26.2.17

Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Luz em Serralves, Porto – Dominar e guiar a luz devem ser antigas ambições dos humanos. Organizar o espaço e os edifícios de modo a que seja possível orientar a luz é uma das artes da arquitectura. Em alguns casos excepcionais, como em Alcobaça, por exemplo, tem-se a impressão de que a luz é trazida por força invisível. Com Siza Vieira, na Igreja do Marco de Canavezes ou em Serralves, tem-se uma sensação forte e mais estranha: chega a pensar-se que o arquitecto leva a luz, à mão, pelos corredores e pelas salas, até a colocar onde ele quer. Pode mesmo imaginar-se que, com este Mestre, a luz não se desloca em linha recta, mas escorre, cai e contorna os objectos e as paredes em ondas curvas. Ou fica imóvel, suspensa. Esta imagem foi feita no Museu de Serralves, construção recente (1999), acrescentada ao conjunto da Casa de Serralves (que data dos anos 1940). É um momento de luz especial. Como quase sempre com Siza Vieira, Mestre da luz.
DN, 26 de Fevereiro de 2017

Sem emenda - Todos iguais

Por António Barreto
Já se percebeu: cada vez que um escândalo, processo, aldrabice ou caso de favoritismo estar a ser investigado, logo outro surge, equivalente, com visados de outros grupos económicos, partidos ou governos… Às vezes há pontos de contacto. Outras não. Agora, são os “offshore” que retiram casos das primeiras páginas. Mas, previsivelmente, vão bater às mesmas portas de sempre… Caixa, PT, BES…

Um processo aqui, um caso de corrupção ali, uns empréstimos sem retorno, uns favores a amigos, uns assaltos a empresas, algumas manipulações do mercado, umas transferências para “offshore”, muita mentira e uma prodigiosa incompetência fizeram da “jóia da coroa” o que ela parece hoje e que faz com que os políticos tenham receio do pântano. Fica-se cada vez mais com a impressão de que o caso da Caixa é o caso do regime: tudo anda ligado, da política à banca, da PT aos telemóveis, das águas aos petróleos, da electricidade à celulose, do BES ao Banif, do BPN ao BCP… Podem fazer-se todos os inquéritos imagináveis, ficará sempre algo de fora, aparecerá sempre, à última hora, novo facto inesperado que permita negociação futura e ocultação passada. Debaixo de cada pedra, há lacrau ou veneno. E muitos parecem interessados em esconder e esquecer. Mas acrescentam sempre qualquer coisa.

A algazarra com a Caixa não deixa ninguém tranquilo. O esteio, o alicerce do sistema bancário português não é mais do que uma organização de mistérios e trapalhadas, sob influência directa dos governos, dos ministros e dos partidos. Serviu para obras públicas, parcerias duvidosas, empréstimos especulativos, favores aos amigos, negócios estranhos, demagogia política e empregos de conforto. Há alarido porque todos têm medo, de um partido, do outro e de outro ainda. Muitos receiam que se fale ou que se descubra. A barafunda actual é tanta, que se pode imaginar que nunca se saberá o que se deve saber, nunca se castigará quem o deve ser. Dirigentes do PS, do PSD e do CDS tiveram responsabilidades na necessidade de quatro ou cinco mil milhões, a recapitalização. Os governos de Sócrates, Passos Coelho e Costa têm todos responsabilidades no desastre e nas imparidades (eufemismo para designar, entre outras habilidades, trafulhices e favores).

            “Eles são todos iguais!”, é uma das mais detestáveis e inúteis frases que se ouve frequentemente por aí. Geralmente sobre a política. Frase e pensamento, ou falta dele, sem seriedade nem inteligência. Ideia sem verdade. Ideia errada e enganadora. Mas não se resiste. Não só se ouve cada vez mais, hoje, em tempos de crise, como já quase não há argumentos para contrariar.

