24.7.17

ALENTEJANOS

Por A. M. Galopim de Carvalho

Os vestígios mais antigos da presença dos nossos antepassados em terras do Sul do País remontam ao Paleolítico e estão representados, em especial, por utensílios em pedra lascada encontrados, em abundância, nos terraços fluviais de alguns dos seus rios, e por não menos importantes gravuras rupestres, como as trazidas às primeiras páginas dos jornais, na sequência dos trabalhos na barragem de Alqueva. Primeiro como recolectores, apanhando bolotas nos então muito mais cerrados montados, pescando e caçando, estes nossos longínquos avós acabaram por se tornar pastores e agricultores. Tal fixação levou à construção dos primeiros povoados nas colinas sobranceiras aos principais cursos de água. A densidade de construções megalíticas (antas, menhires e cromeleques), característica ímpar desta região, testemunha a importância da sociedade agropastoril que aqui teve berço há mais de 5000 anos.

Durante mais ou menos tempo, ligures, celtas, fenícios, gregos, cartagineses e romanos, ocuparam terras do Algarve e do Alentejo ou por aqui passaram, uns nas suas rotas comerciais e outros em busca do ouro, da prata, do cobre e do estanho, com particular relevo para os romanos. Estes, chegados no século III a.C., deixaram-nos importantes marcas civilizacionais da sua ocupação e do domínio político que exerceram durante, pelo menos, meio milénio. Antes de serem Alentejo e Algarve, estas terras constituíram parte da “Hispania Ulterior” (a mais afastada, em oposição a “Hispania Citerior”) na sequência da divisão administrativa criada na Península pelo invasor. Estas mesmas terras foram, mais tarde, a metade sul da “Lusiânia”, a mais ocidental das três províncias ibéricas do Império Romano (“Lusitania”, “Betica” e “Tarraconensis”).

Outra importante presença, que ainda hoje se faz sentir, foi a islâmica, iniciada no século VIII com a conquista de Mértola, por Muçá ben Nusayr, pondo fim à dominação visigótica, a última das invasões levadas a efeito por povos do norte da Europa (vândalos, suevos e visigodos), habitualmente referidos como bárbaros (a palavra provém do grego antigo, βάρβαρος (“barbarós”, que  qualificava todos os que não eram gregos). A ocupação muçulmana teve aqui uma longa permanência, cerca de cinco séculos, que só terminou com a reconquista cristã do Reino de Portugal, no século XIII.
Com a islamização, estas terras fizeram parte do “Garb”, que quer dizer Ocidente, designação naturalmente usada pelos que vinham de oriente, neste caso, os invasores árabes. Mais precisamente, o seu nome foi “al Garb al-Andalus”, que significa o ocidente da Hispânia, que incluía, não só, o Algarve como também o Alentejo e a Andaluzia, a oriente do Guadiana

Um parêntesis  para lembrar que Odiana ou Uadiana foi o nome deste importante curso de água, que foi fronteira entre os reinos de Portugal e de Leão e Castela. Odiana sobreviveu à reconquista, no século XIII, e assim se manteve, por mais três centenas de anos, na linguagem dos portugueses. Por seu lado os castelhanos transformaram o “uadi” (rio), radicado na região ao longo de cinco séculos de ocupação islâmica, em “guadi”, elemento que ainda hoje compõe o nome de muitos rios do sul de Espanha, como Guadalimar, Guadalupe, Guadojoz e o mais conhecido de todos, o grande Guadalquivir. Guadiana é, assim, um nome importado que se impôs em virtude da sua posição raiana e que, a partir do século XVI, substituiu o antigo Odiana, influência que não se verificou com os nomes Odeleite, Odiáxere e outros com a mesma raiz, correspondentes a rios mais afastados da influência castelhana.

