31.5.08

Aterrar ou amartar?

Por Antunes Ferreira

A CONQUISTA DO ESPAÇO vai avançando e registando os pontos do progresso que se vem desenvolvendo. Uma boa parte de nós recorda a emoção sentida com a cadela de raça laika, de seu nome Kudriavka (do qual ninguém se lembra, pois o que ficou foi a Laika), o primeiro ser vivo a viajar no espaço, na nave Sputnik II.
.. No domingo passado uma pequena sonda rasgou o céu avermelhado de Marte e aterrou suavemente no pólo norte do planeta gelado, de onde logo enviou fotos sensacionais. Tratava-se da Phoenix que ali chegou pouco antes da uma da madrugada, hora de Lisboa. A NASA suspirou de alívio. Correra tudo bem. A população mundial quase nem se apercebeu disso e não embandeirou em arco quando as notícias encheram o nosso planeta. O hábito é terrível.
.. A Lua sempre atraiu a atenção do homem, e este interesse ficou registado na poesia, na literatura e na ficção científica. Em 1865, numa famosa obra de ficção intitulada "De la Terre à la Lune", Júlio Verne escreveu sobre um grupo de homens que viajou até a Lua usando o projéctil de um gigantesco canhão.
.. O major soviético Yuri Gagarin foi o primeiro homem no espaço, num voo orbital de 48 minutos, a bordo da nave Vostok I, a 12 de Abril de 1961. Gagarin foi o autor da famosa frase: «A Terra é azul, e eu não vi Deus».
.. Depois, a corrida pela Lua acentuou-se entre soviéticos e norte-americanos que pareciam estar mais atrasados. Mas, depois de um célebre discurso do presidente Kennedy, a missão Apollo 11 chegava à superfície do nosso satélite, em 20 de Julho de 1969. Neil Armstrong e Edwin Aldrin tornaram-se os primeiros homens a caminhar no solo lunar. Ficou famosa a frase do primeiro ao pisar na Lua, Neil Armstrong: «Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade».
.. Os vai-vem espaciais são emblemas da nova maneira do homem viajar no espaço. Os «autocarros espaciais» foram cinco: Columbia, Challenger, Discovery, Atlantis e Endeavour. Os dois primeiros, desaparecidos em pavorosos desastres, mataram os respectivos tripulantes, que, assim, engrossaram o número dos mártires do espaço.
.. Desta feita foi a Phoenix que caiu a 20,4 mil quilómetros por hora ao entrar na atmosfera marciana, o que já reduziu a velocidade, permitindo que um pára-quedas se abrisse e que os retro-propulsores entrassem em funcionamento. O processo levou 14 minutos, concluindo de forma angustiante uma viagem de 680,75 milhões de quilómetros em dez meses.
.. Os cientistas tinham descoberto, em 2002, que as calotes polares marcianas têm enormes reservatórios de gelo logo abaixo da superfície. A Phoenix fora lançada em 4 de Agosto de 2007. No Domingo tornou-se a primeira nave a chegar ao no pólo sul do Planeta Vermelho. Foi criada com peças de reposição da frustrada missão Polar Lander a Marte. Já basta de História. Chega de consultas à Wikipedia.
.. O noticiário sobre este feito da sonda americana informou sobre a aterragem dela no planeta Marte. Aparentemente, uma incongruência. Aterrar, sim, na Terra. Os brasileiros contornam a questão utilizando o termo pousar. Bem visto. De acordo. Já se usa normalmente o verbo alunar. Correcto.
.. Parece, pois, ter chegado a altura de se registar um novo vocábulo verbal: amartar. Ou armartear. Os sorrisos que se podem descortinar são sempre bem-vindos, mas devem ser acompanhados das opiniões que os sustentam. A língua que é a nossa Pátria, na expressão felicíssima de Pessoa, tem de avançar, como tudo o resto que nos enforma. E não são precisos Acordos Ortográficos. Então, minha gente: aterrar, amartar, ou amartear? Amigos: digam de vossa justiça.

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1 de Junho - Dia Mundial da Criança

POR OCASIÃO do Dia Mundial da Criança (domingo, 1 de Junho), o Sorumbático promove um passatempo, no seguimento do qual serão atribuídos 7 livros infanto-juvenis - de que se destacam estes dois, oferecidos e autografados pela autora.
O passatempo decorrerá entre as 10h00m e as 16h59m (o mais tardar), e tem o seu regulamento já afixado no comentário-1.
NOTA: sugeriu-se, no comentário-3, uma pequena alteração a que ninguém se opôs: trata-se de aceitar, além da palavra criança, o respectivo plural, crianças.
*
Actualização (3 Jun 08/11h30m): ver os resultados no comentário-17.

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30.5.08

Ritual

Por João Paulo Guerra
Tornou-se uma espécie de ritual: todos os anos, por esta altura da Primavera, a Amnistia Internacional publica o seu relatório anual sobre o estado dos Direitos Humanos no mundo para concluir que o desrespeito é generalizado
DE ACORDO com o relatório deste ano, 81 países usam a tortura, 54 promovem julgamentos injustos, em 77 não há liberdade de expressão; a China tem a “reeducação” dos dissidentes, a Rússia também cultiva a intolerância com a dissidência, os EUA têm o seu Dachau em Guantánamo e mais um número indeterminado de campos de concentração secretos, com a colaboração de estados da União Europeia, Portugal tem a violência policial, acrescida agora da violência doméstica e da cumplicidade com os chamados “voos da CIA”.
.. Mas apesar deste panorama tenebroso, os Direitos Humanos deixaram der ser um cavalo de batalha do chamado mundo ocidental e civilizado. A questão dos Direitos Humanos, consagrada numa Declaração Universal há 60 anos, foi meramente instrumental, usada apenas como mais uma arma do arsenal da guerra-fria. O chamado Ocidente puxava o gatilho dos Direitos Humanos para encurralar os países comunistas mas não mais voltou a apontar essa arma contra as turvas ditaduras “amigas” ou “de conveniência”.
.. E para além disso acontece que a Declaração Universal dos Direitos Humanos não é apenas desrespeitada no plano dos direitos políticos mas, acima de tudo e ainda mais generalizadamente, no campo dos direitos económicos e sociais. E ninguém parece dar conta da violação diária e cada dia mais sofisticada dos Direitos Humanos ao trabalho com “remuneração equitativa e satisfatória”, à saúde e ao bem-estar, à educação gratuita, etc. Nem mesmo a Amnistia Internacional.
«DE» de 30 de Maio de 2008 - c.a.a.

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A afrontar a proibição
AO PESQUISAR uma imagem para ilustrar a crónica anterior, deparei-me com esta que, pelo insólito, merece não ficar esquecida.

A invasão das beatas

Por A M Galopim de Carvalho
CLARO QUE NÃO ESTOU A FALAR daquelas devotas senhoras que a vida, por razões que só elas sabem, transformou em piedosas devotas, assíduas e empenhadas zeladoras da igreja e da paróquia. Muito menos estou a falar da pequena Jacinta Marto, a pastorinha nascida no lugar de Aljustrel, na freguesia de Fátima, e de todas aquelas virtuosas criaturas, como ela, alvo de beatificação pela Igreja e que, por via dessa bênção, se diz que habitam o Paraíso e têm capacidade de interceder por quem a elas recorra em oração. Estou, sim, a falar das piriscas, ou seja, das vulgaríssimas pontas de cigarro que agora se acumulam nas ruas de Lisboa e por todo o país, às portas de cafés e restaurantes, lojas, escritórios, teatros e cinemas, oficinas, escolas e tudo o que seja sítio debaixo de telha com gente a conviver.
.. Fundamentalisticamente exagerada, a chamada lei do tabaco é a causa desta sementeira de beatas que invadiram os nossos passeios, sejam eles da mais nobre e artística calçada portuguesa – hoje em dia a ser executada por ucranianos, brasileiros, moldavos ou africanos - ou o vulgaríssimo calcetamento, todo ele de calcário branco, quase sempre esburacado e pejado das pedras que dele se soltaram, por tradicional e desmazelada falta de manutenção. É só piriscas entaladas entre as pedrinhas. Até há, precisamente, um ano, os passeios das ruas por onde passo reproduziam o colorido das copas dos jacarandás neles alinhados. Hoje são um mar de beatas amarelo-acastanhadas a sobrepor-se ao mar de frágeis e efémeras pétalas lilases.
.. Nestes concentrados de pontas de cigarro há uma particularidade que me saltou à vista, que qualquer um pode confirmar. Com efeito, os cigarros, de que essas beatas são vestígios, foram fumados até ao filtro e só muito raramente se vê um ou dois milímetros do branco do papel mortalha. Pode deduzir-se, talvez, que os fumadores ou as fumadoras, forçados a vir à rua matar o vício, com ou sem autorização do chefe ou do patrão, gozam aquele prazer até à última gota ou, melhor dizendo, até ao último farrapinho de tabaco. Isto por duas ordens de razões. Uma, porque o preço actual do maço de cigarros não consente desperdícios, outra, para que se aproveite da melhor maneira as poucas interrupções no trabalho que a decência ou a disciplina consentem.
.. Ao pé da minha casa há uma tasquinha muito popular e em conta, com meia dúzia de pequenas mesas, que serve comida de gente do povo, no género arroz de bacalhau com feijão frade, frango guisado com esparguete e outros pratos bem saborosos, a um clientela onde há muitos fumadores. Para evitar o triste espectáculo, à entrada, o dono do estabelecimento tem à porta, no chão, metade de um garrafão de plástico, daqueles que levam cinco litros de água, com areia no fundo, a servir de cinzeiro.
Lisboa, 29 de Maio de 2008 - texto inédito, especialmente escrito para o 'Sorumbático'; as crónicas que o autor aqui afixa estão também disponíveis no seu blogue-arquivo Sopa de Pedras.

