31.1.08

«Quem foi que disse...?» - Pergunta com prémio

AS ASSOCIAÇÕES de ideias são uma coisa muito curiosa!
O teor do post de ontem, sobre o Tribunal de Contas (presidido por Guilherme de Oliveira Martins, descendente do grande historiador), misturado com o 31 de Janeiro (cujo 117.º aniversário se comemora hoje), com a fuga da corte para o Brasil (que fez agora 200 anos), com o regicídio (que faz agora 100 anos), etc... misturaram-se todos na minha cabeça e deram origem a um passatempo muito simples:
Trata-se de premiar (*) o primeiro leitor que diga quem foi o português famoso que, segundo Oliveira Martins, proclamou:
«Não me obrigueis a empregar a força para vos libertar!»
*
(*) O prémio é um livro que descreve alguns episódios (muito interessantes mas pouco conhecidos) da História de Portugal: «Notícias da China e do Tibete», Ed. Alfa.
*
Act.: a resposta certa foi dada no comentário-4, pelo leitor "João", a quem o prémio já foi enviado.

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O 31 de Janeiro de 1891

Por C. Barroco Esperança
EM PORTUGAL, nos finais do século XIX, na ausência de qualquer solução para a crise económica, social e política, a monarquia agonizava. Depois da conferência de Berlim, em 1885, o projecto português de ligar Angola a Moçambique colidiu com o plano inglês de ligar o Cairo ao Cabo (África do Sul).
A disputa do território africano que ficaria conhecido por mapa cor-de-rosa culminou com o Ultimatum, imposição do império inglês a Portugal, tão humilhante que inflamou o fervor republicano e o ódio ao trono e à Inglaterra.
Os ideais republicanos continuaram a seduzir os portugueses e a ganhar força à medida que a monarquia se esgotava, a pobreza aumentava e o sentimento colectivo, de vergonha e ressentimento, se acentuava.
«A Portuguesa» foi o hino que surgiu do ódio generalizado que cada vez mais se identificou com as aspirações republicanas que germinam nos quartéis, na maçonaria e nos meios académicos. O Partido Republicano, até aí pouco expressivo, ganhou adesões e consistência.
Entre os militares destacavam-se os sargentos no fervor republicano donde viria a surgir a primeira tentativa para implantar a República. Coube ao Porto a honra dessa tentativa falhada que contou com alguns oficiais em que se distinguiu o alferes Malheiro e, ainda, o capitão Leitão e o tenente Coelho.
Com a banda da Guarda-Fiscal à frente, os militares republicanos avançaram ao som de «A Portuguesa» e assaltaram o antigo edifício da Câmara do Porto de cuja varanda, perante o entusiasmo da população que se juntou ao movimento, se ouviu o discurso de um dos lideres civis da revolta, Alves da Veiga, que proclamou a República.
Falhado o objectivo de ocupar o Quartel-General e o edifício do telégrafo, donde se anunciaria a todo o País a proclamação da República e a deposição da Monarquia, o movimento soçobrou perante a Guarda Municipal.
O exemplo dos revoltosos de 31 de Janeiro de 1891 frutificaria, menos de duas décadas depois, em 5 de Outubro de 1910. Eles foram os protagonistas de uma derrota que foi a semente da vitória que tardaria quase duas décadas.
Foi há 117 anos mas a memória histórica dos protagonistas do 31 de Janeiro está viva e é dever honrá-la.
«Jornal do Fundão» de 31 de Janeiro de 2008

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30.1.08

«Então vai ou não vai?» - Passatempo com prémio

O POST ANTERIOR, onde se refere que a senhora ministra da Saúde "vai e não vai" a tribunal, fez-me lembrar uma velha adivinha infantil; destina-se a "ser ouvida" e não a "ser lida" mas, de qualquer forma, aqui fica:
Pontuar a frase seguinte de modo a que o resultado tenha lógica: «tu queres que o vai vem vá ora se o vai vem fosse e viesse ainda vá o vai vem ia mas como o vai vem vai e não vem o vai vem não vai».
*
Como não podia deixar de ser, há um prémio (um dos livros infanto-juvenis que aqui se vêem) para o primeiro leitor que, em comentário, der a resposta certa; e um prémio adicional para quem - mas só depois! - der uma explicação lógica para o sentido da estranha frase que se obtém.
NOTA: Para evitar respostas precipitadas, elas só serão permitidas a partir do meio da manhã de quinta-feira - por volta das 10h estará bem?
*
Actualização: as respostas certas já foram dadas e os prémios enviados. Entretanto, apareceram mais perguntas semelhantes (que também já foram respondidas) e, finalmente, uma velha adivinha proposta por I. Abreu que ainda aguarda que alguém a decifre.

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Aqui há gato...

AO CIDADÃO-COMUM pode parecer pouco curial que alguém que ainda vai ter de ser julgado em tribunal seja convidado para ministro. Felizmente, e segundo se lê [aqui], o advogado referido na notícia explica o mistério:
«Quem vai a julgamento são todos os membros dos três ou quatro conselhos de administração da ARS de Lisboa, e isso nada tem que ver com a sua personalidade».
Portanto, se bem entendi, vai a julgamento; mas, ao mesmo tempo, não vai: vai, porque integra um grupo de pessoas que vão; mas não vai como personalidade.
Felizmente, hoje em dia temos a Mecânica Quântica para explicar coisas destas - e outras ainda mais rebarbativas!
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NOTA: O título do post é uma referência ao famoso "paradoxo do gato de Schrodinger", onde se 'conclui' que um gato pode estar, ao mesmo tempo, morto e vivo.

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"Pode haver pressão para subir notas aos alunos"

O REGIME de avaliação dos professores está em vigor. Em diálogo com o DN, Nuno Crato, da Sociedade Portuguesa de Matemática, elogia o princípio da avaliação "frequente e sistemática" do trabalho dos professores, mas critica aspectos da avaliação, como o aparente incentivo a dar boas notas aos alunos.
Com a publicação, no dia 10 deste mês, do decreto regulamentar 2/2008, ficou instituída a avaliação de desempenho consagrada no novo Estatuto da Carreira Docente (ECD), aprovado há um ano. A reforma, defendida pela tutela como fundamental para "valorizar" o trabalho individual dos professores, promete influenciar profundamente o percurso profissional dos educadores.
A avaliação, bienal, assentará numa grelha de classificação que vai do insuficiente ao excelente. E ao contrário do que sucedia no anterior modelo, em que praticamente a totalidade dos professores progredia ao mesmo ritmo, as notas serão mesmo fundamentais para decidir quem sobe, quem estagna e quem arrisca mesmo ser expulso da carreira. Quem for "muito bom" ou "excelente", uma classificação sujeita a uma quota máxima de 20% dos avaliados, vai subir mais rapidamente. Quem ficar abaixo do "bom", correspondente a uma média de 6,5 a 7,9 valores numa escala de 10, não progride. Quem repetir duas ou mais classificações insuficientes fica sujeito a procedimentos que poderão conduzir mesmo à sua expulsão da rede do Ministério da Educação.

Nuno Crato, professor universitário e presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM), é assumidamente um defensor de uma cultura de avaliação no sistema educativo português. E, como não poderia deixar de ser, acredita que os docentes não podem ficar de fora desse esforço: "A avaliação dos professores é necessária. E são bem-vindos todos os esforços para que esta seja feita de forma mais frequente e sistemática."
*
DN: É justo que se estabeleçam quotas para as melhores notas?
NC: O estabelecimento de quotas para as melhores classificações, eliminando, na prática, a possibilidade de todos poderem almejar à excelência, tem sido um dos aspectos da reforma mais criticados pelos sindicatos do sector. É uma regra, dizem, que serve objectivos" economicistas", permitindo controlar os aumentos salariais.
*
Nuno Crato reconhece que o princípio das quotas "tem algo de perverso", mas, diz, "tem algumas vantagens óbvias. Sabemos que a ausência de quotas leva a que toda a gente tenha muito bom".
DN: Os aspectos e a forma de avaliação são os melhores e mais rigorosos para traduzir a realidade?
NC: A avaliação dos professores terá várias etapas. A primeira componente é a auto-avaliação (obrigatória), em que o profissional analisa o cumprimento dos objectivos a que se propôs no início do ano lectivo e descreve o enriquecimento profissional que conseguiu, nomeadamente através de acções de formação. O docente é também avaliado pelo coordenador, por necessidade um professor que já chegou à categoria de titular, preferencialmente da mesma área de docência. Este coordenador vai analisar aspectos como o planeamento das actividades lectivas, o trabalho em sala de aula (tem de assistir a pelo menos duas aulas por ano), a relação com os estudantes e os progressos por estes obtidos. Numa terceira fase entra a direcção executiva da escola, ponderando aspectos qualitativos como a assiduidade, o serviço distribuído ao professor e também os progressos dos alunos e redução do abandono escolar dos mesmos, a participação em actividades da escola e do grupo de docência.

(...)
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Extracto da entrevista feita por P. S. Tavares, do «DN», publicada em 26 Jan 06; texto integral [aqui]

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A lentidão da Justiça - Pergunta com prémio

ONTEM, voltou a falar-se muito da lentidão exasperante da Justiça portuguesa. Claro que o cidadão-comum não tem grandes esperanças de que a situação melhore nos próximos tempos, mas o facto de se falar no problema já não é mau de todo e merece ser comemorado!
Assim, o SORUMBÁTICO oferece um livro policial («O Último Caso de Trent», de E. C. Bentley) ao primeiro leitor que, em comentário, der a resposta certa à seguinte pergunta:
Em que livro é que Anatole France coloca na boca da personagem principal as seguintes palavras: «[A minha velha governanta] é surda como uma saca de carvão e lenta como a Justiça»?
*
Actualização: a resposta certa já foi dada no comentário-1 e o prémio enviado.