“Eles” são diferentes. Defendem políticas diferentes. Estão ao serviço de interesses e ideias diferentes. Pertencem a classes sociais e a grupos diferentes. Têm programas e doutrinas diferentes. Há os honestos e os bandidos. Os sérios e os aldrabões. Os rigorosos e os demagogos. Os honrados e os corruptos. Os íntegros e os oportunistas. Os democratas e os déspotas. Mas deve reconhecer-se que “eles” fazem um esforço por se parecer cada vez mais. O que tem péssimos resultados: não nos ajuda a perceber. Sabemos ainda que há bandidos à esquerda e à direita. Honestos também. O que também não ajuda a compreender.

É fina a fronteira entre um caso de politica e um caso de polícia. É curta a distância que vai da incompetência à corrupção. Da demagogia à venalidade, o tempo e o espaço são reduzidos. Se a democracia portuguesa não consegue apurar responsabilidades, julgar culpados, castigar “nepotes” e afilhados e refazer um banco seguro e honesto, se a democracia portuguesa tal não conseguir, condena-se a si própria. O processo da Caixa corre o risco de vir a ser o processo do regime.

DN, 26 de Fevereiro de 2017

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25.2.17

PERGUNTA DE ALGIBEIRA

Qual das áreas é maior, a A ou a B?
E porquê?

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23.2.17

Quo vadis, União Europeia?

Por C. Barroco Esperança
A União Europeia (UE) já tinha problemas que chegassem. À crise financeira, que abala os países do sul da Europa, juntou-se a incapacidade de integração económica, política e social, sem a qual até a moeda comum colapsará.
 O drama dos refugiados e a incapacidade de os integrar criou emoções xenófobas, que o terrorismo islâmico exacerba e os partidos populistas capitalizam. Depois da queda do muro de Berlim, saudada com júbilo, erguem-se agora novos muros e regressam velhas rivalidades internas, ameaçando a democracia e a civilização.
 Em vez da harmonização fiscal na UE, existe a competição; em vez de uma diplomacia comum, os países mais ricos disputam zonas de influência. A defesa, sempre protelada, ficou à mercê de Trump, um protofascista imprevisível, e das incertezas da Nato.
 Esquecidas as lições da última guerra, os partidos nacionalistas regressam e recuperam a mitologia da década de trinta do século passado. A direita está cada vez mais à direita e, onde mantém um módico de decência, como na Alemanha, ressurgem partidos fascistas.
 O Reino Unido, que julgava isolar a Europa, encerrando o Canal da Mancha, arrisca um suicídio político e acelera a desintegração europeia. O Brexit é um desastre para o RU e uma tragédia para a UE. A desagregação da UE contaminará os países cujas rivalidades internas e anseios independentistas são assaz fortes. A Espanha, França, Itália, Bélgica e Ucrânia correm riscos e a Rússia czarista sonhará com o velho império.
 A Turquia, país com o maior arsenal nuclear da Nato e o maior exército, fora dos EUA, caminha para a re-islamização completa, tornando-se um país de terror para intelectuais, juízes, jornalistas e todos os sectores cultos, laicos e democráticos.
 Ontem, o Ministério da Defesa suspendeu a interdição do véu islâmico nas F. Armadas, autorizando o uso às mulheres de terra, mar e ar que o desejarem. É mais um ataque à laicidade. A seguir virá a imposição e, finalmente, a exclusão das mulheres das Forças Armadas. Erdogan poderá então pensar na expansão territorial, a sonhar com o califado.
 A Europa laica, filha do Iluminismo e da Revolução Francesa, caminhará para o ocaso.
 Ponte Europa / Sorumbático

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21.2.17

HÁ MONTANHAS E MONTANHAS

Por A. M. Galopim de Carvalho
Em linguagem popular, toda a gente sabe que uma montanha é um monte grande, mas ninguém é capaz de dizer onde acaba o monte e começa a montanha. Tal acontece, porque a palavra, vinda do latim “montanea”, entrou na linguagem popular com a indefinição que a caracteriza e, embora não tendo a especificação exigível no léxico científico, entrou no vocabulário geológico. Situações idênticas são as que podemos exemplificar com os conceitos de rio e ribeiro ou de calhau e seixo.
Para o alentejano, com excepção da Serra de S. Mamede, com os seus 1025m de altitude, na vizinhança de Portalegre, a grande maioria dos relevos corresponde a elevações muito modestas quando comparadas com as do Centro e Norte do País. Porém, para o homem que escalou a pé todos estes relevos, na luta que travou pela sobrevivência, quaisquer colinas com cem metros de desnível lhe mereciam o nome de serras. Não obstante a ideia generalizada de “planície alentejana”, para os rurais meus conterrâneos “o que não falta aqui são serras”. Basta consultar a toponímia da que é a mais extensa província de Portugal, para verificar que, além daquelas de que falam os manuais de ensino (Ossa, Grândola, Cercal e Portel) há muitas mais, só conhecidas pelos residentes.