A civilização muçulmana deixou aqui muito dos seus saberes, não só os tidos por eruditos, como os do melhor aproveitamento da terra. À unidade de coabitação entre a Andaluzia, o Alentejo e o Algarve, durante mais de um milénio, criada pelos invasores romanos e continuada pelos conquistadores islâmicos, seguiu-se a separação, delineada ao sabor da reconquista cristã e das disputas fronteiriças entre o reino de Portugal e o de Leão e Castela, ao longo do Guadiana. Não é, pois, por acaso, que há bastantes traços comuns entre “nuestros hermanos andaluces” e os alentejanos, por um lado, e entre estes e os algarvios, por outro. «Mediterrâneo por natureza e atlântico por posição», como nos ensinou o Prof. Orlando Ribeiro, os parâmetros fisiográficos desta região marcaram as populações que aqui viveram, do mesmo modo que continuam a marcar o alentejano e o algarvio dos dias de hoje.

Após a reconquista, concluída por D. Afonso III, e na sequência da reorganização territorial, foi criada a comarca de “Antre Tejo e Odiana” (Entre Tejo e Guadiana), designação antiga que resistiu ao tempo através da poética de Bernardim Ribeiro, na Écloga de Jano e Franco, e que corresponde, grosso modo, ao actual Alentejo. Anteriormente, o termo Alentejo, como nome de região, não existia. Com o significado de “para além do Tejo”, esta designação foi criada pelos conquistadores vindos do norte, do jovem reino de Portugal. O “Ultra Tagum”, no latim dos eruditos de então, deu algo foneticamente muito próximo de “Alem Tejo”, no dialecto romance galaico-prtuguês, que era o que se falava aí, ao tempo dos nossos primeiros reis.
Tendo este grande rio ibérico por fronteira natural, as terras que lhe ficavam a sul estavam, pois, para além dele (“para além do Tejo”).

No que respeita esta que é a mais extensa região do País, a sua diversidade geográfica e geológica determina que, dentro de uma certa unidade, como é muitas vezes apresentada, haja diferenças sensíveis de local para local. Há um Alentejo interior, a oriente, semiárido, dominado pela azinheira, e um outro, a ocidente, menos seco, influenciado pelos ventos húmidos do Atlântico, onde o montado de cortiça impera. Por outro lado, a escarpa de falha da Vidigueira, um acidente tectónico que limita a sul a serra de Portel, marca igualmente, como um degrau, a separação entre duas superfícies bem assinaladas pelos geógrafos, a de Évora, a norte, mais elevada e acidentada, e a de Beja, a sul, mais rebaixada e de mais vastas planuras. São ainda Alentejo os alagadiços campos de arroz da bacia do Sado, os densos pinhais da franja litoral e o extenso areal e os alcantilados da linha de costa.

O substrato geológico e os condicionalismos climáticos que caracterizam o Alentejo foram favoráveis à vegetação que aqui se desenvolveu, parte dela indígena e outra parte introduzida, bem como à ocupação animal, também ela autóctone e importada. O montado e o porco preto dele dependente, a vinha, o olival e a seara de pão, a ”tetralogia mediterrânea”, no dizer de Alfredo Saramago, constituem elementos maiores tradicionalmente referidos nesta paisagem que, como todos sabemos, ficou marcada por um regime de «Terra pouca para muitos, terra muita para poucos», como cantou Manuel Alegre, em 1996.

São alentejanos os madeireiros serranos de Portalegre e os seareiros das planícies que se estendem para Sul. São alentejanos os cultivadores de sequeiro, os regadores do vale do Caia e os que vivem dos campos aluviais dos seus grandes rios. . Mas não são menos alentejanos, quase sempre esquecidos, os pescadores na longa faixa litoral, que se estende da restinga de Tróia às falésias atlânticas do Algarve, por toda a Costa Vicentina.
Fala-se do falar alentejano, da cozinha alentejana, dos cantares do Alentejo e contam-se divertidas anedotas, visando os seus habitantes.