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Harald V, já com o Grande Colar da Ordem de Santiago
HÁ DIAS, manifestei [aqui] o meu desagrado pelo colar que alguém decidiu impor à Torre de Belém. Mas parece que a ideia pegou, pois Cavaco resolveu fazer o mesmo ao rei da Noruega, como se pode ver nesta foto do Público.
NOTA: como, segundo dizem, a conversa acabou por abordar o tema do bacalhau da Noruega, há que reconhecer que a publicidade - mesmo subliminar - ao vinho de Colares foi muito bem metida!

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A Quadratura do Circo

Oração
Por Pedro Barroso
..... Senhor, tende piedade.
Fui demasiado ímpio na minha última crónica. Não devia. Mereço pena. Sou um coitado ateu. Não concebo nem vejo nos meus sonhos e reflexões mais que um Arquitecto maior e uma justeza bonita dos dias e das noites. Um sujeito antigo, cheio de gosto, de barbas brancas.
..... Senhor, tende piedade.
O que quis dizer foi que vejo teluricamente Deus no Mundo e o Mundo como Deus, e que tudo - as árvores, os rios, as montanhas, os pássaros, as ideias, até os imerecentes homens e as pacíficas minhocas - fazem parte do meu cardápio de santos e referências espirituais maiores.
..... Senhor, tende piedade.
Com efeito, se há coisa que não suporte, é que falem em teu nome sem estarem devidamente mandatados. E façam em teu nome as maiores injustiças e mantenham as mais calosas indiferenças, os mais cupidos escândalos, as mais descaradas heresias.
..... Senhor, tende piedade.
O que não suporto, a bem dizer, em verdade vos digo, são os palhaços de Deus. Que em teu nome benzem e dirigem o Casino; que adulteram a tua palavra e arruínam o teu prestígio, tal como Jardim arruinou o do Banco de sua criação por um desvio cautelar de protecção filial.
.... Senhor, tende piedade.
Os dias verdadeiramente aguardados são o Rock em Rio - o que quer que isso seja e porque quer que seja a razão de se chamar assim, pois se está para mim mesmo ali, ao atravessar da avenida Gago Coutinho, é porque não está seguramente no Rio. Aquilo sim, coisa em grande.
... Senhor, tende piedade.
De Espanha longe vai o tempo do vender café e trazer chocolates. Agora vamos buscar gasóleo, e deixamos ficar por lá as cataratas. A troco de uma eficiência célere e sabedora das coisas, por metade ou um terço do dinheiro que aqui nos pediriam.
.. . Senhor, tende piedade.
As próprias sardinhas tão tipicamente portuguesas, emblema gastronómico da lusitanidade no Mundo, pois imagina que até as pobres vêm de Tarragona. As batatas, os voos baratos, o óleo, os ferros forjados, os carros, os barros, as marquises. Os próprios espanhóis vêm de Espanha.
... Senhor, tende piedade.
Importante mesmo é esquecer. Confiar em ti e esquecer a crise. Vem aí o Europeu e já nos foi prometido um comportamento que não envergonhe. Ou seja, como diria Solnado, não deixaremos ir para lá os rapazes com as carroças e com as moscas. Pelo menos hão-de ir limpinhos, mesmo que não ganhem. Nada de vergonhas. Haja respeito.
.. . Senhor, tende piedade.
Somos portugueses. Estamos numa crise mundial. Dizem que a guerra agora é o conflito económico. Diz que a China despertou e o pessoal agora quer salários. A Índia, o Paquistão, a Indonésia. Estamos portanto em guerra. Aquele pessoal já não trabalha por uma malga de arroz. Estamos lixados. Diz que agora temos de pagar a factura da nossa obesidade.
.. . Senhor, tende piedade.
Reza por nós. Que só exportamos cortiça, vinho do Porto e futebolistas. E dá-nos óleo e bananas e banha de porco para podermos misturar no gasóleo, para compor um pouco o orçamento. E tende piedade dos verdadeiramente pobres, porque deles deve ser, realmente, o reino dos céus, pois na terra nada mandam, é sabido. Mas da classe média também, que ninguém protege, e ainda manda menos e tem mais vergonha de ser pobre.
. .. Senhor, tende piedade.
Nós prometemos ficar com o Loureiro, o Isaltino, a Fátima Felgueiras, o Avelino, o Pinto da Costa, enfim, todos. Mas baixa-nos o gasóleo para podermos ir à praia. Ou até, vamos lá, para podermos pescar, lavrar, transportar, trabalhar. Luxos de quem já não sabe viver sem sacrifícios…
... Senhor, tende piedade.
Eu peço perdão de todas as minhas culpas. Eu genuflectido e penitente, até beijo o anel cardinalício do primeiro palhaço de Deus que se apresente, mas por favor torna-me espanhol, turco, qualquer coisa. Até americano. Meu Deus, a quanto estou disposto neste momento de crise. Abdico, abjuro, renego-me. A Ministra da Educação é uma gentil senhora cheia de boas intenções, injustamente incompreendida pela classe docente. O Lino é um intelectual. Sócrates uma bondosa e tutelar figura, cheia de estudos, esmoler no trato, radioso e sábio.
.. . Senhor, tende piedade.
Vendemos-te o Duarte de Almeida, o Decepado; o Condestável; meia dúzia de navegadores ilustres, tipo Diogo Cão, Gonçalves Zarco, etc. Assim como assim, são heróis passados do prazo, já não nos servem para nada. E, que se lixe, olha, até o Ronaldo a gente te cede; desde que não seja para o Real Madrid. A gente dá-te o TGV, a Ota e até as pinturas rupestres de Foz Côa. O castelo da Lousa, submerso em Alqueva, que ninguém vê, e tu, com teus poderes, facilmente desenterrarás de tão triste viver. De brinde vão o Quim Barreiros, o Tony Carreira, o Marco Paulo, o Nel Monteiro; isso insisto.
Mas por favor, Senhor. Tende piedade de nós.
Somos pobres, indefesos, inofensivos, portugueses, vivemos sem oposição e, por este andar, vamos continuar a viver sem oposição ainda muitos anos. E não vemos a luz ao fundo de nenhum túnel. Por isso, dá-nos bilhetes para o Rock in Rio e promete-nos, pelo menos, as meias-finais no Europeu. E baixa-nos o gasóleo, por favor. O resto que se lixe.
As sardinhas espanholas também pingam no pão.