Para o comum dos cidadãos e limitando-nos a três exemplos nacionais: o vulcão do Pico, a serra da Estrela, a de S. Mamede e a da Arrábida são montanhas, porque, por assim dizer, são grandes montes.
Na linguagem geológica o vulcão do Pico não é uma montanha, cresceu por acumulação de lavas, cinzas e outros piroclastos, derramados e projectados pela respectiva cratera.
A serra da Estrela, corresponde, “grosso modo”, a um bloco de terreno que subiu, ao longo de falhas, à semelhança de uma tecla de piano que se eleva acima das outras. A geologia não dispõe de nome em português para designar este tipo de relevos. Utiliza desde sempre o termo alemão “Horst”.
Para o geólogo só a serra da Arrábida é uma montanha, no sentido orogénico (do grego: “orós”, montanha, e “genesis”, origem, nascimento) da palavra.

Para explicar a formação de uma montanha neste último contexto, vamos imaginar uma série de lençóis, mantas de diversas qualidades e espessuras, cobertores, um édredon e o mais que se quiser, tudo bem esticadinho e empilhado em cima da cama.
Imaginemos que este empilhamento representa alguns quilómetros de espessura de camadas de sedimentos depositados no fundo de um oceano, ao longo de cem ou mais milhões de anos, como é, por exemplo, o que está a acontecer no Oceano Atlântico, aqui ao nosso lado.
Vamos agora abrir bem os braços e agarrar esta pilha de roupa, uma mão de cada lado, e apertá-la para o meio da cama. Fica tudo amarrotado, com dobras para cima e outras para baixo.
Com a força dos nossos braços, em metro e meio de extensão desta roupa e em um ou dois segundos, fazemos, assim, o que a Terra faz, com todas as forças do enorme brasido do seu interior, em milhares de quilómetros de fundo de um oceano e ao fim desses muitos milhões de anos.
- Então uma montanha são rochas sedimentares dobradas?.
A esta pergunta a resposta é:
- Sim, mas é mais do que isso.
A porção das dobras que fica para cima representa a parte da cadeia montanha que se eleva à superfície do terreno, como aconteceu na Arrábida e está a acontecer nos Alpes, por exemplo. A porção dobrada que fica para baixo representa a parte que se afunda na crosta terrestre, como se fossem a sua raiz. Acontece ainda que, em virtude das elevadas pressões e temperaturas a que passam a estar sujeitas, as rochas sedimentares que assim se afundam na crosta, se transformam em rochas metamórficas. Na parte mais profunda destas raízes, com temperaturas na ordem dos 800 a 900 oC, as rochas começam a fundir, gerando magmas que, arrefecendo ao longo de milhões e milhões de anos, se transforma em rochas magmáticas como os granitos e outras menos conhecidas.

A serra de S. Mamede é o que resta de uma enorme cadeia de montanhas , verdadeiramente orogénica, que teve aqui, na Península Ibérica, há mais de 300 milhões de anos, tanta ou mais imponência do que os Alpes, hoje em grande parte arrasada pela erosão.