Há uma trintena de anos transportei comigo, vinda do Alentejo interior, uma comadre de visita a uma filha residente em Almada. Viemos por Setúbal e, durante a subida da serra da Arrábida, esta minha amiga que, pela primeira vez, saía do seu cantinho, dava mostras de um certo mal-estar. «Não sei o que tenho, sinto-me apertada. Falta-me a lonjura do nosso Alentejo. Isto aqui é só cabeços. E que cabeços!», dizia para mim.
E foi assim até ao alto da capelinha de Nossa Senhora das Necessidades. A partir daí, na descida para Azeitão, foi-se-lhe diluindo a aflição e, quando passámos à planura, ouvi-a exclamar: «Aqui, sim, já a gente respira!».
Em sua opinião, voltáramos ao Alentejo. E tinha razão!

Administrativamente integrada na Estremadura, a península de Setúbal só a ela se liga pela Ponte 25 de Abril e pelo grande fluxo de cidadãos, que, de uma e de outra banda do chamado Gargalo do Tejo, o atravessam diariamente nos dois sentidos, a caminho do trabalho e no regresso a casa. Como geólogo e curioso nas duas vertentes da geografia, a  física e a humana, contactei de muito perto com os terrenos e também com as gentes desta região, tendo tido oportunidade de constatar aqui a continuidade territorial e cultural do Alentejo. São as fábricas de cortiça e de transformação de carne de porco, são os mercados, onde não faltam o pão e o queijo alentejanos, os poejos, os cardinhos e as beldroegas, são os restaurantes, as tabernas e as vendas à moda antiga, as colectividades culturais e recreativas.


Alentejanos somos todos os da margem esquerda do Tejo e se o nome nada tem de especial, quando dito por alguém da margem norte, constitui um paradoxo sempre que são os próprios alentejanos que assim se autodenominam, uma vez que, sendo e estando do lado sul do Tejo (para eles o lado de cá, e, portanto, aquém do Tejo) se estão a afirmar além dele, como bem lembrou o Prof. José Mattoso. Alentejano é, pois, o nome pelo qual esta comunidade se autoidentifica sem se dar conta que, em rigor, o termo só faz sentido quando dito por estremenhos, beirões, minhotos ou transmontanos. Nunca por eles próprios e, muito menos, por algarvios. Nestas condições dever-nos-íamos considerar “aquentejanos”, sugestão, aliás, já avançada no século XIII, mas que não fez vencimento. Com efeito, dois documentos assinados em Beja, em 1284, auto-situam-se no “Aaquem Tejo”.

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23.7.17

Sem emenda - Tirania

Por António Barreto
Onde nasce a tirania? Antiga pergunta a que muitos tentaram dar resposta. Umas vezes com cultura e isenção, outras com fanatismo e crença. Mas há décadas ou séculos que a pergunta se repete e que as respostas se sucedem. Há poucos meses, mais um ensaio sobre o tema foi publicado por Timothy Snyder. Recomenda-se. É quase um manual de vida prática sobre o que fazer para evitar a tirania. Em tempos difíceis, como os de hoje e dos últimos anos, a interrogação volta sempre.

Onde nasce a tirania? A pergunta é actual. Não porque, em Portugal, o governo ou a oposição nos ameacem. Nem porque haja sinais evidentes de que a besta espreite. Mas simplesmente porque é sempre actual e porque, no mundo, dos Estados Unidos à Rússia, passando pelo Islão e pela Europa, há gente de sobra que a aprecie. A tirania é sempre do Estado ou através do Estado. Difícil é saber onde começa.

Como se sabe e é verdade, a tirania pode nascer da família, da terra, do capital e da espada. Mas também do voto, da assembleia, do sindicato e do partido. Do poder dos fortes, dos deuses e dos sacerdotes. Mas também do poder dos homens sobre as mulheres e dos mestres sobre os alunos. Do poder dos brancos, dos pretos e dos amarelos sobre qualquer uma das outras cores e do poder dos militares sobre os civis.

