31.8.07

Nos primórdios do "Red Bull"...

Do blogue-arquivo «Humor Antigo», Anos de 1930 e 1932
(Clicar nas imagens para as ampliar e ler as legendas)

Os elbonianos e a blogosfera

Por C. Medina Ribeiro

A PRINCIPAL PREOCUPAÇÃO de quem escreve crónicas ou artigos de opinião é (ou deveria ser...) a clareza, para que não haja dúvidas sobre o que diz ou quer dizer. No entanto, para ser bem sucedido, tem de ter em atenção o expectável universo dos seus leitores, pois o mesmo texto poderá não ter a mesma receptividade (e compreensão) por parte dos do «Jornal de Letras» e dos que só lêem jornais desportivos.
A blogosfera, porém, tornou de pouca valia tais cuidados, pois qualquer pessoa pode aceder a qualquer texto - o que, em si mesmo não teria mal nenhum se não se desse o caso de, por vezes, dar origem a mal-entendidos desagradáveis. Face a isso, há, frequentemente, a tentação de nivelar por baixo a qualidade dos textos (procurando uma espécie de máximo divisor comum...) embora em detrimento dessa mesma - pretendida... - qualidade literária.
Seja como for, haverá sempre os casos perdidos, pois é frequente um autor escrever alhos (recorrendo à linguagem mais chã) e vir alguém, com fúria extrema, esgrimir contra bugalhos. E a experiência mostra que de pouco adiantará argumentar com esse alguém, pois, se não percebeu o texto inicial, dificilmente entenderá os argumentos em sua defesa.
Por sinal, já em 1996 Scott Adams abordou esse problema, pondo na boca de um dos elbonianos (personagens imbecis que criou para esse e outros efeitos...) uma frase que ficou famosa:
«Escrever é fácil. Um dia esperamos também saber ler».

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A SURPRESA DA VELHICE

ENTROU NO HOTEL com passo firme, sem ser apressado, porque sabia que estava adiantado ainda uns minutos. Atravessou o lobby e foi à tabacaria, comprou um maço de cigarros, espreitou os títulos dos jornais estrangeiros do próprio dia, acabados de chegar, leu-os mais em pormenor com aquela estranheza de sempre. «Por que razão o que acontece no mundo e diz respeito a todos não acontece em Portugal, ou porque é que os jornalistas portugueses entendem que nada tem que ver connosco?». Efectivamente, nenhum dos jornais portugueses falava, em primeira página, daquilo que os seus congéneres de outras capitais, à mesma hora e no mesmo continente, entendiam que podia dizer respeito aos seus leitores.
Acabou por comprar a edição de Zurique do Herald Tribune e foi sentar-se numa poltrona do átrio do hotel, tendo o cuidado de escolher a que ficava de frente para os elevadores de modo a que pudesse ver e ser visto, com facilidade, quando o seu filho saísse de mais uma sessão de squash.
Combinara encontrar-se ali com o filho e levá-lo a jantar, de modo a que pudessem com tranquilidade, como dois bons amigos, conversar da vida em geral e da vida de cada um, de filmes e de exposições, de livros, de touros e de futebol, de aulas, de profissões e do primeiro emprego. No fim de contas, uma conversa normal entre dois homens amigos, um nos quarenta e outro nos dezoito, com muito de comum entre si, para além do facto de serem pai e filho.
Começou por ler a primeira página, e depois a última, e reparou que passavam quinze minutos sobre a hora combinada. Antes de abrir o jornal, conferiu o seu relógio de pulso com o do hotel, cujo mostrador ficava sobre as portas dos elevadores. Foi nesse instante que reparou na rapariga.
Era loira, bem lançada, tinha as pernas bronzeadas e os olhos verdes. E sem dúvida que tinha um belo sorriso, porque não havia hipótese de se enganar quando teve a certeza que era para ele que ela sorria.
Retribuiu, abriu desajeitadamente o jornal e procurou a página das histórias aos quadradinhos. Por cima da margem superior do jornal, meio centímetro apenas, para não ser notado, procurou a figura delicada e saudável, simpática e despretensiosa que lhe sorrira momentos antes.
E quando os olhos lhe acertaram, zás - ali estava de novo o sorriso, simpático, simples, comunicativo, um «olá» de quem gostaria de conversar.
Mergulhou numa sucessão de rápidos pensamentos sobre o que, na surdina cerebral em que cada um fala consigo próprio, classificava genericamente, de «porca de vida».
Porquê, interrogava-se, haveria de ter uma sorte daquelas logo na noite em que esperava o filho, para o levar a jantar, no hotel em cujo ginásio jogava squash com colegas e amigos? «Porca de vida» era a interjeição que, sem explicar nada, lhe dava a resignação para o azar em que aquela sorte, dadas as circunstâncias, se transformava. Aquele maldito sorriso convidativo era o pior que lhe poderia acontecer para acabar um dia como aquele.
Assaltou-o um pensamento maldoso. Poderia, talvez, avançar, ir ter com a jovem, convidá-Ia a sair, deixar um recado na recepção com uma desculpa para o filho. Mas receou ser apanhado em pleno acto de sedução pelo rapaz, ainda com o cabelo molhado do duche, saco e raqueta na mão. Portanto, resignou-se a continuar a esperar. Mas antes de voltar ao jornal atirou-Ihe de volta com mais um sorriso, que era um misto do «tenha paciência» que se dá aos pobres e de «que quer você que eu faça?».
Leu duas notícias, acendeu mais um cigarro, voltou a olhar para o seu próprio relógio e para o do hotel e começou a impacientar-se - passavam quase vinte e cinco minutos da hora combinada com o filho para se encontrarem e irem jantar.
Olhou à sua volta, observou, noutro jogo de sofás, uns suecos que conversavam, um casal de velhos americanos, ele com umas calças de fortes quadrados vermelhos, seguiu com os olhos o groom que levava um nome num quadro preto de alguém que era chamado ao telefone e, sem mais para onde olhar, acabou por fixar a jovem.
Esta não lia, olhava ao redor, mais com um ar de disponibilidade do que propriamente com o aspecto de quem espera alguém. Tinha uma linda linha de pescoço, com o cabelo apanhado num elegante carrapito, tinha um corpo flexível onde nada estava a mais nem a menos, tinha as pernas mais lindas que vira nos últimos tempos e, sobretudo, tinha aquele sorriso luminoso que o encandeava novamente. Voltou a retribuir o sorriso, pouco resignado.
Poderia voltar mais tarde, pensou então, depois de se despedir do filho, gratificar o boy ou o recepcionista para que lhe dissessem em que quarto a poderia encontrar, que nome tinha, quando se ia embora. Achava que esta seria a melhor solução. Faria isso!
Foi nessa altura que as pernas bronzeadas se destraçaram, aquele corpo se desenrolou e aquele sorriso de holofote se começou a mexer na sua direcção.
Baixou o jornal sobre os joelhos e ficou num misto de êxtase, quer olhando o animal, meio pantera meio gazela, a caminhar para si, quer olhando o elevador de onde a qualquer momento o filho poderia sair.
- Olá - disse o sorriso que também tinha voz.
- Olá - respondeu, sem encontrar nada para dizer.
- Olhe, eu sei que você é o pai do Pedro. Quando ele vier, diga-lhe que a Susana esteve aqui e que o espera onde ele sabe, depois de vocês jantarem. Ciao.
Não respondeu. Ficou-se a vê-la sair pela porta giratória, com a sensação de ter sido atropelado pela fanfarra a cavalo da Guarda Republicana.
- Desculpa lá o atraso - disse-lhe o filho poucos minutos depois.
- Estás com uma cara esquisita, que é que tens?
- Nada, não tenho nada. Estava só a pensar que a velhice nos apanha, de facto, de surpresa.
E lá foram jantar à pressa, porque, a seguir, o filho tinha muito que fazer.
Lisboa, 1987

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Gráficos de dois dos site-meters deste blogue, correspondendo os "picos", quase sempre, aos dias em que há passatempos. Como ontem houve dois...
Os valores são diferentes porque o da esquerda conta das 8h às 8h, enquanto o da direita conta das 0h às 0h.

30.8.07

Homens de pouca fé...

A propósito da Ota, do TGV, das SCUT, etc., não falta por aí quem se coloque, sempre e incondicionalmente, ao lado de Mário Lino.
Então como é que se comprende que, ao fim de mais de 72 horas, continue sem aparecer um único leitor que aceite uma aposta - de uma almoçarada de lagosta - a propósito de uma das mais anunciadas promessas dele?! [v. aqui].

Clicar na imagem, para a aumentar
-oOo-
O vencedor deste passatempo foi Pedro Oliveira, que deu a resposta certa no comentário das 16h13m no blogue DE RERUM NATURA.