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A voz na televisão

Por Baptista-Bastos
SENTEI-ME PARA ESCREVER um texto saudoso e álacre sobre a Ava Gardner. Acabara de rever, em DVD, A Condessa Descalça, o filme em que Mankiewicz iluminou, vital, os seios míticos e as ancas essenciais da então chamada "o mais belo animal do mundo". Pensava ilustrar a beleza renascentista da imensamente adorada, aplicando, à imaginada crónica, um breve toque intelectual, com uma citação de Shakespeare, que, no Hamlet, faz dizer a Horácio: "Há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia." Há; melhor: havia - a Ava Gardner, síntese de todas as deusas voláteis e etéreas. Os adjectivos não eram maus, pensei, sacudido por áspera nostalgia de mim próprio.
Preparava-me, pois, para comover, levemente embora, os leitores da minha geração, acaso de outras, com estes abandonos líricos, eis senão quando uma voz na televisão, lá dentro, atraiu a minha malvada curiosidade e desviou-me do saudoso intento.
Que dizia a voz, assim tão importante, que sobrelevava as instâncias dos meus impulsos de autor de imprensa? Era um homem. E fazia troça cruel de quem dele desacordava: de sindicatos, de jornalistas, de comentadores, de todos os partidos que não o seu, mas também de alguns daqueles, iguais comungantes, em atrito com o que ele fazia. Não percebi muito bem onde o homem falava: congresso, reunião, assembleia, igreja? Sei que o homem estava a deixar-nos para trás; e não há nada mais penoso do que sermos deixados para trás.
O homem na televisão era somente voz: voz que apenas a si mesmo ouvia; voz inevitável para ela própria; voz impessoal, velha, fatigada como uma solenidade, inconvicta, em pleno processo de desumanização. O homem falava para se ouvir. Falava; não estava a dizer nada.
Elogiava-se e ao Governo que dirigia. Na Saúde, na Justiça, na Economia, na Cultura, no Emprego, na Educação, nas Obras Públicas, tudo deslizava, com suavidade, para o irreversível ponto de exclamação que será a sociedade próspera e abundante. O absurdo atingia a dimensão da inconsciência abjecta. O homem na televisão deixara de o ser: era, unicamente, voz. Voz efémera, que desembarcava numa auto-admiração inviolável; voz de catálogo turístico.
As vozes humanas possuem cor, luminosidade, magia, transcendência, grandeza, música, presença física. A voz do homem na televisão era dissimulada, quadrada e cava. Uma mentira instantânea que se repetia sem perdão. Um eco do oco.
Regressei à Condessa Descalça e à memória da frase de Bogart: "A ilusão procura sempre dar solidez ao vento." Ia para continuar. Mas o meu espaço é este. Que o homem fique com a sua voz; eu, com a minha repulsa. E por aqui me fecho, como diria mestre Camilo.
«DN» de 30 de Janeiro de 2008

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29.1.08

Votação pelos leitores

No post que se vê [aqui], fizeram-se algumas considerações acerca da forma - tão diferente! - como as populações de Lisboa e do Porto se relacionam com as respectivas cidades.
As opiniões de cinco leitores, juntamente com as do autor do texto, podem ser lidas em comentário a ESTE post, referenciadas com letras de A a I.

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Actualização (31 Jan 08/20h30m): após a votação pelos leitores, o passatempo foi ganho por Daniela, a quem já foi enviado o prémio - um exemplar do livro «Cidade Escaldante». Entretanto, o post teve mais um comentário interessante, desta vez de alguém que nasceu e vive no Porto há quase 60 anos.

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«O comboio das 3h10m» - Pergunta com prémio

ORA AQUI ESTÁ um filme do Oeste como deve ser, daqueles que enchem as medidas dos apreciadores do género!

Trata-se da velha história do indivíduo que tem de levar um bandido para ser julgado (e, previsivelmente, enforcado) e a quem acontece, pelo caminho, tudo o que é possível... até ao desfecho final - previsível, mas só em parte.

O filme vale o preço do bilhete na medida em que tem tudo aquilo que se pode esperar dele:

Perseguições a diligências e a fugitivos, correrias de cavalos, pistoleiros profissionais, cow-boys delinquentes, cofres dinamitados, tiroteios, apaches, sherifes medrosos, maus verdadeiramente maus (e outros nem tanto...), um herói a sério e outro que não está interessado em sê-lo, linhas de caminho de ferro em construção (com os inevitáveis chineses), fortes isolados onde estaciona a cavalaria (que há-de vir dar uma ajudinha), casas na pradaria em risco de incêndio, manadas de gado que intervêm na acção, balas que é preciso extrair a-sangue-frio, cantoras de cabaret, saloons, correrias e tiros pelos telhados, whisky, cartazes de "procura-se", atiradores emboscados, fugas para o México, cavalos que vêm quando o dono assobia...

*

Finalmente: este filme é um remake de um outro, realizado em 1957. Ao primeiro leitor que, em comentário, der a resposta certa à pergunta «qual o título original desse outro filme?», será enviado um exemplar do livro «A Fera Tem de Morrer» (de Nicholas Blake) ou «Assassinos a Frio» (Chester Himes) - à sua escolha.

Actualização: a resposta certa foi dada no 8.º comentário, por "acarranca".

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As virgens ofendidas

A RÁBULA não é nova:
Se alguém vier a público denunciar que há, por esse país fora, casos graves de corrupção que se mantêm impunes, virá logo um conjunto de pessoas, muito nervosas, a esgrimir com a seguinte argumentação:
«Se denuncia, é porque sabe; se sabe, tem de concretizar e provar; se não concretizar nem provar, está a ofender todos; se ofende todos, afinal o malandro é ele!».
Por essa lógica, se alguém disser que «há carteiristas no Metro», tem de estar preparado para ouvir uns tantos utentes a proclamar que, «se não concretizar nem provar o que diz, estará a chamar gatunos a todos os passageiros».
Claro que isso não teria pés nem cabeça, mas poderia servir para alguma coisa: pelo menos eu, se fosse polícia, começava logo por dar atenção - precisamente! - a "esses tais utentes" mais nervosos...
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«Destak» e «Público» de 29 Jan 08

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As máquinas também erram

Por Nuno Crato
FALÁMOS NA SEMANA PASSADA dos erros das calculadoras. Dissemos, por exemplo, que um rigoroso mas simples raciocínio matemático mostra que a série 1 + 1/2 + 1/3 + 1/4 + ... não tem soma, pois à medida que se acrescentam termos o resultado cresce sem limite. Desde que se some um número adequado de parcelas consegue-se encontrar um valor superior a um milhão, ou a um bilião, ou a um trilião de triliões... o que se quiser. A partir de certa altura, no entanto, uma calculadora fixa-se sempre num valor determinado, que depende da máquina, e por mais parcelas que se adicionem a soma não cresce.
Para perceber o problema, imagine-se que a calculadora funciona com uma precisão interna de cinco dígitos. Se assim for, quando a máquina somar 10 com 0,0001 não consegue encontrar 10,0001 e continua a escrever 10 ou 10,000.
Na realidade, as calculadoras têm uma precisão bastante maior, mas o problema é sempre o mesmo e é essa limitação que faz com que a soma da série acima não cresça quando se adicionam parcelas muito pequenas. A máquina não sabe fazer melhor.
Tente o leitor outro exemplo. Escreva 10 na sua máquina de calcular. Pressione a tecla da raiz quadrada e depois a do quadrado. Obterá de novo 10, como se esperava. Mas agora escreva 10, pressione a tecla da raiz quadrada 25 vezes e depois a tecla do quadrado outras 25 vezes. Verá que não aparece 10, mas sim qualquer coisa como 9,99239... dependendo da precisão da máquina.
O erro é pequeno, mas se o leitor pressionar as teclas 33 vezes em vez de 25, o número que resulta é 5,5732... , bastante diferente do 10 de origem. Multiplicados uns pelos outros os pequenos arredondamentos podem ser desastrosos.
«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 26 de Janeiro de 2008

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«Que tal 'tá a moenga, hem?!»

O FACTO DE TER NA FAMÍLIA muitas pessoas que nasceram (e algumas continuam a viver) em pequenas aldeias da Beira Baixa, tem-me permitido ter uma visão de alguns problemas do país de uma forma que escapa ao cidadão urbano ou que apenas conhece o litoral industrializado.
Nesse aspecto dos Certificados de Aforro (e desculpem-me se volto ao assunto), lembro-me bem de ver como o meu sogro acompanhava (sempre com grande interesse e, por vezes, com algum nervosismo) a evolução dos juros e do valor acumulado da sua poupança que, por sinal (e como se imagina numa pessoa que vive exclusivamente do trabalho do campo), nunca foi grande.
Depois de ele falecer, vejo agora como a viúva, com mais de 80 anos, faz o mesmo, com idêntica (ou acrescida...) preocupação.
Essas pessoas habituaram-se, durante toda a vida, a ver nos Certificados de Aforro um instrumento de poupança estável, garantido e fácil de gerir, na medida em que é comprado (e vendido, sempre que necessário) na estação dos CTT que têm à porta de casa.
Só pessoas muito insensíveis (ou que vivem noutro mundo, que não o país real) é que podem ignorar o impacto psicológico que tem uma baixa nos juros respectivos - ainda por cima por duas vezes em pouco tempo.
Para cúmulo, apareceram, agora, uns parodiantes a dizer «Procurem na Internet, que encontram aplicações mais vantajosas!». A esses pândegos, só dá vontade de enfiar com um pano encharcado nas trombas - como dizia a Hermínia Silva.

