23.8.16

Sem emenda - Liberdade e igualdade

Por António Barreto
Em Portugal, não há uma economia privada, uma sociedade civil ou uma classe dominante que dirija o país e comande o Estado. É o contrário. Sempre foi. À esquerda ou à direita, com interesses nacionais ou estrangeiros e com ou sem a Igreja, é o Estado que comanda. Por isso é tão frequente encontrar quem exerça o poder com o Estado, pelo Estado e através do Estado. É um Estado para todas as estações. E todos os azimutes. Nas últimas décadas, o Estado fez a guerra e a descolonização, fez a revolução e a contra-revolução, nacionalizou e reprivatizou a economia.
Não há “classes”que comandem o Estado e o organizem. Há, isso sim, patrícios, “raiders”, salteadores e piratas, vindos da economia ou da política, que se apropriam do Estado. Os últimos anos foram de excepcional valor para identificar uns e outros. Comandam temporariamente, com objectivos precisos ou na esperança de encontrar uma ligação duradoura. Assim é que o Estado assegura até algum efeito de auto-reprodução, levado a cabo sem uma orientação classista. Por isso, o Estado não é o “separador” entre esquerda e direita. O Estado já protegeu e oprimiu cidadãos, já os libertou e aprisionou. O Estado Novo serviu para o Estado democrático.
Tal como na direita, uma parte da esquerda não é democrática, nem preza a liberdade individual. À esquerda, todas as experiências comunistas mostraram como aquela pode ser antidemocrática. À direita, basta recordar as experiências fascistas, nazi e de outras variedades (Salazarista, Franquista, de Vichy…). Desde o século XIX, as mais duráveis e robustas experiências de poder da esquerda foram, do ponto de vista das liberdades, autênticos desastres! A longa vida dos governos comunistas, na União Soviética, na China, no Leste europeu, em Cuba, na Coreia do Norte e noutros países, foi sempre feita em ditadura. Em nome da esquerda. Em anos de vida e em população abrangida, os governos ditatoriais de esquerda foram superiores aos de esquerda democrática.
A maior parte das experiências governamentais da esquerda, no mundo moderno, é caracterizada por isso mesmo: ditadura, polícia política e supressão de direitos fundamentais. Nesses países, as vítimas mortais e os presos contam-se por milhões e dezenas de milhões. Em todas essas experiências, o valor da igualdade foi sempre dominante. Em seu nome se suprimiu a liberdade.
Na história politica da Europa, a esquerda democrática teve uma vida difícil, entre as ditaduras de direita e as de esquerda, entre o capitalismo e o comunismo. Mas conseguiu durar e, em certos países, impor-se. Foi mesmo capaz de governar, nos países escandinavos e, episodicamente, em França, na Grã-bretanha, até na Alemanha. Assim como em Portugal e na Espanha. Fê-lo quando soube denunciar a tradição autoritária comunista. Teve sucesso quando foi capaz de conquistar para o seu espaço outras políticas do centro e da direita. Teve êxito quando admitiu que o mercado e a iniciativa privada faziam parte do legado de liberdade e que eram irrenunciáveis. Venceu quando garantiu que a liberdade era a prioridade absoluta.
O trabalho, a justiça, a cultura e a igualdade são valores de esquerda. Ou antes, também são de esquerda. Mas a liberdade vem à cabeça. Pelo menos com a esquerda democrática. Quando um partido ou um governo substitui, entre as prioridades políticas, a liberdade pela igualdade, não restam dúvidas: esse partido ou esse governo está a abandonar a democracia! A igualdade não é uma arma de luta pela liberdade. Com a igualdade, é difícil defender a liberdade. Pelo contrário, com liberdade, podemos combater a desigualdade. A liberdade é mesmo a principal arma de luta pela igualdade. 