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O VETO DO PRESIDENTE

Por Pedro Lomba
O VETO DO PRESIDENTE à nova lei de responsabilidade extracontratual do Estado deu uma discreta notícia na imprensa. Quase ninguém comentou o gesto. Não faltarão aqueles que, arrumando o assunto, vão ver aqui mais um exemplo da "nova fase" das relações entre Sócrates e Cavaco. Cada um especula como quer. E, no entanto, este veto do Presidente foi até agora talvez o acto mais ilustrativo do seu mandato. Foi também um veto em que o Presidente mostrou infelizmente o seu conservadorismo numa matéria tão essencial como é a responsabilidade civil do Estado.
E sabem porquê? Porque a lei que Cavaco Silva vetou tem a ver connosco, com as nossas garantias contra a arbitrariedade e o desleixo dos poderes públicos. Que o Presidente se tenha oposto a uma lei que anda desde o Governo Guterres para ser aprovada e que agora o foi por unanimidade, é um facto importante e, julgo, sem precedentes. Mas nem isso pesa tanto como o facto de que a lei a que o Presidente disse não se destina a aumentar a protecção dos cidadãos contra acções danosas do Estado. O argumento do Presidente é que ela amplia em excesso as situações em que os particulares podem pedir a sua responsabilidade e, a partir daí, entre outras objecções, aconselhou os deputados a repensarem os seus efeitos numa altura em que o Estado precisa de conter as finanças públicas e há reformas da justiça em curso.
Vou poupar os leitores a detalhes jurídicos aborrecidos. Mas é preciso dizer o seguinte: a lei em vigor em matéria de responsabilidade do Estado data de 1967 e, apesar dos seus méritos, pertence ao contexto de um Estado autoritário em que a responsabilidade era a excepção e não a regra. 40 anos depois, o que mudou? Mudou a Constituição, que aponta para uma responsabilidade abrangente do poder. Mudou o Estado, que passou a intervir onde não intervinha. Mudou a Administração e a sua cultura tradicionalmente tolerante, com o erro funcional e individual. Mudou a justiça, que lentamente se foi confrontando com um mundo de permanente litigiosidade e ao qual ainda não se habituou. E, claro, chegou o dever de nos aproximarmos da Europa.
Só não mudou mesmo a lei de responsabilidade civil do Estado, que permanece insuficiente para proteger uma pessoa de um vasto conjunto de situações de arbítrio. Os imperdoáveis atrasos judiciais pelos quais batemos recordes de condenação no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem ou o famoso caso Aquaparque são exemplos que a lei actual não contempla como devia. O Presidente teme as indemnizações que o Estado seria forçado a pagar com esta nova lei. Quer se queira ou não, o Estado que administra, julga ou legisla mal terá sempre de pagar o que jamais pagou até aqui. Nenhum argumento "financeiro", por mais sério que seja, pode valer contra isso.
«DN» de 30 de Agosto de 2007 -[PH]

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Blogue-arquivo «Humor Antigo»
Ano de 1923

25 ª HORA

COM O APROXIMAR DE SETEMBRO, vai morrendo a febre alta dos festivais de música que animam tantos lugarejos de Portugal, pondo-os no mapa.
Interessante o prestígio, os nomes sonantes que atraem, o público que entusiasmam e o êxito que aumentam, de ano para ano, assegurando a continuidade de um espaço que grande parte da juventude identifica com uma liberdade de comportamentos raramente comparável a outros tempos e lugares.
Mas para além da música que celebram e da festa que proporcionam, estes são festivais da transgressão.
A transgressão vem do tempo da ditadura e é saudável. Muita da transgressão de hoje também volta a ser outra vez saudável, por contraposição à mentalidade quadrada do governo de serviço.
Mas um festival de música não pode ser um festival de droga, por muito que isto custe aos senhoritos que lucram com a compra e venda do pó e dos comprimidos. Se assim querem que continue a ser, com overdoses fatais e tudo, apesar do bom trabalho da GNR nos acessos, lancem, ao menos, no perímetro do recinto, a ASAE, em mais uma boa acção, como aquela das bolas-de-berlim nas praias...
«24 horas»

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29.8.07

«ACONTECE...»

Passatempo com prémio
Por Carlos Pinto Coelho
Janela de madeira, característica do país. Nem lhe falta a cortina em "crochet", tipo de bordado tradicional muito apreciado por naturais e turistas. Pergunta-se: de que país se trata?
As respostas, a dar em "Comentário", só serão tidas em conta quando afixadas depois das 12h00m de amanhã, dia 30 de Agosto.
NOTA: Esta fotografia, como todas as outras aqui afixadas em posts com o título genérico «ACONTECE...», é da autoria de CPC.
-oOo-
O passatempo foi ganho por Rui Palma, que deu a resposta certa no comentário afixado às 15h02m

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AS ZARAGATAS NO PSD

Por Baptista-Bastos
A ZARAGATA NO PSD não é de agora. É de nascença. Acentuou-se com a ascensão ao Poder do dr. Cavaco. A ausência de doutrina, de projecto, de ideologia, notoriamente exibida pelo economista, foi substituída pela disposição de retirar importância à política e promover a tecnocracia como fórmula salvadora de todos os males. A rigidez, o autoritarismo e a flagrante carência de cultura humanística ajudaram a criar o postiço institucional que ressaltou para um povo afogado em iliteracia, propenso a crer em milagres e a entregar o destino próprio em mãos alheias.
Cronistas da época engendraram uma metáfora feroz: o homem era um eucalipto: secava tudo em redor. Houve, também, quem percebesse que o dr. Cavaco estava para ficar, dado o homem e as circunstâncias. As abjurações partidárias, as capitulações morais arregimentaram aqueles que, no fundo, sempre estiveram à venda. E as perseguições, o culto da amnésia histórica, o vazio no debate constituem indicações reveladoras da época.
Até hoje. O PSD vive de derivas e de espaços em branco enraizados na sua própria origem. Sá Carneiro compreendeu essa malformação inicial e tentou emendá-la. Entre a confiança estóica e a reserva céptica, admitiu o verosímil. Alguns dos seus livros são esclarecedores, sobretudo Por uma Social-Democracia e Poder Civil, Autoridade Democrática e Social-Democracia. E, ainda há dias, no semanário Sol, Ângelo Correia, um dos que, neste país, sabe pensar sem querer agradar ao príncipe, dizia, num lúcido resumo: "A maior parte das pessoas de que falamos, hoje, como elite do partido [PSD], não são 'barões', são uma espuma dos notáveis, são pessoas que, só por si, não arrastam qualquer espécie de voto."
O PSD sempre foi o que é: fragmentos esparsos de representações que nunca chegaram a moldar-se numa ideologia, apesar dos esforços de Sá Carneiro. E qual era, verdadeiramente, a ideologia de Sá Carneiro? Um demoliberal na antiga tradição republicana e um republicano inclinado a eliminar os desnivelamentos, sem estar muito afastado do povo nem demasiado próximo dele. Bom: quer se queira ou não, Luís Marques Mendes e Luís Filipe Menezes representam duas das múltiplas faces daquele partido.
No momento: A morte de Eduardo Prado Coelho deu origem ao usual choro das carpideiras. A banalidade dos artigos publicados não esteve à altura do autor de Teses de Abril, título omitido nas bibliografias. Duas ressalvas: a crónica de Rui Tavares (que, contra o pensamento dominante, lembrou Natália Correia e António José Saraiva, entre outros), e o texto do blogue http/retrato-auto.blogspot.com, ambos admiráveis, e inseridos anteontem [dia 27] no Público.
«DN» de 29 de Agosto de 2007

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28.8.07

Passatempo com prémio


Como já sucedeu recentemente, este passatempo sobre invenções antigas decorre simultaneamente nos blogues DE RERUM NATURA e SORUMBÁTICO, e durará até às 24h do próximo dia 31, sexta-feira.
Trata-se de ver qual é o primeiro leitor capaz de identificar a invenção que a gravura documenta - uma geringonça de finais do século XIX que aqui se vê "arrumada para transporte".
As respostas deverão ser dadas em "Comentário" (podendo sê-lo em qualquer dos dois blogues), mas - atenção! - só serão válidas as que forem afixadas depois das 12h00m (inclusive) do dia 30 de Agosto de 2007. A hora considerada será a que aparecer indicada no "Comentário".
O prémio será um par de livros (de ficção científica e policiais), a escolher pelo vencedor de entre os constantes de uma lista que lhe será enviada.
Finalmente, a solução será aqui divulgada recorrendo a uma outra gravura, onde se poderá ver a gloriosa maquineta em funcionamento.
-oOo-
O vencedor deste passatempo foi Pedro Oliveira, que deu a resposta certa no comentário das 16h13m no
blogue DE RERUM NATURA.