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29.5.08

Não há bela sem senão

A propósito do custo dos combustíveis, está outra vez na berra o tele-trabalho como um dos muitos meios para eliminar deslocações não necessárias. Esse assunto foi abordado nesta pequena história, intitulada «Redução de Custos» (*), que aqui fica para que se veja como nem sempre as coisas são tão fáceis como parecem.
-oOo-
Ia uma grande agitação na Makro-Teknika: o Relatório de Contas indicava resultados desastrosos e impunha-se uma redução de custos… a todo o custo. E Jeremias achou que tinha chegado a sua hora de glória.
Pobre ingénuo!
*
O NOSSO JOVEM começou, de novo e desta vez com forte alento, a pregar as vantagens das novas tecnologias na economia de custos da empresa.
E não se ficou apenas pelas prédicas nem pelos palpites: resolveu fundamentar as suas opiniões e fez algumas contas…
Vamos dar com ele no gabinete do Doctor Robert, que o escuta, compreensivo:
— Pois é, amigo Jeremias… Tu até tens alguma razão… Mas não estás a ter em conta o reverso da medalha: já imaginaste quantas horas de formação seriam necessárias para ensinar alguns voluntários que aqui tenho a ligar um computador?!
E continuava, desalentado, batendo na mesa com os nós dos dedos:
— Ainda se eu tivesse a certeza que esses gajos aprendiam!…
De facto era verdade e Jeremias já contava com essa reacção. Por isso trazia na manga um argumento infalível:
— Chefe, isso está tudo muito certo. Compreendo que, para poupar 10 ou 20 contos em faxes, não valha a pena gastar 100 ou 200 a ensinar certas pessoas a enviar um e-mail. Mas já não será o mesmo no que toca ao Professor Delírios…
E aqui o nosso amigo interrompeu-se e ficou à espera da reacção do chefe que já sabia que havia de vir... Remexendo-se na cadeira, não escondendo uma enorme incomodidade decerto fruto de anteriores peripécias e dissabores, o Doctor Robert rosnou, numa voz arrastada que prenunciava grossa tempestade:
— O que é que se passa agora com essa tarântula?!
Ora cabe aqui explicar que o Professor Delírios era o responsável máximo do Controlo da Perfeição. O homem sabia tudo e mais alguma coisa sobre os standard ISO, NP, DIN e VDE… Até a dormir era capaz de recitar as normas de projecto e de fabrico, recomendações e resoluções dos mais incríveis organismos internacionais… Enfim, pelo menos nesses assuntos, ninguém discutia com ele! E, juntando a essa sabedoria toda uma boa pitada de mau-feitio, o homem fizera uma carreira imparável na Makro-Teknika. E ninguém se atrevia a contrariá-lo, nem mesmo o todo-poderoso Doctor Robert!
Ora o que Jeremias agora propunha era – nada mais nada menos – que se usassem os novos métodos de Tele-Qualidade, alterando os hábitos ancestrais do professor Delírios: acontecia que o Professor Delírios tinha que se deslocar todas as semanas à Beira-Alta para assistir aos ensaios de recepção na fábrica que produzia os lápis para a Makro-Teknika.
Daí, o grande interesse em começar a usar a Tele-Qualidade…
Mas o Professor Delírios já se tinha encarregado de o mandar estar quieto:
— Não me chateie, menino Jeremias. Você, que nasceu ontem, julga que não houve já quem pensasse nisso?!
Jeremias estava habituado a esse tipo de respostas: se a ideia era má… só mostrava como era estúpido. Se era boa, já alguém pensara nisso…
Quanto ao motivo porque as coisas não se faziam… isso era outra história…
Mas, neste caso, o motivo parecia que era forte, e a gargalhada do Doctor Robert deve ter-se ouvido na estrada, a quinhentos metros dali:
— Deves ser o único que não sabe! É que o Delírios, à força de ir todas as semanas à Beira-Alta, arranjou por lá uma amiga que… bem… digamos que o trata com carinho… E agora vais tu querer que ele adira à Tele-Qualidade?! Só quando se inventar a Tele-Marmelada!
(*) Cap. 24 de «Operação JEREMIAS» (Ed. BaleiAzul, 1999) - desventuras de Jeremias, jovem engenheiro contratado para tentar modernizar uma típica empresa portuguesa. O livro, que está esgotado, pode ser lido [aqui] e [aqui]. Outras aventuras do infeliz herói também podem ser lidas [aqui].

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Quem quer abordar este problema?

Por A. M. Galopim de Carvalho
ERA UMA VEZ uma cabra dentro de um prado rodeado por uma vedação circular com um raio de 10 metros. Querendo que o animal apenas comesse a erva de metade da área desse prado, o dono prendeu-o por uma corda presa na referida vedação.
Pergunta-se: que comprimento deve ter essa corda (supondo que se despreza a distância entre a boca da cabra e o ponto da sua amarração à dita corda...)?

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Como é que eles fazem?

ESTAS DUAS FOTOGRAFIAS são uma pequena amostra de uma colecção de muitas dezenas tiradas pelo leitor Luís Bonito, actualmente a residir na Alemanha - ver [aqui].
Ao ver estas imagens (de um país por onde em tempos também andei - e durante muitos meses), volto a colocar a mim mesmo uma questão:
Como é que esta gente consegue viver sem ser permanentemente atafulhada em automóveis - e ainda se orgulha da sua qualidade de vida?
Têm bons transportes públicos? Têm ciclovias? Incentivam o teletrabalho? Compartilham os carros nas deslocações rotineiras? Têm autarcas e governantes que se preocupam com isso? Não endeusam o automóvel como símblo de status?
Decerto será um pouco disso tudo. Mas, principalmente, - pelo menos de uma forma geral, e isso posso testemunhá-lo - têm outra mentalidade...

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Portugal – Centenário da República

Por C. Barroco Esperança

Ver NOTA
NO PASSADO DIA 16 DE MAIO foi nomeada a Comissão Nacional para as comemorações do Centenário da República com a incumbência de apresentar ao Governo, no prazo de três meses, a proposta de Programa. Apesar do prestígio das personalidades, acordadas entre o Governo e o PR, temo o rumo das comemorações.
A república não é um regime neutro, é antagónico da monarquia. Ao direito hereditário prefere o escrutínio popular, em vez do carácter vitalício exige mandatos balizados no tempo, à aristocracia do sangue opõe a igualdade de direitos e dos vassalos faz cidadãos.
As monarquias tornaram-se obsoletas. Em Portugal as taras dos Braganças contribuíram para o seu descrédito acelerado, mas em outros países caíram por traição, inutilidade ou esgotamento. As que persistem, inúteis e arcaicas, são relíquias folclóricas para exibição de pompa em circunstâncias especiais.
Em Portugal, a monarquia legou 75% de analfabetos, 80% de camponeses sem qualquer instrução ou assistência, uma crise financeira arrastada desde 1890, uma Igreja que cultivava a superstição e criaria Fátima e a desordem e o caos que iam da rua ao Paço. A República suportou as conspirações monárquicas e as cisões republicanas, numa réplica invertida das duas últimas décadas da monarquia, e a guerra de 1914/18.
Mas…
Sem a República, implantada em 5 de Outubro de 1910, não teriam sido possíveis as leis que colocaram Portugal entre os países mais avançados do seu tempo: separação da Igreja/Estado, laicidade do ensino, reforma da universidade, divórcio, registo civil e a nacionalização de algumas propriedades do extenso património da Igreja.
Celebrar o avanço civilizacional legado pela 1.ª República exige que às leis inovadoras e socialmente justas de então, correspondam agora novos avanços, por exemplo, a não discriminação das uniões homossexuais, uma lei equilibrada sobre a eutanásia, além de comemorações condignas do honrado centenário.
Todavia, se os ventos conservadores de Belém não forem contrariados por S. Bento, se ao espírito pio de alguns conselheiros predilectos do PR não responder um sobressalto republicano e laico, Portugal arrisca-se a ter missas por alma de Sidónio e a associar a República e a ditadura salazarista.
O 5 de Outubro de 2010 seria a data simbólica ideal para aprofundar o carácter laico do Estado e, eventualmente, denunciar a Concordata. O Governo não se pode esconder sob o manto do PR para dirigir a política externa que é da sua exclusiva competência.
NOTA (CMR): A Occidentalis ofereceu ao Sorumbático, para atribuição aos seus leitores, alguns exemplares de obras editadas por si. Como um dos títulos, cuja capa aqui se vê, se aplica ao tema desta crónica, será enviado um exemplar ao autor do melhor comentário que seja feito até às 20h de sábado, dia 31 p.f.

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Luz - VI

Fotografias de António Barreto, APPh

Clicar na imagem para a ampliar
Bisca - A zona do Molhe, na Foz do Douro, é um dos sítios que mais gosto de frequentar. Em qualquer altura do ano, em todas as estações, com calor ou frio, sol ou chuva. É um sítio único! Quase mágico. Tanto pela geografia e pela natureza, como pelas pessoas, as casas, os cafés. Infelizmente, nos últimos anos, tem-se vindo a desenvolver as construções comerciais totalmente incaracterísticas (gelados, pizzas, cervejas...), “modernas” no mau sentido, feias e atrevidas, demasiado perto da areia e das rochas da praia. (1997).