DN, 21 de Agosto de 2016


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22.8.16

Sem Emenda - As Minhas Fotografias

O futuro começa em Outubro, Montalegre – Estávamos no Verão de 1980. Em Outubro desse ano, realizar-se-iam eleições legislativas. A FRS (Frente Republicana e Socialista) juntava o PS e duas entidades hoje desaparecidas, a UEDS (União da Esquerda para a Democracia Socialista) e a ASDI (Aliança Social Democrática Independente). Esta FRS garantia, nas paredes do mercado, que o futuro começaria em Outubro. Pelo menos em Montalegre. Não consta que o futuro tenha começado nessa altura. Ou antes, começou outro futuro, o da Aliança Democrática (AD) que venceu as eleições. Todavia, dois meses depois, Sá Carneiro, seu principal dirigente e Primeiro-ministro, morreu ou foi morto em Camarate. Várias vezes, as eleições legislativas realizaram-se em Outubro, incluindo as últimas de 2015. Mas o que faz deste “o mês mais cruel”, não é a eleição, antes é o orçamento, cuja aprovação se inicia nessa altura e que, muitas vezes, está na origem de crises políticas sérias.

DN, 21 de Agosto de 2016

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19.8.16

Prevenir ou remediar?

Por Antunes Ferreira
Aqui há uns anos, na década de 80, escrevi no “Diário de Notícias” - de que então ainda era chefe adjunto da Redação – um texto que na altura muitos consideraram um insulto aos bombeiros que denodadamente combatiam os cíclicos incêndios florestais, bem como a outros cidadãos que também o faziam: guardas republicanos, polícias, sapadores florestais e outros. Também me referia aos meios utilizados pelos “soldados da paz” (designação calina que nunca tentei, sequer, compreender), desde os autotanques até às mangueiras. Não se falava ainda em meios aéreos, upa, upa. Anos atrás tinha havido uma titubeante abordagem deles mas foi chão que deu uvas.

Já estava habituado a que me batessem, me insultassem, quiçá tentassem “assassinar-me”; tinha, tenho e penso que terei costas largas. As virgens ofendidas que já tinham perdido os hímenes, os moralistas ad hoc, os velhos do Restelo, e outros “impolutos” vieram à estacada autopromovidos em guardiões dos bons costumes, da solidariedade, da religião e da decência. Tinha sido um desaforo quiçá um crime aquilo que escrevera.

E, afinal, o que motivara esses ataques? Uma frase muito simples em que opinava que (passo a transcrever de memória) “Os fogos das florestas, dos centros urbanos, da mais pequena aldeia não devem ser combatidos, devem sim ser prevenidos!” Qualquer leitor bem-intencionado do quotidiano centenário com sede na Avenida da Liberdade compreendera que a minha intenção era repetir um alerta que todos os anos se fazia, aliás debalde. Talvez os termos que utilizei pudessem dar azo a uma acusação de demência ou de senilidade. Quando muito. E não era nem sou a Pitonisa de Delfos…

Uns bons anos depois, em 2006, estava como primeiro-ministro António Guterres e fazendo parte do governo como ministro António Costa, veio a ser lançado e repetido pelos órgãos oficiais, governo central, governadores civis e autarquias um veemente apelo: tinha de prevenir-se os incêndios para que eles não acontecessem ou no mínimo que fossem cada vez menos. Assim, na prevenção estava o “segredo” da preservação do nosso património florestal, completada realmente pelo combate ao aumento exponencial dos fogos nas matas.

Os anos foram-se sucedendo e antes do Verão os governos, como sempre, apresentavam os meios humanos e materiais para se debelar os incêndios que aconteceriam – como aconteceram. Mais homens, mais viaturas e depois mais meios aéreos que já se tinham tornado imprescindíveis no combate às chamas. Debalde; os incêndios continuavam a acontecer e de ano para ano aumentava a superfície ardida.

Estamos em 2016 e a uma só voz o Presidente da República, o primeiro-ministro e outros membros do governo, autarcas, autoridades, todos repetiram a ideia da prevenção. "Esgotou-se o tempo comprado há dez anos com a reforma da Proteção Civil", afirmou o primeiro-ministro aos órgãos da comunicação social. A aposta na prevenção e reorganização da floresta foi a mensagem dominante de António Costa que, além da "mão criminosa", falou também em "mão negligente" na origem dos incêndios. "A prevenção passa por ter uma floresta devidamente estruturada e não uma ameaça constante para as pessoas", sendo as "áreas protegidas onde deve existir excelência na prevenção", reiterou.