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Tratadores que são um tratado

Por C. Medina Ribeiro
«QUEM JÁ VISITOU a biblioteca do Palácio das Galveias, em Lisboa, talvez conheça uma simpática salinha com quatro mesas e dezasseis cadeiras onde poderá ler inúmeros jornais e revistas - não só os do próprio dia, mas também os anteriores.
Sucede que essa divisão tem duas grandes portas envidraçadas que dão para um jardim muito acolhedor onde, além dos pombos, dos pavões e das frondosas árvores, há umas mesas (com as respectivas cadeiras) e uns confortáveis bancos que estão mesmo a pedir que os utilizem.
Ora, no passado dia 12 de Junho (véspera de Santo António, em que Lisboa abrasava de calor), passei por lá. Entrei, e fiquei satisfeito por ver que essas tais portas estavam entreabertas, permitindo-me aceder às sombras convidativas que me chamavam do outro lado.
Peguei na minha revista favorita, mas - falha imperdoável! - esqueci-me de que estava em Portugal: nem dois minutos haviam passado, e já um diligente segurança me convidava a desandar dali para fora, esclarecendo (a pedido...) que as portas estavam abertas apenas «para arejar».
No dia 19 de Julho, outro dia de grande calor, voltei lá. Desta vez, as portas não estavam apenas entreabertas mas sim escancaradas - só que, pelo que me explicaram, ainda não tinha chegado a autorização para se aceder ao jardim - o que, segundo fiquei a saber, costuma suceder a 15 de Julho.
Voltei lá, então, no passado dia 3 de Agosto - mas apenas para me deparar com a mesma situação. A única diferença foi que, dessa vez, fiquei a saber que o assunto já está a ser tratado.
De qualquer forma, já não tenho grandes esperanças de que o assunto seja tratado em tempo útil, pois o mais certo é que os tratadores de tão magno problema andem ocupados a tratar de outras coisas (como os programas de incentivo à leitura, por exemplo) - e o tempo, apesar de os dias agora serem grandes, também não dá para tudo».
*
O QUE ACIMA SE LÊ é o teor de uma carta minha publicada no "Público/Local-Lisboa" em 8 de Agosto de 2006. Poucos dias depois, uma senhora responsável respondeu, no mesmo local:
Dava-me razão, e explicava que o que impedia o acesso aos jardins era o facto de ser possível que alguém roubasse publicações da Biblioteca, passando-as pelas janelas que dão para a(s) rua(s). No entanto
- adiantava -, o assunto já estava a ser tratado, pelo que, em breve, o jardim abriria ao público.
*
HOJE (mais de um ano depois, portanto), voltei lá, só para ver se o assunto já estava tratado.
Será mesmo preciso dizer o resto?

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Ao contrário das últimas aqui afixadas, esta anedota não é de 1923 mas sim de 1928. A excepção foi motivada pelo post anterior...

PASSEIO ALEATÓRIO

As esferas de Constância
Por Nuno Crato
QUEM VISITA a bela vila de Constância, onde o fim-de-semana passado se realizou uma animada Astrofesta, detém-se habitualmente pelas margens do Zêzere e dá uma volta pelas velhas ruas em torno do largo principal. Tem aí um pelourinho com uma esfera armilar. Infelizmente, tal como habitualmente acontece, esta está mal montada — os círculos polares desapareceram e a faixa do zodíaco está exageradamente inclinada. Quem não deveria gostar seria Camões, que viveu por perto e não fez erros de astronomia no seu poema maior.
Mais acima, saindo da vila, encontram-se sinais para o Centro Ciência Viva, que está completamente dedicado aos astros. Recebe-nos uma bela estátua de José Coelho, onde se evoca a máquina do mundo que o poeta descreveu com perfeição n’ Os Lusíadas.
Entrando no Centro vê-se um parque onde, entre outros instrumentos educativos, está uma gigantesca esfera armilar — esta sim com os círculos correctamente traçados. E inclinada de tal forma que o seu eixo principal, que representa o prolongamento do eixo da Terra, está paralelo a esse eixo. Quem nela entrar perceberá que a esfera armilar é um instrumento astronómico que regista o movimento aparente dos astros. No centro pode ver-se o Sol movendo-se ao longo do dia, paralelamente ao círculo do equador. E de noite a estrela polar no enfiamento do eixo. Ou outras estrelas, movendo-se também em arcos em planos perpendiculares ao eixo. É preciso um pouco de paciência para deixar as horas passar. Mas paciência é fácil ter nas noites quentes e estreladas.
Quem falhou a festa, tem uma em Redondo, dias 7 a 9 de Setembro. E um Verão ainda cheio de actividades astronómicas.
Adaptado do «Expresso» de 25 de Agosto de 2007

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27.8.07

Vamos almoçar, Mário Lino?

Por C. Medina Ribeiro
QUANDO FOI ANUNCIADO que certas auto-estradas sem portagens (as SCUT) iam passar a tê-las, houve grande discussão sobre o assunto: uns relembraram os discursos de Sócrates a dizer o contrário, outros acharam muito bem - mas aqui, no Sorumbático, deu-se mais realce ao aspecto prático do problema:
Como só há três formas de pagar as portagens (antes, durante ou depois), perguntava-se:
COMO É QUE "A COISA" VAI FUNCIONAR SEM PRAÇAS DE PORTAGEM (tudo electrónico e automático) - como Mário Lino garante que vai ser?
Entretanto, ele já adiantou que três dessas auto-estradas estarão com esses sistemas a funcionar até ao fim de 2007 - e até fala em chips a montar nas matrículas dos carros.

Seja como for, em vez de discutir o assunto (o que pode ser cansativo), desta vez aposto (o que pode ser proveitoso):
E aposto, com o primeiro leitor que aceite o desafio, que até às 24h do dia 31 de Dezembro de 2007 não haverá uma única dessas auto-estradas com as portagens a funcionar em pleno (*) na modalidade anunciada.
O prémio da aposta será uma grande almoçarada, a ter lugar em Lisboa (ou arredores) em Janeiro de 2008, em restaurante a escolher por quem a ganhar.
-
(*) Para excluir períodos experimentais, protótipos, entradas em serviço de apenas alguns troços ou acessos, etc.
-oOo-
Actualização: este assunto foi retomado em post do dia 10 de Outubro de 2007 [v. aqui]

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Passatempo com prémio - Solução

(Clicar na imagem para a ampliar)

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UMA HISTÓRIA DE MONSTROS

Por Alice Vieira
NOS TEMPOS PRÉ-HISTÓRICOS em que andei no liceu Filipa de Lencastre, tive uma professora de Física, chamada Adelaide Graça, que nos tratava a todas por “monstros”. “Ó meu monstro, então tu não vês que isso é um disparate?” “Anda cá, meu monstro, que fizeste um óptimo trabalho!”
Às vezes levava o requinte ao ponto de nos dar leves palmadas nas mãos com o ponteiro. E o que nós gostávamos dela! E como aquele "monstro” nos aquecia o coração! E como aquele ponteiro sobre os nossos dedos era a mais doce das festas!
Quando lhe cabia a missão de vigiar exames ou de fazer orais, lá vinha o “monstro” para nos fazer sentir à vontade: "vá lá, meus monstros, que só têm mais um quarto de hora!”, “ó meu monstro, eu sei que tu sabes, ora pensa lá bem!”. E aquilo era o suficiente para nos tranquilizar.
E o exame corria muito melhor.
Pensei hoje muito na minha velha professora ao ler no jornal as indicações precisas e rigorosas que o Gabinete de Avaliação Educacional do Ministério da Educação dá aos professores que vão vigiar os testes de aferição a Português e Matemática dos 4.º e 6.º anos e que, como se sabe, não servem para nada.
Então parece que os pobres professores têm de se colocar diante das criancinhas e lerem (o documento diz que não devem decorar as palavras mas sim lê-las) uma mensagem que o ME preparou, e que vai ao ponto de estabelecer até a saudação final, a saber, “podem sair e obrigado pela vossa colaboração.” (Espero, ao menos, que se se tratar de uma professora, ela tenha a liberdade de poder dizer “obrigada” em vez de “obrigado”).
Nem uma palavrinha de conforto, nem uma graça, nada.
O professor será uma máquina a que nem sequer é necessário meter moeda para debitar um discurso standardizado.
Palavra que não sei se hei-de rir até às lágrimas, se hei-de chorar até ficar de olhos inchados.
E morro de pena destas crianças tratadas tão friamente, como se não fossem mais do que números que hão-de servir depois para estatísticas, que por sua vez hão-de servir depois não sei para quê. Para avaliar professores? Para avaliar programas? Como dizia há muitos anos uma personagem de telenovela brasileira, “mistéééério”!
Cada vez me convenço mais que o que faz falta às nossas crianças são vozes a chamarem-lhes, afectuosamente, “monstros” – em vez desta linguagem asséptica, tecnocrática, politicamente correctíssima, mas incapaz de chegar onde é preciso.
Mas se calhar o mal vem de as pessoas que escrevem estas coisas nunca terem tido uma professora como a Dra. Adelaide Graça.
De quem, à distância de meio século, ainda sinto muitas saudades.
«JN» de 27 de Maio de 2007

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26.8.07

Passatempo com prémio

Pergunta: qual é a actividade profissional que está a ser desempenhada pela senhora que se vê na imagem?
Só serão válidas as respostas dadas depois das 12h00m de segunda-feira, 27 de Agosto. Para efeitos de "hora", valerá a que aparecer indicada no "Comentário". Em caso de dúvida, será premiada a resposta que mais se aproximar da que consta no texto original que acompanha esta gravura (e que, seguidamente, será aqui afixado).
O prémio será uma obra de ficção científica, à escolha do vencedor entre as seguintes quatro, da colecção ARGONAUTA: «O Poço de Chiuan» (2 vol.) (C.J.Cherryh); «A Companhia de Phule» (2 vol.) (R. Asprin); «Uma Nova Esperança em Pern» (2 vol. ficção científica) (Anne McCaffrey); «Os Renegados de Pern» (2 vol.) (idem).
-oOo-
O passatempo foi ganho por "bananóide".
A imagem-resposta está dada no post das 12h19m.

