31.10.08

Os ratos a comer o queijo

Por Alfredo Barroso
HÁ POUCOS DIAS, no acto público de lançamento de um livro sobre «A corrupção e os portugueses» (da autoria de dois professores do ISCTE, Luís de Sousa e João Triães) a procuradora-geral adjunta Maria José Morgado (autora do prefácio) afirmou que não existe uma estratégia de combate à corrupção em Portugal e defendeu a criação de um sistema integrado de prevenção deste fenómeno, designadamente a constituição de uma base de dados única, sem o que não será possível tornar mais eficaz o combate à corrupção, de modo a permitir «apanhar o rato enquanto come o queijo».
A metáfora não podia ser mais oportuna, tendo em vista o surpreendente «lapso» que terá sido cometido por alguém, ainda não identificado, que decidiu introduzir na proposta de Orçamento de Estado para 2009 uma alteração à lei de financiamento dos partidos, que tornaria outra vez possível os donativos privados em dinheiro vivo, e não apenas, como agora sucede, através de cheques ou transferências bancárias.
A marosca foi detectada pelo Diário Económico, mas o certo é que, até agora, ainda não foi possível identificar o rato que queria comer o queijo. Para grande espanto do estimável público, nem o primeiro-ministro nem o ministro das Finanças, principais responsáveis pela proposta de OE, conseguiram descobrir quem foi o ‘safardana’ que, segundo eles, cometeu este mero ‘lapso’ comendo-lhes ‘as papas na cabeça’.
Curiosamente, também há poucos dias, o presidente da Entidade das Contas e Financiamentos Políticos, Miguel Fernandes, admitiu publicamente que este organismo não tem capacidade para controlar a corrupção associada aos donativos, acrescentando que só a alteração da legislação em vigor permitiria uma fiscalização eficaz das contas dos partidos. Queixume que caiu no ‘saco roto’ do inevitável dr. Vitalino Canas, porta-voz do PS, que mandou Miguel Fernandes ‘bugiar’, reclamando dele «maior eficácia, menos queixas e mais trabalho» – para gáudio dos ratos que comem o queijo.
Como isto anda tudo ligado, convém salientar que a directora do Departamento Central de Investigação e Acção Penal, Cândida Almeida, também alertou, há poucos dias, para o regresso da corrupção «à moda de Al Capone», recordando as «prendas» que o famoso gangster de Chicago oferecia aos agentes da autoridade, e afirmando que «faltou coragem», na recente reforma penal, para combater a corrupção. Em suma: podem os ratos estar descansados que ninguém vai apanhá-los a comer o queijo.
NOTA: Esta e outras crónicas do autor estão no seu blogue Traço Grosso.

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3 Comments:

Blogger Fernando Sosa said...

Como se já não bastasse o inadmissível "lapso" no OE, Vitalino Canas ainda vem com frases infelizes.
E o povo fica a ver, como vai ficar na altura de votar: a abstenção promete ser ainda maior do que nas últimas legislativas. Ou então estou redondamente enganado.

31 de outubro de 2008 às 18:17  
Blogger Sepúlveda said...

Então, anda o nosso PM a publicitar o Magalhães e rapidamente se descobre que não é computador minimamente pioneiro naquilo que é o seu desígnio!?
Que tangas!!
E anda na cimeira x a apregoar a maravilha do Magalhães (que é único, somos nós levados a crer pelo PM)) e a oferecer uma molhada deles. Quem será que paga?
Isto não estava no OE 2008.

31 de outubro de 2008 às 21:22  
Blogger Táxi Pluvioso said...

Quando terminaram as ideologias de esquerda radical, (maoismos, trotskismos, leninismos), os utentes ficaram inconsoláveis, sem porto para arrimar, sem ideias para nortear o pensamento, mas eis que leram nos economistas dos anos 80 a corrupção. Oh! Alegria. Oh! Felicidade. Já há algo que falar nos cafés e na TV. Vamos ser chamados e ouvidos. Alvíssaras! Alvíssaras! Pedem os marinheiros da gávea.

1 de novembro de 2008 às 06:30  

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