Será que desta vez é mesmo a vez? Pelo andar da carruagem (habitual) tenho as minhas dúvidas. Nós, os portugueses, somos assim: deitados à sombra de um pinheiro bravo ou manso vamos deixando correr “as coisas” Só quando somos espicaçados é que vamos a correr tirar o pai da forca. Oxalá desta vez seja mesmo a vez..

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18.8.16

Laicidade – O que esconde o Burkini? _ 2

Por C. Barroco Esperança
Refletindo sobre perigos religiosos, convém referir que o Wahhabismo é um movimento muçulmano ortodoxo e ultraconservador, referido como ‘seita’ do islamismo sunita.

Ligado à formação da Arábia Saudita, está na vanguarda do fundamentalismo islâmico e é a raiz ideológica do Estado Islâmico, que pratica uma interpretação literal do Corão.

Aliás, a Arábia Saudita, é o berço e o patrocinador do terrorismo islâmico a nível global, e o exportador do Wahhabismo. As suas enormes reservas de petróleo e baixo custo de exploração sustentam uma família real corrupta e corruptora e a uma teocracia cruel que financia, com biliões de petrodólares, partidos políticos nos EUA e na Europa, enquanto submete as mulheres a condições impiedosas, mesmo para padrões islâmicos.

Um dia saber-se-á por que motivo os quatro execráveis Cruzados (Bush, Blair, Aznar e Barroso), face ao crime financiado, organizado e cometido por sauditas contra as Torres Gémeas de Nova Iorque, decidiram, perante o clamor público, retaliar contra o Iraque.

Ontem, no jornal Libération, o editor egípcio Aalam Wassef previne contra a influência do Wahhabismo, também conhecido por salafismo, hoje indiferenciável (embora tenha origem e passado diferente), cujo burkini é um dos símbolos femininos.

Wassef, num artigo bem documentado e ponderado, defende a interdição do burkini por autarcas da Córsega e de Cannes, afirmando que fizeram o que deviam. Denuncia, aliás, o ‘Coletivo Contra a Islamofobia em França’ (CCIF), que acusou os referidos autarcas de islamofobia, de ter o direito, por opção ou ignorância, de se associar ao Wahhabismo, e ao Estado francês o direito e dever de defender o conjunto dos seus cidadãos.

Ponte Europa / Sorumbático

O Wahhabismo é uma seita que apela ao martírio, ao terrorismo cego e ao proselitismo demente, baseada no Corão e na Suna. Quer impor a sharia e submeter ou matar todos os que rejeitam a sua interpretação. Sendo o mais jovem e rico ramo do Islão, nascido na Arábia Saudita e com metástases no Qatar e no Kuwait, tem o poder e projeção para semear o terror a nível global.+++

Não podemos andar distraídos. O burkini esconde o Wahhabismo.

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15.8.16

Sem emenda - O Outono socialista

Por António Barreto
A direita diz que não, a esquerda diz que sim. Mas esquerda e direita ainda existem e são diferentes. Quando ambas são democráticas, o que pode acontecer, não são totalmente contraditórias e exclusivas. Distinguem-se, entre outras, pela eficiência (do lado da direita) e pela igualdade (do lado da esquerda). Uma é mais individualista, a direita, outra mais colectivista, a esquerda. Uma, a direita, presta mais atenção à propriedade, outra, a esquerda, prefere a posse comum. Uma olha com especial interesse para a empresa, a direita, outra para o Estado, a esquerda.

Mas também têm valores comuns, como a liberdade. Ou então a democracia, a política externa e muitos aspectos do Estado providência, hoje Estado social europeu. Quem negar esta comunidade de valores e de história pretende regressar à política da luta de classes e da guerra civil e não parece ter muito empenho na liberdade. Quando se regressa à retórica da esquerda contra a direita, da classe contra classe, há razões para recear o pior. Em particular, há motivos para pensar que a esquerda democrática deixa de considerar a liberdade como a prioridade da sua política.