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HERÓIS DO MILHO

Por Nuno Brederode Santos
SOBRE A HORA LIMITE de escrever, cai a notícia da morte de um amigo: Eduardo Prado Coelho. Não fomos íntimos, nem convivemos muito. Depois do 25 de Abril, andámos por sítios diferentes, entre amigos diferentes, e, se como ele notou um dia, "a gente lá se vai encontrando, mesmo que seja uma vez por ano", também tive a oportunidade de o reencontrar, com alguma assiduidade, na Convenção da Esquerda Democrática, promovida pelo PS, e na Lisboa 94, pelo "lado" da Câmara Municipal (de resto, foi também durante as recentes eleições em Lisboa que o vi pela última vez). Mas houve entre nós a cumplicidade dos coetâneos. Quando me iniciei a colaborar em jornais, era tudo a brincar, mas não para mim, que tinha 14 anos. Foi no Diário de Lisboa, no suplemento juvenil, e o Eduardo, que devia ter 15, era já o "veterano" dos colaboradores. Encontrámo-nos então pela primeira vez (creio que no café "Monte Carlo"). Fomo-nos vendo, a espaços. Quando, mais tarde, nos cruzámos na Universidade, notava-se essa cumplicidade que prescinde das intimidades e dos convívios intensivos, essa piscadela de olho a que a morte agora pôs termo.
Daí que os temas sobre os quais pensara escrever se tenham tornado irrisórios e efémeros (provavelmente tão irrisórios e efémeros quanto, de qualquer modo, me iriam parecer se sobre eles deixasse transcorrer uma semana). Mas, acima de tudo, passo a encará-los com muito menos paciência, como se aos factos, antes de ocorrerem, cumprisse a previsão daquela morte e o recato que eu acho ser-lhe devida. Não o penso assim, mas sinto-o assim. E dou a mim mesmo esse desconto.
Na Herdade da Lameira, em Silves, um garrido bando de irresponsáveis destruiu deliberadamente uma plantação alheia. Incapazes de Woodstock ou querendo fazer Porto Alegre ao pé da porta, terão talvez almejado só fazer das férias uma aventura. Um Kerouac On the road, sedentário e preguiçoso. E, já agora, uma biografia política a preço de saldos. Por isso, mascararam-se para a impunidade e confiaram numa glória sem risco. Para meu espanto, invocou-se uma "ordem moral, democrática e ambiental", Thoreau e a desobediência civil e quis-se ver ainda, no pequeno vandalismo, um épico desafio à Monsanto e a todas as multinacionais. Não foi uma cavalgada de Átila: cinco hunos no dorso de outros tantos burros teriam causado o mesmo dano em menos tempo. Mas a escassez noticiosa de Agosto acabou por corresponder da melhor forma às ambições dos intervenientes (entre os quais, muitos "jovens" com o dobro da idade requerida para a responsabilidade criminal). A comunicação social agigantou o episódio e os partidos recriminaram-se entre si. Antecipou-se um banco dos réus por onde passaram a GNR, por alegada insuficiência de efectivos, Miguel Portas, por uns eflúvios quase milenaristas de que depois se retractou, e o ministro da Agricultura, suspeito de roubar um nicho de mercado aos advogados. O primeiro-ministro foi intimado a tomar posição por líderes da oposição que não se deixam intimar pelos seus adversários internos.
Feita que está a festa do debate democrático - que, na origem, foi pensado para coisas mais sérias -, era bom que deixássemos cair as hipérboles e nos entregássemos ao comezinho essencial. Houve uns senhores que destruíram, consciente e voluntariamente, o património de um outro senhor. Parece que ninguém duvida que o facto envolve responsabilidades. Criminal e civil. Proceda-se em conformidade. O tribunal, esse, é pago para ter de ouvir o Thoreau e a "ordem moral, democrática e ambiental". Nós não. Guarde-se, pois, para a sala de audiências o comício, patético e trapalhão. Depois, se os jornais quiserem fazer o favor de nos informar acerca do que o tribunal decidiu, a gente agradece. Se não ocorrer prescrição e ainda nos pudermos lembrar dos factos a que a sentença se refere.
A vida em democracia (e o Estado de direito que a organiza) quer-se rica, não complicada.
«DN» de 26 de Agosto de 2007

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«Humor Antigo» - Ano de 1923; clicar na imagem para a ampliar

25.8.07

Os profissionais da banhada

Por Lucas de Salimaso
NÃO, O TÍTULO DESTE TEXTO nada tem a ver com os políticos do nosso país. Hoje o tema desta crónica blasfema é a tradição secular de uma localidade em Esposende, com o nome de São Bartolomeu do Mar. Devo previamente informar que respeito todas as formas de crença e convicções religiosas.
Os “banhos santos” foram cumpridos pelos populares durante o dia ontem, 24 de Agosto, dia de São Bartolomeu. Das raízes antropológicas de tal tradição cultural e religiosa pouco sei, apenas que remonta ao Séc. XVII. Com todo o respeito que as crenças dos outros me merecem, não deixa de me espantar que no Séc. XXI se acredite ainda que mergulhar uma criança em água bastante fria (porque assim foi este ano), forçando-a mesmo que não queira, possa curar a epilepsia, entre outras maleitas menos graves. Bem sei que a fé move montanhas, e com isso me ficaria, indiferente a este acto, porque os desígnios da fé só Deus os conhece. Mas os contornos da cerimónia vão mais longe. Não encontrarão nem nos escritos bíblicos (incluindo os apócrifos), nem nos dogmas católicos, razão para o que vos vai ainda ser descrito.
Afiança (aqui) o padre António Frankelin Neiva Soares à Agência Ecclesia que, para curar as mais diversas doenças, os banhos devem ser em número ímpar, “pois o número ímpar está ligado ao masculino e ao mais forte”. Quer isto dizer (digo eu) que o masculino é forte e o feminino é fraco. Pois sim, estamos bem, se o padre pensa assim. Calculo que a sua mãe (do padre), que o pôs ao mundo, fosse então fraca e o seu pai fosse forte. Claro que quem suportou as dores foi ela, mas o forte era ele, o pai, por ser masculino.
Continuando, que o ritual não está completo ainda. Implica que se dê ainda umas quantas voltas à igreja da freguesia (creio que em número também ímpar, porque é masculino, forte). E tem que se passar por baixo do andor. Mas não se passa por baixo do andor de uma maneira qualquer, tem que ser com uma galinha preta debaixo do braço: o misticismo pagão e a religião de mãos dadas.
Quais vendilhões do templo no tempo de Jesus, há profissionais da banhada, perdão, pessoas que dão banhos às crianças, por apenas cinco euritos, para quem não quer ou não pode levar os seus próprios filhitos ao “banho santo”. E quem tem galinhas pretas nos dias de hoje? Sim, porque não basta ir ao hipermercado comprar um franguito de cuvete que supostamente foi preto em tempo de vida. Tem que ser uma galinha com penas bem pretas e bem vivinha. Mas tudo se resolve, porque por uns módicos sete euros e meio pode agora cumprir essa secular tradição que cura as doenças das crianças.
Quem disse que os portugueses não têm espírito empreendedor?
Valha-nos São Bartolomeu do Mar!