A tirania nasce de todos os poderes excessivos, mesmo legítimos, mesmo legais e mesmo maioritários. Nasce quando o poder é de um grupo ou uma entidade, um país, uma classe, uma igreja, um sindicato, uma etnia, uma profissão ou um banco. Nasce quando, num país, se recorre ao nacionalismo para afirmar a autonomia ou a independência. Nasce quando o singular se sobrepõe ao plural e quando a uniformidade leva a melhor sobre a diversidade. Nasce com o catecismo, o livro de citações, a cartilha, o livro único e o manifesto. Nasce quando o grupo se sobrepõe e domina o indivíduo ou quando este se submete e resigna.

A tirania nasce onde fraqueja a razão, o recurso, a liberdade e a oposição. Surge onde faltam a liberdade do artista, a palavra do escritor e a livre iniciativa. A tirania nasce na desigualdade de condição e na igualdade imposta. Nasce da extrema pobreza e da extrema riqueza. Mais ainda do que na desigualdade, a tirania nasce na injustiça.

A tirania nasce no rancor e no ressentimento dos derrotados a quem não é dada uma segunda oportunidade. E ainda no medo dos que já tiveram qualquer coisa e correm o risco de perder tudo. Mas também nasce na corrupção, na promiscuidade e na condescendência com a desonestidade. Como nasce na impunidade dos mais fortes e dos mais ricos, dos que têm mais votos ou mais sócios.

Nasce da fraqueza da sociedade civil, isto é, na fraqueza dos empresários, dos sindicatos, das associações, das igrejas e dos jornais. A tirania nasce no desenraizamento, na desordem cívica e no caos institucional. Nasce onde não há instituições, associações, igrejas e empresas ou onde todas estas dependem do Estado ou do partido. Onde o produto é mais importante do que o produtor e o consumo domina o consumidor.

Nasce quando o argumento é substituído pela proclamação. Quando o debate cede lugar ao insulto. Quando as opiniões são recitadas. Quando a força do dinheiro, da arma ou do voto exige a obediência.

Os inimigos da liberdade e as fontes da tirania estão longe e no exterior, mas também perto e no interior, dentro da democracia. A tirania nasce nas maiorias que não reconhecem as minorias, mas também nas minorias esclarecidas que têm a certeza de ter ideias para os outros e para todos. Nasce da multidão, tanto quanto da vanguarda.

A tirania nasce das ideias de perfeição, de pureza, de igualdade, de virtude, de utopia, de salvação e do homem novo. Nasce nas revoluções e alimenta-se do imprevisível.

A tirania nasce na ausência de Justiça.

DN, 23 de Julho de 2017

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Sem Emenda - As Minhas Fotografias

O Terreiro do Paço, com a estátua de D. José, o cais das Colunas e o cacilheiro no rio Tejo – A praça existiu durante quase três séculos, até ser destruída pelo Terramoto. A versão que lhe sucedeu foi construída depois. O seu arquitecto foi Eugénio dos Santos. A estátua equestre é de Machado de Castro e foi fundida, em 1774, de um só jacto, o que, para aquelas dimensões, era raríssimo na altura. O rei morreria três anos depois, o que ditou o imediato afastamento do Marquês de Pombal, cujo poder exercia, durante mais de vinte e cinco anos, quase sem contrapeso ou moderação. Ainda hoje, a personalidade e a política deste “secretário de Estado do Reino”, uma espécie de Primeiro-ministro, são controversas. Esta bonita praça, que os ingleses chamaram, durante um século ou dois, “do Cavalo Preto”, já teve comerciantes, mercadores, marinheiros, ministros, soldados, mendigos, árvores e automóveis. Agora tem turistas. 
 DN, 23 de Julho de 2017

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A Suer-Cerveja

Modelo-Continente de Lagos
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Como "Errar é humano", é possível que, mesmo num anúncio impresso, apareçam gralhas. 
No entanto, já não se aceita facilmente que isso suceda no próprio nome do produto... e ninguém se preocupe!