*
Na imagem, vê-se um autógrafo que me deu o Compadre Alentejano em 1963. Os mais novos não devem saber de quem se tratava. Era uma personagem incontornável d' «Os Parodiantes de Lisboa», e que dava voz às reclamações e indignações do cidadão-comum, que lhe escrevia.
Os assuntos, em geral, não tinham graça - evidentemente. O efeito de humor era obtido pela pronúncia do "compadre" e pelas expressões a que recorria. Uma delas, que aparecia sempre, é a que dá o título a este post.

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28.1.08

As taxas e os novos 'parodiantes'

PORQUE SERÁ que não encontro (pelo menos nos blogues mais lidos) qualquer referência a mais uma descida das taxas de juro dos Certificados de Aforro - a segunda, só nesta legislatura?
E, no entanto, o assunto afecta muitos - mas mesmo MUITOS! - milhares de pessoas (especialmente mais idosas e de modestas posses), e num assunto que, para elas, é quase sagrado: as economias de toda uma vida.
Palpita-me que o desinteresse por esse assunto tem alguma coisa a ver com a idade e/ou a origem de classe da grande maioria dos autores e comentadores da blogosfera. Estarei enganado?
*
Na imagem, vê-se um autógrafo que o saudoso José Andrade (o JACK TAXAS d' «Os Parodiantes de Lisboa») me deu por volta de 1961. Aqui fica ele, a propósito de taxas... e de parodiantes.

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O Polícia e a Segurança Privada

J. L. Saldanha Sanches
O MERCADO DE CAPITAIS tem dois tipos de regulação: a que é feita por entes públicos e a que tem como executores agentes privados actuando nos termos definidos pela lei.
Tal como temos a PSP e as agências de segurança.
Os reguladores privados – auditores - são uma invenção anglo-americana e sua função tem por base um aparente paradoxo: devendo cuidar dos interesses dos accionistas (existem para fiscalizar as contas das grandes sociedades por acções) são contratados e pagos pelos gestores cuja actuação devem vigiar.
Uma farsa?
Sim, quando a captura do regulador pelo regulado leva à inteira complacência do auditor na certificação das contas da empresa; está falida e a informação contida no balanço leva a sua cotação à estratosfera como sucedeu com a Enron.
Deixa de ser uma farsa quando os tribunais funcionam: o escândalo Enron levou ao colapso da venerável Arthur Andersen com os seus sócios a enfrentarem acções cíveis demolidoras.
Tudo passa por saber duas coisas: o que pode e deve ser exigido ao auditor e como reage o aparelho judicial a estes infortúnios do mercado.
O nó do problema é o grau de diligência exigível ao auditor:
um dos temas clássicos na jurisprudência anglo-americana e que há pouco chegou aos tribunais da Europa continental.
Questão sempre difícil: é apenas claro que é no receio dos custos de uma acção judicial e nos perigos para a reputação (em especial se a empresa de auditoria actua no mundo inteiro) que reside a esperança de comportamento eficiente do auditor.
No entanto, uma coisa é óbvia: o regulador privado vai sempre agir dentro dos parâmetros de conduta que são definidos pelo regulador público. Toda a gente no Estados Unidos espera que a Securities and Exchange Comission, paga pelo dinheiro dos contribuintes e regulador de última instância (a certificação rotineira das contas é o negócio dos auditores), reaja fortemente se estes não procedem à devida revelação (disclosure) de comportamentos duvidosos da empresa por si auditada nas reservas emitidas aquando da certificação das suas contas.
Por isso, o que deve fazer o auditor se o comportamento duvidoso do seu cliente é do conhecimento do regulador público e este opta por nada revelar?
Nada: o comportamento mais adequado é ficar muito calado, certificar sem reservas e talvez deixar na certificação alguns sinais cabalísticos (veja-se o conteúdo da nota 1) que talvez mais tarde possam ser devidamente interpretados. E manter as suas relações com o seu cliente em especial se este é um cliente importante.
Se a PSP sabe do assalto e não actua o que pode fazer a Securitas?
Ora os dados já revelados no caso BCP parecem apontar neste sentido. Se forem exactos, o Banco de Portugal (regulador público) sabia.
Ora se o Banco de Portugal sabia, e se apesar das irregularidades a situação da empresa era sólida e a sua continuidade não merecia dúvidas (o supremo crime do auditor é não ver, devendo ver, uma falência que se aproxima), o auditor não podia ser mais intransigente. Seria ser mais papista que o papa.
Tudo isto constitui o exemplo clássico da captura do regulador (Banco de Portugal) pelo regulado (banca privada)? É pior. Não há captura. Há osmose.
O Banco de Portugal nunca se viu como o polícia da banca mas como a sua cúpula institucional e o seu representante junto dos poderes públicos. Uma instituição aprazível que recentemente passou a redistribuir as suas poupanças pelos seus antigos administradores por mais curta que fosse a sua estadia.
Só que os tempos vão maus para esses aprazíveis locais.
«Expresso»-26 Jan 08/http://www.saldanhasanches.pt/

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27.1.08

A arte de mentir

Por António Barreto
TÊM VÁRIAS DESIGNAÇÕES. Assessores. Conselheiros. Encarregados de relações com a imprensa. Agentes de comunicação. Ou, depois do choque tecnológico, Press officers e Media consultants. Sem falar nos conselheiros de imagem. Povoam os gabinetes dos ministros, dos secretários de Estado, dos directores gerais, dos presidentes e dos gestores. Vivem agarrados aos telemóveis, aos BlackBerries, às Palms e aos computadores. Falam todos os dias com os administradores, directores e jornalistas das televisões, das rádios e dos jornais. Dão, escolhem, programam e escondem notícias. Mostram aos políticos e aos gestores o que é do interesse deles. Planificam a informação. Calculam os efeitos e contam as referências feitas na imprensa. Tratam da imagem, compram camisas para os seus mestres, estudam-lhe as gravatas, preparam momentos espontâneos, formulam desabafos, encenam incidentes e organizam acasos. Revelam a intimidade que se pode ou deve revelar. Calculam os efeitos negativos de uma decisão sobre os impostos, que articulam com as consequências positivas de um aumento de pensões. A fim de contrabalançar, colocam o anúncio de Alcochete logo a seguir ao do referendo europeu. Fazem uma planificação minuciosa das inaugurações. Escrevem notícias com todos os requisitos profissionais, de modo a facilitar a vida aos jornalistas. Mentem de vez em quando. Exageram quase sempre. Organizam fugas de imprensa quando convém. Protestam contra as fugas de imprensa quando fica bem. Recompensam, com informação, os que se conformam. Castigam, com silêncio, os que prevaricaram. São as fontes. Que inundam ou secam.
OS JORNAIS PARECEM-SE UNS COM OS OUTROS. As notícias são quase iguais. As agendas das redacções são gémeas. Salva-se, desta uniformidade, aqui e ali, quem assina o que escreve. Os noticiários das televisões têm agendas iguais. E alinhamentos de notícias também. Os directos, grande vício da televisão portuguesa, são iguais em todos os canais. Cada vez mais, a informação está previamente organizada, não pelas redacções, não pelos jornalistas, mas pelos agentes e pelos assessores. Quem tem informação manda em quem investiga, escreve e transmite. Grande parte da informação é encenada e manipulada, de acordo com as conveniências. Há informação reservada para melhores momentos, informação programada para dramatizar, informação inventada para divertir e informação acelerada para consolar. Isto acontece há anos. Em Portugal e no mundo inteiro. Todos os anos, a situação piora. Com Sócrates, refinou. O poderio das organizações de comunicação é avassalador. A opinião pública não tem meios para escolher e resistir. Só a independência dos jornalistas poderia fazer frente a este domínio inquietante. Mas esta é um bem raro. Até porque os empregos na informação são cada vez mais precários.
A RECENTE POLÉMICA SOBRE AS AGÊNCIAS DE COMUNICAÇÃO, novo episódio numa longa série, mostrou esta actividade no seu pior. As mesmas agências comunicam a favor dos adversários, da política e da economia, da polícia e do ladrão, do governo e da imprensa. Do atirador e do alvo, como disse Pacheco Pereira. Até a Entidade Reguladora para a Comunicação, sem ver os efeitos nefastos, achou por bem ter uma agência a tratar da sua informação. O governo tem a sua. Luís Filipe Menezes também: em vez de denunciar a prática do governo, quis imitá-lo. Foi preciso Santana Lopes, em momento inspirado, opor-se a este despotismo: “O modo e o conteúdo da comunicação fazem parte do domínio da liberdade absolutamente inalienável de cada deputado”.
LUÍS MARQUES, JORNALISTA HÁ VÁRIAS DÉCADAS e com experiência da redacção, da direcção e da gestão da informação, em jornais e na televisão, fez há poucos anos um pequeno estudo sobre as “agendas” de informação. Chegou a resultados surpreendentes. Contando apenas os grandes órgãos de informação generalistas e nacionais, com exclusão das secções mundanas e outras, havia em Portugal cerca de 1.500 profissionais. Para os alimentar de informações, os assessores, as agências de comunicação e outros somavam quase 3.000. Quer dizer, por cada jornalista em actividade na informação política e económica, dois profissionais preparavam as agendas e as notícias. É esta gente que inunda as redacções com “factos”, “eventos”, “oportunidades” e “situações”. Qualquer redacção tem dificuldade em resistir-lhe. Se, às 20.00 horas, o Primeiro-ministro sai de um lar de idosos, entra numa creche ou produz uma declaração espontânea, como pode uma redacção decidir não estar presente? É este exército o responsável por grande parte das “entradas” que, durante a manhã, enchem as agendas das redacções. Num grande canal de televisão, essas entradas podem hoje chegar às 1.000 por dia, enquanto eram cerca de 100 há quinze ou vinte anos. Na agenda diária da redacção de um canal de televisão, perto de um terço das entradas (mais de trezentas...) é feito directamente pelas agências de comunicação e pelos assessores dos gabinetes e das instituições. Mais ainda, é aquela brigada que, muitas vezes, sobretudo na informação económica, redige as notícias. Nas redacções, povoadas hoje por jovens estagiários e inexperientes, mas também por seniores preguiçosos, publicar directamente as notícias assim preparadas, ainda por cima por jornalistas e antigos jornalistas treinados, é a solução mais simples. Por isso, é frequente vermos, sem menção de publicidade, notícias económicas absolutamente iguais em vários jornais.
HÁ QUEM PENSE QUE É ISTO A MODERNIDADE. A informação racional da época contemporânea. O sinal da eficácia. O instrumento da transparência. Mas desenganem-se os crédulos. O objectivo dos assessores e das agências de comunicação é sempre o de defender os interesses do autor da informação, nunca do destinatário, do cidadão. A única preocupação do agente é a de vender o mais possível, nas melhores condições, bens ou ideias, mercadorias ou decisões. Os agentes de comunicação não defendem os interesses dos compradores, dos consumidores ou dos espectadores, mas tão só dos vendedores, dos produtores e dos autores. Apesar de pagos pelos eleitores, servem para defender os eleitos. Este é o mundo em que vivemos: a mentira é uma arte. Esta é a nossa sociedade: o cenário substitui a realidade. Esta é a cultura em vigor: o engano tem mais valor do que a verdade.
«Retrato da Semana» - «Público» de 27 de Janeiro de 2008