UM BURACO NO CALENDÁRIO - Parte II

Por Carlos Fiolhais
(Cont.)
A HISTÓRIA, em forma de ficção-verdade (um romance histórico, que tem laivos de verdade), encontra-se muito bem contada num livro escrito por um físico teórico, Abner Shimony, que é professor emérito da Universidade de Boston e que se tem interessado por questões de história e filosofia da ciência. Na ficção, o herói é um rapazinho, Tibaldo de seu nome, que faria 12 anos precisamente a 10 de Outubro de 1582. Calcule-se a inquietação do rapaz quando soube que não ia poder fazer anos, que não ia ter direito a festa de aniversário e a bolo de anos. Inteligente e aplicado na escola, Tibaldo logo engendrou uma maneira de resolver a questão. Sabendo que o papa Gregório ia visitar a sua escola e que ia haver uma apresentação dos alunos da escola a sua santidade, empenhou-se de modo a que o papa reparasse nele. E chegaram mesmo à fala. Bem... não vale a pena contar aqui o resto da escola, pois o leitor interessado pode sempre consultar o livro que saiu na editora Replicação.
Shimony num prefácio especial para a edição portuguesa, intitulado “Lembranças de Portugal”, relata a visita da sua família a Portugal onde conheceu o tradutor João Leão e o físico João Andrade e Silva, da Universidade de Lisboa. O livro não o diz, mas há uma ligação portuguesa à história da mudança do calendário juliano para o calendário gregoriano. Acontece que um dos sábios mais importantes que integrou a douta comissão que estabeleceu a mudança de calendário foi o alemão Cristóvão Clavius, um padre jesuíta natural da Baviera (na figura, como um verdadeiro bávaro, era uma figura avantajada!) que estudou na Universidade de Coimbra, antes de ir servir o papa em Roma. Nessa altura e como se vê, a universidade coimbrã já desfrutava de uma reputação europeia, pois até conseguia atrair alunos alemães. Recorde-se que estamos em pleno século XVI, na época em que Pedro Nunes foi professor em Coimbra (Pedro Nunes nasceu em 1502 e morreu em 1578, pouco antes de a independência portuguesa ser perdida nas areias de Alcácer Quibir, por uma ideia tresloucada do jovem D. Sebastião). Clavius faz hoje parte dos livros de história da ciência (há quem diga que foi ele o introdutor da notação decimal, isto é, a vírgula a intercalar algarismos, numa tabela de senos que preparou). O papel dele só não é maior na história da ciência porque, colocado entre Copérnico e Galileu, continuou a professar as ideias geocêntricas de Ptolomeu, contrariando, tal como a igreja oficial, as ideias novas de Copérnico, que foram depois alicerçadas pelas observações de Galileu.
O calendário gregoriano, preparado por Clavius e aprovado por Gregório, é hoje praticamente universal. Demorou algum tempo a ser aceite. Se o papa tivesse feito a reforma do calendário alguns anos antes o alcance da mudança teria sido imediatamente muito maior. Mas entretanto tinha havido a reforma da igreja (note-se, de passagem, que Lutero tratou pior Copérnico do que a igreja romana). Assim, só em 1752 a Inglaterra e as suas colónias na América do Norte aceitaram o novo calendário (o buraco inglês teve de ser de onze dias e não de dez, porque o tempo tinha avançado). A Alemanha protestante fez o mesmo de forma completa só em 1755, o ano do terramoto em Lisboa. O Japão em 1873. A Rússia em 1918, depois da sua revolução. Finalmente, a China só aceitou o calendário gregoriano em 1949, na época de Mao Tse Tung. O calendário só não é universal porque a Igreja Ortodoxa Oriental tem votado a rejeição do calendário gregoriano, conservando o anterior.
O calendário gregoriano manteve-se e alargou-se mas será eterno? Esta é uma pergunta a que só o tempo poderá responder...
-
LIVROS PARA SABER MAIS: -Abner Shimony, “Tibaldo e o Buraco no Calendário”, Replicação, Lisboa, 2001. A editora Replicação, que editou este livro muito interessante (tem desenhos ao estilo renascentista, feitos pelo filho do autor, e um posfácio sobre “Mais e melhor Astronomia”, com uma resenha de alguns factos científicos), publicou uma colecção de livros de ciência com outros títulos de semelhante interesse.
- David Ewing Duncan, “The Calender”, Fouth Estate, London, 1999. O longo subtítulo elucida: “A luta de 5000 anos para alinhar o relógio com os céus – e o que aconteceu aos dez dias desaparecidos”. Este livro é talvez o mais completo sobre a questão do calendário, muito oportuna na data de saída do livro (vésperas do fim do milénio). Foi um “best-seller” que ainda não encontrou tradução portuguesa. Mas leia-se no original, para saber tudo sobre calendários.

«DE RERUM NATURA», 17 de Agosto de 2007-[PH]

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Intervalo publicitário

UM BURACO NO CALENDÁRIO - Parte I

Por Carlos Fiolhais

ESTAMOS TÃO HABITUADOS a considerar o tempo como contínuo (semelhante a um rio que corre sempre, sem nunca se interromper) que a noção de buraco no tempo nos aparece como algo estranha. Mas houve, de facto, um “buraco no tempo” no século XVI. Bem, não que o tempo se tenha interrompido, tendo parado de fluir (com as pessoas, por exemplo, a deixar de envelhecer).
O que aconteceu foi um pouco mais prosaico, mas, apesar de tudo, muito raro: o calendário foi ajustado, tendo-lhe sido retirado dez dias, a saber de 5 a 14 de Outubro de 1582. Estes dias simplesmente não existiram, pelo que ao dia 4 de Outubro de 1582 sucedeu o dia 15 de Outubro do mesmo ano. Uma vez que a mudança foi determinada por uma bula papal, ela aconteceu por toda a Europa católica, sob a influência do papa, e, portanto, também em Portugal. Deve ter sido muito confuso...
Por que carga de água houve que mudar o calendário? O calendário em vigor na altura datava do tempo do líder romano Júlio César e estava manifestamente em desacordo com as observações astronómicas. É o céu que rege a marcação do nosso tempo na Terra. Ao olharmos os astros mais à nossa volta, verificamos regularidades segundo as quais construímos o calendário. Assim, o ano tem por origem o tempo que a Terra demora a dar uma volta completa em torno do Sol. O mês é aproximadamente o tempo que a Lua a dar uma volta completa em torno da Terra. Uma semana é aproximadamente o tempo que demora cada fase da Lua (quarto crescente, lua cheia, quarto minguante e lua nova). Um dia é o tempo que a Terra demorar a dar uma volta completa em torno do seu eixo. Se, por acaso, vivêssemos à volta de uma outra estrela e tivéssemos um outro satélite natural, as nossas unidades de tempo seriam naturalmente diferentes.
Ora acontece que o ano não contém exactamente 365 dias, isto é o tempo de translação da Terra não é um múltiplo inteiro do seu tempo de rotação. É por isso que possuímos anos bissextos, com um dia a mais no final de Fevereiro de quatro em quatro anos. Mas mesmo esse truque não chega para resolver o problema, pelo que alguns anos que deviam ser bissextos não o são, fazendo-se assim um outro pequeno ajuste do calendário à astronomia. O calendário juliano tinha desajustes (o calendário de Júlio César), pelo que a certa altura houve mesmo que o alterar. O papa Gregório XIII nomeou uma comissão de peritos para o aconselhar na mudança. Reunido o consenso dos especialistas, foi finalmente redigida a bula que “eclipsou” alguns dias do mês de Outubro. Escolheu-se Outubro, porque haveria nessa altura menos festividades religiosas: seria, por exemplo, um desconsolo para os crentes subtrair dias associados a santos importantes.
(Continua)
«DE RERUM NATURA», 17 de Agosto de 2007-[PH]

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«O novo Museu das Janelas Verdes»

NOTA: Esta imagem foi aqui afixada provisoriamente enquanto não vai ilustrar um "post" sobre o assunto.