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Estátua da Liberdade, construída em França









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21.7.17

ÚLTIMA CRÓNICA

Por Alfredo Barroso
Habituei-me desde muito cedo a escrever sem rodeios e sem hipocrisia, quer como jornalista profissional quer como cronista político. Foi também assim que participei activamente na vida pública, desempenhando vários cargos políticos depois do 25 de Abril, ao longo de trinta anos. Não seria agora, com 72 anos, que iria tornar-me um cronista convencional, “mainstream”, preocupado sobretudo em não provocar engulhos e peles de galinha.
   Quando Mário Ramires e Ana Sá Lopes me convidaram, há meses, para escrever uma crónica semanal no “i” (sem qualquer remuneração dadas as dificuldades financeiras do jornal), aceitei de bom grado, ingenuamente convencido de que o «i» renovado poderia vir a ocupar o espaço deixado vago pelo “Público” há vários anos, quando José Manuel Fernandes sucedeu a Vicente Jorge Silva como director, fazendo o jornal guinar subitamente para a direita, guinada essa que ainda mais se acentuou sob a direcção de David Dinis (que foi, convém não esquecer, um dos fundadores do diário on-line da direita pura e dura, o “Observador”).
   O certo é que, ao passar a ler o “i” com mais atenção todos dias (tanto o noticiário político como as inúmeras crónicas de opinião), percebi que estava a colaborar, salvo poucas excepções, num jornal de direita, perdido no meio de uma floresta de escrevinhadores fanáticos, alguns deles de extrema-direita. Não contesto, obviamente, as opções políticas do “i”. Não será em vão que em democracia se proclama, com ironia ou sem ela, a “liberdade de pensamento” - como há dias o fez, num curioso post-scriptum, o director executivo deste jornal.
   É verdade que, em quase todas as sociedades democráticas, há jornais diários de quase todas as tendências políticas. Mas, neste momento, não é esse o caso em Portugal, onde abundam jornais de direita (um ou outro de centro-direita) e nenhum jornal diário de esquerda ou centro-esquerda. O que significa que é cada vez mais difícil, para cronistas politicamente de esquerda, encontrar espaços onde publicar os seus textos regularmente. Daí que aceitem escrever em jornais de direita moderada – que, praticamente, são quase nenhuns.
   Infelizmente, o “i” está a tornar-se um jornal bastante reaccionário, tentando manter algumas “pinceladas” de esquerda – e eu tenho sido uma delas. Sempre achei, no entanto, que é muito útil a separação de águas: à direita o que é de direita e à esquerda o que é de esquerda, como sucede com os melhores jornais e revistas de outros países democráticos – embora haja vários exemplos intermédios, de centro-direita e centro-esquerda, onde a convivência e a coexistência pacífica são possíveis. Todavia, perante o actual panorama de jornais diários generalistas em Portugal – e pondo de lado o populista e predatório “Correio da Manhã” –, considero que o “i” é, actualmente, o mais à direita dos outros quatro jornais diários generalistas, ou seja, mais à direita que o “Público”, o “DN” e o “JN” – chegando por vezes a querer competir com o “CM”.
   Será fácil perceber o desconforto que sinto em colaborar no “i”, desconforto esse que aumentou exponencialmente nas últimas semanas. Decidi, por isso, pôr termo à minha colaboração neste jornal. Agradeço o convite do Mário Ramires e da Ana Sá Lopes, mas não quero continuar a fazer parte do “ornitorrinco político” em que se transformou o “i”.
   Sei bem que não será nada fácil voltar a escrever regularmente num jornal diário, mas desejo ser coerente com o meu ideário de esquerda e estar de bem com a minha consciência, preservando a minha autonomia – sobretudo desde que decidi, há dois anos, abandonar o PS (de que fui um dos fundadores em Abril de 1973). Tenho apoiado, como se sabe, várias políticas defendidas pelo Bloco de Esquerda, por concordar com elas. E também é verdade que me tenho batido, há vários anos, por acordos e convergências possíveis entre o PS e os partidos à sua esquerda. Mas nada disso tem beliscado a minha independência política e identidade própria.
   Fui jornalista profissional antes do 25 de Abril (nos jornais “A Capital” e “O Século”) e é curioso recordar que, nessa altura, eram os coronéis da Comissão de Censura que, usando e abusando do “lápis azul”, separavam involuntariamente as águas entre os jornais afectos ao regime e os que não estavam dependentes dele nem o apoiavam. Hoje, já não há “lápis azul” mas também não há jornais de esquerda ou centro-esquerda. O dinheiro é que manda. É lamentável.