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19.2.17

Sem emenda - Fora da Caixa

Por António Barreto
Com, provavelmente, mais revelações inesperadas e, certamente, mais uma comissão de inquérito, teremos folhetim por muito tempo. Até que algo importante e perigoso aconteça e o governo tenha medo, as oposições esperança e os aliados dúvidas, altura em que todos esquecerão a Caixa e navegarão para novos mares. Como é costume, deixarão, então, armários cheios de esqueletos incólumes, ilesos e inocentes. Até lá, ainda teremos réplicas ad nauseam

Tentando pensar out of the box, como se diz. É preocupante saber que haja quem entenda, nas esferas poderosas, que se pode não respeitar a lei ou fazer uma lei que se aplica para trás ou aprovar uma lei para contemplar um caso. É inquietante ver como a algazarra sobre este assunto passa por cima de princípios fundamentais e se aceitam dogmas horríveis mas comummente aceites. Por exemplo, a ideia de que o poder político está acima de tudo, do poder económico, da moral, da religião e do direito. Para não dizer da palavra dada e da honra. Outra, a ideia de que os direitos individuais estão abaixo dos direitos colectivos. Dito de outra maneira, o interesse da comunidade está acima dos direitos individuais. Estas ideias não nasceram lá, mas foram alimentadas pelas “luzes”, pela revolução francesa, pelo jacobinismo e pelo comunismo. E parecem hoje reinar, sem obstáculos, na política contemporânea, sendo esta uma mistura de nobres ideias (a democracia por exemplo) com nefastos valores (a cupidez e o poder absoluto da decisão política).
            
Tem-se tratado do governo, isto é, dos últimos governos, incluindo o actual, como se tivessem toda a legitimidade para intervir na banca e nas finanças, como se tivessem a obrigação de intervir, como se fosse necessário tomar conta, proteger, esbulhar, nacionalizar… Fizeram o que quiseram com o BES, a Caixa, o BPN e outros bancos e deixaram fazer o que lhes convinha. Deixaram correr o marfim em casos excepcionalmente graves, até ao afundamento de algumas das melhores empresas portuguesas. Compraram e venderam, deixaram comprar e vender, conforme lhes interessava politicamente (e talvez pessoalmente, nunca saberemos…).

De modo semelhante, pede-se ao governo e às autoridades constitucionais que tenham uma intervenção nas empresas e na vida das pessoas. Que se exija a declaração de rendimentos em cargos eleitos parece uma regra razoável, embora já intrusiva. Que essa exigência se estenda aos gestores é já problemático. O governo solicita a colaboração de pessoas, fica-lhes a dever um contributo valioso (caso contrário não teria pedido…) e depois põe condições que ultrapassam os quadros e o tempo dessa colaboração? E por que não aos 700.000 funcionários públicos? E por que não a todos os cidadãos e empresas que têm relações com o Estado?

A verdade é que reconhecemos ao Estado cada vez mais poderes, competências intrusivas e capacidades de condicionamento da vida dos cidadãos. Como lhe conferimos o direito de taxar o que, como e quando os governantes entenderem, para tanto basta precisar de dinheiro! Como ainda lhe atribuímos faculdades para interferir na vida económica dos cidadãos, das famílias e das empresas, sob o signo de princípios tão doces como o de “ir buscar o dinheiro onde ele está” ou “ir tirar o dinheiro a quem o tem”. Como aceitamos, em nome do interesse geral, que os governantes possam preferir capitalistas, seleccionar bancos, chegar-se a predadores e liquidar empresas outrora poderosas.

Abusar dos indivíduos, a título do interesse comum. Condicionar a vida privada dos cidadãos, em nome do bem de todos. Pôr em risco poupanças pessoais, como se fossem fortunas ilegítimas. Desrespeitar os bens de cada um, como se tudo fosse de todos. Retorcer o Estado de direito, a benefício da política. Eis algumas regras de vida, insuportáveis, que estão a forjar um mundo detestável.