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O SORUMBÁTICO oferece um exemplar do livro cuja capa aqui se vê ao primeiro leitor que der a resposta certa a todas as seguintes perguntas:
1ª- Como se chamava "o grande metafísico da Vestefália" referido no 2.º parágrafo da crónica anterior?
2ª- Qual o nome do autor do livro em que esse artista aparece?
3ª- Qual o título dessa obra?
*
Act.: As respostas certas já foram dadas em comentário-1 e o prémio já foi enviado.

Visto da margem

Por Nuno Brederode Santos
NADA TENHO CONTRA UM MUNDO de heróis e vilões, desde que ao homem comum, que me prezo de ser, esteja reservado um espaço livre, onde a virtude e o vício possam, em humana pequenez, viver juntas a sua essencial fraternidade. É prosaico, eu sei. Falta-lhe o tiro do canhão, o grito, o sangue, o martírio e a paixão que treslouca e cega. Mas é um cantinho confortável em que os dias se sucedem e vão dando as mãos uns aos outros. E não recusa as grandes áreas épicas para os cósmicos confrontos que anjos e demónios se comprazem a travar.
Vem isto ao caso quando Luís Filipe Menezes, Ribau Esteves e uma agência de comunicação deram notícia ao nosso pequeno mundo de que esta última iria aconselhar, a título permanente, o PSD e o seu grupo parlamentar, com atribuição de espaços e presenças fixas na Assembleia. Logo Santana Lopes - que, apesar de uma argúcia intuitiva e táctica, ainda experimentou a chefia de um governo durante cinco meses, antes de entrar em gestão - esclareceu publicamente que isso estava "out of the question", porque cabe "à política o que é da política". No Parlamento, não haverá qualquer espaço físico para tal aconselhamento e a agência só é bem-vinda como arquivista e documentalista - coisas que naturalmente a dita agência, melindrada, recusou, acrescentando que, daí em diante, só Ribau Esteves falaria do assunto. Mas este disse também que não falaria, nem agora nem de futuro, de tais "intimidades" partidárias. Claro que tudo se saldou em declarações recíprocas de Menezes e Santana, segundo as quais - e como diria o grande metafísico da Vestefália - "tudo corre pelo melhor no melhor dos mundos possíveis". Mas isso não chegou para dissimular o incidente, nem penso que tal fosse a intenção de todas as partes envolvidas.
Sem qualquer juízo moralista, que me parece totalmente descabido, o que sucede é que Menezes quis recuperar o terreno perdido para Santana. Necessitando, ou julgando necessitar, dos votos dele na guerra contra Marques Mendes, Menezes cedeu-lhe a liderança do grupo parlamentar, que, como o CDS de Ribeiro e Castro demonstrara, é a mais formidável cidadela armada de quem quiser enfrentar um líder que não é deputado. Logo então quis desvalorizar esse entendimento, mas Santana baptizou-o de "acordo de colaboração institucional" (o que só seria megalómano se os factos não estivessem a dar-lhe cada vez mais razão).
Daí que, a pretexto de uma esdrúxula "modernidade" que parece excitá-los por igual, Menezes tenha concebido uma jogada de recuperação. Mandar em Santana (e nos seus deputados), supostamente através de uma agência profissional, a qual, porém, seria tutelada por Ribau. A ideia, afinal simples, era reafirmar o secretário-geral - até ver, seu homem de confiança - como número dois do partido e cavar uma trincheira entre ele e o líder parlamentar. Talvez ela nem fosse má em si mesma, e quer Ribau quer a agência entusiasmaram-se como adolescentes. Mas Santana viu o lobo. Ele sabe que não é o grupo parlamentar que paga os tais conselhos. E que, para lhe aconselharem gravatas, talvez Mário Soares, mas não Ribau. E, enfim, que entre quem se sujeitou ao voto - qualquer voto - e quem o pretende substituir por saberes que medram à porta fechada, a escolha está feita: deputados, políticos e cidadãos, todos preferem a claridade, por frágil que seja, à obscuridade, onde a manipulação faz o seu ninho. Não tinha que enganar. A Menezes, a Ribau e à agência só restava gerir os cacos e a debandada. Santana sabia, de ciência certa e vida consumida, que, uma vez trazido o caso a público, ele seria vencedor em toda a linha. E foi.
Escusado será dizer que não há aqui qualquer escolha. Menezes e Santana representam, no essencial, o mesmo: um PSD que só pode ter futuro em condições que nem ele, nem o regime podem prever ou controlar; um PSD aventureiro e berlusconiano, com uma ideia vaga das instituições; um partido ressabiado e vingativo para com alguns dos seus que o país respeita; e uma tribo que se galvaniza no propósito de vingar memórias e matar fantasmas exclusivamente seus. Ao amigo que me perguntou se, no caso, eu não "estava com Santana", continuo a dizer: "A cem por cento. O que não tem - nem para mim, quanto mais para os outros... - a mais pequena importância."
«DN» de 27 de Janeiro de 2008

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'Pop-ups' neste blogue - Como os bloquear

De vez em quando, há leitores a queixarem-se de que, quando abrem o blogue, aparecem anúncios (pop-ups). Até agora, e pelo menos no Internet Explorer, o problema tem sido resolvido assim: Ferramentas> Opções da Internet> Privacidade> Bloquear janelas de pop-up> OK, como se pode ver [aqui] e [aqui]. Embora, tanto quanto sei, o problema só surja em alguns computadores, agradeço informações acerca do assunto - nomeadamente se são eficazes as instruções acima indicadas; comigo, foram-no.

26.1.08

'Site-meter' 400.000 a 400.004

O prémio especial correspondente ao site-meter n.º 400.000 será um exemplar do «Livro de Assentos», de Joaquim Letria, autografado e com dedicatória do autor.
Além disso, e como, logo a seguir, seria a vez do habitual prémio site-meter capicua, resolveu-se ligar um ao outro, oferecendo aos quatro leitores que se deparem com os números 400.001 a 400.004 outros tantos livros de autores portugueses: poderão escolher entre obras de Camilo, A. Garrett, Urbano Tavares Rodrigues, Fernando Pessoa, Fernão Mendes Pinto, Antero de Quental, Gil Vicente, Cesário Verde, Eça de Queirós, Trindade Coelho e Raul Brandão.
Quanto ao José Rodrigues dos Santos (que também anda por perto), vai ter de ficar para outra vez...
*
Nesses cinco casos, e para ter direito aos prémios, só será necessário enviar, para sorumbatico@iol.pt (e nas 24h seguintes), os print-screens que mostrem o site-meter - juntamente com a indicação de morada para envio.
Para o 400.000, não haverá escolha. No entanto, para a atribuição dos prémios 400.001 a 400.004, pede-se aos leitores que indiquem, por ordem decrescente de interesse, 4 títulos de entre os listados em comentário a ESTE post.
Actualização (30 Jan 08): os prémios já foram todos reivindicados.