24.8.07

Blogue-arquivo «Humor Antigo» - Ano de 1923

A QUADRATURA DO CIRCO

O corpo perfeito
Por Pedro Barroso
É A ÉPOCA do corpo bem feito.
Há muito que a fisicidade desceu à cidade e à sociedade, mas é sobretudo na estação da nudez maior que o pânico nos invade pelo estranho e perverso impacto que o invólucro de nossas descuidadas pessoas pode provocar.
Sabemos que se trata apenas do pacote que nos limita, nada mais que pele, olhos, cabelo, expressão, mas todos sabemos que é sempre esse visual que de nós emana que se constitui no halo determinante, a imagem ingrata que os outros de nós fixam e comentam.
É sabido que sou gordo.
Curiosamente, além de atleta, fui já, até - em tempos de outra existência e função - entendida autoridade na anatomia, exercitação geral, fisiologia do esforço, combustão celular, esforço aeróbico e anaeróbico, técnicas de controlo psicossomático, esquemas de trabalho, musculação geral e focalizada, velocidade e resistência, treino desportivo especializado, modalidades várias, técnicas e tácticas vencedoras.
Hoje sou simplesmente gordo.
Obeso como se diz eufemista e educadamente.
Não gosto, mas paciência.
Porém tergiverso, como de costume. Uma lástima.
Como é óbvio, não aceito conselhos, nem criticas sobre excessos passados. Não discuto agora nem dietas, nem êxitos de sedução, nem míticos conceitos de corpo ideal.
Vivi demasiado para o momento, fruto da época vivida e convivida, desatento e selvagem. O que sou hoje é o fruto de excessos sem nome, genética, de generosidade e libações várias.
Coisas do corpo e da alma. Coisas da liberdade. Coisas.
Pago agora a factura externa e compreendo - por isso e por tudo o anteriormente exposto - todos os lados da peripécia dramática que se torna a busca do corpo perfeito para a época certa.
- Achas que estou bem? Posso ir assim? Não me fica melhor este? - Perguntas da estação.
- Ainda não estou pronta! Nem penses que eu vou vestir isso! Topless?! – Exclamações normais.
- Estas calças já não me servem. O fato do ano passado encolheu. Estou careca. – Constatações simples...
E é ver as famílias, reunidas num qualquer pacote de Verão, usando bermudas descaídas, barrigas descaídas, peitos descaídos, costumes descaídos, até crianças descaídas.
Não me apetece aprofundar o assunto muito mais.
De facto é matéria ligeira, fruta da estação.
Não dá para discorrer demais, nem para fazer figura na Science and Health Magazine.
Mas sempre constato que a relação humana se tornou baseada nos factores físicos da atracção e nas medidas generosas ou moderadas, conformes aos locais e sítios físicos onde supostamente devem ser. Se é suposto ser gordo no Hawai e magro na Europa; se é suposto ter o peito opulento e o nariz discreto; se é suposto gostar do outro pela sua altura ou pela cor dos olhos; se o aumento ou diminuição artificial de seios ou outras zonas a gosto é que conduz à felicidade; se é suposto que a marca das sandálias determina a elegância e o charme; se a marca de tudo em geral o que se veste é que nos faz ou não gostar de alguém, nesse caso ninguém fica prejudicado no jogo das vaidades. Se forem esses os valores, não há que reclamar depois dos resultados.
E não tenhamos ilusões. Somos todos influenciáveis. Todos invejamos o perfil ideal.
De facto, todos aspiramos à tal espantosa e inalcançável perfeição.
Somos todos diferentes, mas todos iguais.
Todos vãos e frívolos quando chega a altura.
Contudo - aos alguns de nós que há muito desistimos já de tão nobre e remota busca - resta uma felicidade; uma vingança; uma verificação inexorável:
- Um dia todos esses corpos esplêndidos e perfeitos terão varizes e rugas. Papos e tornozelos inchados. Todos eles um dia ficarão de cera e cabelo grisalho. Usarão bengala. Dentadura. Eventualmente fralda.
Nessa altura, todos os que basearam a sua atracção nos factores externos de atracção, há muito terão percebido o erro em que viveram.
E apenas aquela suave e bonita memória de uma mão na nossa, uma mão que reconhecemos num segundo de cor, terá significado. E ficaremos falando e amando para lá de nós, da beleza e do tempo. Para lá da injustiça prematura do envelhecer. E saberemos sorrir de nossas memórias e peripécias. De Verões e Invernos passados e vividos em amor e aconchego. E seremos lindos, creio.
Importante mesmo é ser pessoa.
Há uma canção qualquer, salvo erro, que diz isso.

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A propósito do último Passatempo «ACONTECE...»

Por Carlos Pinto Coelho

NO SEGUIMENTO da interessante e animadíssima conversa suscitada pela minha foto de New Orleans, que foi objecto do último Passatempo, aqui fica um esclarecimento a quem se interrogava sobre a respectiva data: fi-la exactamente em 19 de Janeiro de 1991.
Na véspera tinha começado a primeira Guerra do Golfo, com bombardeamentos ao Iraque. E por isso fiz nesse mesmo dia a fotografia que aqui se mostra, e que tirei a pouca distância da rua que foi objecto do Passatempo.

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«O jogo dos 3 cowboys» - Um problema de probabilidades

Nota prévia (CMR): Este post, aqui afixado em 14 de Maio de 2008, está fora da sua ordem cronológica, mas foi a forma arranjada para afixar um problema (e respectiva solução) proposto pelo leitor Luís Benito em comentário à crónica de Nuno Crato «Paradoxos das probabilidades»:
-oOo-
Quando li o interessante artigo de Nuno Crato lembrei-me de outro curioso problema relacionado com o tema. O problema é muito antigo e foi publicado por Martin Gardner no Scientific American, em 1938.
Trata-se do jogo dos 3 cowboys.
3 atiradores de habilidade diferente, a que chamaremos A,B e C, defrontam-se num combate de pistola, posicionando-se nos vértices de um triângulo equilátero. Mas este jogo tem a particularidade que cada um atira à vez, e não ao mesmo tempo ou quando quer. Cada atirador pode escolher o seu alvo (ou atirar para o ar se quiser).
Contudo, sabemos que o atirador A quando atira acerta sempre (tem 100% de precisão no tiro). O B é muito bom mas só atinge o alvo em 80% dos casos; e o C é tanso e só acerta em 50 por cento.
O problema consiste em encontrar a melhor estratégia de cada atirador e, considerando que cada um usa a melhor estratégia, determinar quais as possibilidades de sobrevivência de cada cowboy.

É curioso que paradoxalmente não é o melhor atirador que tem mais hipótese de sobreviver, mas sim o tanso C, porque as melhores estratégias dos adversários passam por primeiramente se eliminarem um ao outro.
Aqui fica o desafio para os leitores do Sorumbático.
*
A resposta ao problema é de alguma forma surpreendente. É o atirador C que tem mais probabilidades de sobreviver. As melhores estratégias de A e B são tentarem eliminar o mais depressa possível o adversário mais perigoso. Assim A deve tentar eliminar primeiro B e este deve eliminar A. Quanto ao C, tanto faz que no primeiro tiro ele dispare para o ar ou para um dos adversários. Só entra realmente em jogo quando A ou B matarem B ou A. O problema é mais facilmente entendido recorrendo a uma árvore do jogo (ver figura). Foram retirados os “ramos” desnecessários com as piores estratégias de C. Como já foi afirmado podemos até pensar que se C dispara primeiro, pode fazê-lo para o ar. O cálculo deve considerar apenas os ramos que reflectem as melhores estratégias. Portanto no primeiro ramo A dispara para B e elimina-o. Depois dispara C. Se C elimina A (50%) o ramo da árvore termina. Se não, então A no passo seguinte mata C. E os restantes caminhos são ilustrados pelos outros ramos da árvore. Possibilidade de sobrevivência de A: para o primeiro caminho = ½ x 1 x ½ x 1 = ¼ , para o segundo caminho = ½ x 1/5 x 1 x ½ x 1 = 1/20 , ¼ + 1/20 = 3/10 para o total. O desgraçado do atirador de elite afinal só tem 30% de probabilidades de sobreviver! Fazendo os cálculos para B e C, temos: B = 8/45 (18%) e C = 52%. (adaptado de revista Jeux&Stratégie nº 3, Jun/Jul 1980)

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23.8.07

Os velhos e os novos radares de Lisboa

Por C. Medina Ribeiro
Estas fotos, que mostram dois placards já removidos, foram tiradas no Campo Grande, em Lisboa, no mesmo local onde, actualmente, está instalado um dos polémicos radares
ANTES DE MAIS, peço que fique bem claro que não estou de acordo com os actuais limites de velocidade em algumas artérias de Lisboa, nomeadamente nas que, por construção ou adaptação, são autênticas vias-rápidas (*). Mas - atenção! - não só nas de Lisboa; não só nas que têm os novos radares; e não só agora, apenas porque há muita gente multada.
Posto isso, aqui fica uma questão - essa, sim, que vai ao cerne do problema:
Porque é que, durante DEZENAS de anos, nunca ninguém se preocupou com radares como os que são referidos nestas imagens e que era suposto fazerem exactamente o mesmo que os actuais?
A resposta é simples: porque se sabia que raramente - ou nunca - funcionavam!
Ou seja: o que actualmente preocupa muito boa gente não é o facto de a lei ser absurda, mas sim haver quem tenha a ideia estapafúrdia de a querer fazer cumprir...
*
(*) Nestas imagens, vê-se uma extensa via com 3 faixas de rodagem, que tem passagens desniveladas para os peões e onde a velocidade máxima autorizada é de 50 km/h.
Simplesmente - e diga-se isso tantas vezes quantas forem necessárias -, não foi a CML quem inventou esse valor, pelo que não é a ela que se deve o odioso de o fazer cumprir.
Por sinal, e concluindo-se que se está perante um absurdo (dos muitos que geram as Leis-da-Treta tão ao gosto do legislador lusitano), só há que agradecer a essa mesma CML o facto de o expor, claramente, à luz do dia.

