25.5.07

HISTÓRIAS PARA LER E DEITAR FORA

Praia com pôr-do-sol e corpo ao fundo
Por Joaquim Letria
O SOL ERA UMA BOLA VERMELHA e o céu, junto ao mar, estava também incandescente. Sabia que, quando escurecia assim, o dia seguinte era de muito calor, bom para a praia. Depois, achava também que era muito bonito, aquele pôr-do-sol, a tarde a acabar quase sem vento, o mar a desfazer-se em murmúrios na areia, manso e transparente. Os pescadores puxavam os últimos barcos, metendo chulipas debaixo dos costados e empurrando, enquanto outros homens e algumas mulheres remendavam as redes, segurando as malhas com os dedos grossos dos pés.
Foram os miúdos quem deu o alarme.
Correram, em bandos, do outro extremo da praia, junto às rochas, seminus, escuros e a gritar:
- Está ali um homem morto!
As poucas famílias que observavam o pôr-do-sol correram também, com os pescadores, para onde os miúdos regressavam sem nunca terem deixado de correr, igualmente. Lembra-se que o avô, que sempre ajudara os pescadores a puxarem os barcos, dentro duns grandes calções de caqui coloniais, foi ver se era verdade o que os miúdos diziam ter descoberto. Esquecido, ele também foi, sem que ninguém procurasse impedi-lo. Só quando espreitava, por entre as pernas dos homens e das mulheres, o vulto na areia, deram por ele e o avô lhe disse com secura, como nunca lhe falara:
- Vai para casa. Vá já para casa!
Conseguiu, no entanto, ver que era um homem, ainda novo, vestido, sem um bocado da cara, com a barriga cheia de água, inchado e com a roupa rebentada, olhando de olhos abertos a roda que se formara, olhando-o também a ele, enquanto todos lançavam hipóteses ditas com grande certeza, mas todos falando só por falar, tentando decifrar que azares atiraram com aquele corpo, morto, para ali, num pôr de Sol vermelho, que por norma antecede sempre mais um lindo, brilhante e quente dia de praia.
Choramingou, ao regressar a casa, mas não deu explicações. Não entendeu porque ninguém se preocupara com os outros miúdos da praia, que lá haviam ficado a olhar o homem morto e, a ele, o haviam mandado embora. Na cozinha, a avó rezingou:
- O teu avô ainda não acha que são horas de jantarmos?
- Ele mandou-me embora, – choramingou.
-Vai chamá-Io. O jantar vai já para a mesa.
- Ele não vem!...
- Vai chamá-Io, anda, tás parvo, ou quê?
- Ele não vem. Está a ver o homem morto.
O jantar já não foi para a mesa. A avó e as outras mulheres puseram todas casacos de lã pelos ombros e partiram, apressadas, para o círculo que havia engrossado, de pessoas na areia, todas a olharem para o homem morto. No grupo estava, nessa altura, também o cabo-do-mar. Acompanhou as mulheres e ficou, de longe, sem se atrever, junto a um barco, a ver o que todos faziam. Dali, o homem morto podia ser só um monte de roupas ou de algas, como os que se formavam na altura das marés vivas.
Jantaram todos muito tarde, naquela noite. E, à mesa, a conversa foi sempre sobre o aparecimento do homem morto. A tia queria saber se o homem era, ou não, um pescador. Se tinha caído de um barco, o que é que o cabo-do-mar dissera, se alguém o tinha morto e depois o atirara a água, e onde é que o corpo ia ficar. O avô, de poucas falas, ia esclarecendo o que sabia explicar. Acreditava que o homem estivesse na água há diversos dias, não era daquela aldeia, ninguém o conhecia, mas não devia ter caído de um barco, porque se assim fosse tinha-se ouvido falar. Ele atreveu-se a fazer uma única pergunta:
- Avô, porque é que o homem não tinha um bocado da cara?
E a resposta, seca, dera-Ihe arrepios de febre e fizera-o perder a pena que tinha dos peixes, sempre que os via, ainda vivos, a saltarem nas redes que puxavam para a praia
- Foram os peixes -que o comeram – dissera o avô.
Quando se deitou, não conseguiu adormecer. O vulto, de costas, vestido, a olhar para cima, sem um bocado da cara, não lhe saía da cabeça e pensava que nunca tinha visto antes um morto e que nem todos deviam ser assim. Pelo menos, nos filmes, os mortos não faziam impressão e, quando alguém morria, a avó explicava-lhe:
- Morreu, foi para o céu.
Dizia sempre isto com o ar de quem invejava quem tinha partido para a vida melhor, mas este, se foi desta para melhor, tinha sofrido muito e ele quase chorou, com pena do morto, que mal observara, rodeado de pés e de pernas por todos os lados.
Foi nessa altura que ouviu um grande alarido em casa, gritos de medo e choros, das mulheres e, depois, grandes gargalhadas do avô e as mulheres também a rirem, nervosas. Levantou-se, com muito medo mas com mais curiosidade, o que era natural porque aquela era a primeira noite do seu primeiro morto.
A tia e uma amiga choravam e riam, ao mesmo tempo, os corpos nus e morenos soltos, dentro das camisas brancas até aos pés. O avô ria-se, agarrado a uma vassoura e a dobrar uma toalha branca. A avó recriminava-o:
- Nunca mais tens juízo, homem...
E ele soube, então que o avô decidira brincar com a filha e a amiga da filha, metendo-lhes um susto com a toalha branca a agitar-se na janela do quarto, embrulhada na vassoura. E que as duas raparigas, que dormiam juntas na mesma cama de ferro, com colchão de palha, se haviam levantado com o susto, pois estavam naquela altura ainda a conversar sobre o morto quando sentiram, primeiro, e viram, depois, a vassoura vestida de branco abater na janela do quarto de ambas.
- Elas julgavam que era o fantasma – ria-se para ele o avô.
- O que é um fantasma? - perguntou, e como resposta mandaram-no deitar.
- Não são horas de um menino da tua idade estar acordado – sentenciaram.
E ele foi-se deitar, mas não dormiu, como certamente as duas raparigas também não dormiram, com os dois corpos morenos agarrados um ao outro, e só de manhã, depois de o Sol ter nascido na praia, os olhos se Ihes fecharam.
Durante muitos anos, ao entardecer, não foi capaz de ir junto das rochas atrás das quais o Sol se punha, e onde havia visto o seu primeiro morto, sem um bocado da cara que os peixes haviam comido.
Lisboa, 1987

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