Wonderland

Por Antunes Ferreira
O PORTO RESPIROU, ALIVIADO. E continua a respirar na paz do Senhor. Sossegou. O Porto, cidade, e o Porto PC. Explico, para que não se manifestem dúvidas, solicitando a uns quantos que desafivelem os sorrisos ínvios e insidiosos que já tinham afixado nas respectivas faces. A Soeiro Pereira Gomes ficou muda e queda – impassível. Impossível? Nada. O País, curioso e cusco, interrogou-se através de um enigmático porquê. Com direito a pontos de interrogação e exclamação geminados.
Esse hausto simultaneamente portuense e portista tem uma explicação. Simples. Na terça-feira o futebolista internacional português Ricardo Quaresma renovou até 2011 o contrato com os tripeiros. Tudo em pratos limpos – até ver. O ilustre cidadão de etnia cigana – sem qualquer intuito discriminatório, muito menos xenófobo – declarou-se muito contente com o facto e até aproveitou a ocasião para confessar que existia um carinho mútuo entre si e o clube.
Quaresma que tinha sido assobiado faz hoje oito dias no estádio do Dragão, exigira no final da partida com o Desportivo das Aves o fim desse tipo de apupos sonoros e disse que os adeptos tinham pesadelos com ele. Isso deixou nos espíritos uma dúvida atroz: teria ele avisado da possibilidade de deixar o clube no final da temporada?
Tudo parece ter terminado em bem. Parece, sublinha-se, que nisto dos futebois o que é hoje pelas dez horas da matina é branco, pelo almoço, à uma da tarde, é negro e ao lanche é cinzento. E, muito possivelmente, à janta já é castanho camurça.
Se extrapolar ainda é permitido, deixem que vos diga que já não vou nessas andanças. Um homem, chiça, tem o direito de mudar de opinião. Parafraseando a terminologia do hemiciclo, na generalidade e na especialidade. Com o Orçamento do Estado também assim acontece e – para além de disso não vir mal ao Mundo, na generalidade, para os Portugueses pode ser uma porra, na especialidade.
Não subsistam dúvidas. Nós somos assim, enxertados em corno de cabra, são mais de oitocentos anos acumulados de disse-que-disse-mas-não-disse. Já dizia o romano Sertório, depois de se ter transferido (não é sabido por quanto) para os lusitanos – vá lá entender-se esta gente. Não se governa, nem se deixa governar.
São muitos séculos a blindar tal maneira de ser. De dúvidas estão Portugal e a sua História cheios. De respostas miraculosas, também. Veja-se o caso do malfadado aeroporto. Antes, na Ota. Críticas quase absolutas. Agora em Alcochete. Críticas a roçar igualmente o absoluto.
Os deputados, não contentes com o tema obnóxio, decidiram ouvir o Presidente do LNEC que, em primeira mão, os informou (e igualmente os jornalistas) que entregara o essencial das conclusões do relatório sobre a aerogare muitos dias antes da decisão anunciada por José Sócrates.
Como se já não bastasse andar a Lusitânia inteira a glosar o jamais do Mário Lino – que virou jamé para o pessoal – e a gozar, concomitantemente o impagável ministro, vem agora à colação mais uma falta (há quem diga mentira) em que o Governo se deixou apanhar.
Querem mais? O bacalhau, perdão, o BCP/Millennium com todos, desde o Eng. Gonçalves que foi para o jardim carpir as mágoas, até ao Dr. Constâncio que devia ter feito e não fez, melhor, que o que fez de manhã era bem diferente do que afirmou na antecâmara de um cozido à portuguesa – e por aí fora. Pelo menos Oposição dixit.
E a queima dos resíduos sólidos? E o encerramento das Urgências hospitalares? E as acrobacias do Dr. Menezes e do Dr. Portas? E o punho cerrado (com c, acentuo) do Sr. Jerónimo de Sousa? E o exibicionismo do Dr. Louçã? E o Bragaparques? E o caso Casa Pia? E, e, e?
O Sr. Lewis Caroll – se tivesse atempadamente conhecido este cantinho à beira-mar plantado – poderia muito bem ter colocado aqui a Alice, o Coelho Branco, o Gato Risonho, o Chapeleiro Maluco ou a Rainha de Copas. Esta é, sem dúvida, a Wonderland, e com muita pinta. Bué de fixe, como dizem os meus netos.
Por isso, o episódio da estrela Quaresma teve tanta importância. Ou, mais precisamente, lhe deram tanta importância. Os romanos afirmavam, convictos, que de minimis non curat praetor. Bem enganados estavam. Tantas coisas boas nos deixaram e, neste particular, foi o porta-aviões ao fundo. Por cá, os pretores cada vez mais tratam das coisas menores. E com uma agravante: o Governo, qualquer que seja, é sempre mau, péssimo, por isso vá de o tratar de escacha pessegueiro.
Ainda assim, ninguém lhe apontou o dedo, culpando-o das declarações aparentemente contraditórias de Ricardo Quaresma. Ou da renovação do contrato, assinada pelo Sr. Jorge Nuno. Ou da distância quilométrica que os Dragões já levam sobre os seus perseguidores (?) na Liga.
Ponha-se a pau, Sr. Sócrates. Desta nossa gente, de nós, há que esperar tudo. Um destes dias, mal se precata, e o seu Executivo poderá passar a… Executado. E sem direito a indemnização, por alegada justa causa, muito menos a pensão de reforma... Bem ao contrário do que se passou com o Sr. Teixeira Pinto. Peanuts.

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25.1.08

Pelo menos, dantes...

Considerações diversas
acerca do que é amor pela cidade.
Os casos de Lisboa e do Porto -
pelo menos, como era dantes...
Repare-se nas duas fotos do meio, tiradas com mais de 24horas de intervalo. O saco com lixo foi colocado na berma da rua e os carros foram passando por cima. A cena, que ainda decorre, passa-se num cruzamento da finíssima Av. de Roma, em Lisboa.
Por C. Medina Ribeiro
EMBORA A MINHA VIDA, nas últimas décadas, tenha estado centrada em Lisboa, nem sempre foi assim, e, tendo nascido no Porto, passei lá - no total - não poucos anos. O certo é que tem sido essa rica vivência-dupla que me tem permitido desfrutar de uma compreensão de realidades muito diferentes (como são as sociedades lisboeta e portuense), que facilmente escapam a quem só conhece uma das duas cidades.
Não sei se as considerações que seguidamente faço ainda são totalmente válidas, mas posso garantir-vos que, pelo menos, o eram até há bem poucos anos.
Por exemplo:
Enquanto, em Lisboa, a esmagadora maioria da sua população não nasceu na cidade (nem sequer nos arredores!), a quase totalidade dos habitantes do Porto, ao invés, é nada e criada no burgo ou à vista dele.
Enquanto, em Lisboa, é perfeitamente possível não se saber o nome do vizinho do lado, isso é (era) impensável no Porto.
E por aí fora, numa série de pequenas coisas que fazem com que seja muito diferente o relacionamento entre pessoas, sendo inegável que o sentido de grupo e de entreajuda é muito mais forte entre as do Porto - uma realidade que, tanto quanto sei, ainda se mantém, embora deslizando, com frequência, para um bairrismo exacerbado difícil de aceitar no século XXI.
Inversamente, a falta de amor pela cidade é a regra na capital - tirando algumas zonas restritas que têm e mantêm vida de bairro, mas que são uma excepção cada vez mais submersa numa grande metrópole em que cada um trata de si.
Veja-se como é actual o que, há mais de 100 anos, dizia Trindade Coelho:
-oOo-

Ao autor do melhor comentário que seja feito até às 20h de terça-feira, dia 29, será atribuído um exemplar do livro «Cidade Escaldante», de Chester Himes.

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Actualização 1 (31 Jan 08/20h30m): após a votação pelos leitores, o prémio foi ganho por Daniela, a quem vai ser enviado o prémio (um exemplar do livro «Cidade Escaldante»).

Actualização 2: mesmo depois de terminado o período de votação, os comentários prosseguem: acaba de ser afixado mais um.

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A Quadratura do Circo

Pesadelo
Por Pedro Barroso
RESOLVI. Eu quero ser taxista na Suiça, bancário em Mogadouro, presidente das estradas, hospitais, qualquer coisinha.
Eu explico.
Um estranho sonho anda a assaltar-me, recorrente e infantil. Um sonho em que tenho fome, levanto-me para comer, vou à cozinha, abro o frigorífico e nada se apresenta nas magras e desoladas prateleiras.
Sim, eu sei. A luz fluorescente não ajuda nada a uma imagem de felicidade e aquele pedaço de queijo duro e podre é de há dois meses. Tenho de me lembrar de o deitar fora. Sou um pouco desorganizado, paciência.
Volto para a cama desiludido e faminto, e adormeço sonhando que um dia era tesoureiro na freguesia de Almoster de Cima e uns anos depois, meteoricamente, sou ministro e nada me falta.
Mas quando leio as reformas faraónicas dos Teixeira Pintos e outros, fico a perceber que o engenheiro não é mais, afinal, que um aprendiz mal pago e obediente. Talvez por isso tão maldisposto.
Compreendo. O verdadeiro bolo-rei é doutra pastelaria.
A coisa comigo também acaba sempre mal, pois acordo do sonho e anda a vida no mesmo pesadelo de ontem, nada melhorou. Aí, vou à tasquinha mais perto e peço um prego, mais um, para cravar a vida de ideias.
E sonho acordado, que é o modo mais difícil de sonhar.
Entretanto lembro as reformazitas parcelares acumuladas que também não são más de todo. O país é magnânimo e cavalheiresco.
Então percebo.
O verdadeiro político, ando a aprender, não se mete na política. Mergulha as mãos no q.b. de substância sórdida e matérias inertes, cuida da vida pública apenas o suficiente para poder vir um dia a decorar com dignidade um bom Conselho de Administração. E aspira, no fundo, a uma discreta quebra de visibilidade que lhe dê passagem secreta a um mundo, esse sim, de álacres e prestigiadas funções, almoços sem povo e super-alegres remunerações. Poder a sério é isso.
Torna-se, portanto, no Director convidado do projecto de implementação de Segurança nas barragens; o engenheiro encarregado da Comissão interdisciplinar de averiguação e combate ao buraco de ozono; o gestor do projecto Euclides para a integração do ensino da Matemática nas creches; o Inspector designado para o combate à dermatite piolhosa na região norte e ao vírus da peste suína na região sul; o Presidente da Autoridade nacional de crimes contra o ambiente nos WC públicos; Director do Parque Nacional protector da lagartixa ibérica, etc.
Trabalhos duros, emergentes e urgentes. Cumpridos de uma forma vagamente distante e tranquila. Bem remunerados. Acumulando com o cargo de Administrador de uma qualquer entidade bancária e o de consultor em duas empresas multinacionais de helicicultura.
É natural. São pessoas de influência e boas maneiras.
Há que retribuir serviços tão elevados.
E o meu pesadelo regressa.
Fizemos há trinta e tal anos uma Revolução por menos que isto.
Acordo e digo que não. Adormeço e reconfirmo.
E vejo de novo o frigorífico. Onde raio fui eu buscar o raio do frigidaire? Tenho de voltar a estudar Freud para compreender melhor. Será por estar vazio e ter o pedaço de queijo atrasado e podre?
Não sei interpretar.
Tenho de perguntar ao caixa de Mogadouro.
Não há pesadelos que o aflijam, nem cargos que o assustem, nem amigos que o abandonem.
Ele deve saber como se faz.