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FALANDO DE PORTUGUESES DESFALADOS

Por Ferreira Fernandes
NADA MAIS ABORRECIDO que um jornalista monotemático, e eu agora é só Venezuela. É que a Venezuela, por mais que repetida, é de assustar, assunto predilecto do jornalismo. Mas já foi terra de bom viver. Gabriel García Márquez viveu o melhor ano da sua vida em Caracas, de 1957 a 58. Citou Caracas como Hemingway fez com Paris, que era uma festa, a "cidade onde éramos pobres e felizes." Hoje, Caracas é aquela estação de serviço a caminho de Maracaibo, onde passei quatro horas, há três dias - lugar de medo. A Venezuela toda é assim e assim vive meio milhão de portugueses.
"Quantos sequestrados conheço? Eu, pessoalmente, poucos. Cinco, seis. O meu irmão já esteve. Eu é só 'atracos', com a pistola encostada à cabeça"... Conversas destas ouvi, numa semana, umas vinte. De gente comum. Os portugueses conhecem o nome José Barreto Cardoso? Não? É um português, tem um filho e três netos sequestrados. Se não sabem é porque ainda não se falou suficientemente da Venezuela.
«DN» de 23 de Agosto de 2007 - [PH]

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22.8.07

«Humor Antigo» - Ano de 1923

ELOGIO DOS CINCO DE MATOSINHOS

Por Baptista-Bastos
SABE-SE O NOME DO RESPONSÁVEL pela construção, em Portugal, de dez estádios - três, quatro ou cinco dos quais não servem, rigorosamente, para coisa alguma. Parece que o azebre os invade e as ervas daninhas os espreitam, com persistência implacável. A impunidade corre mais do que depressa. Quero dizer, nestas modestas palavras: ninguém vai preso, ninguém é apontado à execração popular. Até há quem seja promovido e chegue a altas funções na Nação. A asséptica castidade dos jornalistas "desportivos" impede-os de comentar a pouca-vergonha. E quando a imprensa, ou parte dela, abdica de criticar, aniquila o que a fundamenta: o compromisso pedagógico.
Metade do custo desses estádios resolvia muitos problemas sociais. Mas vivemos de programas sem memória e isentos do sentido de realidade. A festa insone tem sido abrilhantada por políticos medianos, que substituíram a grandeza pela grandiosidade, os projectos pelas aparências.
Façamos uma equação sóbria: quantos milhões se poupariam, quantos problemas encontrariam solução plausível, acaso as frotas de carros de topo de gama dos ministérios, dos municípios, dos diversos serviços da administração pública não fossem, amiúde, substituídas? A dieta do "tenha paciência" e dos "sacrifícios necessários" é-nos aplicada, com deliciosa intimidade e duvidosa eficácia, pelo ministro Teixeira dos Santos. Anteriormente, outros, da mesma pasta, insistiram no mesmo. É uma inspiração sucessiva, que só toca no batente dos que andam com o coração desnivelado, incerto e aflito.
A banalidade das deficiências, a vulgaridade das injustiças, a indiferença com que acolhemos a mentira, o nepotismo, as promessas incumpridas, as fortunas alcançadas sabe-se lá como, os obscenos lucros dos bancos, as exigências agressivas - compelem-nos a receber com espanto e enlevo o que seria de admitir como normalidade.
Eis porque desta coluna modesta e vaga ergo a minha louvação aos cinco administradores do Hospital Pedro Hispano, de Matosinhos, que renunciaram a ter carro de serviço, destinando essa importância (175 mil euros, no total) à compra de equipamentos necessários à unidade de neurocirurgia. O exame das coisas atrás ditas leva-nos a considerar que as excessivas vantagens concedidas a quem exerce o poder não são consentâneas com as dificuldades dramáticas pelas quais o País atravessa.
Claro que tudo é relativo. Porém, há uma relatividade que não é pacífica, por exemplar. E esta atitude dos cinco de Matosinhos sobrepuja o habitual, porque o habitual tem sido o luxo perdulário do Poder. Eles também ensinaram que as mentalidades podem ser mudadas.
«DN» de 22 de Agosto de 2007

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Os "Verdeufémios" e os "artistas" das Avenidas-Novas

Por C. Medina Ribeiro
TODA A DISCUSSÃO em torno dos "verdeufémios" teve, pelo menos, uma vantagem:
Ficámos a saber que há certos crimes (que têm o patusco nome de "semi-públicos") que só têm consequências para quem os pratica se forem objecto de queixa das suas vítimas.
É estranho, parece injusto (nomeadamente porque o receio de represálias pode ser determinante), mas é mesmo assim - e foi a percepção, agora, dessa realidade que me fez entender o que se passou comigo há um par de anos:
Foi quando me apercebi de que era possível que, à vista de toda a gente, jovens assaltassem quiosques dos CTT, cabines telefónicas e parquímetros impunemente - cenas essas a que assisti por cinco vezes (nos Restauradores e nas Avenidas Novas) e em plena hora-de-ponta, duas das quais mesmo nas barbas de agentes da PSP e da Polícia Municipal!
Revoltado e intrigado pela inacção destes, resolvi, a certa altura, abordar um - que me pareceu mais pachola - e perguntar-lhe a razão de tanta passividade. E o homem, com aquele ar fatigado de quem já disse a mesma coisa mil vezes, explicou-me:
O mais que podiam fazer era abordar os larápios e identificá-los - eventualmente na esquadra, se houvesse possibilidade de os levar até lá.
Em seguida, e como as empresas lesadas não apresentavam queixa, os jovens apenas tinham, como punição, esse curto intervalo forçado na sua actividade - que decerto aproveitavam para um bem merecido repouso...
Na altura, ficou tudo dito. Agora, ficou tudo percebido.
Texto publicado no «ABRUPTO e também no «Público» em 24 Ago 07 ».
Ver [aqui] uma referência ao Zé do Boné, um dos esforçados jovens que ajudam a EMEL a arranjar desculpas para os prejuízos que sistematicamente apresenta.

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21.8.07

«ACONTECE...»

Passatempo com prémio
Por Carlos Pinto Coelho
Qual o nome da cidade histórica onde foi tirada esta fotografia, famosa pelos seus balcões em ferro, suas portadas de janelas com tabuínhas em madeira, suas ostras e suas tradições musicais e artísticas?

As respostas, a dar em "Comentário", só serão aceites depois de o contador-de-visitas indicar o n.º 306.603.

NOTA: Esta fotografia, como todas as outras aqui afixadas em posts com o título genérico «ACONTECE...», é da autoria de CPC.

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O passatempo foi ganho por Mónica.

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O Paulinho dos tribunais

Por J. L. Saldanha Sanches
OS CIDADÃOS têm recusado os seus votos a Paulo Portas. Pois bem: Paulo Portas, mediante uma decisão judicial, vai obrigar os cidadãos (enquanto contribuintes) a indemnizá-lo.
Se não lhe queremos dar votos, vamos ter de lhe dar dinheiro.
A história é tão abstrusa quanto simples: as notícias sobre comportamentos menos dignos, que, mais uma vez, vieram para os jornais sujar o nome imaculado de Paulo Portas terão sido, segundo este afirma, a causa da sua derrota eleitoral em Lisboa.
A publicação de tais histórias constitui uma violação do segredo de justiça pelo qual o Estado é responsável. Logo o Estado (nós, contribuintes) tem de o indemnizar.
As acções de responsabilidade contra o Estado podem ter diversos fundamentos: se um cidadão for lesado por qualquer comportamento pelo qual se possa responsabilizar o Estado (a derrocada de uma ponte não devidamente vistoriada) ou for vítima de uma qualquer catástrofe, os contribuintes podem ter de pagar. Neste último caso, com fundamento na solidariedade social. Outros casos são mais discutíveis: a responsabilidade do Estado por omissão legislativa tem levado aos maiores abusos e pode ser a base de uma actividade de pura captação de rendas («rent seeking»).
No entanto, uma figura com responsabilidades políticas a procurar obter indemnização do Estado por acto ilícito de um seu agente atinge um grau de descaramento até agora inédito.
Simplificando, a única razão pela qual os contribuintes podem ser obrigados a suportar os custos de uma indemnização atribuída por culpa do Estado é que, num certo sentido, todos somos responsáveis pelo mau funcionamento da coisa pública.
Mas alguém que é deputado e já passou pelo Governo tem certamente um grau de culpa muito mais intenso que o simples cidadão de cujos impostos vai sair a quantia a atribuir ao indemnizado. O deputado Paulo Portas já deveria ter apresentado na Assembleia da República um qualquer projecto de lei que criasse um regime de segredo de justiça equilibrado e impedisse a sua violação; e o CDS-PP já teve a pasta da Justiça.
A ministra era Celeste Cardona. Mas Paulo Portas é a última pessoa a poder usar essa desculpa. Tem demasiada co-responsabilidade em qualquer disfunção existente na Justiça para poder exigir ao conjunto dos cidadãos (o que é o Estado?) que o indemnizem pelo seu possível mau funcionamento. Se a sua acção for tomada a sério pelos tribunais vai ser possível aos políticos que são derrotados nas eleições introduzir acções contra o Estado, por exemplo, pelo mau funcionamento da Educação: uma vez que apenas a ignorância dos eleitores pode justificar a derrota de um partido com tão exemplar programa. Obtendo uma decisão judicial que corrija as decisões (naturalmente ignaras) do eleitorado.
Com esta acção, Paulo Portas mostra assim que continua a ser um dos criativos políticos portugueses. Agora quer obter nos tribunais o que antes procurava nas feiras. Ainda que se tenha esquecido, depois de concedida a indemnização ao CDS/PP, os cidadãos poderão vir junto dele accionar o direito de regresso.
«Expresso» de 11 de Agosto de 2007