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28.5.08

A malta da West Coast of Europe

Público de 28 Mai o8

Financial Times de 13 de Out 07

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Uma agonia chamada Museu Nacional de História Natural

Por A. M. Galopim de Carvalho

No momento que estamos a viver, um momento particularmente preocupante para a vida dos museus sedeados na Escola Politécnica, e a fim de colocar responsabilidades nos seus respectivos agentes, é oportuno recordar um desabafo que publiquei, na introdução do volume nº 15 de “GAIA”, a Revista de Geociências do Museu Nacional de História Natural, de há oito anos (*), era eu ainda director desta instituição da Universidade de Lisboa.
*
COM UM QUADRO DE PESSOAL EM EXTINÇÃO, um orçamento estatal praticamente inalterado desde 1985 (há 15 anos) e as conhecidas e deploráveis condições em que se encontra, o Museu Nacional de História Natural sobrevive e teima em afirmar a sua vocação de entidade promotora de investigação e de divulgação científicas, cuja obra, conhecida pelos seus pares nacionais e estrangeiros e pelo público português, lhe conferem um prestígio que contrasta com a atenção que lhe tem sido dispensada pela Administração. Uma tal situação, que caracteriza o seu dia-a-dia no seio da maior Universidade do País, arrasta-se sem esperança de solução, desde o incêndio da Faculdade de Ciências, há vinte e dois anos. Uma tragédia que não só o destruiu em grande parte, como o privou do convívio vivificante dessa Faculdade, de que era estabelecimento anexo. Vinte e dois anos de luta empenhada, com muito trabalho realizado dentro e fora dos seus espaços esventrados, vazios e em tosco, sem qualquer eco por parte dos sucessivos governos, num desinteresse só explicável pela tradicional falta de cultura científica dos portugueses, incluindo governantes, com a natural e óbvia excepção de um ou outro oriundo do sector científico. No que toca a sua tutela mais directa, é justo lembrar a muita simpatia que sempre lhe foi dispensada pelos sucessivos reitores que, sem excepção e na medida das suas também poucas possibilidades, nos foram e vão dando respostas pontuais a muitas das solicitações que lhes foram e são dirigidas. Nunca, porém, a Universidade assumiu frontal, empenhada e visivelmente qualquer acção de fundo no sentido de inverter este deslizar para o fim, revalorizando um património científico e cultural que herdou da velha Escola Politécnica, a caminho de dois séculos ao serviço das Ciências da Natureza. Com o peso enorme que tem, e de que se não se dá conta, a Universidade de Lisboa, com os seus milhares de alunos e professores, muitos destes personalidades de elevada posição no tecido social e político, não teria dificuldade em mobilizar a opinião pública e assim pressionar o poder a fazer aquilo que ele nem se lembra que também faz falta aos portugueses. Continuamos, assim, a gerir a crise, agora com encorajamentos à produção de receitas próprias, numa política talvez inspirada de cima mas que esquece os deveres do Estado na promoção cultural dos seus cidadãos. Neste quadro é lícito admitir que a Universidade de Lisboa, no seu todo, enorme na dimensão e nas suas múltiplas e vastas preocupações e sensibilidades, tem vindo a arrastar, como um fardo, este seu valioso sector de investigação e de contacto com o grande público, que só não deixa cair porque isso, vergonha das vergonhas, seria a negação inaceitável da sua própria essência.
*
COM OUTRA HISTÓRIA, bem mais recente, mas igualmente triste, o Museu de Ciência tem sido, desde o seu início, o nosso companheiro nesta travessia do deserto. Detentor de invulgar património científico e cultural como são, por exemplo, a sua preciosa biblioteca, com primeiras edições de grandes nomes da Ciência, com o seu magnífico laboratório de Química, única relíquia do séc. XIX, e com um trabalho pedagógico igualmente notável, esta outra dependência da Universidade de Lisboa, não está melhor do que nós e, igualmente, desespera. Há, pois, que encontrar uma solução para estes Museus, de preferência com a Universidade, mas, se necessário, fora dela. É uma responsabilidade da nossa geração, universitários, governantes, cidadãos em geral. Todos seremos julgados pelo quase nada que fizemos e pelo muito que deixámos por fazer.
NO DIA MUNDIAL dos museus, data que sempre recordamos mas não festejamos, aqui fica a expressão do desencanto e da mágoa de quem sente que sai derrotado após quarenta anos ao serviço da Universidade, um terço dos quais neste Museu, com a enorme frustração de não ter podido ou sabido levar a bom termo esta causa.
(*) 18 de Maio de 2 000; as crónicas que o autor aqui afixa estão também disponíveis no seu blogue-arquivo Sopa de Pedras.

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27.5.08

Facas perigosas

Por Alice Vieira
NÃO HÁ NADA PIOR que um funcionariozinho, meu Deus!
Nada pior do que os pequeninos a quererem passar por grandes.
Os insignificantes a quererem aparentar importância.
Os que nunca na sua vida deram uma ordem, a pensarem que mandam no mundo inteiro.
Eu quero só contar uma história muito breve, e desculpem se mete outra vez a ASAE, que começa a parecer-se demasiado com o bombo das festas.
Mas não resisti.
Talvez porque desta vez nem sequer se trata de uma história que ouvi de outros, nem de uma qualquer das milhentas que todos os dias nos entopem o correio electrónico.
Desta vez é história em primeira mão.
Então é assim.
O meu amigo A. mora sozinho num casarão de uma quinta dos arredores de Lisboa. Ao pé da casa grande, a casa do caseiro, que lhe trata de tudo.
De vez em quando o A., que cozinha muito bem, reúne amigos para um jantar onde normalmente nada falta. Mas na semana passada, ou porque tivesse tido muito trabalho em Lisboa, ou por simples esquecimento, faltavam-lhe lá umas ervas que ele considerava essenciais para o cozinhado. Eu ainda lhe disse que prescindia bem delas, mas ele que não, estava em causa a sua fama de “chef” emérito, sem hortelã do ribeiro, ou lá o que era, é que o robalinho não passava.
Fomos então os dois bater à porta do caseiro, numa de “ó vizinho, dá-me salsa”, e quando o homem abre e nos faz entrar para a cozinha, os meus olhos fixam-se gulosamente num conjunto monumental de facas como há muito não via.
Facas para cortar carne, para trinchar aves, para arranjar peixe, para cortar legumes, facas grandes, médias, pequenas, com serrilha, sem serrilha, facas daquele aço alemão muito conhecido – todas dispostas numa flanela, tal como manda o figurino.
Coisa linda de se ver.
E carérrima, evidentemente.
Não me babei de inveja (pensando sobretudo nas minhas facas que nunca cortam nada a não ser os meus dedos…) mas quase.
O A. também estava fascinado e não se conteve:
- Ó homem, isto é que é coisa boa! Saiu-lhe a sorte grande ou foi alguma herança da sua mãe?
O rapaz sacudiu a cabeça e deu uma gargalhada.
- Nada de herança, afirmou. Sorte, talvez.
Porque na véspera tinha ido jantar ao restaurante em frente e o dono, seu amigo de infância, estava perfeitamente inconsolável: o fiscal da ASAE tinha-lhe entrado portas adentro e logo ali mandara deitar fora (inutilizar, quer dizer, não voltar a usar) todo aquele conjunto de facas, que ele trouxera há tempos da Alemanha, e era o seu orgulho.
Tudo porque… tinham cabos de madeira, e como ele já devia saber, não se podia utilizar madeira nos utensílios com que se manipulavam os alimentos.
- Se as quiseres, leva-as, que não me servem para nada — disse-lhe o amigo, e ele claro nem pensou duas vezes.
No fim da história ficámos ali os três, com ar de parvos, a olhar para as facas, sem saber o que dizer.
Cabos de madeira!
É evidente que não foi o Sr. Nunes que fez a apreensão. É evidente que isto é um fiscalzinho a adaptar a lei a seu modo, e a aproveitar-se daqueles segundos em que se sente dono do mundo, porque dá uma ordem e todos têm de lhe obedecer.
Mas são os fiscaizinhos que, cada vez mais, mandam em nós.
«JN» de 25 Mai 08

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Depois do "Buraco negro", o "Ouro negro" - Passatempo com prémio

OS DOIS LIVROS cujas capas aqui se vêem já figuraram como prémio num passatempo mas, por um motivo qualquer, acabaram por não ser reclamados pelo vencedor. Aqui ficam eles, então, para serem entregues (ambos!) ao primeiro leitor que responder correctamente à pergunta que se coloca no final das seguintes considerações:
*
O problema actual dos combustíveis é um caso típico em que se verá quem são os politiqueiros e quem são os estadistas.
Os primeiros, incapazes de ver mais longe do que o seu próprio nariz, preocupar-se-ão, apenas, com o curto-prazo: gastarão as suas energias a discutir cêntimos, impostos, câmbios, margens de lucro, cartelizações, etc.; e apoiarão marchas lentas, petições, boicotes e outras actividades que podem dar algum gozo, mas que não vão ao fundo do problema.
Os outros saberão olhar a longo-prazo, terão em conta as grandes tendências mundiais, explicarão aos povos que 'a era do petróleo barato já lá vai', e prepararão, com urgência, a sociedade para os novos tempos. É que esses novos tempos "não vêm aí" - já aí estão.
Lembremo-nos de que foi a crise de 1973 que levou à mudança de paradigma dos consumos dos automóveis.
É para uma mudança de hábitos de vida que a sociedade tem de se preparar.
*
Pergunta com prémio: de acordo com o texto acima, qual o nome do filme de Paulo Rocha (de 1966) que se aplica àquilo que a actual sociedade de consumo tem de fazer?
NOTA: o premiado será o primeiro leitor que, em comentário, der a resposta certa. Os comentários serão desbloqueados sem aviso prévio, quando o webmaster acabar de almoçar - o que deve suceder dentro de, aproximadamente, 1 hora - depende, entre outras coisas, da quantidade de gente que houver no restaurante... Até já!
Actualização: a resposta certa («Mudar de Vida») foi dada no comentário-3, às 15h11m.