DN, 19 de Fevereiro de 2017

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Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Uma ocupação de herdade, perto de Sousel, a caminho de Portalegre, em 1975 – Foi há 42 anos! A maioria dos Portugueses vivos nasceu depois dessa data! Já quase ninguém se lembra do que foram aquelas ocupações. No Alentejo, no prazo de um ano, foram ocupadas cerca de 3.700 herdades num total de mais de 1,2 milhões de hectares! Assalariados rurais, trabalhadores da construção e operários fabris da cidade, apoiados por dirigentes sindicais e por unidades das forças armadas, levaram a cabo esse processo único na história de Portugal e da Europa. Nesta imagem, além de civis e militares, um lavrador ou feitor ferido na cara segue dentro do carro. Nos casos mais simples, eram algumas camionetas, umas dezenas ou centenas de trabalhadores, uns funcionários do ministério e uns civis. Na maioria, tratava-se de dispositivo mais complexo, sendo necessário acrescentar soldados armados, civis com caçadeiras, jeeps militares e até um carro blindado. Às vezes, os proprietários tentavam reagir. Na maior parte, resignavam-se. Se é que já não tinham abandonado. Não foi uma reforma agrária. Foi uma revolução. Acabou mal.
DN, 19 de Fevereiro de 2017

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16.2.17

Cavaco Silva (ACS) – o redator que detesta ser leitor


Por C, Barroco Esperança
O livro intitula-se "Quinta-feira e outros dias". Quem desconheça o autor, há de julgar que o título é uma homenagem ao escritor G. K. Chesterton, e uma inspiração contra o anarquismo, bebida em “O Homem que era Quinta-Feira”.
 Cavaco Silva jamais se prestaria a assumir o papel do agente secreto Gabriel Syme, para arruinar um grupo anarquista. Tudo o que conseguiu foi um Fernando Lima para forjar uma pérfida intriga contra o então PM, com o pouco estimável ‘jornalista’, José Manuel Fernandes. Foi um guião fracassado para filme rasca.
 Cavaco copiou Fernando Lima, que esperou a reforma para o zurzir, a si e à sua prótese, D. Maria. Aguardou várias reformas e 1 ano para revelar os pormenores das audiências, que tinham lugar à quinta-feira, com Sócrates. Tal como o ex-assessor, com raiva tardia, em vez de explicar o caso das escutas, o negócio das ações, dele e da filha, a permuta de terrenos, onde achou a vivenda Gaivota Azul, ou a razão para preencher a ficha na Pide, com erros de ortografia, resolveu escrever 592 páginas, divididas em 52 capítulos e três partes, mais prosa escrita do que a lida pelo alegado autor.
 A segunda parte, um ato de vingança e ressentimento, é dedicada apenas às audiências de quinta-feira às quais Sócrates chegava bem preparado, mas quase sempre atrasado – segundo refere a comunicação social –, e é, afinal, a razão do título e da obra.
 ACS diz que o livro (18,80 €), pretende ser uma prestação de contas aos portugueses e, segundo se crê, será um ajuste de contas de quem diz não gostar da política espetáculo, refutando o imerecido apodo de palhaço, de Miguel Sousa Tavares, no Expresso.
 O ex-notário de Passos Coelho encarou as funções presidenciais inspirado na Sr.ª Lúcia de Jesus, pastorinha de Fátima: é necessário salvar Portugal dos comunistas.
 Não é um estadista, é um redator de terceira, com uma azia de primeira, a quem não há bicarbonato que valha. Prevaricador ortográfico e gramatical, faz a catarse da apagada e vil tristeza a que o esquecimento e alívio dos portugueses o remeteu.
 E vinga-se, com um rol de merceeiro cuja contabilidade e fiabilidade merecem o mesmo crédito da garantia sobre a solidez do banco BES, dias antes da derrocada das empresas do universo GES/BES, num dos seus raros gestos de gratidão, para desgraça de muitos.
 Foi na vivenda de Ricardo Salgado e com a sua bênção, que os casais Cavaco, Barroso e Marcelo, engendraram a sua primeira candidatura a PR, num jantar funesto para o País. 
 Ponte Europa / Sorumbático

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12.2.17

Sem emenda - A Grande Reforma

Por António Barreto
Os dados estão lançados. O Governo vai propor, dentro de dias, um grande programa de descentralização da Administração Pública. Será talvez a mais importante, quem sabe se a única reforma significativa a iniciar por este governo. Ainda bem! Portugal necessita de descentralização, de subsidiariedade e de eficácia. Pode também acontecer que outros grandes males, como os projectos megalómanos e a grande corrupção, sejam assim contrariados. Pequenos projectos mal pensados e pequena corrupção não podem ser mais nefastos.