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Já está decidido quem venceu o passatempo «ACONTECE...» desta semana - ver [aqui].

24.1.08

Em tempo...

O 'POST' ONTEM [AQUI] COLOCADO, que mostrava três agentes da Polícia Municipal a ajudar uma senhora a estacionar o carro, foi também afixado no blogue «O Carmo e a Trindade» onde um leitor me chamou a atenção para um facto que na altura me escapou (porque presenciei a cena do ângulo oposto):
O lugar em causa destina-se a pessoas com deficiência, pelo que o que até podia ter alguma graça... afinal não tinha nenhuma (se - admitamo-lo... - a senhora em causa fosse deficiente).
*
Evidentemente, se eu tivesse reparado nisso, decerto não teria escrito o post - pelo menos nos termos em que o fiz. E, se ele não tivesse já tantos comentários afixados, até o teria apagado.
No entanto, pode valer a pena aproveitar a oportunidade para matutar em algumas questões interessantes a partir da seguinte afirmação verídica:
«Conheço vários deficientes que conduzem, sendo os casos mais graves um que não tem uma mão e outro a quem falta o braço direito todo. Usam carros adaptados (evidentemente), mas essa adaptação está feita para que possam, para todos os efeitos, guiar como qualquer outro condutor».
Pergunta-se, pois:
Um deficiente a quem é dada a carta de condução estará (ou deveria estar) dispensado de cumprir o Código da Estrada (no todo ou em parte)?
E a renovação, que vai passar a ser mais frequente, como será, em termos de exigência médica?
Deverá ser dada a carta de condução a uma pessoa que não saiba arrumar o carro num espaço extremamente amplo como o que se vê na foto - tenha, ou não, deficiência?
*
Deixo aqui o tema à discussão, estando previsto oferecer um exemplar do livro «Aprender a Viver» (de José António Marina) ao autor do melhor comentário aqui colocado até às 20h da próxima segunda-feira, dia 28.
*
Act. (28 Jan 08/20h15m): foi decidido atribuir o prémio a A. M. Rodrigues, a quem se pede que contacte sorumbatico@iol.pt, indicando morada para envio do mesmo.

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A Cooperativa Devir

Por C. Barroco Esperança
A COOPERATIVA DEVIR estava domiciliada ao fundo da Rua Duque de Loulé, do lado direito de quem desce, perto do Marquês de Pombal. A livraria era a razão visível da actividade do que foi uma escola de quadros políticos de esquerda, com predominância do PCP.
Tal como a Livrelco, em Entrecampos, para o MRPP, uma livraria numa das Avenidas Novas, para o PS, e a SEDES, para os desiludidos da primavera marcelista, a Devir era o instrumento de reflexão e aprendizagem política dos seus associados. Por isso, juntava ao comércio livreiro as conferências semanais a cargo de alguns dos mais respeitados intelectuais da época.
Mais de um ano depois do meu regresso da Guerra Colonial fez-me sócio o Jorge, da Damaia, que chegou primeiro. Havia companheiros do Cineclube Imagem, habituais nas manifestações contra a Guerra Colonial e vítimas das cargas policiais, e muitos outros que mantinham activa a Cooperativa e encorajavam quem não acreditava na eternidade da ditadura. A Devir era, aliás, um centro de recrutamento para as bases da CDE e para o próprio PCP como se tornou claro depois do 25 de Abril.
Os colóquios semanais, creio que às terças-feiras, eram o corolário lógico de conferências admiráveis a cargo de sócios ou convidados, com a sala respectiva sempre a abarrotar para ouvir Lindley Cintra, Pereira de Moura, Hugo Blasco Fernandes, Adelino Gomes, Sottomayor Cardia, Sérgio Ribeiro, José Manuel Tengarrinha, Carlos Carvalhas, Ana Maria Alves, César Oliveira, Urbano Tavares Rodrigues e muitos outros, enquanto se ampliava a certeza firmada nos anos doridos da Guerra Colonial: a iminência da derrota militar e da queda do regime.
A PIDE visitava a Cooperativa e apreciava os livros que, com frequência, levava sem pagar, ao contrário dos sócios. Deixava uma espécie de vale com o nome de «Auto de Apreensão», que o saudoso Vítor Branco logo afixava. Geralmente era pacífica a visita e apenas se lastimava o prejuízo e os livros que não se encontrariam noutro lado. Só uma vez vi os pides, numa das visitas, a perderem a compostura e a vociferarem. Vale a pena contar.
De manhã eu leccionava na escola n.º 44, na Rua da Beneficência, e de tarde exercia, para sobreviver, uma actividade comercial a partir de um escritório na Rua de Entrecampos. Foi aí que uma tarde recebi um telefonema com um lacónico e enigmático «aparece». Com o Metro próximo não tardei a chegar. No local já se encontravam cerca de duas dúzias de sócios, número inusitado durante a tarde, e outros chegaram. Dois pides tinham revistado as várias salas e devassavam já a livraria, tendo na mão folhas de papel de 35 linhas, cheias de nomes seguidos da importância com que cada um contribuíra. Todos conhecíamos aquelas folhas que regularmente assinávamos, com o contributo possível, sob o cabeçalho onde se lia: «Subscrição para apoio às famílias dos presos políticos». Era visível a satisfação dos esbirros, com um deles segurando as folhas que revelavam a rede de solidariedade com as vítimas da repressão fascista.
De repente houve uns encontrões, gerou-se burburinho e ouviram-se gritos de um pide: «quietos, ninguém sai». Um dos esbirros ocupou a porta da livraria e barrou a saída, desvairado por ter deixado surripiar as listas, enquanto o outro mandava levantar os braços e revistava os sócios, constrangido com as mulheres.
Descorçoados, assaz embaraçados para se atreverem a pedir reforços, desistiram das buscas e das listas de solidariedade com os presos políticos, desaparecidas graças a alguém que calou o mérito e a audácia.
Não tardou que o Dr. Afonso Marchueta, o Governador Civil cujos hilariantes discursos rivalizavam em indigência com os de Américo Tomás, mandasse cessar de imediato todas as actividades e proceder apenas à Assembleia-geral liquidatária da Cooperativa Devir, cuja data teria de ser previamente comunicada ao Governo Civil.
Marcada para o dia habitual dos colóquios, foi enviada aos sócios a convocatória com a ordem de trabalhos precedida de um ponto prévio: «Informações».
Na abertura Francisco Pereira de Moura, Presidente da Assembleia-geral, declarou que, dada a presença de dois comissários da PSP na sala, se recusava a presidir sob coacção policial, convidando-os a retirarem-se. Foi-lhe dito por um dos polícias que tinham ordens para permanecer e assim fariam. Pereira de Moura disse que, face às circunstâncias, não saindo a polícia, saía ele e convidava para o substituir na condução dos trabalhos o sócio presente com o número mais baixo. Esgueirou-se rapidamente a Júlia para que o lugar coubesse ao Lino de Carvalho, depois de verificada pelo silêncio a ausência de sócios mais antigos.
Iniciou-se assim um braço de ferro com o Governo Civil. O Lino, com a coragem e inteligência que possuía logo transformou a reunião num colóquio em que condenou a ilegalidade e prepotência do Governo Civil e, chegada a meia-noite, hora limite para qualquer reunião, encerrou os trabalhos informando que prosseguiriam no mesmo dia e à hora habitual na semana seguinte com a mesma ordem de trabalhos a ser retomada no «ponto prévio».
Nessa reunião repetiu-se o cenário anterior e, à meia-noite, por não se ter esgotado o respectivo ponto da ordem do dia, de novo se adiou a continuação da discussão para a semana que viria. Mas, quando os sócios se dirigiam para essa terceira sessão da Assembleia-geral, encontraram o edifício cercado pelos touros da ganadaria do capitão Maltês, designação que a polícia de choque granjeara, apoiados pelos habituais carros com os depósitos atestados de tinta azul para danificar o vestuário e marcar os fugitivos para eventual detenção, assaltaram e vandalizaram a Devir, agrediram sócios e selaram as instalações na eloquente prova do que era a primavera marcelista.
«Jornal do Fundão» de 24 de Janeiro de 2008