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Buracos negros

Por Nuno Crato

UMA DAS MAIORES NOTÍCIAS PARA A CIÊNCIA em 2008 é a abertura do Large Hadron Colider, o LHC, que está agora a ultimar a montagem de alguns aparelhos e a fazer testes para iniciar a sua actividade plena.
.. O LHC é um acelerador de partículas, um aparelho imenso, o maior até hoje construído. Acelera partículas subatómicas e atira-as então umas contra as outras, com uma energia concentrada até hoje não conseguida em aparelhos semelhantes. Situa-se em Genebra, tem a forma de um gigantesco tubo circular, com 27 km de perímetro, e está enterrado a alguns metros de profundidade. É tão grande que se distribui entre a Suíça e a França. Será capaz de fazer chocar partículas a velocidades tão elevadas que se espera que, nesse choque, seja capaz de libertar outras até hoje não observadas.
.. Segundo uma especulação científica muito discutível, é possível que as energias criadas sejam capazes de criar mini buracos negros que rapidamente se dissipariam devido à chamada radiação de Hawking. Ter falado nisto foi o suficiente para que alguns fanáticos começassem a espalhar receios sobre o LHC, dizendo que este iria criar um buraco negro que engoliria a Terra.
.. Como alguns cientistas fizeram notar, há muitos milhões de anos que a Lua, que não tem atmosfera, é bombardeada com raios cósmicos com energia superior à das partículas que o LCH irá produzir. O que significa que, a ser verdade que essas colisões possam originar mini buracos negros, muitos deles têm sido produzidos sobre o nosso satélite e se têm desfeito imediatamente.
.. Olhemos para a Lua. Ela ainda lá está. Os buracos negros mais difíceis de dissipar são os das mentes fanáticas.
«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 24 Mai 08 (adapt.).
-
NOTA (CMR) - Para ilustrar esta crónica de N.C., hesitei entre esta imagem (obtida aqui) e um vídeo a colher no YouTube; e estes não escasseiam - uma pesquisa em LCH dá 859 à escolha... entre eles, uma boa quantidade acerca do fim do mundo que vem a caminho!

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26.5.08

Uma questão de imagem

A PROPÓSITO da crise do mercado livreiro, aqui ficam três imagens que dão que pensar:
Em cima, à esquerda, o cartaz da actual Feira do Livro de Lisboa. Ao lado, o logótipo da página da Priberam na Internet.
No entanto, a que chama a atenção é a de baixo que, ao contrário do que podem pensar algumas mentes perversas, representa, também ela, um livro aberto - simplesmente com um grafismo mais apelativo, que talvez ensine alguma coisa aos interessados no tema...
NOTA: Esta última faz parte de um conjunto intitulado erotismo inteligente, onde se vêem 8 imagens inofensivas, mas em que mentes porcas descobrem 'outras coisas'...
Para as receber por mail, basta enviar uma mensagem para sorumbatico@iol.pt, escrevendo em 'assunto' «Pouca vergonha!».

Esta bola colorida

Por A. M. Galopim de Carvalho
À SEMELHANÇA DO SOL, dos restantes planetas do Sistema Solar e dos asteróides mais volumosos, como Ceres e Pallas, a Terra assumiu a forma esferoidal por efeito da gravidade, ao contrário do que aconteceu com os pequenos corpos de que são exemplo os pequenos asteróides (Gaspra, Ida, etc.) ou os minúsculos satélites (Phobos e Deimos, de Marte; Amaltea, de Júpiter; Hipérion, de Saturno, etc.), todos eles de formas muito irregulares.
.. Devido ao movimento de rotação, a Terra não é perfeitamente esférica. Entre os seus diâmetros polar (12 714 km) e equatorial (12 756 km) há uma diferença de cerca de 42 km, o que permite aproximá-la de um esferóide de revolução de muito pequeno achatamento. A interacção da gravidade terrestre com o efeito centrífugo da sua rotação define uma superfície imaginária, designada por geóide. Se não houvesse outras acções que a deformassem, poderíamos fazê-la corresponder à superfície média das águas do mar, ou seja, à superfície de nível zero, utilizada como referência na determinação de altitudes e de profundidades. Sabemos hoje que há deformações desta superfície (empolamentos e depressões) relacionadas com o fluxo de calor oriundo das profundezas do planeta, criando desníveis superiores à centena de metros.
.. Embora as grandes montanhas nos impressionem pela sua altitude (8 848m, no Everest) e as fossas abissais desçam a grandes profundidades (cerca de 11 000m, ao largo das ilhas Marianas), os cerca de 20km de desnível que produzem, correspondem a apenas 0,003% do raio da Terra, o que nada afecta a visão que oferece àqueles poucos que têm a possibilidade e o privilégio de a olhar a partir do espaço exterior e a todos nós que a temos através de bem elucidativas fotografias. Essa visão é a de um disco parcialmente encoberto pelos “farrapos brancos das nuvens”, no qual se divisam os oceanos, a azul-escuro, e os continentes, a castanho e verde. Mostra, ainda, um delgado aro envolvente, num belo tom de azul mais claro e luminoso, correspondente à cobertura atmosférica. Expressões como “planeta azul”, como se lhe referiu Carl Sagan, ou “bola colorida”, como escreveu António Gedeão e Manuel Freire cantou, põem em destaque esta característica da Terra, única entre os seus pares no Sistema Solar. Para além destas cores, visíveis de muito longe, há todas aquelas só observáveis à superfície do planeta. Basta que nos lembremos dos jacarandás que, em Maio, tingem de lilás as ruas e parques de Lisboa, das amendoeiras e das giestas em flor, do verde passando ao amarelo dourado das searas maduras, pintalgadas pelo rubro das papoilas. O Deserto Pintado, no Arizona (EUA), deve o seu nome à explosão de cor que o alegra sempre que alguma chuva esporádica lhe mata a sede.
.. Também no mundo animal e, em particular, no das aves, dos répteis e dos peixes, as cores são uma constante na nossa biodiversidade. Igualmente, entre os minerais, a cor é uma realidade, de tal modo importante, que é utilizada como elemento de identificação de muitas espécies e variedades. Estas, na grande maioria, ocultas no subsolo, podem ser apreciadas sempre que os mineiros as trazem à superfície e os museus as expõem à nossa curiosidade.
«DN» de 17 Mai 02; as crónicas que o autor aqui afixa estão também disponíveis no seu blogue-arquivo Sopa de Pedras.