   P.S.: Como decidi deixar de ser “inquilino” deste jornal, não respondo mais às provocações e insultos “evangélicos” do Doutor Leitão (quem optou pelo diminutivo “dr.”  foi o “i”, não eu). Ele que se regozije, mas não abuse dos festejos. Sou, como agora se diz, “resiliente”

   Lisboa, 21 de Julho de 2017  

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20.7.17

Todos somos racistas

Por C. Barroco Esperança

Chamar racista ao Prof.André Ventura, da Universidade Autónoma de Lisboa, com conhecimento aprofundado de hebraico e arábico, que concluiu com 18 valores o ensino secundário no Externato Penafirme e licenciado em Direito na Universidade Nova, com 19 valores, é legítimo.

Que o insigne primata é um académico erudito, prova-o currículo que o próprio jurista publicita na Internet, segundo divulgou o jornalista Pedro Tadeu, no DN.

Que o candidato a vereador de Loures, pelo PSD e CDS, veja retirado o apoio do último partido, por oportunismo ou convicção, só revela que o CDS enjeitou o legado de Paulo Portas, que chamava ‘subsídio dos ciganos’ ao Rendimento Social de Inserção (RSI).

Já o apoio de Passos Coelho ao defensor da prisão perpétua parece um suicídio político por falta de apoio psicológico do Governo ao autoproclamado líder da oposição.


André Ventura é um académico ilustre, medíocre cidadão e execrável político, capaz de recorrer aos mais baixos instintos de um País que não digere a derrota colonial, e não se revê no cosmopolitismo e na diversidade de que o fascismo o preservou.

No fundo, todos somos racistas. Abomino os gangues que delapidaram os bancos, os ciganos que receberam comissões dos submarinos, os esquimós que venderam as Águas de Portugal, os árabes que privatizaram o setor dos transportes, os beduínos que arruinaram os CTT, os indianos que venderam os setores de comunicações e energia, os chineses que destruíram a CGD, os índios que transformaram o País em reserva privada e os bandos de negros que quiseram desmantelar o Estado, em especial, o que cortou salários e pensões e aumentou a carga horária e o dos indigentes culturais, que excluiu os feriados do 1.º de Dezembro e do 5 de Outubro do calendário da Pátria.
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(Peço desculpa por eventuais trocas étnicas nos grupos de malfeitores de cada ramo).


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19.7.17

Detector de OVNIs...

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18.7.17

Como os tempos mudam! - 10

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16.7.17

Sem emenda - Habilidades

Por António Barreto
Os dicionários são de grande utilidade. Habilidoso, por exemplo, tem vários significados no dicionário da Academia das Ciências. “Que tem destreza para executar determinada tarefa com perfeição; que tem habilidade”. Ou ainda “Que age de modo adequado, com perícia…”. Ou finalmente “Que se quer fazer passar por bom; que usa de manhas para que o julguem capaz”. Estamos entendidos. A precisão na língua ajuda a compreender.

A remodelação feita esta semana tem razões misteriosas, mas foi conduzida com habilidade. É verdade que não precisamos de saber tudo. A ideia de que tudo deve ser transparente é ridícula. Para muitas decisões, exige-se discrição. Mas é claro que, quando não se sabe o necessário sobre um qualquer acto público, ficamos autorizados a toda a especulação, desejável ou não, a fim de perceber. Esta remodelação, que não é remodelação, ficará connosco como um gesto que suscita legítima desconfiança e revela falta de qualidades do Primeiro-ministro. E quem quer recato, paga depois a factura.