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Menezes contra Menezes

Por Pedro Lomba
CONFESSO QUE ANDO PREOCUPADO com Luís Filipe Menezes. Ele não me parece o mesmo. Os sinais de mudança são ténues mas existentes. Tenho a sensação de que Menezes declarou guerra a si mesmo. Menezes quer ser outro, um anti-Menezes, uma figura irreconhecível. Vamos ser simples. Ao fim de alguns meses, a pergunta a fazer sobre Luís Filipe Menezes é a seguinte: está o líder do PSD a fazer o que prometeu, isto é, a preparar com inteligência e originalidade um caminho para 2009, ou a sua liderança não passa até agora de um acto falhado?
A resposta à primeira pergunta podia encontrar-se nos últimos acontecimentos de agitação conspirativa dentro do PSD. À partida, dir-se-ia que Menezes trazia uma nova legitimidade. Percebia o ânimo e o desânimo do militante social-democrata com quem trocou desejos e confidências sobre o futuro. Mas o PSD continua insatisfeito e a congeminar alternativas em segredo. Isso quer dizer que o PSD deixou de querer Menezes? Não. As divisões feudais do PSD são um facto garantido. Qualquer liderança tem de viver com elas. Mesmo que Menezes agora as censure, ele próprio passou os últimos anos a fazer precisamente o mesmo. Onde está então o problema de Menezes? Quando Santana Lopes chegou a primeiro-ministro, lembro-me do momento em que senti que havia qualquer coisa errada na experiência e não era má vontade minha. Foi quando, no Natal de 2004, Santana resolveu discursar na televisão com um par de óculos curtos na ponta do nariz. Enquanto Santana poetizava sobre os feitos do seu Governo recente, eu olhava para os óculos e instintivamente rejeitava tudo o que ele dizia. Aquele não era o Santana Lopes que eu conhecia. Aquele ser que lia com pausa e profundidade era uma ficção.
Luís Filipe Menezes parece interessado em alimentar agora a construção fictícia da sua personalidade política. Notem que não estou a falar de propostas risíveis como aquela que fez para redistribuir os comentadores televisivos em função das fidelidades partidárias. Mas, só para dar um exemplo, esta semana ouvi Menezes criticar os "discursos oásis" de todos os governos e denunciar, cito, "uma obsessão exclusivamente em torno do défice, que viveu às custas do congelamento dos salários dos funcionários públicos e aumento dos impostos, em vez de o fazer pelo crescimento económico". O que é isto? Eu podia antes perguntar como é que Menezes quer promover esse crescimento económico porque ele não o diz. Sucede que é demasiado óbvio que Menezes não sabe o que dizer como líder da oposição. A sua imagem na política portuguesa é a de um revanchista e peronista em versão Vila Nova de Gaia. Ninguém o reconhece na pele de um conhecedor responsável e sofisticado. Sim, eu tenho saudades de Luís Filipe Menezes.
«DN» de 24 de Janeiro de 2008-c.a.a.

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23.1.08

Quatro séculos, seis 'Sermões'

TENDO EM CONTA que este ano se comemora o 400.º aniversário do nascimento do Padre António Vieira, o SORUMBÁTICO oferece aos seus leitores 6 exemplares dos «Sermões».

Dois deles serão para os que enviarem, para sorumbatico@iol.pt, os print-screen do site-meter que exibam os números 393.400 e 394.400.
Os outros 4 serão atribuídos, a partir das 8h00m do dia 6 de Fevereiro (a data do referido aniversário), segundo um critério a indicar oportunamente.


Actualização: os exemplares correspondentes ao 393.400 e ao 394.400 já foram atribuídos e enviados.

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«Não há fome que não dê em fartura» ou «Nem sempre o que parece é»?

MUITO ME TENHO EU QUEIXADO da insuficiência da actuação das autoridades em relação ao estacionamento selvagem, especialmente quando ele é gravoso para peões ou para o escoamento do trânsito em horas de ponta - nomeadamente impedindo a passagem de transportes públicos e de veículos de emergência.
Nesse seguimento, desafiam-se os leitores a adivinhar o que é que esta cena (passada anteontem, na Av. de Roma, em Lisboa) documenta.
Adianta-se já que não é o que parece...
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Actualização: ver novo post sobre este assunto [aqui].

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Os jogos dos acasos

Por Baptista-Bastos
RODRIGO MORREU ÀS 9.40 DE SEXTA-FEIRA, 18, na rua, frente ao Hospital de Anadia. Rodrigo ia fazer três meses. Às 8.40, o pai vira o filho com a cara roxa, sem respirar ou arquejante. Há, em toda esta história o compasso dos atrasos, o assomo aflito de quem deseja ajudar; o pasmo, que é a secreta insígnia de quem se sente impotente para enfrentar a absurda autoridade do mal, e a trágica evidência do infame momento.
O pai do Rodrigo não acusa ninguém, leio no DN. Talvez atribua à má sorte a morte espantosa do seu bebé, conjecturo eu. O pai do Rodrigo é um pai que nunca vai deixar de o ser, embora o filho seja a ausência do estar, e a memória de um sonho feliz. O pai do Rodrigo vai preparar-se, devagar, para o eternamente inesquecível. Ainda não caiu bem em si. Confuso, perplexo, está tão longe estando tão perto. Olha tudo com estranheza e dúvida. E, no entanto, aquela hora medonha, a mediar o prazo entre a vida e a morte, nunca deixará de ser a marca de um sofrimento transformado em sacrifício.
E se alguma coisa tivesse sido diferente porque diferentes eram as circunstâncias? Se, no instante supremo, no instante pequeno, redondo e urgente, a mão da ciência, o auxílio preciso, o diagnóstico vigilante estivessem onde deviam estar? Não há mortes naturais. Todas as mortes são injustas como uma culpa infundada, e inúteis como uma heresia. Mas a morte de um bebé é a mais injusta de todas as mortes. Um bebé que morre não é, apenas, um projecto desfeito, um milagre anulado, um doce peso que se transportou nos braços, uma promessa incumprida e um desejo irrealizado. Um bebé que morre, e que morre assim, é uma acusação lívida, um dedo apontado, uma censura muda, porém terrível.
Acaso não fosse preciso telefonar para o 112, descrever sintomas, aguardar, durante 20 minutos, por uma viatura médica de emergência e reanimação, estacionada nos Covões, em Coimbra; percorrer, com o miúdo ao colo, o troço que vai do local onde a família vive para o sítio onde se encontrava um operador do INEM; assistir aos angustiados esforços da tripulação da ambulância para reanimar o bebé, que seria transportado, em desespero de causa, aos serviços pediátricos de Coimbra - acaso a Urgência do Hospital de Anadia não houvesse sido encerrada, acaso, acaso, acaso as coisas seriam outras. Os acasos funcionam, aqui, como a insensível desconstrução dos laços humanos. Os acasos ilustram, aqui, os malefícios provocados pelo desconhecimento ou pelo desprezo das emoções.
Observo a fotografia do pai sem filho. Se o espanto possui rosto: ei-lo. Se a resignação é o espaço esburacado onde tropeça toda a tristeza do mundo: ei-la.
Choro de Rodrigo. Birra de Rodrigo. Sorriso de Rodrigo - nunca mais.
«DN» de 23 de Janeiro de 2008

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22.1.08

«ACONTECE..» - Passatempo com prémio

Por Carlos Pinto Coelho
Instantâneo colhido numa estação de metropolitano, numa cidade europeia.
O convite é este: Traduza em palavras este diálogo silencioso. O que poderiam estes dois amantes estar a dizer-se um ao outro nesse momento?
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Como habitualmente, o prémio será um livro, desta vez a atribuir ao melhor texto que for escrito até às 18h da próxima sexta-feira, dia 25.
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NOTA: esta fotografia, como todas as outras aqui afixadas em posts com o título genérico «ACONTECE...», é da autoria de CPC.
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Actualização (25 Jan): o prémio sobe de um livro para dois.
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Resultado: Foi decidido atribuir o prémio a "Nanda" e uma Menção Honrosa a "Augite". Pede-se, pois, à primeira que escreva para sorumbatico@iol.pt para que possa ser-lhe enviada a lista de livros disponíveis.

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«O Sonho de Cassandra» - Alguém quer comentar?

ANTES DE MAIS, uma explicação para o título: «O Sonho de Cassandra» é o nome de um simpático barquinho que dois irmãos, com idade para terem juízo mas imaturos, acabam por comprar - o que sucede logo no início do filme. No desenrolar da história, a falta de dinheiro leva ambos a aceitar a execução de um crime por encomenda, praticado a-meias. Como não podia deixar de ser, o que parece fácil acaba por ser complicado, aparecendo o barco, no fim, como peça importante para o remate da história.

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O filme é da autoria de Woody Allen, que deve ser capaz de despachar meia-dúzia como este com uma perna às costas...

O paradoxo do bolinho

Por Nuno Crato
QUANDO UM GRUPO CIVILIZADO DE AMIGOS partilha uns bolinhos de sobremesa, cada um vai tirando um e comendo-o, deixando delicadamente alguns para o comensal que segue. Mas se os bolinhos estiverem muito bons e o apetite for muito, chega o momento em que apenas resta um na travessa.
Delicadamente, um dos amigos corta o bolinho ao meio e tira metade. O segundo não se contém e tira metade de metade. O terceiro avança e tira metade do que sobra. E por aí adiante...
Se tivermos arrojo matemático, podemos imaginar um bolo ideal, infinitamente divisível, e um grupo de amigos com todo o tempo do mundo para continuar a comer metade da parte que resta. No fim dos tempos, será que ainda resta alguma coisa? Ou seja, será que 1/2 + 1/4 + 1/8 + ... é igual à unidade?
Não é difícil ver que a resposta é afirmativa, mas é mais fácil deduzi-lo subtraindo do que somando. Ou seja, é mais fácil ver que o que sobra tende para zero.
Nestas contas, a máquina de calcular é de pobre ajuda. Mas para se convencer dos limites da calculadora tente ainda outra conta. Veja se consegue saber para onde converge esta soma infinita: 1/2 + 1/3 + 1/4 + ...
Uma razoável calculadora programável, ao fim de somar cerca de cem milhões de parcelas fixa-se num valor perto de 18. Por melhor que seja o instrumento de cálculo numérico, a soma estabiliza sempre num valor finito, relativamente pequeno. No entanto, essa série não tem soma, cresce sem limite.
Veja se consegue agrupar os termos de forma a encontrar a expressão equivalente 1 + 1 + 1 + ... Obviamente, a soma não tem limite. Não pode parar em 18. Vá-se lá convencer a calculadora!
«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 19 de Janeiro de 2008