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25.5.08

Carta de um telespectador

Circula na Internet um curioso texto que - como refere o Sorumbático, um dos seus contribuidores e a crónica que este aqui afixou hoje mesmo - se achou por bem divulgar:
-oOo-
O drama de Pacheco Pereira, de Nuno Brederode… e dos telespectadores da RTP
CHEGOU À PRAÇA PÚBLICA um tremendo rugido de protesto, implacável e ao mesmo tempo desesperado, contra o estado a que chegou a informação nos telejornais portugueses: Pacheco Pereira perdeu a cabeça (ou usou-a como nunca) clamando contra “A cultura da irrelevância (que) está a crescer exponencialmente” (“Público” de 17 de Maio). E escreve, mortificado: “Futebol, futebol, futebol, fumei, pequei, vou deixar de fumar, a Esmeralda entre o pai afectivo e o pai biológico, futebol, directo do acidente na A1 que provocou três feridos, os pais da pequena Maddie, futebol, tenho um cancro-tive um cancro-vou ter um cancro, futebol, futebol, futebol.”
.. Dias depois, adesão insuspeita: Nuno Brederode Santos junta a sua pena demolidora às diatribes de Pacheco Pereira para lamentar “… ter de saber que, no hotel do estágio, a ementa de hoje foi canja de galinha e carne à jardineira (e o cozinheiro já vai explicar porquê), mas também que o craque A, afectado por uma ligeira indisposição, comeu pescada.” (“Diário de Notícias” e blogue “Sorumbático” de 25 de Maio).
.. O ridículo elevado ao delírio? A imbecilidade transformada em cartilha editorial dos telejornais? Pode ser, mas resulta muito pior quando praticados na antena do serviço público – vulgo RTP.
.. Ora eu, que não ostento de Pacheco e Brederode a fama e glória, também tenho a minha história de rebelião contra este filme de massacre futebolisivo.
.. Enviei a seguinte carta ao Provedor do Espectador da RTP:
.
.. “Senhor Provedor,
Às 20 horas de ontem, dia 12 de Maio, os editores do Telejornal já possuíam a notícia e as imagens: oito mil e quinhentos seres humanos tinham morrido, poucas horas antes, num terramoto na China. Sabiam também que novecentas crianças estavam debaixo dos escombros da sua escola. Mais de oitenta por cento das casas de uma grande cidade estavam derrubadas, com gente lá dentro.
Os senhores editores do Telejornal sabiam isto tudo às 20 horas. Até porque as grandes cadeias de televisão mundiais ( BBC, Sky e CNN) já tinham transmitido reportagens sucessivas sobre todo esse horror.
Parece que uma notícia desta magnitude iria abrir o jornal do serviço público lusitano, com devido trabalho jornalístico.
Mas não, senhor Provedor: Os primeiros DEZASSETE MINUTOS do Telejornal foram integralmente dedicados ao anúncio dos jogadores escolhidos para chutar a bola na selecção nacional!
Que valem milhares de mortos ao lado da conferência de imprensa do treinador Scolari?
Senhor Provedor:
Temos o direito, todos os que ainda nos reclamamos da cultura e da inteligência, de ouvir da boca dos editores do Telejornal de ontem as inqualificáveis razões editoriais para tamanho insulto aos espectadores. Por isso me dirijo a V. Exa, que tantas provas de verticalidade nos tem trazido em cada um dos seus excelentes programas.
Com a maior consideração,
N.”
.
.. Chegou resposta, assinada pela chefe de gabinete, D. Fernanda Mestrinho. Em dois secos parágrafos estilo Formulário-Norma-4 agradecia a mensagem e mandava à m…era procura de um programa do Provedor que fora emitido meses antes.
.. Tenho a certeza cega de que o ponderado Prof. Paquete de Oliveira desconhece esta troca de correspondência, nem que mais não seja pela boçalidade que enforma e ele é, além de inteligente, um homem de finesse.
.. Que isto se tenha passado assim com um ignoto espectador, diz apenas de quem assessora o Provedor. Mas a coisa fia mais fino quando dois comentadores de nomeada exibem, em dois dos maiores jornais do país, o mesmíssimo cartão vermelho à RTP e… tudo fica na mesma. Aí o povo contorce as mãos, desesperado, e percebe quão majestático é o poder da tv estatal, sem se dignar explicações, mantendo inalterável o rumo soturno do seu navio fantasma. E os telejornais continuam a dedicar os seus primeiros quinze a vinte minutos a banalidades insípidas que rodeiam os treinos da Selecção de futebol em Viseu. Noite após noite, os directos espremem não-notícias, vulgaridades sonolentas, opiniões vazias de passantes sem o menor interesse. E a tal pescada que o jogador comeu, em vez de bife. Puro lixo televisivo. Vejo os telejornais estatais de Espanha, França, Inglaterra e Itália e nenhum se atreve a tamanho desperdício de tempo com tamanhas ninharias das suas selecções de jogadores. Só mesmo a RTP, até à náusea.
.. E porquê? Acho que sei, e até peço perdão se estou errado.
.. Sem ofensa pessoal para ninguém envolvido, eu acho que Pacheco e Brederode tiveram apenas um azar de circunstância, que passo a explicar.
.. A RTP é como o Estado: são todos e ninguém. Preciso é distinguir quem vale e quem não vale. O segurança da RTP não vale para definir telejornais, mas há três pessoas que valem tudo para definir os conteúdos dos telejornais: o Zé, o Luís e a Cristina. Se eles lerem os dois cronistas e se a sua roda de amigos concordar com os cronistas e comigo, tudo vai mudar no telejornal desta noite. O país, em vez de vinte minutos de nha-nha de Viseu, só grama dois ou três minutos de nha-nha de Viseu, se gramar!
.. Basta que o Zé tome café com o Luís e a Cristina e se ponham de acordo. Podia ser: o Zé Alberto é director de Informação e até pode decidir sozinho. Mas como a matéria é gravíssima para os interesses estratégicos de Portugal, admito que não queira utilizar o seu formidável poder sem ouvir o Luís Marinho que era seu chefe até ontem mas hoje é administrador da empresa. Os dois teriam quórum mais que bastante para colocar o terramoto da China antes das canelas do Petit a abrir o telejornal, mas vamos supor que isso teria implicações formidáveis no orçamento da TV pública e portanto conviria ouvir a Cristina Viegas, a sempre presente directora do subdepartamento comercial da empresa. Que diabo, a campanha publicitária que tem Nuno Gomes aos saltinhos e gritinhos poderia estar-se nas tintas para os mortos na China e exigir prioridade a Viseu Petit.
.. Portanto, seria superiormente recomendável um cafezinho a três – o Zé, o Luís e a Cristina. Belém reúne o seu Conselho de Estado por bagatelas bem menores do que o primeiro quarto de hora do Telejornal.
.. Simples, não é? Tudo arrumado em dez minutos de um café de bom senso. Pois não senhor: isso jamais acontecerá. O drama de Pacheco, Brederode e de todos os espectadores da RTP é que um dos três – acho eu – não gosta de café.

Passatempo-relâmpago

EM CIMA, vê-se o título de uma notícia relativa a um assunto muito falado nos últimos dias: a reacção das autarquias à abolição da taxa dos contadores (que lhes garantia uma receita não desprezável).
Em baixo, vêem-se duas ilustrações que Gustave Doré fez para o capítulo IV de «D. Quixote de la Mancha».
Pergunta com prémio: qual a associação de ideias que levou a juntar aqui a notícia e as famosas gravuras?
Actualização-1 (20h20m): se, até às 12h de amanhã (dia 26 de Maio), não houver mais nenhum comentário, dá-se o passatempo por encerrado, considerando como boas as respostas dadas até este momento.
Actualização-2: embora o comentário de 'Musicólogo' esteja correcto, o primeiro a dar a resposta pretendida (relacionando a notícia do «Público» com a história do cabreiro) foi Luís Bonito - que, por isso e na minha opinião, é o vencedor do passatempo. Obrigado a ambos!

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Serões da Província

Por Nuno Brederode Santos
NOS ANOS PARES, estas Primaveras mais chuvosas do que qualquer Inverno que se preze são grandes inimigas do meu inimigo principal. Minhas aliadas, portanto (mesmo que só "objectivas", como obrigatoriamente se dizia - ainda - no final dos anos 50). O inimigo, esse, é o aconchego de um útero enorme, feito de cimento e madeiras velhas, polvilhado de electrodomésticos e, no meu caso particular, de cinzeiros. É um cavername a que chamamos "casa" e no qual nos sentimos um Jonas que não quer sair da barriga da baleia. Abrigados das pequenas e médias catástrofes, protegidos, aquecidos e afagados, somos muito mais reis do mundo do que aquela coisa do Di Caprio a subestimar o oceano do alto do Titanic. Mas, dizia eu, estas Primaveras dos anos pares obrigam-nos a reagir e a ponderar sair de casa e ir ter com os amigos. Não porque vento e chuva sejam privilégio dos anos ímpares. Mas porque, nos pares, chega um qualquer campeonato (ora europeu, ora mundial) em que o futebol toma conta da vida colectiva e pouca margem deixa para patetices intimistas. Nem é, em bom rigor, o futebol. São misteriosas adjacências, disciplinas conexas que a televisão e a imprensa cultivam com o desvelo e a minúcia com que um amigo meu derrama a alma num jardim de espécies exóticas em versão "bonsai".
.. É eu ter de saber que, no hotel do estágio, a ementa de hoje foi canja de galinha e carne à jardineira (e o cozinheiro já vai explicar porquê), mas também que o craque A, afectado por uma ligeira indisposição, comeu pescada. Quanto ao B, que é naturalizado, foi-lhe concedido viajar hoje até S. Luís do Maranhão, onde o pai será operado a uma hérnia (o mau canal por aqui se fica, mas o bom vai ao local ouvir coronéis, jagunços e ameríndios sobre a popularidade e gentileza da família do craque). É a irmã do craque C , que veio a Viseu, grávida de séculos, e pariu com estrondo à beira da hora do treino - e o doutor, que é ginecologista, vive os seus cinco minutos de glória a sossegar a nação. É o pequeno Marturis que continua a vestir a camisola do Figo, mas já lê Camilo Pessanha graças à bolsa de um banco nacional. E a namorada do médio D, que admite vir a ter muitos filhos, mas só depois de fazer carreira em Hollywood.
.. Quarenta minutos volvidos, temos direito a algum noticiário nacional. Sabemos então da abertura de um escritório de interesses da Estremadura espanhola em Lisboa, de um académico galego que nos adora e acredita que nada separa o quotidiano que se faz desde o Golfo da Biscaia até à foz do Douro e do vice-presidente catalão que nos ensina qual a Espanha que mais convém a Portugal. Só mesmo o romântico bandido "El Solitario", que tanto se queixara de nós, já vai dizendo que gostaria de voltar para uma prisão portuguesa - e gostos não se discutem.
.. Este sufoco não conhece refrigério nem consolo. Porque os intervalos decorrem entre os apelos da grande iberista Amparo Larrañaga para que mudemos de marca na higiene bucal (substituindo a saudosa Natália Verbaecke, do Evax "limpia y segura") e o Dr. Ignazio não-sei-quantos, que recomenda um dentífrico óptimo para todos os espanhóis. E o pequeno rebelde que em mim mora, num etéreo algures que eu não controlo, rouba-me o que resta de sossego. Agita a História e quer saber se novecentos anos nada valem, se cada conjuntura de excepção justifica questionar a regra e se é quando uma aventura europeia maior se escancara aos olhos de todos os ibéricos que faz sentido recolocar essas questões. E eu acabo concedendo, sem discussão. Aceito o limiar da irracionalidade, esse território livre onde a alma vive e brincam os afectos. Que não é certamente maior do que o apelo clubista ou o impulso de comprar o cartão de sócio da selecção nacional. Mesmo que o preço seja - ou fosse - ter de sair de casa e arrostar com o que as nuvens quiserem.
.. Mas, por agora, nem isso. Tenho uma alternativa secreta: as primárias do PSD. Que têm sido a única manobra de diversão capaz de nos manter o nariz à tona na inundação do europeu de futebol. Falando só pela noite de terça-feira (Menezes na TVI e Santana Lopes na SIC), por irrespirável que a atmosfera estivesse (sobretudo com Menezes), valeu a pena. Só choveu no PSD e eu fui dormir enxuto.
«DN» de 25 Mai 08