Esta estranha remodelação tem como ponto de partida uma história banal de bilhetes de avião charter e de um camarote num jogo de futebol. Consta que o voo era de ida e volta no mesmo dia. E que incluía uma sanduíche embalada e uma gasosa. Parece mentira mas é verdade. Ou antes, será parte da verdade. Horas depois de o “caso” ser conhecido, são tornadas públicas as decisões judiciais de arguição daqueles VIP de futebol. E dias depois, apareceram as medidas fiscais sobre a reavaliação de activos e os benefícios de várias centenas de milhões de euros que algumas empresas, entre as quais a GALP e a EDP, vão receber do Estado. Falta saber por onde andava a PT. Uma dessas empresas, pelo menos, também gosta de futebol.

A história recente destes grupos, GALP, EDP e PT, trindade à qual se deve acrescentar o grupo BES em todo o seu esplendor, assessorado pelo BPN e pela CGD, será contada, um dia, com pormenores dignos de obra romanesca, operática ou de cordel. Mas seguramente triste. Para essa história, sabemos que contribuíram, primeiro, o governo de José Sócrates e António Costa, depois o de Passos Coelho e Paulo Portas e finalmente o de António Costa.

Enquanto António Costa se exercitava em golpes de habilidade junto dos seus parceiros e dentro do seu partido, ou em truques retóricos diante dos adversários no Parlamento, tudo parecia correr bem, no melhor dos mundos, com sorte e carisma. A ajuda preciosa do Presidente da República era um presente dos deuses. O crescimento económico da Europa e do turismo confirmavam o velho lugar comum segundo o qual a fortuna sorri aos audazes. Só que, de repente, sem prevenir, o destino bateu à porta. Três ou quatro vezes, mais do que o carteiro. Nas florestas de Pedrógão, foi a calamidade. Nos paióis de Tancos, foi o desastre, a roçar a farsa, não fora a crise aberta nas Forças Armadas. A venalidade pateta de alguns secretários de Estado foi um entremez burlesco. A reavaliação de activos foi choque inesperado. A anunciada greve dos juízes é sinal de extrema gravidade. Em menos de um mês, revelou-se a imperícia de um governo e a fragilidade de uma solução política.

O ataque do Primeiro-ministro ao grupo Altice barra PT barra Meo destina-se a lamber as feridas auto inflingidas. O ataque à PT barra SIRESP tem como objectivo retirar António Costa desta enorme embrulhada na qual estão metidos todos os governos desde os tempos de Sócrates e António Costa. A identificação da PT como culpada de parte dos desastres dos incêndios e da falta de prevenção navega no mesmo sentido. As perguntas feitas publicamente aos serviços envolvidos nos incêndios e na prevenção constituíram um golpe da mais sofisticada demagogia. A tentativa de atribuir as culpas ao governo anterior e aos serviços, aos organismos subalternos e aos bombeiros, aos polícias e aos guardas, é um esforço de dissolução de responsabilidades sem precedentes. Tanta habilidade só tem um problema: é que agora percebemos tudo.
DN, 16 de Julho de 2017 

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Sem Emenda - As Minhas Fotografias

O rio Tejo, com barco, em dia de neblina, diante da Ribeira das Naus, em Lisboa – Quase toda a minha vida se passou em cidades com rios. O Douro. O Corgo e o Cabril. O Mondego. O Ródano. O Tejo. E novamente o Douro, sempre. Sem esquecer que as mais belas cidades da minha vida têm rio: Arno, Tibre, Sena, Tamisa, Neva, Forth, Amstel, Danúbio e Moldava. Quem fundou as cidades sabia o que estava a fazer. Há quarenta anos, quando cheguei a Lisboa, a história desta cidade com o seu rio era a de um acto falhado. Tinha passado, mas quase não tinha presente. Hoje, entre as pontes e as margens, as esplanadas e os passeios, os barcos e a vela, os cruzeiros e as praças à beira rio, algo se passa. Há romance. Ainda faltam muitas árvores e jardins, mas lá chegaremos.

DN, 16 de Julho de 2017

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