20.4.08

O povo é sereno

Por Nuno Brederode Santos
AINDA A NOITE SE PERFILAVA para as suas rotinas na cidade, quando ouvi, na TSF, a notícia da demissão de Menezes. Depois, pela SIC-Notícias, soube do teor da sua declaração e assisti às considerações egocêntrico-testamentárias que ele houve por bem produzir, algures em Sintra, num desses ágapes de carne assada com que os partidos costumam sulcar a viscosa modorra da História. Logo depois, começaram os telefonemas: eram amigos meus, validados pela serenidade dos anos, mas contagiados pela ansiedade e pela incerteza.
De facto, já então tudo indicava tratar-se de uma manobra de reforço da posição de Menezes. Uma coisa do tipo Colombey-les-Deux-Églises, na proporção De Gaulle – Chico Fininho. Desde a lógica da pequena política até aos acrobáticos precedentes da biografia do protagonista. Desde o sorriso maroto de Ribau Esteves, à calma, muito “business-oriented”, de Marco António Costa ou à serena determinação com que Patinha Antão afundou as caravelas e cortou as pontes com todos os futuros do mundo. Mas sobretudo a marcação do prazo de 24 de Maio, que só dá aos adversários o tempo de se revelarem aos atiradores furtivos de serviço, e não o de se prepararem, num pequeno mundo de incerteza regulamentar e em que os aparelhos autárquicos - namorados pelo líder até ao delírio durante os últimos seis meses e inacessíveis a quem o contestar – substituem com vantagem o aparelho partidário central.
Só que estes indícios valem o que valem, quando aplicados ao comportamento político de Menezes. Não tanto por ele ser, como declarou no dia seguinte, “uma das pessoas politicamente melhor preparadas da minha [dele] geração” (felizmente que já não é a minha e ainda não é a dos meus filhos), mas pela singela razão de que não há qualquer prazo de validade para as suas palavras. E, por isso mesmo, quando entrevistado por Mário Crespo, o prazo já não era 24 de Maio, mas aquele em que os candidatos acordassem. (Provavelmente, na altura própria, como haverá sempre um candidato – seja ele próprio, seja por ele apoiado – que é beneficiado por tal prazo, não chegará a haver um “acordo” sobre uma data alternativa).
Por isso, o que aos amigos recomendo é que contemplem tudo isto com distância cultural. Como quem arrasta os vagares do olhar pela tela da Mona Lisa. Se, magicamente, a senhora fizer esgares ou esbracejar, é montar-lhe a cilada da paciência e deixá-la poisar. Os séculos põem serenidade em tudo, a começar por nós. Os meus amigos já não têm idade para andarem a pagar com ansiedades juvenis as áleas da imprevisibilidade alheia (ou da Criação em geral). Em especial, quando o objecto da sua observação cultiva o “happening”e o improviso, regados com o adequado foguetório. Ele gosta de desencadear e não cura dos desenlaces. Se estes correrem mal, chora-se a vítima. E, se ele próprio, Menezes, ainda não sabe quantas perdizes vão saltar da moita que varejou, porque havemos nós de andar a fecundar as úlceras que a natureza já nos deve?
Seja como for, a cena é esta. Se, como Menezes quer, a oposição interna se der ao luxo de várias candidaturas, ele - ou alguém que ele apoie, mesmo tendo já esclarecido amavelmente que “será sempre uma segunda escolha” – estará meio caminho andado para que o “já cheira a poder” destes seis meses se acentue e torne fétido. E, aqui, Passos Coelho corre o risco enorme (e esse, sim, surpreendente) de a dividir e tornar-se herdeiro. Mas duvido muito da ideia de fazer saltar os “verdadeiros mandantes” da contestação interna. A renitente Manuela Ferreira Leite colocaria ao partido e a um Cavaco ainda em primeiro mandato uma situação de melindre e embaraço permanentes. Marcelo optou demasiado recentemente por sacrificar o futuro do grupo parlamentar e levar Menezes ao martirológio das urnas. Tem mais sentido que apareça alguém ungido por eles. Alguém capaz do sacrifício de arriscar ganhar o partido, civilizá-lo durante um ano e tal e levá-lo às urnas com listas apresentáveis, que deixem para a próxima legislatura um grupo parlamentar de qualidade. Alguém como Aguiar-Branco, se possível com mais mundo e menos Foz. Alguém com a plena consciência de que vai entrar na zona da emboscada – mesmo que póstuma – de Menezes. Em suma, alguém.
Mas observemos em casa, da poltrona. Não vai ser nada que, para o bem ou para o mal, vá já mudar as nossas vidas.
«DN» de 20 Abr 08

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1 Comments:

Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Talvez porque acho que não se deve brincar com os nomes das pessoas, confesso que não me soa bem ouvir dizer que o P. P. Coelho vai fazer de lebre.

20 de abril de 2008 às 13:27  

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