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Toques, retoques e berloques

ONTEM À TARDE, deparei-me com a Torre de Belém assim - ornamentada com uma espécie de colar hippie feito com bóias. Como perguntar não ofende, quis saber "quem foi o da ideia", e remeteram-me para [aqui], onde se lê:
«A artista plástica Joana Vasconcelos inaugurou a instalação "Jóia do Tejo" na Torre de Belém, em Lisboa, dando um toque contemporâneo a um dos mais emblemáticos monumentos históricos do país».
Eu acho que os monumentos nacionais (pelo menos os mais vetustos) dispensam bem estes "toques de contemporaneidade" - mas também tenho de admitir que posso estar a ver mal 'a coisa'.

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24.5.08

«Jacarandás de Lisboa»

Por Manuel Magro

*******Na cidade de Lisboa
*******plantei mil jacarandás,
*******de azul floriram em Junho
*******e em Outubro de lilás.
.
*******Disto dei nova a el-rei,
*******quando ainda era rapaz,
*******o rei me mandou de volta
*******quatro mil jacarandás.
.
*******Por toda a parte os plantei:
*******em beco, rua, avenida,
*******Lisboa toda se ufana
*******de se ver assim florida.
.
*******Garrida de azul-lilás
*******já passada a primavera,
*******ai, só eu era capaz
*******de fazer o que fizera.
.
*******Quando me for deste mundo,
*******em descanso e boa-paz,
*******plantem sobre a minha campa
*******quatro mil jacarandás,
*******aqueles que o rei me deu
*******quando ainda era rapaz,
*******e mandem forrar Lisboa
*******toda de azul e lilás.

Poema inédito oferecido pelo autor ao Sorumbático

Habituar-se ao xadrez

Por Antunes Ferreira
HOJE, SE MO PERMITEM, aqui vai uma crónica que retrata momentos vividos pelo escriba. Já tenho idade para reviver memórias. Por mais que pareçam enterradas no mais recôndito da massa cinzenta. O que não é o caso. Esta, chegou-me à superfície, por mor de um mail que me foi enviado por um Amigo. Passo a contar, sucinta e brevemente.
.. Aqui há uns anos, 14, mais coisa, menos coisa, cometi a maior asneira da minha vida: acompanhei o falecido Sousa Franco (meu colega desde o Liceu Camões até à Faculdade de Direito) quando este foi nomeado por Guterres para Ministro das Finanças. Como seu Assessor de Imprensa e Director do Gabinete de Comunicação Social.
.. Aventura estulta que me haveria de conduzir a um pesadelo chamado depressão bipolar. Duvidam? Conto. Uma tarde quente de Verão – os meus colegas de profissão andavam atrás de uma estória interessante para o Estio sempre falho de notícias de parangona – vieram perguntar-me se era verdade que o Pinto da Costa propusera ao Ministério um acordo para resolver as dívidas que o FCP tinha ao Fisco e à Previdência.
.. Dizia-me a Marina Ramos, então na TSF, que corria, pensava que com fundamento, que o presidente do clube portuense teria avançado com a ideia de entregar o estádio das Antas para poder dar cumprimento à Lei Mateus. Face à insistência dela e de mais uns quantos, e porque me era desconhecida tal diligência, fui ao gabinete do Ministro perguntar-lhe o que haveria de verdade e se podia declarar alguma coisa à Comunicação Social.
.. Estava Sousa Franco em reunião de trabalho com o então Secretário de Estado das Finanças e do Tesouro, Fernando Teixeira dos Santos, hoje titular da pasta, e com a Secretária de Estado do Orçamento, Manuela Arcanjo. Naturalmente que estes ouviram a minha pergunta.
.. O Ministro, depois de lhe ter colocado a questão, disse-me que eu poderia informar os jornalistas de que houvera uma proposta do Futebol Clube do Porto, mas que eu não especificasse os termos dela, pois poderia incorrer na quebra do sigilo fiscal. Sacrossanta figura, acrescento eu, agora, ultrapassada e comentada por dá-cá-aquela-palha… De resto, e para além do que me era autorizado, eu não sabia rigorosamente mais nada do assunto.
.. Comuniquei isso mesmo à Marina, que comigo trabalhara na TSF e até fora colega na Faculdade de Direito do meu filho mais novo. Ela ficou eufórica e pediu-me para fazer a declaração em directo. Acedi. Foi o detonar de uma crise complicadíssima. As televisões, os jornais, mais rádios caíram-me literalmente em cima e tive de dar uma improvisada «conferência de Imprensa» para que uns não tivessem mais do que os outros.
.. À noite, estoirara uma verdadeira bomba de neutrões. O FCP propusera «alguma coisa» para entrar nos eixos fiscais. Mais não podia dizer, acentuara eu, sobre o assunto, pois o Ministro apenas assim mo dissera, e o segredo fiscal não se podia… revelar. Se não, deixava de ser… segredo.
.. Pinto da Costa chamou-me, em tudo que era sítio, mentiroso com todas as letras, além de anti-portista primário. Singularmente, e em simultâneo, anunciou que o clube a que presidia cortava relações com o Ministério das Finanças. Gato escondido, no mínimo. E, crème de la crème, exigiu a minha cabeça numa bandeja, tal como a do São João, não o popular portuense, mas o Baptista. Está gravado, está escrito, sobretudo em jornais nortenhos, nomeadamente no JN.
.. Naturalmente, e porque Sousa Franco divulgara uma nota a dizer que da parte do Ministério nada mais se declararia – mas não confirmava o que me autorizara, perante testemunhas, repito, a dizer, pus o meu lugar à disposição e, dias depois, era colocado na Comissão Euro do MF, para participar na divulgação da moeda única. Pinto da Costa ditava – e o Poder não respondia. Pergunto hoje, como então me perguntei: onde estaria, realmente o poder?
.. O que sofri, calado, (na política a corrente parte sempre pelo elo mais fraco) foi de tal ordem que, meses depois, já não andava com a cabeça no seu lugar. Passaram outros e a depressão avançou como cavalo com o freio nos dentes. Muitos elementos da Comissão o testemunharam.
Adiante. Cinco anos de martírio e seis psiquiatras. Só encontrei o fim desse longuíssimo pesadelo na pessoa da Dr.ª Alice Nobre, a que hoje me ligam enormes laços de Amizade e a quem chamo a minha Santa da Ladeira. E, no fundo, houvera mesmo a famigerada proposta do presidente do FCP. Era o que os juristas configuram como dação em pagamento.
.. Termino. A mensagem informática que me chegou rezava em quatro linhas: «Parece ganhar consistência a informação veiculada pela imprensa vespertina do Puôrto que informa que Pinto da Costa terá acabado de adquirir uma parte significativa das acções da SAD do Boavista para se ir habituando ao xadrez...» É mazinha, mas tem piada. Pelo menos, para mim, tem.
.. Não desejo, normal e habitualmente, mal a ninguém. Bem pelo contrário. Porém…

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23.5.08

«ACONTECE...» - Passatempo com prémio

Por Carlos Pinto Coelho

O DESAFIO, desta vez, consiste em escrever (em comentário a afixar até às 20h da próxima segunda-feira, dia 26), uma legenda para esta foto. Será valorizado se o concorrente conseguir identificar o local, mas não é obrigatório. O prémio será, como sempre, um livro.
NOTA: esta fotografia, como todas as outras aqui afixadas em posts com o título genérico «ACONTECE...», é da autoria de CPC.
Actualização (27 Mai 08/10h30m): o júri considera que passatempo foi ganho por 'Helena', pelo comentário-4, que, além do mais, inclui a identificação correcta do local (Macau).

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NESTAS IMAGENS, só não pode apreciar-se o estado actual do pavimento do Campo Pequeno (uma zona nobre de Lisboa e reconstruída há muito pouco tempo) por um motivo muito simples: trata-se de uma pequena parte: as fotos, que foram tiradas no passado dia 20, podem juntar-se às que [aqui] recentemente se mostraram, e a muitas outras que seriam suficientes para atafulhar este blogue e vários outros...

