre, símbolo de Tóquio, ontem símbolo de Tóquio ontem: com a antena torta. Num vídeo, a surpresa de no previdente Japão ainda haver um candelabro...
Em Cândido ou o Optimista, Voltaire pôs Cândido a chegar a Lisboa no dia do terramoto de 1755. O seu amigo Pangloss dizia-lhe que se vivia no melhor dos mundos e a prova era que Cândido acabava a comer pistácios apesar de toda uma vida infeliz. No fim do romance, Cândido, menos optimista, respondia: "É verdade, mas o melhor é cultivarmos o nosso jardim."
Os lisboetas viam as imagens de ontem com a suspeita de que não têm cuidado do seu jardim.
«DN» de 12 mar 11

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Somos os primeiros

Por Antunes Ferreira

JÁ NOS HABITUÁMOS a ter o primeiro lugar em muitas questões europeias. Desta feita, até nos distanciámos do segundo classificado. Os aplausos são, por conseguinte, absolutamente desnecessários; o mérito dispensa as palmas. O que não nos dispensa de nos orgulharmos com a distinção: não é todos os dias que se nos reconhece a dianteira.
Passemos aos factos. De acordo com a Comunicação Social, Portugal é o país da Europa com mais fraudes na Saúde. Todos os anos, o Estado português é lesado em 839 milhões de euros.
Os dados foram revelados pela Rede Europeia de Combate à Fraude e Corrupção na Saúde, com Portugal a liderar o ranking que inclui 23 países. A seguir a nós, estão a Finlândia (722 milhões) e a Irlanda (709 milhões). (...)

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11.3.11

Uma questão de pormenor

Por Alice Vieira

TODOS SABEMOS como as vozes ficam distorcidas através de altifalantes.
Mas que as palavras se pudessem transformar noutras – isso nunca me tinha acontecido.
Estava eu na sala de espera de um hospital, aguardando que, do altifalante, uma voz dissesse o meu nome.
Li o jornal, fiz as palavras cruzadas, tirei da mala uma edição de bolso de um livro do Machado de Assis, ao mesmo tempo que ia ouvindo os nomes que desfilavam.
Até que a espera me pareceu longa demais. Tenho frequentado com regularidade aquele hospital, e nunca me acontecera esperar tanto. (...)

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Sabemos o peso das palavras?

Por Ferreira Fernandes

SABEMOS O PESO das palavras? Como elas nos responsabilizam, sobretudo aos profissionais delas, os jornalistas?
Volto ao assunto porque estou estupefacto com o que li, ontem, no jornal Le Monde, que já foi uma bíblia. Os correspondentes do Le Monde eram a autoridade que nos levava ao Cairo ou Pequim, na pré-história, quando a CNN ainda não nos ligava em directo a esses mundos longínquos. Na edição de quarta-feira, o enviado do jornal a Tripoli conta que, à porta do hotel onde está, a convite de Kadhafi, uma mulher o interpelou. Ela quis dar-lhe "notícias angustiantes" e disse "palavras muito duras contra o regime." O testemunho foi interrompido porque ela teve medo. Entretanto, disse ao jornalista que trabalhava numa escola próxima. No dia seguinte, o jornalista foi lá, ela ficou embaraçada mas apresentou-o ao director da escola. Na presença dos colegas, a mulher disse o contrário do dia anterior, garantindo que tudo estava bem em Tripoli. Título de Le Monde: "O discurso duplo de uma professora em Tripoli..." O discurso duplo de quem, manifestamente, teve medo. De alguém que Le Monde, não nomeando, fez saber quem era e facilmente pode ser encontrado. Num país a saque...
Este exemplo de irresponsabilidade é próprio de quem olha o mal dos outros como um espectáculo. No quentinho de décadas de democracia, os europeus não estão capazes de ver o mundo. E, agora, nem Le Monde os ajuda.
«DN» de 11 Mar 11

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