Ora, a política portuguesa mudou desde há quase um ano e tem agora uma nova semântica. A oposição entre esquerda e direita voltou à primeira página. No poder e a tentar construir uma solução parlamentar inédita, a esquerda reintroduziu uma liturgia repetitiva que agora serve de pensamento. O que é de esquerda bom. O que é de direita é mau. E não há mais espaço para argumentação. O Partido Socialista tem-se deixado contaminar por este palavreado.

No parlamento, é frequente ouvir esse supremo insulto que consiste em designar “de direita” uma opinião ou um projecto. Nos comícios de fim-de-semana, preparados para encher os tempos mortos da televisão, socialistas, bloquistas e comunistas surgem com assiduidade e mostram a delicadeza do seu raciocínio: é de direita, é mau. É de esquerda, é cá dos nossos, é bom.

É grave o facto de o Partido Socialista ter vindo a adoptar clichés da extrema-esquerda, com os quais se entretém a substituir o pensamento. Em particular, tudo o que respeita à liberdade e à igualdade. O PS prefere a igualdade e o Estado. Se o PS envereda por este caminho suicida, não só se prepara para se afastar da área do poder por muitos anos, como está a fazer com que Portugal fique privado de soluções de governo que tenham inspiração no universo da esquerda democrática. O melhor da esquerda consiste em ganhar o centro e convencer parte da direita às suas ideias e aos seus programas. O pior da esquerda consiste em transformar-se em porta-voz do jacobinismo e da longa tradição anti-democrática de uma parte dessa esquerda.
O Partido Socialista de António Costa está a contrariar relevantes tradições da esquerda democrática, nomeadamente a “equação” liberdade versus igualdade. Há várias décadas que o PS entendeu que a liberdade era o programa prioritário, a causa primeira e a inspiração principal. O que distinguiu o PS dos outros grupos de esquerda e de extrema-esquerda, designadamente o Partido Comunista, era, entre outras, essa questão. Para os esquerdistas mais robustos, a prioridade é a igualdade e a liberdade deve-se-lhe subordinar. Para os socialistas, a liberdade, como valor e objectivo, ou como instrumento, impõe-se. Esta diferença foi actualmente posta em causa. Para obterem o apoio parlamentar de que necessitam, assim como a complacência nas ruas ou a cumplicidade nas instituições e nas empresas, o PS e o governo dão todos os dias sinais de que a igualdade é o seu combate primordial. Nenhuma revolução vale a liberdade.

DN, 14 de Agosto de 2016

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14.8.16

Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Senhora algarvia sentada no passeio, Loulé – Era em 1975. Impressionava a maneira como muitas portuguesas ainda se vestiam e se apresentavam na rua. Vestida de preto, de cabeça tapada e sentada no chão, encostada à parede: nada ficava a dever às iranianas, romenas e árabes que vemos todos os dias na televisão. Não sabemos se esta senhora portuguesa era uma “lusitana” de gema ou uma “cigana”, mas podia perfeitamente ser uma ou outra. Assim arranjadas, ainda há pouco se viam muitas na Nazaré, em Trás-os-Montes, no Alto Minho e em aldeias alentejanas ou beirãs. Na parede, estão restos de um cartaz anunciando um comício com a presença de António Dias Lourenço, um dos mais destacados dirigentes comunistas, que morreu em 2010, com mais de 90 anos, depois de ter tido importantes funções naquele partido, incluindo a de director do jornal oficial Avante. Passou longos anos nas cadeias. Fugiu das prisões por duas vezes. Mesmo fora da prisão, foi ele o principal organizador da famosa “fuga de Peniche”, em 1960.
DN, 14 de Agosto de 2016

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13.8.16

Ó Elvas, ó Elvas, Badajoz à vista

Por Antunes Ferreira
Embora já tenha abordado o assunto – ainda que pela rama, numa resposta dada a uma comentadora – tenho de voltar-lhe, pois parece-me de algum interesse. Trata-se de algo que me despertou para a realidade triste, mas verdadeira. Por certo que já ouviram falar dele, mas por vezes as pessoas retraem-se convencidas (por elas próprias ou por pressão de outras) e escusam-se de denunciar o que se está a passar no domínio das finanças e da economia entre os dois países ibéricos.