Problemas na Declaração do IRS

FICAREI muito grato a quem saiba tirar-me algumas dúvidas que me surgiram, este ano, no preenchimento da Declaração de IRS via Internet (versão com Java). Coloquei-as em comentário-1.
Actualização-1: graças às informações dadas por Pedro Fernandes, a quem estou muito agradecido, o assunto (pelo menos para já) ficou resolvido.
Actualização-2: acrescentei a imagem que aqui se vê para ilustrar as dificuldades com que um simples mortal se pode deparar:
Trata-se do quadro dos benefícios fiscais (do Anexo H), e das opções que disponibiliza (acabam no item 720). Que é feito daquele onde se inscrevem os valores correspondentes aos seguros de vida?! Por indicação do leitor Pedro Fernandes, soube que o número era o 729; escrevi-o, lá apareceu o texto pretendido, e o valor que declarei foi aceite. Mas quem não souber (como era o meu caso), como é que faz? O mais provável é deduzir que (como tantas outras coisas do género) o benefício foi abolido...

A «buena dicha»

ENTROU NO CAFÉ arrastando o velho sobretudo amarelo que imitava pêlo de camelo. Antes de chegar ao balcão, o empregado atirou-lhe:
** - Galão e pãozinho-de-deus, não é verdade, senhor Alberto?
** Era verdade. Era, pelo menos, há vinte e sete anos, galão e pãozinho-de-deus, não é verdade, senhor Alberto?
** Não se dava, sequer, ao trabalho de responder. Ou antes, retorquia falando de outra coisa qualquer, género «parece que o tempo vai melhor» ou «você ouviu ontem aquele tipo na televisão?». Gostava de conversar enquanto mastigava e bebia pequenos goles, patatipatatá, um ouvido no ruído do trânsito, não vá o maldito autocarro pregar mais uma partida.
** Naquela manhã, de sobretudo amarelo, a imitar pêlo de camelo, desabotoado, ainda a cheirar a água-de-colónia comprada a peso, sentia-se particularmente bem-disposto.
** Não saberia dizer porquê, se lho perguntassem, mas havia qualquer coisa a fazê-lo saber que aquele não seria um dia como os outros, apesar de não se estar ainda na Primavera.
** A cigana entrou, toda veludo e ouros, para evitar confusões e suspeitas, não pense alguém que ainda é das que restam a ler sinas nas palmas das mãos, e pediu uma tosta mista e uma cerveja. O empregado nem pestanejou, mas o senhor Alberto olhou espantado: «Uma cerveja? A esta hora da manhã? Uma mulher?» - e de imediato mediu-lhe as carnes de alto a baixo.
** A cigana surpreendeu-lhe a panorâmica quando os olhos vinham para cima e, quando se olharam cara a cara, olhos nos olhos, abriu um sorriso de pérolas que deixou o senhor Alberto sem saber se comia o pãozinho-de-deus ou se apanhava o autocarro.
** - O cavalheiro gosta só, ou quer comprar?
** Frente à sua plateia, repleta de público fiel, o senhor Alberto deve ter sentido o que um toureiro sente ao ouvir «Arrimate!» da barreira sombra. E para não ficar sem dizer nada, saiu-lhe um desabafo que deve ter sido o que lhe ia na cabeça, no espírito, no coração e noutras vísceras não menos importantes para o regular funcionamento das instituições fisiológicas.
** - Vossemecê sempre me saiu um grande naco de mulher!
** A cigana atirou a cabeça para trás e largou uma gargalhada que até fez tremer as garrafas de vermute e tilintar as taças para o branco verde avulso. Nesse instante de cristal, o senhor Alberto perdeu o autocarro.
** - Homem, deixe lá que eu levo-o! Ainda há bocado estava em Évora e já aqui estou. Não se preocupe.
** O senhor Alberto não se preocupou. Não tinha, de resto, razão nenhuma para isso, pois raramente chegara atrasado, em anos e anos, e faltara menos vezes que o número de dedos de uma mão. Já que a mulher o levava, olha, deixa estar – até ficava com uma história para contar... e depois isto tudo à frente da malta toda, caramba, era melhor do que anúncio na televisão.
** Inocente, o senhor Alberto embarcou na carrinha da cigana como os meninos dantes acreditavam que podia acontecer se não comiam a sopa. Foi, e viram-no só mais uma vez ou duas. Nunca mais, ao fim daqueles anos todos, queixava-se o dono da pastelaria. Um ingrato.
** Ao que parece, encontraram o senhor Alberto, no outro dia. Dizem que foi em São João da Madeira, mas não garantem que não tenha sido em Carcavelos ou em Santo Tirso. Anda de carrinha grande, com a sua cigana, a vender malhas, fatos de treino e atoalhados, deve ter deixado o sobretudo amarelo a imitar pêlo de camelo à mulher e aos filhos daquela vidinha certa que levara até aquele dia em que a cigana perguntara se ele queria comprar. E para grande espanto e escândalo de quem possa ouvir, contam as más-línguas que o senhor Alberto anda de mão dada com a cigana, um homem já naquela idade, ora vejam lá, rapou o bigode que sempre lhe conheceram e não veste sequer fato – só usa blusões e calças de ganga, o ginja, a querer armar em acelera. E é que acelera mesmo, dizem eles – tirou a carta, nunca mais andou de autocarro, e guia a carrinha entre as fábricas e as feiras dessa estranha e paralela rota da moda «boutique Alcofa».
** Na antiga vizinhança do senhor Alberto dizem que a cigana lhe deu qualquer coisa a beber. Não pode ter sido de outra maneira. Pois se ela, nem lhe leu a sina...
** É verdade. Mas o senhor Alberto anda feliz. A cigana, cantou-lhe a buena dicha.
Lisboa, 1987

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22.5.08

GÔÔÔÔÔÔÔ.....LO DE PORTUGA…..AAAAAAL!!!...

Por A. M. Galopim de Carvalho

SOU UM DOS MUITOS PORTUGUESES que acham que temos futebol a mais nos nossos media. Uns dizem que é o ópio do povo, outros comparam-no ao circo da antiga Roma. É claro que também se sabe que os jornais, as rádios e as televisões são operadores económicos que, como tal, visam o lucro e também, sejamos justos, assegurar o ganha-pão dos seus trabalhadores. Este belo mas nem sempre respeitável desporto vende bem e os três ou quatro diários, que dele vivem, rapidamente desaparecem das bancas. Às horas dos telejornais, toda a família se cala para ver os golos e ouvir os relatos ou comentários acerca de episódios e protagonistas dos subterrâneos do futebol. Nestes dias que antecedem o EURO 2008, a agitação nacional atinge o clímax e ninguém se importa com o desemprego, com o aumento do pão ou do leite, com os milhões gastos nos estádios vazios ou em saber quem vai ganhar as directas no PSD. Este viver colectivo, desinteressante e sem esperança, lembra-me, cada vez mais, um outro que vivemos, anos atrás, no tempo da ditadura, com a diferença de que o ópio de então era o óquei em patins.
** Montreux, Raio, Jesus Correia, Correia dos Santos, Emídio Pinto, Edgar e os irmãos Serpa, Sidónio e Olivério, vieram-me de jacto à memória, mais de meio século depois de, em família, ouvidos colados à telefonia, vibrarmos com os golos, sempre muitos, e as vitórias da Selecção Nacional, em relatos inflamados, onde as palavras corriam velozes e em aceleração ao ritmo das avançadas... - GÔÔÔÔÔÔÔ...LO!!!,... GOLO DE PORTUGA…AAAAAL!!!... – gritava, entusiasmadíssimo, o Artur Agostinho. Nesses anos, nas ruas, a garotada transformava ripas de madeira em sticks, e qualquer pedrinha lhes servia de bola. À hora dos jogos, quase sempre ao serão, Évora inteira recolhia a casa para mais um banho de auto-estima nacional, coisa rara entre nós, nessa época cinzenta e triste. Foram horas felizes numa cidade então sem futuro para os jovens da minha geração e condição, que levou muitos de nós a procurar outros horizontes.
** Mais tarde, um neto da minha tia (por afinidade) Maria Martinha, de São Manços, o nunca esquecido Livramento, reaproximou-me do hóquei em patins que, diga-se, foi a única modalidade desportiva que me tocou de muito perto, como espectador, claro, pois que a única que pratiquei foi o berlinde e, mesmo assim, perdia quase sempre, como dizia o saudoso Prof. Orlando Ribeiro, meu Mestre.
«FORA DE PORTAS – Memórias e Reflexões», a ser lançado na próxima Feira do Livro - Mai 08; as crónicas que o autor aqui afixa estão também disponíveis no seu blogue-arquivo Sopa de Pedras.

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