Bem sabemos que é ano de eleições autárquicas e que o governo não resiste a ir buscar louros para se apresentar de folha limpa ao eleitorado. Nenhum governo resiste. Mas esta solução é melhor do que uma virtuosa inércia pré-eleitoral. Como se trata de eleições autárquicas, quem vai ficar a ganhar é a autarquia. Especialmente os partidos que têm força autárquica. As eleições e a democracia servem também para isso, fazer comércio com os eleitores: dou-te obra, subsídio, escolas, piscinas e cheques e tu dás-me os votos!

O ministro Eduardo Cabrita, talvez o mais brilhante e autoritário tecnocrata deste governo, tem já o seu projecto negociado em múltiplas instâncias e várias instituições, mas também em encontros discretos entre partidos e nas reuniões paralelas dos grupos de trabalho do Governo com o Bloco e o PCP. É provável que tenhamos lei dentro de poucas semanas. Há décadas que este ministro é um defensor obstinado da regionalização. Noutra oportunidade, perdeu. Agora, aprendeu a lição: irá devagar, furtivamente, a par e passo, fugindo às maiorias qualificadas e aos referendos. E chamando-lhe, para já, descentralização.

Esta é a grande reforma possível. Não há dinheiro, não há grande consenso, nem sequer maioria estável. Por isso, é a reforma que se pode fazer. Ainda bem. Esperemos que se consiga autoridade suficiente. E consenso alargado, pelos menos para umas disposições. Não é obrigatório o acordo total, completo e com toda a gente. Mas é indispensável que, para tão importante reforma, haja legitimidade reforçada e autoridade política. A descentralização é importante. E Portugal precisa dela!

Por isso, com consenso pouco alargado e uma maioria muito disputada, não teremos, infelizmente, uma reforma audaz. Professores já protestaram. Médicos também. Numerosos funcionários e serviços centrais recusam passar para a periferia, o local e o regional. Muito vai continuar na Administração Central. Passam umas competências, umas faculdades, algum dinheiro, mas não muitos serviços centrais nem estes funcionários especiais (o maior número) que são os médicos, os enfermeiros e os professores. A verdade é que os sindicatos não querem e não deixam. Um sindicato que se preze quer ter diante de si um só patrão, o Ministro. Assim continuará a ser. A respectiva tutela fica com o Governo central. É descentralização de gato escondido.

É um princípio de regionalização. A eleição dos presidentes é exemplo calhado. Os presidentes das áreas metropolitanas serão desde já eleitos directamente pelo povo, ao mesmo tempo que as autarquias. É claramente um princípio de soberania e de uma sólida legitimidade. A partir daí, não será possível voltar atrás. É um princípio irrevogável de regionalização, vai ser e será fonte de problemas e quezílias. Ainda por cima, esta eleição vai criar conflitos muito sérios com os futuros presidentes das CCDR, isto é, das Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional. Também eles serão eleitos, mas agora de modo indirecto: ficarão na dependência eleitoral dos autarcas. Não é preciso fazer um desenho: os potenciais conflitos, as perturbações, a sobreposição de competências e a dualidade de legitimidades serão efectivas. Será um pequeno passo em frente. Esperemos que não dois atrás.

DN, 12 de Fevereiro de 2017

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Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Lenine em São Petersburgo, em 2010 – Na periferia desta maravilhosa cidade, tão surpreendentemente europeia, em bairros residenciais datando dos anos cinquenta e sessenta, uma estátua de Lenine ainda adorna o espaço público. Desaparecido Estaline (o número de estátuas é hoje diminuto…), ficou Lenine para décadas de purgas e de afastamentos. Mas ainda sobram. A nova Rússia não perde tudo da velha, nunca! Soljenitsine ficava zangado quando alguém lhe dizia que o comunismo soviético era só mais uma maneira de ser russo! Dizia que não! Que o comunismo era uma aberração e que a “mãe Rússia” haveria um dia de se vingar e varrer os usurpadores da sua história. Com o tempo se vai vendo que naquele estranho país o jogo da continuidade e da mudança é complexo e interessante! Até o nome da cidade traduz esta realidade: Petersburgo, primeiro, logo seguido de São Petersburgo. Depois, em 1914, Petrogrado. A seguir, em 1924, Leninegrado. Finalmente, de novo São Petersburgo. Ou Peter, para os íntimos. 
DN, 12 de Fevereiro de 2017