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21.1.08

A minha prima vai casar

«A Liberdade guiando o Povo» - Delacroix
Por Alice Vieira
PERTENÇO AINDA ÀQUELA GERAÇÃO para quem a França não era um país como os outros. “A França”, repetia-me o meu tio Joaquim, “é a terra da cultura”.
A França era Joana d’Arc, os Luíses todos, Napoleão, De Gaulle, as bibicletas e as boinas da Resistência, “le temps des cerises” na voz de Montand, e as palavras de Aragon na voz de Monique Morelli, mas também Piaf, Gréco, Barbara, Aznavour, Bécaud, Ferre.
A França era Balzac, Proust, Gide, Valéry, Éluard.
A França era o país com mais portugueses depois de Portugal.
A França era o lugar que acolhia aqueles que a ditadura perseguia.
A França era Paris, o Arco do Triunfo, o cheiro dos castanheiros no Boulevard Saint Michel, a rua íngreme diante da Sorbonne onde eu vivi, os cadernos que eu comprava na Gibert Jeune e que nunca encontrei em mais lado nenhum, as velhas do Jardim do Luxemburgo, Maio de 68, Sartre, Beauvoir, a liberdade.
A França ainda foi, para o bem e para o mal, Mitterrand.
Depois tudo esmoreceu. As grandes causas diluíram-se, os grandes homens desapareceram, a terra da cultura é agora a Internet, e a França tornou-se num país como os outros.
E confesso que, para mim, a canção francesa e a literatura francesa também tinham parado mais ou menos por essa altura.
Por isso quando, há cerca de quatro anos, eu trabalhava em Bordéus num projecto do departamento de Cultura e Educação, para refrescar um pouco a minha cultura pedi a dois amigos franceses que me dessem um CD daquilo que eles considerassem o melhor que então por lá havia.
Sem saberem um do outro, ambos me deixaram no colo o CD da Carla Bruni.
Olhei para a capa, ela estiraçada no chão sobre a guitarra a lembrar o seu passado recente de modelo, e não me convenci lá muito.
Mas quando cheguei a casa e pus o CD a tocar — pronto, confesso, durante muito tempo não ouvi outra coisa, e barafustei muito por ele ainda não se vender por cá (chegaria um ano depois!) e por ninguém acreditar em mim quando eu defendia a ex-modelo.
Porque ela não apenas canta (e já seria bom…) com aquela magnífica voz rouca de quem acabou neste preciso momento de sair da cama - como ainda por cima é ela quem escreve a música e as letras de todas as canções.
Desde esse momento, portanto, a Carla Bruni é da minha família.
Por isso, quando de repente a vejo romper das páginas de todos os jornais e revistas abraçada a Nicolas Sarkozy é assim como se, a bem dizer, o Presidente da França fosse casar (já terá casado?) com uma prima minha. E não tenho dúvida de que o Eliseu ficará muito mais animado se ela andar pelos corredores, agarrada à viola e a sussurrar “il faudrait que tout le monde réclame / auprés des autorités…” Antes essa do que a outra em que ela confessa adorar que lhe murmurem ao ouvido as três sílabas do nome de Raphael… Mas como Nicolas também tem três sílabas, pode ser que a cantiga consiga ser adaptada às circunstâncias. A minha prima é moça para isso e muito mais.
«JN» de 20 de Janeiro de 2008

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Os Trapalhões

Por António Barreto
OLHE-SE EM VOLTA. Parece reinar a confusão legislativa e executiva. Criando a desordem e o medo, as leis da segurança alimentar deixaram o país num caos autoritário absurdo e irracional. Por todo o lado se tenta rever as leis recentemente aprovadas e repensar os métodos acabados de idealizar. A lei do tabaco lançou a confusão: de pronto, abriram-se excepções para os casinos. Depois, vieram os restaurantes nos centros comerciais, os cafés dentro dos casinos, as cafetarias dentro dos estádios ao ar livre, os casinos dentro dos centros comerciais... Já se pensa em rever, repensar e abrir novas excepções. Na saúde, o fecho de maternidades, centros de saúde e serviços de urgência ou de atendimento permanente deixou umas dezenas de comunidades em crise, autarquias e partidos à deriva, pensa-se em excepções, recua-se, volta-se a atacar. Os sistemas de vínculo à função pública criaram nova desordem, foi necessária a intervenção do Presidente da República e do Tribunal Constitucional, os magistrados viram a sua situação revista, os procuradores também, talvez não se fique por aqui. O aeroporto foi o que sabemos, um caso para a antologia da incompetência, mas ainda nem sequer a decisão deixou de ser “preliminar” e “prévia”, que já começou a discussão sobre o atravessamento do Tejo e a localização exacta da nova ponte. O que vai mexer com os comboios e o metropolitano da margem esquerda, estando para já tudo em causa. Em Lisboa, o Parque Mayer, o Jardim Botânico, os jardins e edifícios da Politécnica, assim como os terrenos da antiga Feira Popular, continuam a sua jornada de degradação em adiamento, de processo judicial em caso político. No Terreiro do Paço, apesar da abertura das estações de metropolitano, as obras estão longe de acabar, a desordem, o desperdício e os custos dos últimos sete anos estão para durar. Na educação, não há decisão definitiva, muito menos estudada e ponderada, sobre qualquer matéria: os programas, os sistemas de avaliação, a contagem das faltas e as causas dos chumbos são só alguns dos temas em oscilação. Na segurança social, o episódio risível do escalonamento dos aumentos de meia dúzia de cêntimos foi mais um exemplo. Na justiça, o rol nunca mais acaba, incluindo as querelas entre as polícias, os sarilhos das investigações no Porto e os infindáveis processos. Nos casos do BCP, da Caixa, dos favores a administradores bancários e dos off shores aparentemente ilegais, a supervisão bancária e financeira deixou muito a desejar. Este é o catálogo. Que peca por defeito. Porquê isto?
HABITUÁMO-NOS A PROCURAR SEMPRE as razões profundas que explicam os fenómenos políticos e sobretudo as decisões. Em particular, as razões sociais e económicas. Aprova-se uma lei e a pergunta surge logo: quem ganha? Cria-se uma instituição e o imediato reflexo consiste em saber quem é nomeado e quem foram os beneficiados. Tomam-se medidas importantes ou aparentemente simples e é sinal de saúde mental procurar quem está por trás: laboratórios médicos? Construtores de obras públicas? Vendedores de cimento, cobre, carvão ou petróleo? Fecham-se escolas, centros de saúde e dependências administrativas e é quase obrigação investigar a fim de descobrir quais foram as autarquias, os profissionais e as empresas que perderam e as que ganharam, sem esquecer os partidos mais influentes em cada sector ou localidade. É bom que se faça este exercício, única maneira de conhecer os verdadeiros motivos da política e de não nos deixarmos enganar pela melodia gasta do interesse público.
ALÉM DESTAS CAUSAS DIRECTAS E SINGULARES, mais propriamente designadas por interesses legítimos ou ilegítimos, há também razões de ordem geral. Poder-se-á, por exemplo, dizer que, nos dias que correm, um dos principais motivos que levam a fazer leis e tomar decisões é o de poupar dinheiro. Verdade. Mas só até certo ponto. A escolha do pretexto para poupar, em concreto, nesta escola, naquela maternidade, numa ponte ou na outra estrada, já traz consigo mais informações sobre as preferências. Além de que este motivo, indiscriminado, é deveras incompetente: cortar a eito sempre conduziu a decisões erradas e a correcções dolorosas. Em sentido contrário, também se deve ter em conta que uma das mais importantes causas para decidir e legislar é a de gastar dinheiro. Gastar muito dinheiro. Como dizia há dias, na televisão, Miguel Beleza, a OTA é muito melhor porque é mais cara. Com isso, ocupa-se gente (o que não é o mesmo que criar emprego), pagam-se favores e cultiva-se uma imagem de energia.
A VERDADE É QUE O CLIMA DE TRAPALHICE se torna cada vez mais evidente. As políticas são erráticas. As correcções sucedem-se. As adendas e rectificações aos decretos-leis repetem-se. Com a publicação de uma nova lei logo surgem problemas e dúvidas, geralmente legítimos e fundados. Será isto só de hoje? Não. Seria injusto considerar Sócrates e o seu governo como únicos autores e principais responsáveis desta nova realidade que é a dos trapalhões no poder. Na verdade, a tendência é antiga. Há já três ou quatro governos e outras tantas legislaturas que o fenómeno vem tomando corpo. Sócrates, o seu governo e o seu partido são apenas os actuais, os últimos e os que mais fizeram para consolidar a tendência para a trapalhice. Serão estúpidos? Não creio. Ignorantes? É possível. Inexperientes? Bastante. Auto-suficientes? Muito.
GOVERNAM PARA A TELEVISÃO. Fazem legislação para as sondagens. Tomam medidas para mostrar trabalho feito. São peritos em encenação. Vivem obcecados com a propaganda. Anunciam a ideia, anunciam o projecto, anunciam a correcção, anunciam a revisão, anunciam o concurso, anunciam a adjudicação, anunciam a decisão prévia, anunciam a nova correcção, anunciam a primeira inauguração, anunciam a segunda inauguração... As suas decisões servem para afirmar autoridade, sem que o seu conteúdo ou a sua bondade tenham qualquer relevo. Fazem obra para criar emprego, satisfazer os amigos, colocar os correligionários e gastar dinheiro. Como disse o bastonário da Ordem dos Engenheiros, Fernando Santo, o governo tem cada vez menos capacidade técnica e científica para preparar e tomar decisões. Os ministros confiam nos amigos, no partido e nas empresas complacentes e desprezam as opiniões técnicas e independentes. Os directores-gerais e os presidentes de institutos têm de ser de confiança política, também eles trabalham para as eleições. E o Parlamento? Poderá perguntar-se. Esse vive em sabática de competência. E em jejum de qualificações. Só nos resta acreditar no aforismo: quem governa pela propaganda, pela propaganda morre.
«Retrato da Semana» - «Público» de 20 de Janeiro de 2008

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