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PASSEIO ALEATÓRIO

O Farol de Santa Marta

Por Nuno Crato


O EDIFÍCIO É MUITO ANTIGO. Começou por ser um forte, onde em 1868 foi montado um sistema de auxílio à navegação. Era apenas um farolim, ou luz de porto, que marcava o fundeadouro de Cascais e orientava os pilotos para a entrada norte na barra de Lisboa. Os navios situavam-se no enfiamento dessa luz com a do farol da Guia, e assim navegavam para o porto da capital.
A princípio, o farolim tinha uma lanterna, depois um candeeiro de petróleo de duas torcidas.
Em 1897, tinha já um sistema de reflexão (catóptrico) e um sistema de lentes (dióptrico). Era promovido de farolim a farol. A sua luz vermelha fixa podia-se avistar no mar a uma distância de mais de dez milhas marítimas (quase 20km).
Em 1908, o sistema óptico foi substituído por um catadióptrico (reflexão e refracção) que ainda hoje aí se encontra.
Em 1936 a torre foi subida de oito metros e em 1953 o sistema de iluminação foi melhorado. A luz vermelha deixou de ser fixa e passou a intermitente.
Mais tarde, para melhor identificar o farol e o distinguir das luzes circundantes, foi-lhe acrescentada uma luz branca com alcance de 18 milhas (cerca de 33 km).
Em 1981, o farol foi automatizado. Os faroleiros deixaram de acender e apagar as luzes. A velha torre perdeu a vida, iluminando-se apenas à noite, e por comando eléctrico.
Renasceu agora, pois o farol abriu ao público e tornou-se um museu vivo. É um espaço bonito e romântico, de onde se vê o mar e a baía. Passou a ser também um espaço de referência para a história da ciência e da técnica. Mostra muitos instrumentos históricos, preciosos e belos. Vêem-se lentes gigantescas e lanternas curiosas. Merece o passeio.
Adaptado do «Expresso» de 18 de Agosto de 2007

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20.8.07

Se é verdade que uma imagem pode valer por mil palavras, também é certo que uma anedota pode valer por muitas crónicas - e esta tira de Bandeira, publicada no «DN» de hoje, é a prova disso: em meia dúzia de centímetros quadrados, o autor até consegue dizer mais do que muitos comentadores que se têm pronunciado sobre este assunto com recurso a milhares de caracteres.
«Humor Antigo» - Ano de 1923

Obras na rua

Por Alice Vieira
A MINHA CASA está há muito tempo rodeada de obras por todos os lados. O pior é que, para falar verdade, na maior parte dos casos, eu nem sei de que obras se trata.
Andaimes colocados e retirados e largados à beira dos passeios.
Arames que esvoaçam.
Enormes contentores do lixo, daqueles que, muito depois das obras terem acabado, ainda permanecem à nossa porta, como cães fiéis que nem na hora da morte abandonam os donos.
Pó. Caliça. Enfim obras.
A gente passa por elas e já nem reage.
Por isso naquele momento em que uma onda de poeira desabou em cima de mim, eu nem refilei. Teria passado adiante se não tivesse de repente ouvido uma voz que repetia, angustiadamente, "perdão, perdão".
Com um "e" muito aberto e um "r" muito carregado, a denunciar português de estrangeiro.
É então que o homem surge de dentro de um prédio em obras, a tentar explicar, num português muito titubiante, o que se tinha passado, não tinha reparado se alguém passava na rua, àquela hora geralmente não passava ninguém, e com este calor ainda menos, e vá de atirar porta fora a terra que estava dentro do balde, "perdão, perdão".
O homem, coitado, desfazia-se em desculpas, estava profundamente incomodado com o o que fizera, torcia as mãos, abanava a cabeça, até parecia que alguém tinha ficado ferido, quem sabe se morto por sua culpa.
Sosseguei-o, caramba!, também não tinha sido assim tão grave, mas ele continuava a abanar a cabeça, não, ele devia ter olhado primeiro, assim é que era.
E durante uns minutos estivemos ali, ele a pedir desculpa e a tentar sacodir a poeira das minhas costas, e eu a tentar sossegá-lo - e a lembrar-me do dia, ainda não há muito, em que de uma janela do último andar do prédio ao lado, alguém tinha despejado um cinzeiro cheio de beatas em cima da minha cabeça. Lembro-me de ter olhado para cima e perguntado se aquilo era maneira de limpar cinzeiros -- e o que então me responderam eu não digo, porque isto é um jornal decente.
E dou comigo a pensar que nunca me lembro de ter ouvido um qualquer trabalhador português a desfazer-se assim em desculpas por causa de uma qualquer azelhice. Normalmente, assobiam para o ar, dizem dois ou três palavrões, ou fazem-nos sentir culpados por estarmos a passar onde, segundo eles, não devíamos.
Mas este não. Já eu vou no fim da rua e ainda oiço a sua voz, "perdão, perdão".
Com um "e" muito aberto e um "r" muito carregado.
«JN» de 19 de Agosto de 2007

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«Humor Antigo» - Ano de 1923

19.8.07

OUTRA VEZ NÓS E O FISCO

Por Nuno Brederode Santos
ENTENDEU O TRIBUNAL CONSTITUCIONAL que o contribuinte que reclama ou impugna judicialmente uma decisão da Direcção-Geral das Contribuições e Impostos que lhe respeite não pode ser sujeito a levantamento do (seu) sigilo bancário. Esta era uma das duas questões de constitucionalidade suscitadas pelo Presidente da República sobre um diploma da Assembleia da República.
Não li mais do que aquilo que a imprensa publicou, ou seja, pequenos excertos entre aspas da decisão judicial. Por isso me baseio apenas em critérios políticos decorrentes do senso comum e que expressei no DN, no Verão do ano passado, quando o assunto teve alguma dimensão pública. É certo que o senso comum não é o bom senso, mas a obrigação de um critério político é anular essa diferença.
Por cândido ou tecnicamente impreparado que seja o cidadão comum, é sempre atrevimento e estultícia dos governos pressuporem que ele não é sensível aos seus interesses e direitos. Ora esse cidadão, que é um entre os milhões de contribuintes cumpridores, sabe muito bem ser ele quem paga as faltas dos incumpridores. Daí que em nada lhe repugne o acesso do fisco (em condições que assegurem a exclusividade desse acesso) às contas bancárias de todos os contribuintes. Ele quererá a garantia de que o vizinho do lado não lhe vigie os movimentos da conta, nem conheça o saldo desta. Mas compreende dever ser outro o estatuto do fisco. Não há um direito à evasão ou à fraude que cumpra ao Estado acautelar. Não há um direito da personalidade ou um direito à privacidade que sejam violados ou ameaçados pelo facto de a administração fiscal conhecer a origem lícita dos seus rendimentos. E há certamente um direito maior (o de saber que o seu esforço como contribuinte faz parte de um esforço colectivo, ao qual ninguém pode furtar-se) que é acautelado por essa "devassa" igualitária e consentida. Talvez até um dia, quando a cultura tributária portuguesa tiver abdicado do seu laxismo moral e funcional, possamos pactuar um regresso ao sigilo bancário. Mas enquanto decorre um esforço nacional de justa cobrança, cuja insuficiência levou já a aumentar os impostos de gente fiscalmente sobrecarregada, o cidadão tem dificuldade em aceitar o sigilo bancário para efeitos fiscais.
Mas o que ele não pode de todo aceitar é que, por sobre a duvidosa regra do respeito desse sigilo, se abra uma excepção para o contribuinte que mais não faz do que exercer os seus direitos de reclamar ou impugnar (por sinal os últimos e os únicos com que o contribuinte cumpridor, isolado e pequeno, se pode defender de um erro da máquina fiscal que o prejudique). De que nos serve que a lei consagre o direito fácil do cidadão a pedir que o polícia que o aborda se identifique, se outra lei vier dizer que o polícia só se identifica na sua esquadra? Teremos de ser quase detidos para exercer aquele direito? A oneração desses direitos por uma sujeição à devassa (agora, sim, sem aspas) da sua conta bancária, surge, mais do que como um mero condicionamento, como uma autêntica punição. Inaceitável à luz de todos os juízos e, como decorre desta decisão do tribunal competente, também do da constitucionalidade.
Por isso, fez bem o Presidente em exprimir a dúvida e fez bem o Tribunal Constitucional em lhe consagrar o acolhimento. Cabe agora à Assembleia da República pronunciar-se de novo. Mas, já agora, de uma maneira cabal e clarificadora. Isto é, desfazendo a confusão de conveniência entre os que são contra a norma posta em causa porque são contra todo e qualquer acesso do fisco às contas bancárias e os que são contra ela pelo que comporta de discriminatório e punitivo, mas até são favoráveis à regra do levantamento genérico do sigilo bancário para efeitos fiscais. É que nem uns nem outros têm a ganhar com as aparências dessa aliança falsa e enganosa. Pelo contrário: uns e outros trazem consigo uma insanável contradição que irromperá novamente na primeira oportunidade. A hostilidade comum ao gato não faz uma aliança para a vida entre o cão e o rato. Que eu saiba, nunca fez.
«DN» de 19 de Agosto de 2007

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