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9.2.17

A eutanásia não pode ser um tabu

Por C. Barroco Esperança
Não é recomendável discutir um problema, que exige reflexão e levanta dúvidas, com a certeza inabalável do preconceito e a intolerância do maniqueísmo judaico-cristão.
 Há quem defenda a pena de morte e, simultaneamente, seja contra a eutanásia e, no lado oposto, quem combata a pena de morte e defenda, sem quaisquer reservas, a eutanásia. Não se acusem uns de desrespeitadores da vida e outros de trogloditas e reacionários.
 A melhor maneira de centrar a discussão sobre o tabu, mais ideológico do que racional, é conhecer a legislação dos países que a aplicam, as circunstâncias em que é permitida e a experiência adquirida.
 Perante posições antagónicas entre médicos, juristas, crentes, ateus e políticos da mesma cor, conclui-se que são emotivas, incluindo as católicas, coerentes e firmes, destinadas a ganhar a primeira batalha e a perder a guerra. Não há o direito de impor aos não crentes a visão pia, negando-lhes a autodeterminação, e ninguém pode negar a outros o direito à recusa para si próprios.
 A inviolabilidade da vida humana não é sinónimo de imposição nem incompatível com a decisão individual de a findar ou de a solicitar, sem que a ajuda seja criminalizada.
 Entendo que os direitos individuais não devem ser referendáveis e que há situações em que a elementar humanidade não pode impor a perpetuação do sofrimento, em nome de uma crença, quando é irreversível a agonia e intolerável o sofrimento.
 É obrigação do Estado defender os cidadãos de atos criminosos e da eventual má fé de quem, na incapacidade, os represente, mas é inviável que a Segurança Social, médicos, herdeiros e companhias de seguros se concluem para lhes abreviar a morte.
 É preciso divulgar a legislação dos países que nos precederam para reflexão pública.
 Ponte Europa / Sorumbático

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QUANDO MORRE UM VELHO, HÁ UMA “BIBLIOTECA” QUE SE FECHA PARA SEMPRE

Por A. M. Galopim de Carvalho
A minha “biblioteca” é bem pequena, vale o que vale, mas é a minha e nela está o que a escola, os livros e a vida me ensinaram.
Tem sido e continua a ser meu propósito pôr cá fora o que puder, enquanto é tempo, enquanto as capacidades físicas e intelectuais o permitirem. Vou a caminho dos 86 anos em caminhadas rápidas para o “fim da linha”, situação que, aliás, encaro com toda a normalidade e me não perturba minimamente. Estou como o Prof. Agostinho da Silva, de quem fui amigo e com quem convivi nos últimos anos da sua vida,
“Não corro como corria
nem salto como saltava
mas vejo mais do que via
e sonho mais que sonhava”.
Acordo todos os dias com alegria de estar vivo e cheio de ideias para os viver. E entre essas ideias, as mais importantes são as que me trazem aqui ao computador e, digitando letra a letra, passá-las ao monitor, em Areal 16, a quem as quiser ler.
Já o disse, em várias ocasiões, que nestas horas e nesta minha maneira de partilhar com os outros, não tenho idade, não tenho dores nem coronárias entupidas e esqueço os problemas, sempre muitos.
Pela experiência destes anos de participação regular e contínua em blogues e no Facebook, e pelos retornos que me chegam, verifico que esta minha maneira de continuar a exercer, à distância, a profissão que foi a minha, tem sido útil e dado satisfação a muita gente. Isto dá-me uma imensa compensação e faz com que todos os dias procure partilhar algo daquilo sei ou julgo saber, com a simplicidade e a humildade de quem soube caldear os elitismos do meio que frequentou, por mais de quarenta anos, com uma saudável ruralidade e a frontalidade que bebeu nos campos do Alentejo.

Bom dia a todos!

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