Por isso estou a pensar em mudar-me para Elvas e ali passar a viver; para o Caia não porque é um local quase despovoado onde até uns anos não havia sequer uma ATM. E se calhar ainda não há…. Além disso tem uma bomba de gasolina que até mete dó e pode classificar-se como o lá vai um; e se calhar nem esse um lá vai…. Quase como a A6 normalmente deserta, que se dizia ser destinada a trazer espanhóis para Portugal e vice-versa. Um flop. Estou decidido: escolho Elvas. De resto o Paco Bandeira já cantava Ó Elvas, ó Elvas, Badajoz à vista, mas tenho de concluir que não nasci para contrabandista… E que, por graça do cordo de Schengen já não há fronteiras.

Abrevio. Passei por Estremoz onde fica a casa dos meus compadres Pereiras progenitores da minha filha/nora Margarida, ficámos, a Raquel e eu mais eles na boa cavaqueira e depois seguimos para Badajoz. Voltaríamos no dia seguinte pela tardinha, depois de nos alojarmos no Hotel Lisboa, bastante degradado; mas o pessoal dele trata-nos nas palminhas. Jantámos no centro da cidade, uma refeição carota, mas muito saborosa. Que diferença sobre o tempo em que se ia lá para comprar caramelos. É preciso dizer que enquanto Elvas tem 85 mil habitantes, Badajoz já alcançou os 150 mil.

Já não íamos a Badajoz há uns três ou quaro anos e agora pudemos constatar que naquele restaurante dos oito empregados de mesa, seis eram… lusitanos. À conversa com um deles ficámos a saber que vive em Elvas e bastam quinze minutos para chegar ao trabalho - porque ali há trabalho. Os outros camaradas eram de Rio Maior, Vila Boim, Barbacena e Santa Eulália. “Aqui ganha-se mais do que em Portugal e se um homem não aprovêta está mesmo fodido, desculpe minha Senhora.”

Já na quinta-feira fomos às compras, tendo corrido três hipermercados e um centro comercial. Lá voltou o espanto: o salário mínimo em Espanha é €655 e em Portugal está nos €530; pois os preços são mais baixos do que no nosso país. Por isso os portugueses que vão comprar coisas a Badajoz são quase metade dos clientes. Não vale a pena compara-los (os preços) pois as diferenças são evidentes. Reina o pague dois leve tês. À saída de um deles (não digo nomes para evitar a publicidade grátis) a caixa tinha um dístico na blusa: Maricarmén.

Quando nos ouviu falar imediatamente informou: “também sou portuguesa e chamo-me Maria do Carmo; mas estes filhos da puta – desculpe-me minha senhora rebaptizaram-me...” Em tom baixo disse-nos que era de Vila Fernando onde o casal de filhos ficava durante o dia com a avó, pois o marido era mecânico de automóveis no bairro de Valdepasillas, numa oficina de Seats. E acrescentou quase num sussurro que ali ganhava-se muito melhor do que no nosso país. Disfarçou, pois passava o gerente.

Fiquei a pensar em Olivença/Olivenza com os seus brasões portuguesas e com os velhos a falar um portunhol ressabiado. “Temos que volver a nuestra Pátria que não es Espanha, es Portugal”. Sendo ou não sendo são águas passadas, porém aqui não há muitos portugueses. Não há hipermercados, nem sequer supermercados. Por isso só um saudosismo espúrio leva até lá os turistas lusitanos.


Antes de voltar ainda fui atestar o depósito do meu Hyundai numa bomba pertencente a uma grande superfície. O litro é de €1,12; aí sim, com o recibo das compras há um desconto e assim fica a €1,09; em Portugal é de €1,44 e com desconto leva-nos €1,29. E embora se continue a dizer que “de Espanha nem bom vento, nem bom casamento” mantenho-me na minha: penso que vou mesmo morar em Elvas…

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